#CADÊ MEU CHINELO?

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domingo, 15 de abril de 2012

[agência pirata] CRIOLO



::txt::Caetano Veloso::

Um dia vinha ouvindo rádio no carro e Jorge Ben cantou “Cadê Teresa?”. Adoro essas músicas de Jorge para Teresa, Domingas, Teresinha, Domenica, Tetê-Teteretê, todas essas mulheres que são a mesma loura paulistana com quem ele se casou. Na canção ele busca sua amada e, sem saber por onde ela anda, se pergunta se ela não terá arranjado “outro crioulo”. Naquele dia eu tinha lido numa manchete que Rick Santorum teria quase chamado Obama de “crioulo”, num discurso de campanha. Imaginei que a palavra que assim traduziam fosse “nigger” e senti múltiplas revoltas. Conferi na página indicada e, de fato, “nigger” era o que o candidato republicano tinha começado a dizer. Ou isso se supunha. Pensei que Santorum poderia ter feito isso para mostrar à parte reacionária fanática do Partido Republicano, que é a que o apoiava, que ele estava a ponto de pronunciar o xingamento que ela tem preso na garganta.

Seja como tenha sido, terminei pensando mais na tradução oferecida pelo jornal brasileiro (pode ter sido este) do que na história em si. Fazia uns três dias que eu comentara com meu filho Zeca sobre a impropriedade de se traduzir “nigger” por “crioulo” nas legendas dos filmes americanos que passam na TV. Ao me ouvir dizer que “crioulo” não tinha essa conotação pejorativa de “nigger”, ele mostrou dúvidas. Mas o fato é que não há em português brasileiro nenhuma palavra que indique ao mesmo tempo aspecto racial e desqualificação absoluta automática. A palavra “crioulo” cantada por Jorge Ben tem toda a doçura natural e a carga afirmativa que um xingamento não pode ter, a não ser por uma torção, como quando chamamos alguém admirável de filho da puta.

Os negros americanos se chamam de “nigger” entre si, com carinho, como quem toma o que foi sempre usado como ofensa por brancos contra si e vira pelo avesso, mas ninguém que não seja negro (e não esteja na mesma onda de quem profere a palavra) tem o direito de fazê-lo. Nos raps, eles se chamam de “nigger” como chamam as garotas de “bitch”. Ouço muitos veados brasileiros chamarem uns aos outros de “veado”, mostrando intimidade e carinho: não é o mesmo que um ogro passar na rua e te chamar de veado. Mas “crioulo” nunca esteve nessa posição. Quando Jorge Ben fala de crioulo, não há sombra, nem remota, de tratamento ofensivo. Suponho que as legendas dos filmes venham contribuindo para o progresso do nosso racismo. Progresso tão desejado pelos racialistas. Mas por que foi essa a palavra escolhida por Drei Marc e cia.?

Quando era novo, eu não gostava do “Samba do crioulo doido”. Sentia (ainda sinto) racismo ali dentro daquela gracinha meio sem-graça de Sérgio Porto. Aliás, Paulo Francis, num artigo de sua coluna na “Folha de S.Paulo”, narrou um diálogo racista que teve com Porto por causa da presença de pretos nas praias da Zona Sul (não leio essas antologias que saem das crônicas de Francis, mas parece que essas desmunhecadas racistas não são selecionadas pelos organizadores, já que nunca ouvi comentários a respeito). A caricatura do samba-enredo feita ali nunca me pareceu engraçada. Lembrei-me dela ao ouvir as letras das canções dos blocos afro de Salvador declamadas com sarcástica pedanteria pelo grupo teatral Os Catedrásticos. O que faz esse grupo é, a meu ver, muito melhor do que o samba de Stanislaw: eles dizem “a sério” letras de músicas de carnaval da Bahia, para o irresistível efeito cômico. “Abre a rodinha, por favor”, dito em tom sóbriodramático fica sensacional. As descrições de egitos e madagascares dos sambas-reggae do Olodum parecem mais nonsense do que a famosa paródia. Mas nesses casos, sempre surge uma frase que se sustenta por si mesma em sua força épica — e o riso some. É que são as letras que foram escritas a sério que estão ali sendo ridicularizadas. E a seriedade que lhes é pano de fundo leva o espectador a pensar que Moreno cantando “Deusa do Ébano 2” é que desnuda mais o sentido do repertório desses blocos.

O charmoso rapper paulista tomou para si o pseudônimo de Criolo Doido, enobrecendo tanto cada uma das duas palavras quanto a união delas na piada amarela de Sérgio. (Este, não nos esqueçamos, de cara desgostou da bossa nova). Criolo é o nome derivado de crioulo, palavra que, segundo pude sentir no livrão “Um defeito de cor” (recomendado por Millôr), era usada para designar os negros nascidos no Brasil. Estes mostravam superioridade sobre os africanos que chegavam: seu domínio do português, seu conhecimento do cristianismo, tudo isso eram coisas que os envaideciam. Nos países de língua espanhola das Américas, “criollo” designa sobretudo descendentes de europeus nascidos no Novo Mundo. Na Louisiana, EUA, “creole” teve originalmente essa acepção, depois passou a significar descendente de franceses e, finalmente, mestiço. A palavra saiu do português. No Brasil, terra de sua língua de origem, ela se grudou aos pretos. Por que vamos usar TV e jornais para transformar “crioulo” num xingamento? Nosso racismo progride. Com dificuldades, mas sim. Sem negros nas escolas privadas ditas boas e com essas distorções em manchetes e legendas, chegamos lá. Liv Sovik pode ficar descansada.

Nesse meio-tempo, Santorum dançou, Demóstenes serve a Rui Falcão (amparado pela mídia e pelo Cachoeira) como água sanitária do mensalão — e me prometi ler “Classes, raças e democracia”, de Luis Sérgio Alfredo Guimarães.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

[águas passadas] CARTA PARA ZEZÉ DI CAMARGO



::txt::China::
::ilstrç::Kika Novaes::

Zezé, você não me conhece e nem faz ideia de quem eu sou, mas pode ficar sossegado comigo. Eu não quero te conhecer e nem quero ser teu amigo, mas resolvi te escrever esta carta pra te dar um toque, velho. Porra, Zezé, desiste de ser ícone da MPB, para de querer ser aceito por Caetano, Gil e Chico Buarque... esses caras não passaram pela metade do que você passou pra se tornar um artista cheio da grana. Você vende mais disco que os três juntos, faz mais shows e com certeza deve comer mais mulher do que os caras. Se liga man.

Assisti o filme sobre a sua vida e confesso que me emocionei com o que vi. Que vida dura, cara... tu se fudeu pra caralho pra conseguir crescer na carreira. Admiro isso e te respeito como artista exatamente por causa de todas essas dificuldades que tu passou sem nunca desistir do sonho (que frase blasé). Zezé, porra...TU COMEU OVO CRU!!!

Duvido que Chico, Gil ou Caetano tenham comido ovo cru pra ficar com a voz potente. Esses caras tomavam era suquinho com biscoitos e vestiam casaco de lã pra não gripar. Tu quer mesmo ser amigo dessa turma? Só menino criado em berço de ouro... todos mimadinhos e cheios de vontades. Não, Zezé, tu é melhor que isso.

Você já é um ícone da música brasileira, nem se preocupe. Todo mundo te conhece, canta tuas músicas, vai nos shows, assite teu filme... tu queres mais o que? Depois do Roberto Carlos, só dá tu na arrecadação do ECAD, toca no rádio o dia inteiro e teve uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Você precisa mesmo do respeito de um pequeno grupo pseudo intelectual? Sei não, Zezé, acho que tu vacila quando tenta colar nessa turma. Você já provou o seu talento brilhante, não precisa se rastejar. Acabo esta carta deixando claro que não quero ser seu amigo. Escrevi estas linhas porque não podia deixar passar a oportunidade de te dizer algumas verdades. Respeito sua vida, seu trabalho e o exemplo de que não devemos desistir jamais, porém não posso compactuar com essa safadeza que você está fazendo com a sua carreira.

PORRA, ZEZÉ...TU COMEU OVO CRU!!!


*texto originalmente escrito pra um edição antiga da revista O DILÚVIO, lá por meados de 2007.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

[romulo fróes] UM LABIRINTO DE CADA PÉ



::txt::Francisco Bosco::

Ninguém canta pra ninguém

Não sou um historiador rigoroso do contemporâneo, mas sigo à risca o preceito do filósofo de estar no mundo ao modo de um cão: sempre atento, com as orelhas em pé. No campo da canção popular de hoje, minhas orelhas em pé captam em Romulo Fróes qualquer coisa que só existe nele. Antes de tudo deve-se ressalvar que, ao falar de Romulo, já desde o seu disco anterior, mas mais clara e sistematicamente nesse, deve-se falar de uma criação coletiva, a incluir, em seu núcleo central, Clima e Nuno Ramos, parceiros de outros carnavais, e agora Rodrigo Campos, cujos cavaquinho e violão estão no eixo da sonoridade conquistada nesse novo trabalho (além, é claro, dos demais músicos, todos inventivos: Guilherme Held na guitarra, Marcelo Cabral no baixo, Pedro ito na bateria e Thiago França no saxofone e ainda da contribuição muito forte da artista plástica Tatiana Blass, com suas obras-capas).

Em seu trabalho anterior, o disco duplo No chão sem o chão, Romulo apresentava uma primeira sessão, resultante de um processo seu de desterritorialização (desgrudar-se da "imagem de sambista" - mas não do samba - que se lhe colara), em que a forma canção era como que violentada, a relação nevrálgica entre letra e melodia sendo abruptamente invadida por um pensamento musical, não cancional, onde longos solos de guitarra deixavam a canção a ver navios. Na segunda sessão, reencontrava-se a forma canção, mas como uma espécie de síntese, já incorporada a conquista da primeira.

Havia já nesse(s) disco(s) anterior(es) a "qualquer coisa" que eu afirmei, acima, existir em Romulo e só nele. Mas em Um labirinto em cada pé isso reaparece de modo mais concentrado, refletido (dizendo e se dizendo), e com nova sonoridade. Quanto a essa última, se No chão sem o chão tinha uma pegada mais roqueira, agora, em Um labirinto em cada pé, os cavaquinhos e violões de Rodrigo Campos colocam uma variável nova - e surpreendente - na equação.

