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segunda-feira, 16 de abril de 2012

[agência pirata] O TEMPO FECHOU EM BRASÍLIA




::txt::Suzana Singer::

Na cobertura do caso Cachoeira, a imprensa precisa evitar a armadilha do PT, mas precisa dar exemplo de transparência

As nuvens carregadas do novo escândalo político que tomam Brasília são um tremendo desafio para a imprensa. Personagens tidos como probos estão sendo revistos, um sem-número de interesses emerge a cada nova revelação, não é fácil entender a posição do governo e a própria mídia está sob escrutínio.

A primeira surpresa do caso Cachoeira foi a descoberta de sua relação com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM), até então uma espécie de arauto da moralidade, sempre disponível para repercutir denúncias de corrupção. Só nas páginas da Folha, ele se pronunciou contra juízes, o PC do B, Palocci, Arruda, José Sarney, Renan Calheiros...

Figura importante na denúncia do "mensalão", o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), também aparece nas investigações, que apontam uma influência do bicheiro em seu governo.

Mas não sobrou apenas para a oposição. Sombras foram lançadas sobre o governador petista Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, e sobre um assessor que dava expediente no Palácio do Planalto.

Em meio à confusão, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, detectou uma "operação abafa" de setores políticos e veículos de comunicação para tentar impedir que "se esclareçam plenamente" as relações entre Demóstenes e o bicheiro.

Falcão incitou também a futura CPI do Cachoeira a investigar "os vínculos obscuros" de "Demóstenes e sua quadrilha" com a imprensa.

Não sei o que o presidente do PT anda lendo para achar que estão querendo colocar panos quentes no caso, já que os principais jornais e revistas do país não param de publicar grampos e denúncias. Sobre os tais "vínculos obscuros", o que veio a público, por enquanto, foi um diálogo entre Carlos Cachoeira e um de seus auxiliares, citando um jornalista da "Veja". Na conversa, publicada pela própria revista, Cachoeira diz que os "grandes furos" dados pelo jornalista foram passados por ele, mas que não recebeu nenhum favor em troca.

A Folha enxergou na fala do PT a intenção de investir, uma vez mais, contra a mídia. E saiu em defesa da imprensa, ao afirmar que a "produção de reportagens investigativas naturalmente envolve contato de jornalistas com fontes de informação de vários matizes".

Não se sabe se algo comprometedor envolvendo a imprensa surgirá desse lamaçal. Para o PT, interessa usar o caso Cachoeira para empastelar o "mensalão", que poderá ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal nos próximos meses. O presidente do partido fala em desfazer a "farsa do mensalão" montada por "supostos moralistas".

A imprensa não pode cair na armadilha de permitir que um escândalo anule o outro. Tem o dever de apurar tudo -mas sem se poupar. É hora de dar um exemplo de transparência.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

[over12] A IMPRENSA MUNDIAL PERDEU A CAIXA PRETA

::txt::Jucazito::

Curto e grosso: um fato só é um verdadeiro fato se houver alguma prova. No jornalismo, a notícia deve se basear em fatos reais, devidamente provados. E, até o momento, o único fato existente é Barack Obama ao vivo e a cores anunciando que Osaba bin Laden virou presunto. Sem corpo, sem fotos, sem testemunhas. Essa é a notícia, ou deveria ser: OBAMA DIZ QUE BIN LADEN ESTÁ MORTO. E a partir de então, procura-se provas, especula-se, debate o assunto, etc.

O que diz a imprensa mundial: OSAMA ESTÁ MORTO. Ouviram somente uma fonte - ok, uma fonte muito importante, talvez a principal peça do tabuleiro -, mas a fonte não trouxe nenhuma prova do fato ocorrido. Bin Laden pode ter morrido ou não, e não é essa a discussão.

