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quinta-feira, 16 de junho de 2011

[agência pirata] A GUERRA CONTRA AS DROGAS



::txt::Fernando Henrique Cardoso::

A guerra contra as drogas é uma guerra perdida e 2011 é o momento para afastar-se da abordagem punitiva e buscar um novo conjunto de políticas baseado na saúde pública, direitos humanos e bom senso. Essas foram as principais conclusões da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia que organizei, ao lado dos ex-presidentes Ernesto Zedillo, do México, e César Gaviria, da Colômbia.

Envolvemos-nos no assunto por um motivo persuasivo: a violência e a corrupção associadas ao tráfico de drogas representam uma grande ameaça à democracia em nossa região. Esse senso de urgência nos levou a avaliar as atuais políticas e a procurar alternativas viáveis. A abordagem proibicionista, baseada na repressão da produção e criminalização do consumo, claramente, fracassou.

Após 30 anos de esforços maciços, tudo o que o proibicionismo alcançou foi transferir as áreas de cultivo e os cartéis de drogas de um país a outro (conhecido como efeito balão). A América Latina continua sendo a maior exportadora de cocaína e maconha. Milhares de jovens continuam a perder as vidas em guerras de gangues. Os barões das drogas dominam comunidades inteiras por meio do medo.

Concluímos nosso informe com a defesa de uma mudança de paradigma. O comércio ilícito de drogas continuará enquanto houver demanda por drogas. Em vez de aferrar-se a políticas fracassadas que não reduzem a lucratividade do comércio - e, portanto, seu poder - precisamos redirecionar nossos esforços à redução do consumo e contra o dano causado pelas drogas às pessoas e sociedade.

Ao longo da história, sempre existiu algum tipo de consumo de droga nas mais diversas culturas. Hoje, o uso de droga existe por toda a sociedade. Pessoas de todos os tipos usam drogas por motivos de todos os tipos: para aliviar dores ou experimentar prazer, para escapar da realidade ou para incrementar a percepção dela.

A abordagem recomendada no informe da comissão, no entanto, não significa complacência. As drogas são prejudiciais à saúde. Minam a capacidade dos usuários de tomar decisões. O compartilhamento de agulhas dissemina o HIV/Aids e outras doenças. O vício pode levar à ruína financeira e ao abuso doméstico, especialmente de crianças.

A capacidade das pessoas de avaliar riscos e fazer escolhas estando informadas será tão importante para regular o uso das drogas quanto leis e políticas mais humanas e eficientes. A repressão aos usuários de drogas é também ameaça à liberdade.

Reduzir o consumo o máximo possível precisa, portanto, ser o objetivo principal. Isso, contudo, requer tratar os usuários de drogas como pacientes que precisam ser cuidados e não como criminais que devem ser encarcerados. Vários países empenham-se em políticas que enfatizam a prevenção e tratamento, em vez da repressão - e reorientam suas medidas repressivas para combater o verdadeiro inimigo: o crime organizado.

A cisão no consenso global em torno à abordagem proibicionista é cada vez maior. Um número crescente de países na Europa e América Latina se afastam do modelo puramente repressivo.

Portugal e Suíça são exemplos convincentes do impacto positivo das políticas centradas na prevenção, tratamento e redução de danos. Os dois países descriminalizaram a posse de drogas para uso pessoal. Em vez de registrar-se uma explosão no consumo de drogas como muitos temiam, houve aumento no número de pessoas em busca de tratamento e o uso de drogas em geral caiu.

Quando a abordagem política deixa de ser a de repressão criminal para ser questão de saúde pública, os consumidores de drogas ficam mais abertos a buscar tratamento. A descriminalização do consumo também reduz o poder dos traficantes de influenciar e controlar o comportamento dos consumidores.

Em nosso informe, recomendamos avaliar do ponto de vista da saúde pública - e com base na mais avançada ciência médica - os méritos de descriminalizar a posse da canabis para uso pessoal.

A maconha é de longe a droga mais usada. Há um número cada vez maior de evidências indicando que seus danos são, na pior hipótese, similares aos provocados pelo álcool ou tabaco. Além disso, a maior parte dos problemas associados ao uso da maconha - desde o encarceramento indiscriminado dos consumidores até a violência e a corrupção associadas ao tráfico de drogas - é resultado das atuais políticas proibicionistas.

A descriminalização da canabis seria, portanto, um importante passo à frente para abordar o uso de drogas como um problema de saúde e não como uma questão para o sistema de Justiça criminal.

Para ter credibilidade e eficiência, a descriminalização precisa vir acompanhada de campanhas sólidas de prevenção. O declínio acentuado e persistente no consumo de tabaco nas últimas décadas mostra que as campanhas de prevenção e informação pública podem funcionar, quando baseadas em mensagens consistentes com a experiência das pessoas que são alvo desses esforços. O tabaco foi desglamourizado, tributado e regulamentado; não foi proibido.