A "qualquer coisa" singular de Romulo passa decisivamente pelas letras que ele entoa. Daí a necessidade de se falar de uma criação coletiva, já que a grande maioria das canções são compostas por ele junto a Nuno Ramos e/ou Clima. Há nessas letras uma operação com o sentido que se aproxima mais de vertentes da literatura moderna do que de compositores de canção popular. Pois são letras que jogam com certa intransitividade da linguagem. Não poderiam estar mais distantes do senso comum, da expressão amorosa "sincera", das referências concretas e reconhecíveis, dos temas habituais, de certa transparência (suposta) das palavras em relação ao mundo, em suma, de um efeito geral de naturalidade que Luiz Tatit identifica ser uma das mais fortes marcas da canção popular. Opacas ou autoiluminadas, herméticas (são algo que não se vê) ou materiais (são tão somente o que são), elas se situam "além do impossível conteúdo", onde "tudo vem".

É certo que se pode falar de uma tradição de letras que jogam com o nonsense na música brasileira. Desde "Uva de caminhão" (não por acaso gravada por Romulo anteriormente), passando por Luis Melodia, pelo Caetano de "Qualquer coisa", pelos famigerados zuns de besouro de Djavan até chegar em Carlinhos Brown, para ficar só em alguns pontos dessa linhagem. Me parece, no entanto, que, nos casos citados acima, em geral o sem-sentido das letras responde a um imperativo da melodia, como se às palavras coubesse sobretudo a tarefa de servir à melodia, entranhando-se nela, abolindo-se nela, fazendo com que o plano semântico se anule, virando puro ritmo e imagem. Não é por acaso que os letristas do nonsense costumam ser antes de tudo músicos, homens-som, mais do que homens-palavra. Nas canções de Romulo, dá-se outra coisa. Não me parece que as palavras anulem-se (em favor da música), mas, pelo contrário, que elas se afirmam plenamente, como uma série própria, independentes da música, apesar de entrelaçadas com ela: um labirinto em cada pé. Não há, assim, uma dissociação entre letra e música; ao contrário, a relação aqui é necessária e enxuta (é isso a canção). Mas as letras não cessam de apontar para algo que não está na música, nem no mundo, mas em si mesmas.

Aqui eu deveria entrar numa análise mais detida, inoportuna para a função desse texto. Mas basta que se escute as palavras da canção "Varre e sai": cheia de verbos intransitivos ("no varre e sai/ desarrumei", "no varre sai/ já me virei/ já fui, voltei"), ou com função de; os próprios objetos diretos são indeterminados ("já fui , nem sei, alguém/ já tive alguém"); não se sabe direito do quê se está falando (um pouco como as letras oblíquas de Paulinho da Viola d'après Nuno Ramos); e é esse não saber mesmo que é afirmado, como um estranho manifesto sem conteúdo: "saber de nada é bom".

Eu poderia seguir demonstrando essa argumentação com muitos outros exemplos, mas não é o caso. Muito importante é enfatizar que toda essa estranheza não resulta em canções cerebrais, anêmicas, numa palavra, chatas. Ao contrário, essas canções estranhas têm um pé fincado na tradição rítmica e melódica brasileira, que aliás elas não cessam de evocar ("só faço samba", "boneco de piche", "ladeira da preguiça", "jardineira"). É assim que, apesar da estranheza das letras, ou por causa delas, basta ouvirmos uma ou duas vezes canções como "Muro", "Rap em Latim", "Tua beleza" (que remete ao célebre soneto "Les voyelles", de Rimbaud, que inicia a linhagem da linguagem intransitiva na poesia moderna), basta ouvi-las uma ou duas vezes que já temos vontade de colocá-las no repeat e nos pegamos assobiando-as na rua.

Quando colocamos para ouvir esse disco de Romulo Fróes e sua turma não temos dúvidas de que estamos diante de um acontecimento artístico. É Dona Inah, com sua voz de máscara de bronze grega, quem nos avisa: aqui, "Ninguém canta pra ninguém". Se há uma definição axiomática da arte, é essa. Existe arte quando se dá uma passagem da experiência particular à experiência comum. Quando a vida sobrevive ao vivido. Aí é Ninguém quem canta. E qualquer Zé Ninguém pode ouvir. Quando ouvimos essa frase, cantada desse jeito, sabemos onde estamos: em plena vida.



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Um Labirinto Em Cada Pé.zip

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Livraria Cultura

FICHA TÉCNICA

produzido por Maurício Tagliari / Romulo Fróes
gravado / mixado / masterizado por Carlos "Cacá" Lima no yb studios
direção vocal: Luca Raele / Maurício Tagliari
músicos: Guilherme Held(guitarra) - Marcelo Cabral(baixo) - Pedro Ito(bateria) - Rodrigo Campos(cavaquinho, violão e percussão) - Thiago França(saxofone)
participações especiais de Arnaldo Antunes, Dona Inah e Nina Becker
projeto gráfico: Tatiana Blass (a partir da obra "deitado", de Tatiana Blass)

01. olhos da cara (Nuno Ramos)
02. muro (Romulo Fróes / Clima)
03. máquina de fumaça (Romulo Fróes / Clima)
04. o filho de Deus (Nuno Ramos)
05. rap em latim (Nuno Ramos)
06. varre e sai (Romulo Fróes / Clima / Nuno Ramos)
07. boneco de piche (Romulo Fróes / Nuno Ramos)
08. tua beleza (Rodrigo Campos / Romulo Fróes / Nuno Ramos / Clima)
09. ditado (Romulo Fróes / Nuno Ramos)
10. jardineira (Guilherme Held / Romulo Fróes / Clima / Nuno Ramos)
11. cilada (Rodrigo Campos /Romulo Fróes / Clima)
12. quero quero (Romulo Fróes / Nuno Ramos)
13. onde foi que nunca vem (Rodrigo Campos /Romulo Fróes / Clima)
14. um labirinto em cada pé (Guilherme Held / Clima)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

[agência pirata] O PREÇO DA POLÍTICA

::txt::André::

não é novidade que a grande explosão criativa gerada aqui no brasil foi concebida no verdadeiro cerne do tempo, a exemplo do resto do mundo, nos míticos anos 60. assim como um vírus, a invenção pairava no ar e infectava todos que ainda não tinham sido contaminados pelo conservadorismo onipresente da época. conservadorismo esse, responsável direto pela disseminação das manifestações que caracterizaram aquela década iluminada (já falei disso no velho amarelo tráfico). aqui no brasil, o tropicalismo COMEU os modernistas de 22 e vomitou diferentes abordagens, sejam elas de esquerda – como o cinema de glauber -, ou de direita – como o movimento de caetano (licença poética aqui). porém, tudo remontava ao princípio antropofágico – a mistura, a nudez de todas as noções pré-concebidas de moral e certeza, pronta para abraçar (ou comer) o mundo em nome da criação.


os tropicalistas

os anos 60 passaram e a tropicália acabou. porém, como qualquer manifestação artística ou ato criativo, sua estética reverberou profundamente na esfera política e das grandes decisões, mesmo que de forma LATENTE, para se realizar no futuro. os anos 70 vieram e as discussões políticas (aliadas ao frouxamento da ditadura) amadureceram ao longo da década, culminando no que seria o verdadeiro partido das vanguardas políticas por excelência – o PT. aglutinando todos os que valiam a pena dos movimentos políticos e sociais dos 60’s e capitaneados pela figura de LULA, o PT seguia como diretriz justamente a quebra com o conservadorismo e o abraço ao social. de base teórica marxista INOVADORA – gramsci e lukacs, por exemplo – o PT era lindo porém ingênuo. demorou quase 20 anos para amadurecer (mais rápido que eu, pelo menos).


PT nos 80

devido a essa inocência, quando os 60’s chegaram ao poder no brasil, não foi através de LULA, mas sim de FHC. a sua eleição foi a vitória do tropicalismo e de toda aquela geração de ideais revolucionários. porém só a vitória, já que seu governo se rendeu às políticas neo-liberais e aquela putaria toda. o tropicalismo só veio se realizar no poder MESMO, como política pública, no governo LULA. com o PT já maduro o suficiente e a figura de LULA emergindo como solução final para a chamada “podreira dos políticos” que o senso-comum berrava no ouvido das massas, o PT se deixou libertar e abraçou a ANTROPOFAGIA como política. é possível se misturar politicamente e o resultado se transformar em algo positivo? o cenário político atual brasileiro prova que sim. mas a que preço?


lulinha chegando

O PT MUDOU O BRASIL, MAS FOI CONSUMIDO NO PROCESSO.

o PT vanguardista, inovador, revolucionário não existe mais. foi comido e digerido pelo sistema político, porém marcando-o e modificando-o profundamente no processo, mas não conseguiu sair com vida. NÃO PODIA SOBREVIVER. o PT morreu para o brasil mudar. aqueles que não aceitaram a transformação saíram chorando, o que se empolgaram saíram chutados, e LULA se mantém como o maior estadista da história do país, com seus porcentos de aprovação. o projeto de governo acerta muito, erra ainda mais, mas segue como a personificação daquilo que nos 60’s era utopia, com o olhar voltado para todas as frentes que PARA MIM importam e afetam – artes, universidade, miséria.


nosso presidente

MAS agora chegamos a um impasse: em ano de eleição O QUE FAZER? acalmar o meu espírito revolucionário e votar em um PT chapa branca? por mais que o projeto seja o melhor que já vi, ainda sim é demagógico e não exatamente comprometido revolucionariamente do jeito que eu gostaria. mas o que sobra? uma volta ao neo-liberalismo cruel e idiota ou um falso PT de trinta anos atrás, tão ingênuo e despreparado quanto. existe opção? onde estão as vanguardas de pensamento que dariam fundamento para o NOVO pensamento político?

a criação, o NOVO, é infelizmente NOCIVO e já aparece, mesmo que sutilmente, nessas eleições, personificado na figura de MARINA. obviamente que não falo do aspecto VERDE da moça, mas sim do seu atrelamento com o lado CRENTE da coisa. claro que essa não é a sua plataforma, mas é possível identificar fragmentos do pensamento EVANGÉLICO em seu discurso. essas novas igrejas são o que efetivamente vem buscando novos espaços e tratando quase esteticamente o pensamento político, seja nas prisões, seja nas regiões sub-urbanas. o resultado desse conservadorismo aplicado só pode ser um retrocesso, porém é o que surge no horizonte político como opção diferenciada (mesmo que não pra mim). estamos atrasados em relação a esse pensamento. enquanto discutimos política de modo arcaico, outras frentes – reacionárias por natureza – se organizam de maneira muito mais revolucionária.


culto ou doutrina?


marina pregando

é preciso parar e refletir: onde está a potência criativa do nosso tempo? o que ela diz e representa? como transformá-la em ato político? aí está o desafio, procurar a invenção e dela extrair a intervenção.

domingo, 29 de agosto de 2010

DO AMOR

::txt::Pedro Sá::

Do Amor é uma banda parcialmente conhecida para muitos. Marcelo e Ricardo formam a Banda Cê, que vem acompanhando Caetano há 3 anos. Gabriel Bubu foi baixista do Los Hermanos. Faz já algum tempo, todos eles vêm tocando na cena alternativa nacional com certa frequência, acompanhando artistas como Nina Becker, Jonas Sá, Rubinho Jacobina e Lucas Santtana, entre muitos outros.