Se o jornalismo seguir a regra, palavras vão virar fatos, e quem tiver mais holofotes vai acabar por escrever a história. Não duvide se um dia Obama precisar de mais popularidade, ele venha a público dar a manchete de todos jornais do dia seguinte: ELVIS PRESLEY NÃO MORREU.

= = =

Pensando nisso, lançamos nossa linha de manchetes pra determinados famosos e poderosos usarem quando a popularidade estiver, se já não está, baixa:

PAPA BENTO XVI: Jesus Voltará
FIDEL CASTRO: Che Vive!
DILMA: Lula é o Cara
HUGO CHÁVEZ: Bolívar é o capitão
FALCÃO: Bolívar não é mais o capitão
ALCKMIN: Mário voltou das Covas
FHC: Esqueçam tudo que eu disse
LULA: É isso ae companheiro!

(continue)!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

[cc] TSUNAMI E OS JORNAIS ESCRITOS À MÃO

::txt::Andrew Higgins::

Ninguém se comunica pelo Twitter, blogs ou e-mail. As pessoas também não usam telefone. Sem eletricidade, gasolina e gás, a cidade, traumatizada pelo tsunami, está fazendo as coisas realmente à maneira antiga: usando papel e caneta. Incapaz de operar sua impressora do século 20 – os computadores, então, nem pensar –, website ou celulares 3G, os jornalistas do único jornal de Ishinomaki, o Hibi Shimbun, escrevem seus artigos à mão com canetas hidrográficas em grandes folhas de papel branco. Ao contrário do que ocorre com a mídia moderna, o método tem funcionado. "As pessoas que sofrem uma tragédia como essa precisam de alimentos, água, mas também de informação", disse Hiroyuki Takeuchi, chefe de reportagem do Hibi Shimbun. "Elas estavam habituadas a se informar pela TV e pela internet, mas quando não há eletricidade, a única coisa que têm é o nosso jornal."

Embora a recente agitação política que toma conta do mundo árabe tenha realçado o poder das novas mídias, a miséria no Japão, um dos países mais conectados do mundo, fez a comunicação retroceder no tempo. Durante alguns dias, pelo menos, a palavra escrita à mão e impressa atingiu o auge. Depois de escrever e editar os artigos, Takeuchi e outros da equipe copiam suas matérias à mão em folhas de papel para distribuí-las em centros de ajuda de emergência que acolhem os sobreviventes do pior terremoto sofrido pelo país e do tsunami que se seguiu. "Eles estavam desesperados por informações", disse Takeuchi, que durante dez dias após o tsunami dormiu na redação do jornal, uma vez que as águas inundaram o andar térreo de sua casa. Com a eletricidade de volta para um terço dos 160 mil moradores da cidade, o jornal deixou de lado a caneta e voltou a ser impresso.

Informações vitais

O acesso à internet, porém, ainda não está disponível. Na segunda-feira (21/3), a capa do jornal elogiava um "resgate milagroso": a história de uma senhora de 80 anos e de seu neto de 16, retirados de sua casa destroçada.

Na costa, em Sendai, uma cidade antes próspera de mais de 1 milhão de habitantes, a irresistível força digital também ficou interrompida. "Em condições como essas, nada tem o poder do papel", disse Masahiko Ichiriki, presidente e dono do Kahoku Shimpo, principal jornal da cidade.

Edição especial. Com muitas lojas fechadas, as pessoas não conseguem comprar baterias para seus rádios. O colapso do sistema elétrico provocou o desligamento de computadores e aparelhos de TV, mas o jornal continua sendo publicado o tempo todo. Chegou até a trazer uma edição especial, de uma página, na noite do tsunami. "Os moradores, famintos por informação, dependem do nosso jornal como um salva-vidas", disse. O Kahoku Shimpo fornece não apenas notícias sobre a catástrofe, mas também informações vitais sobre que lojas têm alimentos, quais estradas já estão transitáveis, que bancos têm dinheiro em caixa e quais filiais de uma conhecida loja de bebidas foram reabertas.

