#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

[romulo fróes] UM LABIRINTO DE CADA PÉ



::txt::Francisco Bosco::

Ninguém canta pra ninguém

Não sou um historiador rigoroso do contemporâneo, mas sigo à risca o preceito do filósofo de estar no mundo ao modo de um cão: sempre atento, com as orelhas em pé. No campo da canção popular de hoje, minhas orelhas em pé captam em Romulo Fróes qualquer coisa que só existe nele. Antes de tudo deve-se ressalvar que, ao falar de Romulo, já desde o seu disco anterior, mas mais clara e sistematicamente nesse, deve-se falar de uma criação coletiva, a incluir, em seu núcleo central, Clima e Nuno Ramos, parceiros de outros carnavais, e agora Rodrigo Campos, cujos cavaquinho e violão estão no eixo da sonoridade conquistada nesse novo trabalho (além, é claro, dos demais músicos, todos inventivos: Guilherme Held na guitarra, Marcelo Cabral no baixo, Pedro ito na bateria e Thiago França no saxofone e ainda da contribuição muito forte da artista plástica Tatiana Blass, com suas obras-capas).

Em seu trabalho anterior, o disco duplo No chão sem o chão, Romulo apresentava uma primeira sessão, resultante de um processo seu de desterritorialização (desgrudar-se da "imagem de sambista" - mas não do samba - que se lhe colara), em que a forma canção era como que violentada, a relação nevrálgica entre letra e melodia sendo abruptamente invadida por um pensamento musical, não cancional, onde longos solos de guitarra deixavam a canção a ver navios. Na segunda sessão, reencontrava-se a forma canção, mas como uma espécie de síntese, já incorporada a conquista da primeira.

Havia já nesse(s) disco(s) anterior(es) a "qualquer coisa" que eu afirmei, acima, existir em Romulo e só nele. Mas em Um labirinto em cada pé isso reaparece de modo mais concentrado, refletido (dizendo e se dizendo), e com nova sonoridade. Quanto a essa última, se No chão sem o chão tinha uma pegada mais roqueira, agora, em Um labirinto em cada pé, os cavaquinhos e violões de Rodrigo Campos colocam uma variável nova - e surpreendente - na equação.

A "qualquer coisa" singular de Romulo passa decisivamente pelas letras que ele entoa. Daí a necessidade de se falar de uma criação coletiva, já que a grande maioria das canções são compostas por ele junto a Nuno Ramos e/ou Clima. Há nessas letras uma operação com o sentido que se aproxima mais de vertentes da literatura moderna do que de compositores de canção popular. Pois são letras que jogam com certa intransitividade da linguagem. Não poderiam estar mais distantes do senso comum, da expressão amorosa "sincera", das referências concretas e reconhecíveis, dos temas habituais, de certa transparência (suposta) das palavras em relação ao mundo, em suma, de um efeito geral de naturalidade que Luiz Tatit identifica ser uma das mais fortes marcas da canção popular. Opacas ou autoiluminadas, herméticas (são algo que não se vê) ou materiais (são tão somente o que são), elas se situam "além do impossível conteúdo", onde "tudo vem".

É certo que se pode falar de uma tradição de letras que jogam com o nonsense na música brasileira. Desde "Uva de caminhão" (não por acaso gravada por Romulo anteriormente), passando por Luis Melodia, pelo Caetano de "Qualquer coisa", pelos famigerados zuns de besouro de Djavan até chegar em Carlinhos Brown, para ficar só em alguns pontos dessa linhagem. Me parece, no entanto, que, nos casos citados acima, em geral o sem-sentido das letras responde a um imperativo da melodia, como se às palavras coubesse sobretudo a tarefa de servir à melodia, entranhando-se nela, abolindo-se nela, fazendo com que o plano semântico se anule, virando puro ritmo e imagem. Não é por acaso que os letristas do nonsense costumam ser antes de tudo músicos, homens-som, mais do que homens-palavra. Nas canções de Romulo, dá-se outra coisa. Não me parece que as palavras anulem-se (em favor da música), mas, pelo contrário, que elas se afirmam plenamente, como uma série própria, independentes da música, apesar de entrelaçadas com ela: um labirinto em cada pé. Não há, assim, uma dissociação entre letra e música; ao contrário, a relação aqui é necessária e enxuta (é isso a canção). Mas as letras não cessam de apontar para algo que não está na música, nem no mundo, mas em si mesmas.

Aqui eu deveria entrar numa análise mais detida, inoportuna para a função desse texto. Mas basta que se escute as palavras da canção "Varre e sai": cheia de verbos intransitivos ("no varre e sai/ desarrumei", "no varre sai/ já me virei/ já fui, voltei"), ou com função de; os próprios objetos diretos são indeterminados ("já fui , nem sei, alguém/ já tive alguém"); não se sabe direito do quê se está falando (um pouco como as letras oblíquas de Paulinho da Viola d'après Nuno Ramos); e é esse não saber mesmo que é afirmado, como um estranho manifesto sem conteúdo: "saber de nada é bom".