Eles já mostraram que são músicos incríveis e, justamente por isso, esse lançamento nos gera uma certa expectativa, já que se trata do trabalho autoral destes grandes instrumentistas. Porém, devo dizer que este disco de estreia supera qualquer prognóstico positivo. Há uma riqueza, uma exuberância criativa que raramente se vê numa banda. É um trabalho repleto de referências dos mais distintos e variados estilos que são depurados nas formas mais insólitas e divertidas. Mas não se trata de referências gratuitas. Vão do carimbó ao Manchester Rock com a maior naturalidade... e com a maior verdade também. Não é uma mistura superficial. São universos super variados, que nos remetem a infinitos lugares, épocas e mundos, reunidos num trabalho absolutamente autoral. Há muita ironia e humor aqui. Digo, não são somente músicos virtuosos desempenhando uma excepcional performance. Não há frieza nem soberba. Tocam à música em si, no sentido mais genuíno da coisa. Desconstroem todos esses estilos para no final nos devolver em... música!

No fundo acho que esse álbum é mesmo uma declaração de amor à própria música. Aliás, não é só um amor declarado como vivido. Cada frase, cada estilo, cada nota é curtida, transada. Mas sempre com a leveza de quem vai tomar um suco na esquina, um mate na praia. Há uma saudável maresia apesar de ser um disco super trabalhado e bem acabado. Chico Neves é quem assina a excelente produção. Chico tem o dom de gravar bem. É um verdadeiro mestre Jedi do estúdio. Conseguiu extrair o supra-sumo da banda que se revela totalmente em todos os momentos. Dá gosto de ouvir. Enfim, este disco é um clássico desde já. É para escutar, re-escutar e curtir sempre.”

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

SAMBA É ROCK (E VICE-VERSA)



::txt::Fagner Marques::

Como tudo que é relevante, surgiu por acaso, no improviso, na imaginação. Era 2007, acho. Tinha 24 anos e uma fixação: me especializar em algo. Achava muitos assuntos interessantes, desde física quântica até a importância da geladeira para os esquimós. Mas nada me era tão fascinante quanto o rock.

Mais que um estilo musical aquilo era, para mim, uma filosofia de vida. A representação da luta social sem armas. Ou melhor, com OUTRAS armas. "Essa máquina mata fascistas", cravara Woody Guthrie - um dos principais ícones da música country e de protesto do século passado e grande influência para o rock 'n roll - no case de seu violão.

De outro lado, esta forma de ver o mundo - e a vida, por consequência -, ganhou contornos populares. Era a bela dualidade: contestação e popularidade. O resto todo mundo já conhece. A essência blueseira na década de 1950, os movimentos sociais, a revolução sexual, Serguei (e meio mundo) comendo Janis Joplin, Hendrix queimando sua guitarra e tocando o horror, os Beatles exorcizando os fãs com doses cavalares de psicodelia, e o mundo que seguiu adiante e se tornou o que é hoje. Não importa! No fim, tudo é lindo, incoerente e polemico. Como uma declaração de Caetano.

Foi exatamente neste momento que a pulga se escondeu atrás da minha orelha. Pensei: onde, pelos infernos, estava o Brasil, enquanto o resto do mundo explodia em hormônios e exaltações rebeldes? Aquilo era sem sentido. Minha epifânia vinha de algo que ocorrera há dezenas de milhares de quilômetros de casa. Totalmente deslocado do meu cotidiano.

"Mentiroso", "Judas", podem exclamar alguns, acreditando que me rebelei contra o que sempre acreditei. Muito pelo contrário. Tentava descobrir como meu país, meu povo, havia contribuído com isso tudo. Até que um dia cheguei no samba.

Nossa matriz musical foi, para o Brasil, tudo o que o rock foi para Estados Unidos e Reino Unido. Quiçá, até mais! O batuque, tomado emprestado dos escravos, se modernizou na década de 1930. Se transformou na representação máxima do modo de vida da capital brasileira na época - o Rio de Janeiro -, retratando o cotidiano das classes, seus embates e os problemas estruturais de uma sociedade que engatinhava para se organizar. Mais do que isso, o samba questionava, na essência, os desfavores e os protestos sociais no Brasil.

Se Chico Buarque, Os Mutantes, Gal Costa, Maria Bethânia, Toquinho, Vinícius de Moraes e tantos outros nomes da chamada MPB são considerados, hoje, porta-vozes que reclamaram as ilegalidades e injustiças da ditadura militar, muito da produção deles se deve aos sambistas. Tanto os bambas das periferias e dos morros quanto os músicos e os poetas de classes mais favorecidas. Foram eles que, décadas antes, abraçaram a mesma causa: apresentar - em forma de versos e acordes - a vida, as angústias, as alegrias, as esperanças e as injustiças do povo. O samba foi o início do NOSSO movimento de contracultura.

Não encare este escrito como uma tentativa de comparar dois estilos musicais. Talvez queira, aqui, apenas apresentar o 'achismo' de quem vê a cultura brasileira como algo a ser preservado a admirado. Ok, admito, comparo sim. Dois estilos de vida, duas formas de ver o mundo. Diferentes em vários planos, mas muito parecidos na essência. Para mim, samba é rock. E vice-versa!

terça-feira, 27 de julho de 2010

DADO VILLA LOBOS

::txt:: Oscar Vasconcelos::

Dado Villa Lobos integrou uma das bandas mais importantes da música brasileira, a Legião Urbana. Isso todo mundo já sabe, e ele poderia tranquilamente ficar vivendo desse glorioso passado. Justamente aí reside o grande barato, Dado não se acomodou, seguiu adiante. Cuidou de seu próprio negócio, produziu bandas novas, tocou com os amigos, tornou-se um premiado compositor de trilhas para o cinema nacional e lançou um inspiradíssimo trabalho solo (o próximo já está a caminho!). Recentemente, a partir de uma intervenção uruguaia, resolveu matar as saudades de palco com o antigo parceiro legionário e dessa forma presentear todos nós.

Dado, vamos começar falando sobre a Rock It. Era um selo e depois virou gravadora?

Começou como uma loja, virou um selo e gravadora.

Como surgiu a idéia? Qual era a proposta inicial, quais as metas atingidas e a razão da suspensão das atividades?

Isso começou numa conversa com o produtor da Legião na época, o Mayrton Bahia. Era um cara super visionário, na verdade foi quem nos manteve dentro da EMI porque a gente estava com um pé fora, queria ir embora, não ia fazer disco coisa nenhuma... E ele teve uma conversa decisiva com a gente, explicando como as coisas andavam ali no eixo cultural RJ-SP, a indústria e a coisa toda... Enfim, anos depois produzindo nosso terceiro disco (Que País É Este?) ele virou e falou: “Se eu fosse vocês eu abria uma editora, agora! Vocês têm que ser donos do seu patrimônio e seu patrimônio é a sua música.” Pensei, “boa dica”. Abrimos a “Corações Perfeitos”. Então do “Quatro Estações”(1989) em diante, é tudo nosso. Não está encalhado numa editora de terceiros que administra a música, entendeu? Ta na nossa mão. E logo depois, no ano seguinte, ele virou pra mim: “Olha, abre uma gravadora. Está chegando a hora de segmentar mais, ter e dar mais oportunidade ao mercado da música, pro artista ser absorvido.” Porque ficar focado só no grande “mainstream” das gravadoras... Você ramifica e consegue de repente estabelecer um bom acordo com as distribuidoras. Foi dito e feito. Esse mesmo cara em 92, quando a gente gravava nosso quinto disco (“V”), era diretor artístico da Polygram. Num congresso dentro da empresa, onde estavam funcionários de todos os departamentos do Brasil inteiro ele virou pros vendedores e falou: “Vocês estão com os dias contados”. Assim, a música digital já estava sendo pensada, já havia o surgimento do cd, pro tools chegando e o Mayrton já estava na frente.

É o período que a convergência digital que ganhava força lá fora.

Exatamente! Foi um pouco “pré mp3”, até então os arquivos eram enormes e não havia capacidade de tanta velocidade.
Bom, por conta desse cara a gente abriu essa loja, “Rock It”. Eu, Fernanda (nota: esposa do Dado), André Muller (baixista da Plebe Rude) e a mulher dele, a Martha. A idéia era vender a “cultura rock”, e tudo que pudesse gravitar em torno dela. Camisetas, discos, revistas, cintos, badges... E ao mesmo tempo, a gente botava ali uma banquinha de fitas k7 demo. As bandas que estavam começando desovavam ali e a gente ouvia e vendia também. Passaram por ali nomes como Planet Hemp e Pato Fu. A gente inaugurou em 91, mas a “Era Collor” destruiu a economia desse país e a indústria fonográfica foi pro buraco. As gravadoras começaram a se reestruturar e fechar estúdios. E já existiam estúdios independentes que, com esse estouro do Collor, também ficaram às moscas. Aí eu cheguei no cara com quem a gente tinha acabado de gravar nosso quinto disco, no estúdio Mega (que também estava ocioso), e falei “vamos fazer um acordo, eu tenho uma banda, to afim de gravar, tenho a distribuição da EMI e a gente racha os lucros” e foi o que fizemos. A banda era a “Second Come”, primeiro disco deles. Gravamos e assim nasceu o selo.
Depois o André saiu fora. Eu fiquei sozinho e, como péssimo administrador, na verdade o comércio do disco começou a emburacar, né? Começou a chegar o mp3... Acabou se tornando um péssimo negócio.

O início da mudança de paradigma?

Isso! Vai mudando o paradigma e ali não deu. E o Brasil é um lugar bem inóspito, cara, pra quem tem um pequeno comércio. Você é jogado à margem sempre. Você vai ter que sempre “quebrar” o Fisco e aí é impossível, é inviável. A carga tributária do disco, pra sair da gravadora e chegar até você, é absurda. Um péssimo negócio até hoje. Foi assim que surgiu a Rock It, que hoje é a minha pessoa jurídica e lancei por ali meu último projeto na MTV, licenciado pela EMI. E você continua sendo o dono do seu catálogo.