"O pior é não ter nenhuma informação"

Em Ishinomaki, cidade menor do que Sendai, porém mais destruída, o Hibi Shimbun não foi publicado por dois dias após o tsunami. Um dos seis jornalistas foi arrastado dentro do carro pelas águas quando voltava de um compromisso. Ele sobreviveu e, depois de alguns dias no hospital, voltou ao trabalho. Hiroyuki Takeuchi estava em seu escritório na hora do terremoto, às 14h46n do dia 11 de março. Tinha acabado de concluir a edição do dia, que trazia um artigo de capa sobre os "encantos ocultos" de Ishinomaki e as promessas das autoridades para a reforma do hospital e outras instalações. O terremoto sacudiu de maneira tão forte os dois andares do prédio do jornal que as lâmpadas fluorescentes caíram do teto e os armários tombaram no chão.

A primeira edição escrita à mão, preparada no dia 13 de março, trouxe como manchete a promessa de "tentar e obter informações mais precisas possíveis sobre a tragédia". E informou sobre a chegada de equipes de socorro de todo o Japão e sobre a extensão da devastação. Casas e empresas situadas à beira-mar foram destruídas. Mais de 30 mil pessoas procuraram refúgio em abrigos. "Agora, conhecemos a extensão total dos danos", era um dos títulos da edição.

No dia seguinte, o jornal trouxe o nome e a idade de 34 moradores da área cujos corpos haviam sido identificados. Informou também sobre um roubo em um supermercado, um sinal do desespero da cidade. "Os jornalistas, porém, procuraram levantar o ânimo da população", disse Takeuchi. "Procuramos coisas que dessem esperança. Essa é a nossa filosofia." Segundo ele, o jornal deixou de publicar nomes de pessoas mortas porque o número de vítimas continuou crescendo. Mais de 1,3 mil corpos foram encontrados. Todo o esforço ajudou a preencher o vazio deixado pela ausência da mídia eletrônica. "Viver sem eletricidade ou água e pouca comida é muito duro", disse Yutaka Iwasava, de 25 anos, morador de Ishinomaki. "Mas o pior é não ter nenhuma informação." Iwasava disse que, desde o tsunami, não conseguiu mais acessar seu e-mail nem navegar na internet.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

[agência pirata] O VALOR DO PLURALISMO



::txt::Eugênio Bucci::

Os recentes ataques contra os jornais disparados dos mais altos gabinetes da República - ataques devidamente rechaçados por jornalistas e empresas de comunicação - talvez nos façam perder de vista que há, sim, problemas graves na imprensa brasileira. É natural que, sob agressão de autoridades, editores e repórteres se unam para se defender e reafirmar sua liberdade. É natural, compreensível e até mesmo necessário. Isso não significa, porém, que os órgãos de imprensa não estejam, permanentemente, sob exame implacável - não do poder, mas do público. E que não tenham defeitos. Todos os dias o trabalho dos jornalistas passa pelo crivo da sociedade, que os julga sem coleguismo nem condescendência. Todos os dias surgem sinais de desconfiança, aqui e ali. Prestemos atenção a isso. Muito se diz que sem imprensa livre não há democracia, mas será que a nossa imprensa, hoje, está à altura dos desafios que pesam sobre a nossa democracia?

Jornalistas deveriam fazer-se essa pergunta diariamente. Principalmente agora, quando caminhamos para o segundo turno. Aliás, essa pergunta deveria ser afixada, em letras de mármore, em néon, em reluzentes letras garrafais, nas paredes de todas as redações. Em corpo menor, logo abaixo, poderiam vir outras indagações.