Eu poderia seguir demonstrando essa argumentação com muitos outros exemplos, mas não é o caso. Muito importante é enfatizar que toda essa estranheza não resulta em canções cerebrais, anêmicas, numa palavra, chatas. Ao contrário, essas canções estranhas têm um pé fincado na tradição rítmica e melódica brasileira, que aliás elas não cessam de evocar ("só faço samba", "boneco de piche", "ladeira da preguiça", "jardineira"). É assim que, apesar da estranheza das letras, ou por causa delas, basta ouvirmos uma ou duas vezes canções como "Muro", "Rap em Latim", "Tua beleza" (que remete ao célebre soneto "Les voyelles", de Rimbaud, que inicia a linhagem da linguagem intransitiva na poesia moderna), basta ouvi-las uma ou duas vezes que já temos vontade de colocá-las no repeat e nos pegamos assobiando-as na rua.

Quando colocamos para ouvir esse disco de Romulo Fróes e sua turma não temos dúvidas de que estamos diante de um acontecimento artístico. É Dona Inah, com sua voz de máscara de bronze grega, quem nos avisa: aqui, "Ninguém canta pra ninguém". Se há uma definição axiomática da arte, é essa. Existe arte quando se dá uma passagem da experiência particular à experiência comum. Quando a vida sobrevive ao vivido. Aí é Ninguém quem canta. E qualquer Zé Ninguém pode ouvir. Quando ouvimos essa frase, cantada desse jeito, sabemos onde estamos: em plena vida.



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Um Labirinto Em Cada Pé.zip

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Livraria Cultura

FICHA TÉCNICA

produzido por Maurício Tagliari / Romulo Fróes
gravado / mixado / masterizado por Carlos "Cacá" Lima no yb studios
direção vocal: Luca Raele / Maurício Tagliari
músicos: Guilherme Held(guitarra) - Marcelo Cabral(baixo) - Pedro Ito(bateria) - Rodrigo Campos(cavaquinho, violão e percussão) - Thiago França(saxofone)
participações especiais de Arnaldo Antunes, Dona Inah e Nina Becker
projeto gráfico: Tatiana Blass (a partir da obra "deitado", de Tatiana Blass)

01. olhos da cara (Nuno Ramos)
02. muro (Romulo Fróes / Clima)
03. máquina de fumaça (Romulo Fróes / Clima)
04. o filho de Deus (Nuno Ramos)
05. rap em latim (Nuno Ramos)
06. varre e sai (Romulo Fróes / Clima / Nuno Ramos)
07. boneco de piche (Romulo Fróes / Nuno Ramos)
08. tua beleza (Rodrigo Campos / Romulo Fróes / Nuno Ramos / Clima)
09. ditado (Romulo Fróes / Nuno Ramos)
10. jardineira (Guilherme Held / Romulo Fróes / Clima / Nuno Ramos)
11. cilada (Rodrigo Campos /Romulo Fróes / Clima)
12. quero quero (Romulo Fróes / Nuno Ramos)
13. onde foi que nunca vem (Rodrigo Campos /Romulo Fróes / Clima)
14. um labirinto em cada pé (Guilherme Held / Clima)

domingo, 18 de abril de 2010

COISA LINDA SOUND SYSTEM



#bat papo
Embelezando a música das Alagoas: uma conversa com Marcelo Cabral

txt n ntrvst: Tiago Jucá Oliveira
phts: Augusto Gerbase

Conheci Marcelo Cabral em 2001, Taguatinga, durante o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação. O encontro ficou famoso por um campeonato que rendeu muitas notícias e comentários polêmicos na grande mídia. Marcelo e eu éramos uns dos jurados. Nunca perdemos o contacto um com o outro, e através de e-mails e redes sociais trocamos muitas ideias. Tivemos apenas uma oportunidade de nos ver novamente, num fim de tarde Forno Alegre Original Style, beirando os 40° C.

Hoje Marcelão comanda a Coisa Linda Sound System, banda de Maceió, capital das Alagoas. O recente disco da CLSS figurou entre os melhores de 2009 do Prêmio Uirapuru de Música Brasileira. O álbum apareceu na lista dos 50 discos do ano segundo a crítica animal, e conquistou um terceiro lugar na opinião do público leitor.

Marcelo também é um dos diversos colaboradores que O DILÚVIO tem espalhado pelo Brasil. Sua colaboração poderá ser mais efetiva caso a gente consiga a aprovação de um projecto.

Quando começou o CLSS?

Começou lá pelo começo dos anos 00, como Trio Coisa Linda, a banda que me acompanhava e que já contava com o Aldo Jones, em 2002 já estavamos com uma dos formações mais duradouras com o Aldo nas guitarras, André Meira (baixo) e Tido Moraes (bateria) e eu tocando violão, guitarra e cantando. Em 2005 lançamos o primeiro disco homonimo, produzido por mim e pelo Aldo, e a partir no final de 2007 chamei o Aldo pro front dessa parceria e reestruturamos a banda com o tecladista Dinho Zampier (Mopho) e o baterista Rodrigo Peixe (Wado). Com tudo definido gravamos Da Vida e do Mundo, que foi lançado no segundo semestre de 2009.