Já que falamos um pouco sobre a mudança de paradigma, você acha que com a popularização da internet, trocas de arquivos digitais, há um caminho possível pra indústria fonográfica?

O que eu sinto é que hoje o meio mais eficaz de propagação da música é a internet. Só que ainda estamos no download gratuito. Outro dia eu saí da minha terapia, entrei no carro, tava ouvindo a CBN e era um programa que falava sobre novos lançamentos. O apresentador começou a falar bem do disco novo da Sade, e que ela levou 10 anos desde o último trabalho. Foi super bem recebido pelo mercado americano, mas aí o cara fez uma ressalva, “não é tão maravilhoso assim, ela está no top da Billboard, mas só vendeu 190 mil CDs, que é pouquíssimo”. E isso representava uma retração de 40% em relação ao ano anterior. Veio a interlocutora e disse “é mas isso é o disco, o download agora é que está arrebentando, é o novo caminho...”, o cara vira e fala “olha, eu não tenho tão boas notícias assim... há uma retração do download pago de 23% em relação ao ano passado.” Então é aquela coisa, se você é cliente e vai no iTunes baixar, bacana!

É uma possibilidade, né?

Sim, você ter a regalia de ser cliente daquela loja e receber o lançamento antes, poder comprar, baixar, ouvir com exclusividade... Eu seria um cliente em potencial se a gente pudesse comprar no iTunes, coisa que o brasileiro ainda não pode. Então a gente continua baixando de graça. Mas é um processo irreversível. Você não vai voltar atrás. É como o cinema mudo quando ficou falado. Você não vai continuar fazendo cinema mudo! A questão é “como” equilibrar e adaptar esse novo paradigma à produção. “Como” fazer isso ser rentável de novo, porque o produtor tem que ganhar, o compositor tem que ganhar e o artista tem que ganhar. Mas eu acho que dentro desse ambiente estão se encontrando pequenas soluções... Às vezes eu penso que falta realmente os canalhas chegarem pra tomar conta do negócio. Como eram os produtores de disco e as multinacionais, eles tomaram conta da parada e a coisa funcionava. Ta meio “largado”...

Você tem o hábito de baixar?

Tenho! Quando eu to afim. E eu acho fabuloso! Mas eu gosto de ter o disco dos meus artistas favoritos, de ler... Às vezes baixar o álbum inteiro (encarte completo, faixas...) também dá trabalho.

E ainda há demanda pelo formato físico do produto.

Sim, de você ter ele na sua mão, ver, folhear o encarte... Mas isso vai acabar... A galera da nova geração não ta nem aí pra coleção de disco, mas você vai ver no computador deles e lá tem milhares e milhares de músicas. Provavelmente nada foi pago por nenhuma delas.

Mas é complicado pagar 40 reais num cd que é lançamento. Creio que os poucos interessados normalmente esperam o preço cair. Não é?

O CD tinha que custar R$20, R$23 no máximo... Podia ser igual a livro, não paga imposto! É zero! Mas não passa no congresso a lei...

Me fala um pouco sobre o seu trabalho com trilha pra filmes. Começou com o Bufo (filme baseado no livro de Rubem Fonseca), certo?

Sim, primeiro foi o Bufo. Veio num momento bem bacana, em 2000. Um amigo meu que tinha trabalhado na Rock It, era amigo do diretor (Flávio Tambellini) e fez a ponte. Era o primeiro filme do Flávio como diretor e foi incrível. Era um novo universo a ser explorado. Fazer a abertura, temas dos personagens, música de fundo...

Como funciona o processo, você vê a cena antes? Alguém te situa?

O cara primeiro te situa. Você lê o livro, lê o roteiro, vê o perfil de cada personagem e já entra naquele ambiente todo.

Tem um envolvimento total então.

Com certeza. O diretor vem e conversa o que ele pensa da música, vem o editor, o cara que monta... Geralmente ele já monta em cima de música. Então já vem um andamento ali, você às vezes fica preso a uma música referência do cara que editou. Pelo menos preso ao andamento. E são várias motivações ali dentro, a cena, o ator, a expectativa geral... Você está dando um suporte dramático ao vídeo/imagem, ao diálogo e à trama.

Sobre o “Jardim de Cactus”, quando surgiu a idéia do primeiro solo e quanto tempo levou a “gestação” dele?

Foi justamente depois de fazer algumas trilhas. Depois de ter meio que ter encerrado o processo dentro da gravadora, de produzir e lançar artistas novos, foi uma série. Desde o começo foram mais de 30. Nos anos 2000 eu terminei com Comunidade Nin Jitsu e Ultramen. Foi quando a coisa foi pro buraco. Pirataria. Quando eu fui a Porto Alegre eu vi aqueles discos que eu tinha produzido, e que sabia quanto tinha custado ao caixa da gravadora, sendo vendidos a R$2,50 na banca do pirata, eu falei “ah, agora chega! Parei”. Porque era justamente o lugar onde a gente ia recuperar, Rio Grande do Sul.
Aí tinha uma série de temas que eu vinha fazendo até por conta dos filmes. Eu tava sempre no estúdio e apareciam idéias. Então comecei a buscar parceiros musicais. Veio a Paula Toller (compositora da letra de “Jardim de Cactus”, “Dias”...), chamei o Fausto, o Toni Platão, Humberto Effe, China – de quem eu tinha produzido um trabalho um ano antes... E por aí foi. O projeto foi tomando uma forma, as músicas foram aparecendo e acabou virando uma coisa, tipo, orgânica mesmo. A idéia era sempre dividir os vocais com o parceiro. Foi bacana. E ali está um resumo, ou retrato de todas as influências que eu tive o tempo todo, desde que eu nasci. Meu pai tocando uma peça do Chopin, por exemplo, finalizando o disco. Coisas experimentais, tem o Chico Buarque cantando uma música, tem uma do Caetano Veloso e Beto Guedes... E todos os parceiros são companheiros, cúmplices de uma geração.

Como surgiu a idéia de lançar pela MTV o trabalho “ao vivo” antes da versão em estúdio?

Foi uma coisa de louco isso aí... Era essa coisa do “disco”, ninguém entendia mais o mercado do “disco”... O cd era uma coisa quase abominável e existe o fato de que o Brasil é um dos maiores mercados consumidores de dvd musical. Uma coisa louca. Você pega o DVD da Ivete Sangalo e foram vendidas 600, 500 mil cópias no país, que pro mercado hoje é algo incrível. A Madonna com essa última turnê parece que vendeu 120 mil DVDs no mundo inteiro. Então esse lance de DVD aqui é uma coisa de doido. As pessoas gostam mesmo. Adoram. Eles botam o DVD da Ivete Sangalo, do Calypso, aí vêem a coreografia e dançam juntos, aprendem os passos pra ir ao show e fazer tudo certo. Essas coisas...
Enfim, eu tinha mostrado a master do cd pro pessoal da diretoria da MTV e eles vieram com a idéia, “porque você não lança aqui esse projeto ao vivo?” Eu pensei “putz, vai custar uma grana, mas é uma boa idéia!” Você faz o lance e já divulga na televisão, um veículo de massa, e é como o Brasil funciona, o consumidor compra o dvd ao vivo de música.

Mas nesse momento você tinha o disco de estúdio pronto?

Disco pronto! Mas como eu tinha licenciado na EMI, eu não licenciei o cd que originou essa idéia toda, o de estúdio. Porque saiu o DVD e o cd do DVD ao vivo. Fizeram 8 mil DVDs e 5 mil CDs, venderam tudo e acabou. Foi muito bom.
Ano passado um amigo meu que está abrindo um selo em São Paulo, “Black Records”, pediu pra lançar o cd de estúdio.

Esse cd de estúdio ficou disponível no teu site, né?

Ficou uma época, e quando esse cara resolveu lançar eu pedi pra tirar do site. Foi bom porque ele ia ficar “perdido”...

Seu próximo solo vai seguir o mesmo formato? Já está em andamento?

Já. Eu tinha começado ano passado e o “mote” dele, o conceito básico, era o “colapso”. Colapso em todos os sentidos. Seria a idéia central. Mas como a coisa do “colapso” não vingou tanto aqui no Brasil, o Lula falou que era a marolinha, né? Na verdade está tudo mascarado, continua tudo colapsando... Tem um amigo meu que fala que o mundo está passando por um processo de “mulambalização”, uma coisa irreversível também.
Mas temos vários temas e canções já. Canções de amor que eu queria botar pra tocar na novela. Da Record, se possível. “Temas de novela”, “Tele-temas”, taí, um bom título! (risos) Olha, acabei de ter essa idéia, botar o nome do disco de “Tele-temas”. Porque é bem isso, tudo que vem da televisão, que gera o colapso, degradação, mulambalização da cultura.

Esse próximo trabalho tem novos colaboradores?

Tenho, no sentido de que agora eu estou fazendo música com o Nenung (Darma Lóvers), eu tinha gravado duas dele, mas agora eu fiz a música e ele encaixou a letra. Continua o mesmo cara de sempre, fabuloso. Tem o Marcelo que é do sul e tem uma banda de samba rock violento, se chama “Robô Gigante”. Marcelo Gigante. É um som pesado. E ele faz de tudo, é compositor também. Tem o André Mendes, da Bahia, de uma banda que eu lancei chamada “Maria Bacana”. Ele também ta lançando um disco solo agora, é um cara bem interessante.

Como rolou essa volta aos palcos com o Bonfá e qual foi o envolvimento dos uruguaios nisso? A Legião já tinha tocado fora do país?

Então, foi surreal... A Legião tinha tocado uma vez em 1986, no 1º Festival de Rock de Montevidéu. Foi assim, há 2 anos o Hermano Vianna, irmão do Herbert, me mandou um email falando de um amigo dele que queria me conhecer porque tinha um projeto e tal. Eu falei “tudo bem!” Marcamos na Pizzaria Braz e chegou esse uruguaio com essa idéia que era o seguinte “olha, tem uns caras lá no Uruguai que estão organizando um tributo, uma homenagem à Legião Urbana e eles queriam muito que você e Bonfá fossem lá.” Eu pensei, “cara, como é que é? Que coisa esquisita...” Ele explicou e depois ele mandou um email detalhando tudo. Então tinha os caras do Bajofondo, La Vuelapuerca que é a maior banda de rock da América Latina hoje em dia e vários outros artistas. E assim a coisa foi tomando um jeito. Eu falei “Bonfas, vamos nessa? Parece que é bacana! Vamos ver o que é isso.” Era um repertório de 20 músicas da Legião e os caras entre eles tocavam as 10 primeiras. Foi a primeira vez que aquelas bandas todas se reuniram pra fazer algo juntas. E ali se juntaram pra tocar Legião Urbana. Na 11ª música eu e Bonfá entramos e fomos até o fim do show. Isso foi num clube chamado “La Trastienda” (filial uruguaia, a matriz fica em Buenos Aires) e tinha mais de mil pessoas, completamente lotado. Tivemos que fazer o dia seguinte, foram 2 dias igualmente lotados só de gente dali mesmo. Foi sensacional!