A imprensa tem sido capaz de esclarecer os pontos que interessam no debate eleitoral? Ela investiga, escuta, apura e checa as propostas de cada candidato com independência e honestidade? Ela compara? Ela ajuda o eleitor a comparar? Ela está a serviço de que o cidadão forme livremente o seu ponto de vista ou se move apenas com o propósito de doutriná-lo a favor de um ou outro lado? Quando assumem uma posição, as publicações deixam claras as razões que as levaram a isso? Ou apenas disfarçam de informação objetiva as suas opiniões subjetivas? Lendo o noticiário, os artigos de opinião e os editoriais, o cidadão percebe que há boa-fé ou pressente agendas ocultas, não declaradas, que o deixam inseguro e desconfortável?

O diagnóstico da qualidade editorial de cada órgão de imprensa depende, entre outras, das respostas que se seguem a cada uma dessas interrogações. E aqui chegamos ao ponto. Essas respostas serão mais (ou menos) positivas quanto mais (ou menos) cada redação cultivar o valor do pluralismo.

A palavra anda em desuso, é verdade, mas sem pluralismo não há democracia - e muito menos imprensa. Por certo, nenhum jornal pode assumir o dever de publicar igualmente todas as opiniões e todos os pontos de vista de todas as pessoas. Isso seria loucura - ou hipocrisia. Uma fórmula editorial é sempre um corte, uma escolha arbitrária, e não há nada de errado nisso. Porém, mesmo dentro do seu corte, da sua escolha editorial, um órgão de imprensa há de saber que sua credibilidade decorre justamente do respeito que reserva às opiniões divergentes. Uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma. Já temos história suficiente para saber que o vício da intolerância não consegue apagar o intolerado - apenas desacredita o intolerante. É ele, não sua vítima, que perde autoridade.

Enquanto o poder autoritário se fortalece à medida que suprime a discordância, a imprensa livre se fortalece apenas quando alimenta o dissenso, a diversidade. Se no totalitarismo as discordâncias não têm lugar, na imprensa livre o que não cai bem são os ideários monolíticos, inflexíveis. Não por acaso, o discurso jornalístico tem um gosto natural pelo contraditório; ganha brilho, vigor, quanto mais dialoga, ainda que em termos duros, com a pluralidade dos pontos de vista. Respeitosamente, por certo. Jornais e revistas que não sabem disso morrem. Às vezes, começam a morrer sem perceber, sem aprender que ter uma opinião não implica fazer de conta que outras opiniões não existem, ou sem fazer de conta que elas são ridículas. Quem faz de conta nesse jogo, é bom repetir, morre.

É por isso que liberdade de imprensa é sinônimo de imprensa com liberdade. Ou não é liberdade de imprensa. Instalada no poder, a intolerância põe em risco a democracia. Instalada na imprensa, põe em risco a própria imprensa. É suicídio. Em poucas palavras - aqui onde já há muitas -, o jornalismo só prospera se souber desenvolver uma escuta sincera, interessada e aberta às vozes e aos pensamentos divergentes. Quem sabe ouvir os divergentes - sobretudo se não concorda com eles - ganha pontos no placar da credibilidade e na condição legítima de mediar o debate público. Uma publicação em que o contraditório não se acomoda bem é uma publicação que não se acomoda bem na sociedade pluralista.

É claro que cada diário, cada revista e cada site terão um modo particular de responder a esses desafios. A receita não é universal, ainda bem. Mas, de todo modo, hoje boa parte dos problemas graves da imprensa brasileira tem que ver com esta palavra em desuso: pluralismo. Tem que ver não exatamente com tolerar, mas com prestigiar as posições divergentes, pois não basta publicá-las, é preciso realçar nelas o que há de bom e de positivo.