Ou seja, antes tinha mais uma cara de carreira solo sua, né? ou não?

Sim, exatamente, mas a coisa evoluiu pra que o Aldo viesse pra dianteira do trabalho comigo, pela afinidade artística, entrosamento e também passamos a compor juntos e inserir músicas dele como Temp 02 no nosso repertório. Ajuda bastante na divisão do trabalho e é sempre bom ter uma segunda opinião na qual se confia para tomar decisões sobre o trabalho.

Pro leitor e ouvinte leigo, você define o som do CLSS de que maneira?

Essa pergunta é bem dificil. Queremos sempre gravar algo diferente do que fizemos antes, então, basicamente, somos uma banda de música brasileira indie pop freestyle tropical rock world music.

Mas me parece que esses anos de embrionagem renderam já um público fiel da banda. O Prêmio Uirapuru dos leitores é um exemplo.

Ficamos muito felizes com este retorno do público na votação do Uirapuru. Muito bom estar na lista desse ano e agradecemos a todos que curtem nossa música e votaram no disco.

É dificil pra vocês a questão 'distância de RJ-SP'? Como vocês buscam alternativas pra romper barreiras regionais?

Essa dificuldade existe para os artistas das regiões mais periféricas do Brasil. Temos que buscar alternativas. Aqui em Alagoas fazemos parte do Coletivo Popfuzz integrado ao Circuito Fora do Eixo, que vem realizando um trabalho de fôlego para exportar nossas produções para outros públicos e para receber bandas de outras estados em Maceió, Arapiraca e no Festival Maionese, que este ano vai para a sexta edição. Este tipo de experiência coletiva tem rendido bons frutos pelo país fazendo as bandas circularem. Estamos planejando a segunda parte da turnê de promoção do disco Da Vida e do Mundo para maio/junho. Na primeira etapa tocamos em São Paulo, Belo Horizonte, Maceió e Recife.



E em Maceió, da pra se virar, tipo, casas de show, rádio, público consumidor de discos e shows, etc?

Além das ações do coletivo. Eu, Aldo e Peixe atuamos como produtores culturais aqui, tocamos em eventos que produzimos e também recebemos convites para tocar. Algumas ações da prefeitura e governo do estado começam a acontecer também, como shows públicos de música autoral produzida aqui, editais de apoio a produção musical, etc. Tudo muito tímido ainda, mas vejo uma melhora gradual.

A música alagoana tem revelado muita coisa boa, mas ainda falta mais holofotes pra cena local? Há como dizer que ficaram um pouco ofuscado pelo Recife? Ou, pelo contrário, Maceió tem vindo na carona do manguebit?

Acredito que Pernambuco merece os holofotes. O setor público e privado, os artistas e o povo pernambucano, perceberam que a cultura, a arte produzida por lá, é um setor estratégico para o estado, e nas últimas duas décadas investiram pesado nisso. Hoje deve ser o principal destino de turismo cultural e um dos principais celeiros artísticos do país. Nada é à toa. Cabe a Alagoas e aos outros estados do Nordeste correr atrás do prejuízo. Aumentar o orçamento para o setor, incrementar os editais, pensar na sustentabilidade e promoção de seus artistas, ou viver reclamando. Temos que abandonar essa mentalidade colonizada do "coitadismo" e construir nosso próprio caminho.



Você e Aldo Jones tem uma relação musical antiga e forte, né?

Sim, temos referências muito próximas, preferências estéticas e conceitos bem afinados entre a gente. Nos conhecemos faz é tempo, fizemos um som juntos ainda garotos, tempo de escola e tal. Nos anos 90 seguimos projetos diferentes e no começo dos anos 00 voltamos a tocar juntos e de lá até hoje. Papo de 20 anos de amizade e 10 de trabalho musical juntos.

Qual o momento atual e os planos do CLSS?

Estamos articulando a segunda parte da nossa turnê para maio e junho pelo nordeste e sudeste. Nosso plano é tocar pelo país promovendo Da Vida e do Mundo em 2010, participar de festivais e divulgar o disco onde houver espaço para nossa música. Paralelamente, já estamos em estúdio gravando as faixas do terceiro trabalho, Rochedo de Penedo, que deve sair no próximo verão.

Qual ligação há com o nome do próximo álbum com Penedo (linda cidade e histórica das Alagoas)

A faixa título Rochedo de Penedo é um tema instrumental forte, consistente como as pedras do relevo daquele município do nosso estado. Uma homenagem a bela cidade histórica de Penedo, as margens do Rio São Francisco. Outras canções, como Flor da Montanha, por exemplo, faz referência ao estado de Minas Gerais e suas montanhas, onde nasce o chamado "rio da integração nacional" antes de correr os sertões pra vir desaguar no mar por aqui, dividindo os estados de Alagoas e Sergipe. A música título do disco já integra nosso repertório ao vivo, composição do nosso tecladista Dinho Zampier com arranjos da banda. No segundo semestre devemos apresentar pré-produções de algumas dessas faixas na internet.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

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