E existe a possibilidade de shows assim no Brasil?

Sim, a partir dessa experiência, resolvemos migrar a idéia pra cá, com essa banda. É engraçado porque a música chegou até lá, então bateu lá dentro nos caras, eles se identificam com aquilo. É bem bacana.
Bom, a idéia é fazer uma excursão mínima, tipo 7 ou 8 cidades. Dependemos do “show business”, da indústria do entretenimento absorver isso e executar. Porque não é uma coisa fácil, é um projeto que precisa de uma captação bacana. Tem que trazer os caras do Uruguai, ensaios, em cada praça ter o cara do local pra cantar algumas músicas... A gente fez Brasília e Fortaleza, esse do reveillon em Fortaleza foi foda!

Esse show de Brasília, no Porão do Rock, teve alguma sensação diferente? Considerando que última passagem da Legião por lá foi o show mais conturbado da trajetória da banda.

Esquisito, né? Na verdade essa dúvida bateu. Pensei “na última vez que a gente esteve aqui foi “aquele”... mas hoje...” Enfim, era 88, quase 22 anos atrás. Agora o povo tinha crescido, os jovens não eram os caras que estavam naquele show, fiquei bem mais tranquilo (risos)... Mas cara, foi incrível, super emocionante mesmo! Eu tinha tocado lá uma vez, solo, um ano antes num festival e tinha sido ótimo também. Um mar de gente e foi muito bom. Lá foi o André Gonzáles do Móveis Coloniais de Acaju que cantou com a gente.

Teve mais uma galera participando?

Teve o Herbert (Paralamas), Philippe (Plebe Rude)...

E vocês escolheram antes os convidados?

Escolhemos antes, ensaiamos só com o André, eu acho... Com o Philippe é na hora mesmo, “Geração Coca Cola, vai!” Em Fortaleza foi o Catatau do Cidadão Instigado, bem legal. Então a idéia é essa, fazer uma grande festa em cada lugar, pra lembrar eu e Bonfá, relembrar o repertório...

Vocês pensam em alguma celebração em relação aos 25 anos do lançamento do primeiro disco?

Não. Não pensamos em absolutamente nada.

Nem a gravadora?

A gravadora praticamente não existe. E é acéfala pra pensar nessas coisas. Estão pensando provavelmente em lançar o “Rebolation”, ou alguma coisa assim que faça “sentido” nos dias de hoje.

Como está hoje o diálogo com a família do Renato?

Está melhorando, pelo menos com a entrada desse uruguaio existe uma interlocução. Porque não existia mais. O que existia eram eles me processando na justiça e coisas do gênero. Na real, na minha opinião, eles são mal assessorados. A família peca nesse sentido.

E quanto a novos lançamentos de outtakes e registros ao vivo?

Tava até na pauta, mas agora não vai ter mais. Isso vai ser colocado na geladeira. Justamente por esses conflitos envolvendo os “assessores”. Mas nada de mais.

Você tem idéia da quantidade de material que pode ser lançado? O Renato falava de uma caixa que se chamaria “Material”, não é?

Exatamente, “Material”. Seria mais ou menos nos moldes da antologia dos Beatles. Outtakes, coisas que a gente gravou em programas de televisão lá dentro, com qualidade, coisas que não saíram, como “Juízo Final” que era pra estar no segundo disco e ficou fora por falta de espaço físico no vinil. Músicas instrumentais que a gente nunca lançou e essas coisas que às vezes são bizarras dentro de um estúdio de gravação.

Seria um projeto mais voltado para os fãs?

Sim, para suprir essa demanda final.

O que você acha desses registros solo, póstumos, do Renato?

Eu acho que eles conseguiram transformar dois discos, um em inglês e um em italiano, em sete. Isso é um milagre da natureza! Eu me surpreendi uma vez quando ouvi takes de uma fita cassete que foi gravada lá na minha casa pelo irmão do Dinho, o Ico, depois rodou direto entre os amigos e eu até tinha ouvido há uns 20 anos na rádio Transamérica, virou cd também.

O “Trovador Solitário”.

Deve ser isso. Esse que saiu agora eu ainda não ouvi, acho esquisito... Mas se você for ver a qualidade artística da coisa, ter um Caetano Veloso fazendo um dueto com ele deve ser interessante, a Fernanda Takai, Adriana Calcanhoto... O da Marisa Monte parece que é deplorável, né? Esse dueto parece que não é muito bom não...

É um rascunho...

É um rascunho de “Soul Parsifal” que entrou no “A Tempestade”. Mas também não dá pra acreditar em tudo que o jornalista escreve, cada tem que chegar às suas próprias conclusões.

Você acredita que por conta desses novos lançamentos, essa massificação do Renato, pode surgir uma confusão na cabeça dos novos fãs em relação ao que é “do Renato” e o que é “da Legião Urbana”?

Assim, é muito simples decodificar isso. Renato solo canta em língua estrangeira, inglês e italiano. O Renato com a Legião canta em português. Isso “ele” falava, “eu não quero misturar o que eu faço aqui com o que eu faço sozinho”. E foi cantar em língua estrangeira. Ponto. Agora, claro, ele fez duetos na televisão com Dorival Caymmi, Adriana Calcanhoto... Participações especiais nos discos do Paulo Ricardo, Plebe Rude... Um clássico da Plebe, “Pressão Social” e ele tava bebasso no estúdio, só gritava, foi terrível (risos).

Você está acompanhando o desenvolvimento do filme “Somos Tão Jovens”?

Estou, de certa forma, porque o idealizador, que chamou o Fontoura pra dirigir, era um grande amigo do Renato, o Luis Fernando Borges. Então eles desenvolveram a coisa toda e eu li o roteiro. Cara, o roteiro é fabuloso, estão de parabéns! É sensacional a dinâmica da história. O Renato é um cara super incrível, do bem, pra cima... Isso é muito bom. Eu espero que seja filmado de acordo.

A história passa por você?

Passa, mas passa rápido. Ali no final. Na verdade é o Renato pré-adolescente até acontecer a Legião Urbana. Passa pelo problema na perna, Aborto Elétrico, ele sozinho, a Legião se formando e o primeiro show no Rio de Janeiro, aí tem eu. Então apareço muito rápido, ainda bem... (risos) Mas fiquei muito contente com o que li.

terça-feira, 23 de março de 2010

VITOR RAMIL



#agência pirata
Milonga de la milonga

txt: Vitor Ramil

“Chamam a este fenômeno de délibáb”, expliquei. “Esta locomotiva e este vagão que vocês vêem, tão nítidos, a correr neste horizonte desértico, não estão aqui onde parecem estar, mas a pelo menos uns cem quilômetros de distância. Acontece em dias de muito calor. Essa imagem atravessou regiões de atmosferas de densidades diferentes e projetou-se assim, clara, plana e não invertida, diante dos meus olhos. Nenhum som a acompanhava. Só depois de muito procurar é que me convenci de que realmente não havia trilhos no lugar.” Ao rever aquela fotografia, há tanto tempo guardada, e observar a reação de deslumbramento dos meus amigos, pensei que o “grande círculo” seria a documentação de um tipo de espelhismo, pois suas fotos eram o registro do que já fora visto por outro em outra parte, conforme os textos demonstravam. Era também algo deslumbrante. (Satolep – Vitor Ramil, Ed. Cosac Naify, 2008.)

Às vésperas de partir para Buenos Aires para dar início à produção deste disco, ocorreu-me que eu voltaria de lá trazendo comigo o registro de um délibáb, tal qual Selbor, o narrador do meu romance Satolep. Gravar as milongas que havia composto para os versos de Jorge Luis Borges e de João da Cunha Vargas seria documentar uma projeção de imagens remotas, de arrabaldes buenairenses e ambientes campeiros, na urbanidade de nossos tempos atuais; seria registrar minha visão do que já fora visto por outros em outra parte.

O délibáb é um fenômeno extraordinário da planície húngara, tão semelhante às planícies do sul do nosso continente. Único em seu gênero, este tipo de espelhismo transporta paisagens muito distantes a horizontes quase desérticos, reproduzindo ante os olhos maravilhados do observador, em dias de calor, o desenvolvimento de cenas distantes. Quadros curiosíssimos que cobrem o horizonte em enormes projeções. E suas imagens são planas, nunca invertidas, nítidas, claríssimas. Este fenômeno ótico é devido à refração desigual dos raios solares nas camadas de ar, de temperatura e rarefação diferentes. A imagem passa por diversas regiões de atmosfera de diferente densidade, até projetar-se sobre o horizonte da planície.

Um trem corre a toda velocidade, mas não se percebem ruídos da máquina, nem se escutam os apitos. Em realidade, tal cousa sucede porque o trem não está ali; talvez se encontre a mais de 100 km de distância. Mas o délibáb o atrai ao horizonte... (Nosso Universo Maravilhoso, Ernesto Sábato – direção literária –, Livraria El Ateneo do Brasil, 1960.)