Nenhum país concebeu uma solução abrangente ao problema das drogas. A solução, no entanto, não exige uma escolha cabal entre a proibição e a legalização. A pior proibição é a proibição de pensar. Agora, enfim, o tabu que impedia o debate foi quebrado. Abordagens alternativas estão sendo testadas e precisam ser cuidadosamente avaliadas.

No fim das contas, a capacidade das pessoas de avaliar riscos e fazer escolhas estando informadas será tão importante para regular o uso das drogas quanto leis e políticas mais humanas e eficientes. Sim, as drogas corroem a liberdade das pessoas. É hora, no entanto, de reconhecer que políticas repressivas em relação aos usuários de drogas, baseadas, como é o caso, em preconceito, medo e ideologia, são da mesma forma uma ameaça à liberdade.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

PEQUENO BANDIDO

# escrituras marginais #

Um retrato do submundo das drogas
txt: Tiago Jucá Oliveira

V. é um carinha que vive no mundo do narcotráfico desde a adolescência. Passou um tempo na prisão e de lá não esquece algumas lições, do tipo "comia massa a alho e óleo e não podia reclamar". Fomos até a baia do cara, que foi logo tirando as cartas das mangas: "tenho o que tu quiser: maconha, haxixe, cocaína. Tem até umas notas de 50. Pra ti eu faço por 20".

Pra minha surpresa, o cara abriu uma dessasa pastinhas plásticas com mais de uma dezena de folhas de papel ofício, cada uma tendo impressa, bem ao meio, uma nota de 50 pronta pra ser recortada e cambiada nas ruas. As ofertas não param por aí. V. tem também chave pra orelhão e um quartinho de fumo por cem conto de reais.

Disse que tinha um pó violento, do qual me ofereceu uma carreira pra dar um teco. Respondi que não curtia, mas ele insistiu pra eu experimentar a qualidade. Diante de minha recusa, ele pediu pra eu passar uma cara na língua. Em pouquíssimos segundos, minha lingua estava toda dormente.

O som que rolava era Cypers Hill, RZO, Thaíde & DJ Hum. Manifestei meus raps favoritos: Public Enemy, 2 Pac, Snoopy Dogg Doggy, Dr. Dre. Pra este último V. fez cara feia porque é um cantor de funk. Expliquei que o cara também faz um hip hop da hora.

"Emoção é comigo mesmo"

Antes de V. me levar à casa de seu fornecedor, fui obrigado a conhecer as minas que o rodeiam. Observando uma delas, pergunto se ela não havia brigado com outra mina um domingo desses no parque. A resposta deixa V. perplexamente feliz: "tu anda brigando agora, mulher?"

Há um porquinho vigiando a zona. Precavido, V. entra na caranga meia quadra adiante. Quando chegamos na baia do traficante, V. entra sozinho.

Volta com uma bola de pó do tamanho de uma de tênis, junto com umas dez bolinhas de haxixe. "Não te falei que eu sou confirmado com o patrão?".

No caminho, V. conta que recentemente pagou dois mil reais pra uns policiais. Ele foi pego com drogas e não queria voltar pra prisão. De acordo com V., ainda hoje ele tem que dar uma grana pra um policial o deixar em paz.

"Quando saí da prisão, fiquei calmo por um tempo. Não usava nenhuma droga. Mas acabei voltando com tudo de novo. Não adianta, eu sou um criminoso. Mas não sou ruim, sabe? Eu não sou mau, faço isso de vagabundagem, pra gastar em besteira. Aqui no bar eu gasto setenta conto por dia. Esses dias vieram uns porco aqui na baia. Eu corrí os cara com o cano. Disse que sem mandato não podem ir entrando assim. Eu tô ligado, meus peso ficam numa outra baia, não deixo nada aqui em casa, só o de consumir. Não dá pra marcar bobeira, dusmeu. Vivo com o cano na cintura ou debaixo da cama. Aí eu fico a noite inteira acordado cheirando uma branca. Caminho por dentro de casa de um lado pro outro, espiando pela janela e jurando que há alguém lá fora me cuidando. Já teve vez que eu chorava de pavor, escondido atrás do sofá, vendo o demônio. Mas eu rezava pra Deus me proteger. Conheci o Senhor na prisão, e todos os dias eu rezo agradecendo a vida que tenho. Já disse, sou uma boa pessoa, rodeado de amigos e mulheres. Quer mulher e drogas? Fala comigo. Dinheiro falso também. Emoção é comigo mesmo"

Fugindo dos homens da lei

"Eu e o F. era, há bastante tempo, visado pelo polícia. Uma noite a gente pegou alguns quilos de pó e de fumo em outro pico. Alguém entregou a gente. Os homens seguiram nossa caranga até nos alcançarem. Foi aquele tiroteio. O carro ficou totalmente baleado. Tõ vivo porque as bala não atravessaram oo banco, mas o F. foi atingido de raspão. Mesmo assim ele manobrou o carro pra direita e pulou um barranco de cinco metros de altura e fugiu dos homem. Mas no outro dia a gente acabou sendo preso"

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