Cenas distantes, espelhismo, nitidez, horizonte, planícies. Com tantas sugestões, não demorei a achar que a palavra húngara délibáb poderia dar nome a este trabalho. Além disso, havia o jogo borgeano de ser um vocábulo de uma cultura antiga e longínqua com ares de palavra inventada; de ser uma palavra encontrada em um livro cujo autor (el hombre que entreteje estos símbolos), por sua vez, a extraíra de uma velha enciclopédia. Houve quem pensasse que délibáb era invenção minha. Eu próprio desconfiei que fosse uma peça de ficção plantada no terceiro volume da coleção de Ernesto Sábato (diretor literário). Precisei visitar Budapest, transitar pela Délibáb Utca, deparar-me com a expressão por toda parte e ouvir depoimentos de cidadãos húngaros para, ainda que sem testemunhar o délibáb, convencer-me da sua existência. Trata-se de um fenômeno natural que é atração turística na Hungria. Continuei, contudo, desconfiado de que a descrição do Nosso Universo Maravilhoso fosse bastante fantasiosa, o que só tornava a palavra e seu sentido ainda mais atraentes para mim e meu projeto, em que ficção e realidade se confundem. A decisão de que délibáb seria o nome do disco só aconteceria depois que eu incorporasse uma das paixões borgeanas e partisse para o estudo etimológico. Foi quando descobri que délibáb, cujo significado é “miragem”, vem de déli (do sul) + báb (de bába: ilusão). Como não ficar maravilhado diante daquela “ilusão do sul”, ainda que fosse só uma miragem?

délibáb, o disco, reúne milongas que compus a partir das milongas-poemas do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), publicadas originalmente no livro Para las seis cuerdas, e dos versos do brasileiro João da Cunha Vargas (1900-1980), registradas, na voz do poeta, em fitas cassete e posteriormente publicadas em seu único livro, Deixando o pago. Como as datas indicam, em 2009 e 2010 os dois autores completariam, respectivamente, cento e dez anos. Guardadas as imensas diferenças entre suas vidas e obras, suas imagens se projetam nitidamente no horizonte de um Sul mítico, tocando-se em determinados pontos.

Ambos foram homens de memória prodigiosa. A memória de Borges, poeta culto, é célebre: abarcava sua poesia, cada palavra de uma conferência a ser proferida ou um sem fim de versos de outros autores, em mais de um idioma; a memória de Vargas, poeta popular, guardava sua poesia, já que ele não costumava escrever seus versos. Borges escreveu sobre o gaúcho e a poesia gauchesca; Vargas foi o próprio gaúcho e elaborou seus poemas. Se Borges tivesse visto Vargas declamar (dizem que foi um exímio declamador) talvez o definisse como um payador influenciado pela poesia gauchesca – esse homem do campo seria então um poeta espontâneo capaz de expressar uma filosofia de vida em palavras de uso cotidiano, mas, ao mesmo tempo, de reforçar as tintas da cor local ou de usar uma palavra que Borges dizia jamais ter ouvido no campo, a palavra pampa; Vargas talvez definisse o inextricable y casi infinito Borges com uma imagem simples e pungente.

Borges e Vargas estiveram fisicamente próximos, sem sabê-lo, evidentemente, quando Borges passou uma temporada na estância Las Nubes, em Salto Oriental. Vargas, nascido e criado na Estância da Primavera, vivia a alguns quilômetros dali, no município de Alegrete. Não teriam eles, em suas andanças pelos campos extensos e abertos daquela zona de fronteira entre Uruguay e Brasil, avistado os vultos um do outro ao longe, nem que fosse como um délibáb? No mínimo, o poeta brasileiro foi visto por Borges na pele de outros gaúchos, representantes, como ele, de um mundo primitivo fadado a perdurar menos na realidade que na prosa e poesia refinadas do autor argentino. Nesta ocasião, Borges esteve na cidade fronteiriça de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. Lá, como José Hernandez, autor do Martín Fierro, que esteve exilado nesta localidade, ele escutou voces gauchas que o marcariam para sempre. Essas vozes tinham o timbre da voz de João Vargas.

A primeira edição de Para las seis cuerdas data de 1965. No prólogo, o autor sugere ao leitor suprir a música ausente pela imagem de um homem que cantarola acompanhando-se con la guitarra. La mano se demora en las cuerdas y las palabras cuentan menos que los acordes. Borges costumava declarar que essas milongas (assim o autor se referia aos poemas do livro) se haviam composto sozinhas, vindas de um fundo criollo, argentino; que ele pouco interferira e que esperava que não tivessem nada de literário. O poeta culto desejou aproximar-se do que chamava de “poesia popular”. Conseguiu-o, ainda que seus versos “populares” não apresentem imperfeições formais e tragam a marca de sofisticação de quem sempre manejou com maestria o idioma. Suas milongas (Borges considerava este gênero, e não o tango, a música representativa de Buenos Aires) não contam histórias de gauchos, mas, principalmente, de compadritos (ou compadres), tipo popular cuja lenda remonta aos anos de formação da capital argentina (um personagem que se assemelha em muitos aspectos ao mítico “malandro” da Lapa do Rio de Janeiro antigo). Leopoldo Lugones o definiu como um híbrido triplo de gaúcho, negro e italiano; Adolfo Saldías, como um cavaleiro andante dos arrabaldes, aventureiro e romântico, representante de uma classe média entre os homens da cidade e os do campo. Segundo Borges, el compadrito fue el plebeyo de las ciudades y del indefinido arrabal, como el gaucho lo fue de las llanuras o de las cuchillas. (…) De paso recordemos que el compadrito se vio a sí mismo como gaucho. (…) Compartían (o gaúcho e o compadrito), por lo demás, el hábito de los animales y de los cuchillos. El campo entraba en la ciudad. É significativo que Borges tenha apresentado um de seus personagens como en el peligro primero, imagem que ecoa los primeros en el peligro, utilizada por Antonio D. Lussich, anos antes, para definir os gauchos.

Os versos de Borges são pródigos em cuchillos (facas), peleias, sangue e mortes. Colocá-los lado a lado com os versos de Vargas faz com que se sobressaiam nesses a doçura, a amorosidade e a melancolia, ainda que apresentem também cenas de valentia e de violência. Isso me faz pensar na diferenciação que faz Barbosa Lessa entre espanhóis e portugueses no período de formação do Rio Grande do Sul: Mesmo que ainda não tenham sido fixadas as fronteiras políticas, as fronteiras culturais já estão determinando onde mora o espanhol, com seu culto às chagas de Cristo, ao martírio dos cravos e espinhos, à dor do luto e à atração da morte, e onde mora o lusitano, com seu ingênuo lirismo, cultuando o Menino Deus ou São João com o cordeirinho nos braços.

Vargas também poderia ter chamado seus versos de milongas, pois eles parecem feitos sob medida para o gênero. E não seria um completo engano supor sua poesia inserida na tradição de oralidade dos payadores, símiles sulistas dos repentistas do nordeste brasileiro, graças principalmente à musicalidade cativante de seus versos (o payador rio-grandense Jayme Caetano Braun dizia que, ao declamar, João Vargas subia ao palco “um homem franzino e descia de lá um gigante”) e ao fato de o poeta não costumar escrevê-los, tarefa de que se incumbiam eventualmente seus familiares e amigos. Se a expressão poética de Vargas foi influenciada pela poesia gauchesca, segundo a acepção de Borges, é inegável que sua poesia se impõe mais pelo tanto de verdade que comporta do que pelo pitoresco de seu vocabulário. Borges, quando jovem, tentou escrever poesia gauchesca e desistiu diante das complexidades de um dialeto que não dominava tecnicamente. Se Vargas, desde seus primeiros versos, abrisse mão do jargão gauchesco, sua poesia não deixaria nunca de ser a de um gaúcho.

Conheci as milongas de Jorge Luis Borges ainda adolescente. A primeira que musiquei foi Milonga de Manuel Flores, aos dezenove anos. Uns três anos depois conheci e musiquei Gaudério, de João da Cunha Vargas, que está em meu disco Ramilonga – a estética do frio. A partir dos anos 90, até duas semanas antes de começar a gravar o disco, musiquei outros sete poemas do livro de Borges e quase toda a obra de Vargas, que é pequena (segundo um de seus filhos, muita coisa se perdeu por falta de registro). Sempre senti o mesmo que Borges com relação às milongas: elas me vêm naturalmente, de um fundo crioulo, no caso, rio-grandense. Compus a primeira delas aos dezessete anos (Semeadura, gravada por Mercedes Sosa). De lá para cá, nunca deixei de compô-las, sempre com o mesmo sentimento. Porém, se Borges evitava que elas fossem “literárias”, eu, que pratico outros gêneros musicais e que também escrevo prosa de ficção, as vejo a meio caminho entre a música popular e a literatura. Acho que a milonga pampeana (e outras milongas de características semelhantes), por mais simples que sejam, têm o poder de atrair o ouvinte ao seu horizonte, como o délibáb descrito por Sábato, com uma intensidade mais característica da literatura que das canções.

Elegi a milonga como referencial para a busca de uma estética do frio (ou, em outras palavras, de uma expressão artística sul-brasileira que recusasse os estereótipos, tanto sulistas como brasileiros) por reconhecer nela um poder de desnudamento, de nos colocar em contato com o íntimo ou o essencial. Pensando na ideia de “frio” como valor estético, não apenas como elemento climático que referencia o Sul brasileiro, identifiquei na milonga, tão popular entre nós, gaúchos, valores estéticos que a tornavam a música do frio por excelência: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia. Uma ênfase inicial no frio seco, geometrizante, foi necessária para uma limpeza conceitual de terreno. Mas aos poucos o frio úmido das cerrações, da indeterminação e da errância, foi recobrando em minhas reflexões um lugar que já era seu na prática, pois se eu refletia sobre “como dizer”, é certo que ao compor ou escrever eu sempre mais sugeria do que dizia. Hoje, já distante dos tempos reativos iniciais, uma ideia de vaguidade combinada às da esfera do rigor denota mais claramente o caminho para a busca de uma estética do frio em que frialdade e tropicalidade se conciliem em essência, não como mero encontro de superfície, e gerem uma linguagem-síntese. A vaguidade, que pode ser vista como um desdobramento da profundidade, da leveza e da melancolia, responde tanto pela vocação contemplativa da milonga como por aspectos formais como as flutuações de tempo, os silêncios, as hipnóticas melodias circulares e, no caso das minhas composições, os efeitos ilusionistas de acordes abertos e afinações preparadas. Sua simples enunciação como valor estético talvez já ajude a dissipar a impressão equivocada dos olhares apressados que, perdendo de vista a conjuntura que motivou a estética do frio, julgam ver em suas linhas gerais originais, em ideias como rigor, concisão ou clareza, uma expressão do frio em sua conotação negativa de coisa cerebral, rígida ou impessoal (algo compreensível quando as ideias de frio e de arte são associadas no contexto de um país “tropical” como o Brasil).

Essa estética do frio em que névoa, fantasmagorias, luzes e sombras passam a ter, com o perdão do paradoxo, presença definidora, já estava em meu romance Satolep e se afirma agora neste novo disco. Não é à toa que o nome délibáb foi tirado de um trabalho para justificar o outro. Em Satolep um personagem entoa milongas com palavras de Borges; outro, nascido e criado no campo, fala do gaúcho e seu mundo de maneira tocante. Em délibáb (gosto de grafar o nome do disco assim, em minúsculas, para aproveitar a sugestão de seu espelhismo gráfico) é como se os personagens de meus personagens tomassem a palavra.

As marcas autorais de Borges e Vargas são tão fortes que minhas músicas mudam nitidamente quando vou de um para o outro. Basicamente essas milongas correspondem àquela diferenciação entre portugueses e espanhóis proposta por Barbosa Lessa, mas as vozes dos poetas, individualmente, falam de forma irresistível através de mim. As milongas para os versos de Borges são em geral mais clássicas, épicas ou rítmicas, sempre fiéis à afinação tradicional do violão; as milongas com Vargas são mais próximas da canção brasileira, mais líricas e sentimentais, fluem como se aspirassem ao impressionismo das afinações preparadas. A imagem que tenho desses homens se ajusta à música que fiz para seus versos. E ainda que eu entenda a afirmação de Borges de que as palavras contam menos que os acordes; ainda que eu tenha suprido a música ausente de seus versos com minhas próprias voz e guitarra, adoto o sentido africano original do vocábulo “milonga” (plural de mulonga, que significa “palavra”) e entendo que em délibáb minha música está a serviço das palavras.

O disco foi gravado em Buenos Aires, em junho de 2009. Foram mais de dez horas de trabalho por dia, durante dez dias, no estúdio Circo Beat. A mixagem foi feita durante uma semana, no estúdio Papet Groove. Neste período, estive imerso no idioma e na mitologia de Borges, hospedado muito próximo aos endereços nas ruas Quintana e Pueyrredón em que o poeta viveu e produziu obras importantes, mais precisamente, ao lado do cemitério da Recoleta, tema de um de seus poemas e em cujas calçadas muradas pelearam los cuchilleros. Ao voltar do estúdio pela rua Santa Fe, eu pensava que ali, en una esquina del sur, havia sido morto Alejo Albornoz; se voltava pela rua Juan B. Justo, sob a qual o rio Maldonado corre canalizado, cantarolava: Allá por el Maldonado, que hoy corre escondido y ciego; no bairro de Palermo, a visão de uma remanescente casa baixa de portas e janelas abertas me transportava imediatamente ao Palermo de Evaristo Carriego. Ao mesmo tempo senti-me sempre em casa. No estúdio havia calefação (em vez de um ar condicionado congelante) e chimarrão, que o assistente técnico se encarregava de cevar. Além disso, volta e meia os argentinos presentes reconheciam como suas inúmeras palavras ou expressões dos poemas de João da Cunha Vargas, palavras como “tapera”, “pingo”, “pago”, “querência”, “churrasco”, “bolicho” (boliche), “china”, “mate amargo”, “pampeiro” (pampero), “rancho”, “guasca”, “cancha de tava” (taba), “guampa”, “indiada”, “boleadeira” (boleadora). Na capital cosmopolita, os interiores se comunicavam.

Mas o maior responsável por meu sentimento duplo de imergir em outra cultura sem apartar-me da minha foi Carlos Moscardini. Quando conheci sua música, anos atrás, foi como se eu já soubesse que ele estaria comigo neste délibáb. Acho mesmo que foi como uma miragem que eu nos vi. Carlos, um profundo conhecedor da música argentina dita “de raiz”, possui o toque mais inspirado e o som mais bonito de violão que já ouvi. Além do mais, é um sujeito pampeano, de perfil bajo, o que faz dele uma companhia natural para mim. Nosso tempo é o da gente do interior. Estamos de acordo que nossas músicas pertencem a uma mesma querência, que se projetam uma na outra, que se completam e se justificam. Nossos violões parecem achar o mesmo. Se o meu é uma planície, el cielo al revés, de Yupanqui; o dele, é um pensamento que vai longe. Se o meu tem o rigor minimalista do aço; o dele apresenta a doçura criolla do nylon. E por aí vamos. Nos conhecemos pessoalmente em Porto Alegre, quatro dias antes de subirmos juntos ao palco do Theatro São Pedro para apresentar essas milongas. Saímos da experiência ansiosos por registrá-la em disco. Como se nossas afinidades não bastassem, em Buenos Aires passei a vê-lo quase como uma figura saída de um conto de Borges, pois ele, além de ser um sujeito dos arrabaldes que infinitamente rasguea una trabajosa milonga, vive no Camino de las Tropas, próximo de Adrogué e Temperley, a poucos metros da família Iberra e da ponte sobre os trilhos de trem de Turdera, personagens e cenário descritos naquela que talvez seja a mais famosa das milongas de Borges, a Milonga de dos hermanos.

A atmosfera inspiradora dos momentos em que estivemos juntos em sua casa, ensaiando, conversando ou saindo para visitar os arredores cheios de lugares representativos da mitologia borgeana, estendeu-se às sessões de gravação. Aí tivemos a companhia de Tatu Estela, nosso técnico de gravação, responsável pelo registro fiel, despido de artifícios, da nossa música. Foi dele a ideia de microfonar a grande sala do estúdio para aproveitar sua ambiência, o que nos liberou de usar reverbers digitais ou analógicos. Esse recurso, somado aos microfones valvulados e ribbon e a uma mesa Neve do anos 70 foi determinante para a sonoridade final tão realista do disco. Cada violão foi gravado com sete microfones. A voz, com cinco. Gravamos tudo em separado, mas Tapera e Milonga de Manuel Flores foram gravadas ao vivo. De ambas, escolhemos a primeira toma.

Todo o trabalho foi documentado em vídeo pelo argentino César Custodio. A filmagem, em Buenos Aires, começou com minha chegada ao aeroporto de Ezeiza e terminou, passados trinta dias, no mesmo local, onde registrou-se a incrível coincidência de um encontro meu com Carlos Moscardini (depois de um mês de convívio quase diário, deixávamos o país ao mesmo tempo: ele, rumo à Costa Rica para uma apresentação; eu, a caminho de casa). Nesse meio tempo foram documentadas as sessões de gravação e mixagem, além de depoimentos meus, de Carlos e de Tatu, e de externas mostrando alguns endereços onde viveu e trabalhou Borges. Os últimos registros em vídeo foram no Brasil. Em Pelotas, alcançou-se a última luz de um dia quente para uma leitura do délibáb de Nosso Universo Maravilhoso às margens da Lagoa dos Patos. Em Alegrete, enfrentou-se uma estrada de rali para mostrar, também no limite do dia, a distante e isolada Estância da Primavera, onde nasceu João da Cunha Vargas. No Rio de Janeiro, registrou-se, a media luz, a participação de Caetano Veloso. Digo a media luz porque pedi a César que não usasse iluminação especial para essa ocasião. Mais que manter o clima dos registros de Buenos Aires, eu queria proporcionar o melhor ambiente possível para meu convidado. A música deveria estar em primeiro lugar. Dessa vez, infelizmente, a iluminação do estúdio não nos ajudou. Preservado o essencial, a produção despojada do DVD délibáb documental, feita na base de uma câmera e um microfone, ganhou seu momento “de guerrilha” ou, como dizem os argentinos, gauchito.

Como falei anteriormente, minhas milongas para os versos de Borges são mais clássicas, épicas ou rítmicas. Talvez a única exceção seja a Milonga de los morenos, que, como as milongas para versos de Vargas, traz a marca lírica da canção brasileira. Sempre achei que Caetano Veloso a cantaria lindamente, pela música, mas, especialmente, pelo tema, os negros, e pela forma como Borges o aborda, com uma afetividade que seus comentadores devem julgar incomum. Ao convidar Caetano para cantá-la comigo eu estava seguro de que sua voz, por tudo que ela representa, iluminaria a ponte que essa milonga estabelece entre as milongas de Borges e as de Vargas, uma ponte que, no contexto do disco, se estende entre a musicalidade brasileira e a sul-americana.

Como se pode ver, o délibáb atraiu muitas coisas ao seu horizonte. É um disco marcado pela visualidade. Por isso, além de César Custodio, convidei outros dois artistas da imagem a participar dessa produção: o designer gráfico carioca Felipe Taborda e o fotógrafo argentino Facundo de Zuviría, ambos meus colaboradores de longa data. A tipografia utilizada por Felipe é nova e inédita. Trata-se da fonte Olivia Round Regular, criada por ele mesmo. De Facundo pode-se dizer que sua especialidade é Buenos Aires, e que uma de suas grandes paixões é Borges, sobre quem tem um livro publicado em parceria com Félix della Paolera, Borges: Develaciones. A foto que ilustra a capa de délibáb foi tirada do alto do edifício Kavanagh, prédio emblemático da capital porteña, situado na Praça San Martin, que Borges costumava freqüentar. É uma imagem real, sem nenhum truque de computador: uma panorâmica da cidade capturada através dos vidros de uma janela que se abriu com o vento e atraiu o olhar do fotógrafo para uma súbita e extensa fantasmagoria urbana. Ao fundo vê-se o Rio de La Plata. De acordo com Facundo, do outro lado do rio estão Uruguai e Brasil. Ao escolher a foto da capa, levei em conta o fato de que, em Buenos Aires, há quem garanta que o Rio de La Plata muitas vezes produz uma miragem, que as formas que se vê no limite oposto das águas não são de fato a outra margem, como parecem ser. Como não ficar maravilhado diante daquela “ilusão do sul”, ainda que fosse só um délibáb?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A NOVA MÚSICA BRASILEIRA




# agência pirata #
E seus caminhos

txt: Romulo Fróes


Caminhando para o fim da primeira década do século XXI, já é possível identificar um traço comum entre os artistas surgidos na música brasileira a partir dos anos 2000? Será esta uma geração de artistas à altura de nossa tradição? Perguntas como estas já circulam por aí e demonstram que ainda figura um desejo de organização de um tempo, em que se consiga reunir argumentos para qualificar para o bem e para o mal, determinada época. Neste caso, além de compreender a unidade década, há ainda o agravante de ser esta a primeira de um século que se inicia, o que a faria ser comparada também ao conjunto de todas as outras do século anterior, numa espécie de partida injusta de dez contra um.

A geração atual de artistas da música brasileira surgiu ainda no século passado, em meio a uma profunda transformação, atrelada a uma iminente falência da indústria musical. Mais do que por novos modelos de difusão ou comercialização, ela foi moldada por um novo modo de produção musical. Até o começo dos anos 1990, o caminho para um artista chegar ao disco era muito difícil, pra não dizer quase impossível, se pensarmos que o filtro criado pelas grandes gravadoras para a produção de um disco era, antes de tudo, econômico. Com raríssimas excessões, eram elas que detinham os meios de gravação. Uma vez que esses meios se democratizaram, passou a ser possível a qualquer artista gravar seu próprio trabalho, elevando a produção de discos, ao menos no que se refere ao seu registro fonográfico, a patamares nunca antes imaginados. Todo artista agora, podia ter seu disco e surgiu uma nova figura, a do artista-produtor. É claro que existiam anteriormente artistas-produtores, mas a noção de produção passava muito mais pelo âmbito estético do que técnico, pertencia mais ao campo abstrato das idéias do que na matéria real da obtenção da melhor captação, ou na escolha certa dos microfones e amplificadores. Isso era para os técnicos, que afinal estavam a serviço do artista.

O artista de hoje produz seu disco, porque afinal conquistou essa liberdade e também porque em última instância, é a única maneira de fazê-lo. Por isso seu conhecimento de todas as etapas de uma gravação, da captação à edição e chegando mesmo até sua fabricação. Verdade que à príncipio, tal processo se deu de forma muito precária, uma vez que ainda não se dispunha de grandes recursos técnicos, na época pouco acessíveis, e tão pouco havia-se adquirido a experiência do novo ofício.

Com o avanço da tecnologia, a experiência e o acesso a novos recursos de gravação, abriu-se aos artistas um novo vocabulário de produção artística, a meu ver inédito na música brasileira. É muito comum hoje, um jovem artista falar de seu trabalho mais do ponto de vista técnico, do que das questões artísticas de sua obra, isso se encararmos como coisas desligadas uma da outra. Não raro, um leigo se depara no depoimento de um novo artista, com termos que parecem pertencer a uma nomenclatura de ficcão científica. E isto não é pouca coisa, se pensarmos que grandes artistas de nossa música nunca pensaram no som que teriam seus discos, acreditando única e exclusivamente no poder de sua música. Ou ainda, se pensarmos em artistas como Tim Maia e Caetano Veloso, que no início de suas carreiras, mesmo sabendo exatamente o “som” que queriam em seus discos, sempre se disseram frustrados por não consegui-lo, simplesmente por não saberem até então se comunicar com os técnicos. É um fato relevante, pra não dizer histórico, que aconteça de novos artistas se envolverem profundamente com o processo de gravação, tendo mesmo um interesse verdadeiro por seus aspectos técnicos, ainda que ironicamente, muitas vezes se valham de experiências acontecidas no passado, em discos gravados por exemplo, na década de 1960 e 1970. Vintage é uma palavra adorada por estes jovens artistas. Seus instrumentos, microfones, captadores, pré-amplificadores, pedais e tudo o mais têm de ser vintage, porém seu comportamento, suas cabeças, suas crenças, estas estão no presente.

Pois depois de aprendido “as manhas” da produção, ainda era preciso aplicar esse aprendizado à criação. Sim, porque antes uma grande canção mal gravada do que uma bobagem de altíssima qualidade sonora. E seguindo a máxima de que a quantidade gera qualidade, acho que a contribuição destes novos artistas para a música brasileira começa a ganhar forma. Há muito tempo não se via tantos artistas com trabalhos tão diversos e com tamanha qualidade, quanto agora. Talvez a palavra novo, tão desgastada por seu uso, não seja aplicável ao que vêm fazendo, mas sim ao modo “como” vêm fazendo. Já não é mais possível abarcar o Brasil, como fizeram por exemplo os Tropicalistas. Não só todo o vocabulário incluído por estes em sua música como a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a sexualidade, a tecnologia e tudo o mais ainda está em voga, como ainda outros tantos verbetes surgiram e continuam a surgir todos os dias. Daí o conceito de novidade já nascer datado. É com a Internet, esta ferramenta que mudou nossa percepção de mundo, onde se deparam a toda hora com tudo, quero dizer “tudo”, que já foi dito, pensado e vivido por todos, no passado, no presente e às vezes parece que até no futuro, que os artistas de hoje produzem. E se eles se fartam dessa nova ordem, a carga de influência que sofrem é tamanha e tão diversa, que talvez seja impossível a formação de um “novo” pensamento sobre música popular brasileira hoje e talvez não seja mesmo mais tão necessário. O que é necessário ainda e sempre, é que se produza arte boa, mesmo que esta tão somente revele as influências de quem a criou.

Matisse dizia ver Cézanne como um bom Deus da pintura e por mais perigosa que fosse sua influência, dizia não temê-la, pois consideraria isso uma covardia consigo mesmo. Acreditava que a personalidade do artista se afirma pelas lutas que enfrenta e que seria uma tolice não olhar em que direção os outros trabalham. “Aconteceu-me aceitar influências. Mas creio que sempre soube dominá-las”.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

GERAÇÃO COCA-COLA

# over12 #
O Futuro da Nação




txt: Tiago Jucá Oliveira

A humanidade está cercada de vícios. Todos nós temos algum tipo de consumo cotidiano, sejam eles legais ou não. Uns desafiam a lei pra cheirar, fumar, tomar e injetar suas drogas prediletas. Outros, no entanto, são usuários compulsivos de remédios, chocolates, igrejas, cigarros, novelas e... coca-cola. E talvez não exista no mundo produto mais consumido do que esse líquido preto de fórmula secreta. Quem nunca tomou um gole sequer da bebida ícone do capitalismo? Você? Não minta que é feio!

Mas, por que? Somos vítimas da propaganda diária, onipresente e constante da coca-cola? Ou somos refém do sabor inimitável? E como um produto pode ser ao mesmo tempo tão amado e odiado, tão usado e evitado? Aquilo que a sociologia define ser “esquerda”, no espectro ideológico, é, sem dúvida, o grande inimigo do refrigerante. O acusam de poluir águas, explorar mão de obras infantis, monopolizar o consumo, elaborar mensagens subliminares, etc. Se duvidar existem até provas, relatórios e o escambau para abrir os olhos da rapaziada.

O problema, nesse caso, é que o discurso politicamente correto soa contraditório. Se tudo que causa danos a nossa saúde, à sociedade e ao meio ambiente, ninguém mais andaria de carro, comeria carne, compraria livro. Transar com camisinha... nem pensar, pois além do preservativo em si, há pelo menos duas embalagens de plástico para jogar fora antes de você cobrir o pinto. Mais do que contraditório, é chato pra cacete ficar ouvindo qualquer ladainha. Se a intenção fosse somente informar os malefícios do produto, tudo seria mais assimilado. Num mundo de livre opiniões, é normal e válido expor os pensamentos. Porém o policiamento ostensivo é o grande defeito da esquerda marlborista. Cada um de nós deve ter consciência do que consumimos e de suas consequências. E não um policial dos bons costumes azucrinando no que devemos ou não fazer. Ou então começar a liçao no quintal de casa, lá na China comunista, onde mais de um bilhão de pessoas tem todo direito pra beber coca-cola e nenhum pra reclamar.

Somos os filhos da revolução



Renato Russo já havia eternizado a principal característica de nossa geração, que “desde pequenos comemos lixo comercial e industrial”. A coca-cola é o melhor lixo produzido nos últimos cem anos. No entanto, não é só o inigualável sabor que nos fascina. Ninguém até os dias de hoje soube unir o intangível do sabor, da sensação e da marca com o tato da garrafa e de seus itens marketeiros. Crescemos juntando tampinhas para trocar por ioiôs e mini-garrafinhas (que os amiguinhos mais sem noção não resistiam e bebiam sabe-se lá o que). As campanhas publicitárias, na maioria das vezes, são de um refinado acabamento e indução ao consumo e idolatria. Sempre coca-cola, emoção pra valer, e outras pérolas tão simples e claras, e, paradoxalmente, envolventes. A própria garrafa vazia, com suas curvas pegajosas, é um monumento.

Porém saco vazio não fica em pé. De nada adiantaria a propaganda se o produto fosse uma baré-cola. O fato é que o lixo dos lixos é um luxo. Para uns é remédio que cura ressaca, caimbra, dor de cabeça e outros males. Se há 30 anos uma garrafa de um litro satisfazia toda família na feijoada de domingo, hoje todo dia é de encher a geladeira com as pets de, por enquanto, três litros. O vício aumentou e seu consumo parece estar desenfreado, descendo a lomba em ritmo alucinado. Mais alucinante quando era misturada com cachaça e formar o famoso tubão, a tal bebida da revolução, que nossos guerrilheiros escondiam do policiamento da pepsi, na tentativa de enlouquecer durante as noites de algum fórum social realizado em Porto Alegre nos últimos anos.

Você não tá entendendo nada do que eu digo?



Nenhuma marca de qualquer produto que seja foi tão cantada que nem a preta bebida. O mito se faz também por quem o consome. E principalmente por aqueles que o imortalizam. Se “você traz a coca-cola”, o mano Caetano toma, antes de você botar a mesa. Ou a titânica e non sense “ babi índio enjoy selva coca cola”. Nara Leão também já cantou sobre a pérola negra: “laranja da terra, coca-cola da China”.
Uma outra vertente trocou o chiclete com banana de Gordurinha, pioneira alusão á fusão cultural entre brasileiros e americanos, por uma outra mistura de sabores conceituais. Um exemplo disso é a letra de “Caboco.com.br”, de Erivan Araújo, Mário Filho e Naldinho Braga. “Caboco me dê seu e-mail ligeiro / Vamos navegar na mistura com-fusão / Vou mandar rapadura made in nova york / Me mande mc´donald com carne de bode / É coca-cola, é cajuína”.

No mesmo estilo de mistura maluca encontra-se a composição de Arleno Farias, “Coca Cola com Cocada”: “E nessa fusão de coca-cola com cocada / Descriminação cultural não tá com nada”. Um novo gênero musical, o “coke bit”, a incentivar a junção anteriormente propagada por Pixinguinha, Jackson do Pandeiro, Novos Baianos e Chico Science, porém com outros elementos.

Somos burgueses sem religião, o futuro da nação




A lendária banda A Barata Oriental, do dharma lover Nenung, brincava com a bebida no final dos anos 80. “Coca ou cola, é só questão de nível social / cola ou coca, tudo se cheira igual”. E dá barato sim. É o grande e legitimado e combatido e idolatrado vício de nossa geração. No Brasil o caso se acentua pela antropofagia cultural que está no DNA da nação. Criamos o caminho inverso, do qual ainda não sabemos o significado das consequências.

A Legião Urbana sabia disso. Queria isso. Ao rivalizar nosso costume contra nossa vocação antropofágica, Renato Russo conclamou após os goles de coca-cola de seus contemporâneos: “Mas agora chegou a nossa vez / Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”. Nem mesmo o inventor da coca-cola imaginou o vômito azedo de uma ressaca secular. Quem não a coca aí na geladeira, que atire a primeira pedra!

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