A frase mais que famosa de Voltaire - "não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las" - vem agora em nosso socorro. Não que haja necessidade, aqui, de uma fala trágica, retumbante. Só precisamos de serenidade. Se me for permitida uma breve confidência, estritamente pessoal, digo que nunca fui chamado a sacrificar heroicamente a vida em prol da liberdade de alguém com quem eu não concordasse. Tive apenas de sacrificar um ou dois empregos, que nem eram grande coisa. Outros jornalistas, melhores do que eu, sacrificaram mais. É da regra do jogo. É e será.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[CC] MEMÓRIAS SONOLENTAS PARA ELEIÇÕES VIOLENTAS



::txt::Eugênio Bucci::

Nas eleições que correm, alguns veículos declararam seu apoio a um ou a outro candidato ao Planalto. Primeiro foi a revista CartaCapital, que afirmou sua preferência por Dilma Rousseff. O diário O Estado de S.Paulo, no domingo (26/9), manifestou-se favorável ao candidato tucano, José Serra.

Há um frisson em torno do tema. Mais que frisson. Os cabos eleitorais se excitam, exaltam-se, gritam de punhos cerrados, socando o ar. Acreditam que, com seus decibéis a mais, desmascaram as "mídias" tendenciosas que, finalmente, deram nomes a seus próprios bois. Discursam com fúria justiceira.

E vã. Rigorosamente, ninguém deveria perder muito tempo com isso. Desde os tempos da máquina de escrever, ou mesmo antes, desde os tempos do Lívio Xavier, de Rui Barbosa, e mais longe ainda, desde as eras de Hipólito da Costa, jornais no Brasil e no mundo tomam partido num debate ou noutro, às vezes discretamente, outras vezes com alarde. Também em eleições, claro. Há diários que cerram fileiras com um partido e não nominam candidatos. Outros, menos reservados, personalizam a questão e pedem voto num sujeito de carne, osso, nome e sobrenome. O que não contraria em nada a tradição jornalística. Desde que não contamine a cobertura honesta dos fatos, um editorial de apoio a uma campanha (cívica, eleitoral, militar, desportiva, o que for) não mata a credibilidade de ninguém. Antes o contrário: declarar abertamente a preferência partidária, ao menos nas condições normais de temperatura e pressão, é uma forma de jogar mais limpo com o leitor.

Só o que é preciso é saber que não estamos diante de um imperativo incontornável. A imprensa conhece mil maneiras de se posicionar – ou de não se posicionar. Mil maneiras e mais outras mil. Só é preciso saber que os jornais têm o direito de declarar ou de não declarar em quem os seus dirigentes pretendem votar, assim como têm também o direito de não declarar coisa alguma. A declaração de voto não é obrigatória, assim como não é errada. Um diário pode, com toda a legitimidade, preferir não tomar partido – ainda que sua cobertura sugira uma inclinação para esse lado ou aquele lado da disputa. Se essa inclinação ferir ou frustrar a justa expectativa dos leitores, o problema é desse jornal. Ele terá que pagar o preço pelas forçadas de mão.

Não há neutralidade na imprensa, já se sabe desde a invenção da escrita. O que pode haver, se quisermos ser otimistas, é um pouco de objetividade (no sentido de fazer com que o relato decorra mais do objeto que é a pauta e menos do sujeito que a escreve). O que pode haver é boa fé. O que pode haver é transparência. Agora: declarar voto não é sinônimo automático de transparência. Assim como é possível mentir dizendo só (fragmentos d’) a verdade ("a verdade é seu dom de iludir"), é possível ser opaco e traiçoeiro declarando voto a todo momento.

Nessa matéria, vale repetir, não há receita universal. A única receita é o respeito pela autonomia de cada um e pelo público leitor. Cada órgão jornalístico é autônomo para decidir sobre o modo de se conduzir – e a instituição da imprensa será tanto mais saudável quanto mais diversidade comportar. No mais, cada um que resolva o pacto que quer firmar – e respeitar – com o seu público. É assim que funciona. Aliás, é só assim que funciona.

Essa confusão dos diabos

Bem, mas, se é assim, por que o frisson inútil?

Em parte, porque as paixões partidárias, na falta de outras, apimentam o ambiente, e o pessoal se diverte. É mais ou menos como ir brigar num fim de baile na cidade de Igarapava, às três da manhã. Falta de sono. Falta de coisa melhor para fazer. Há uma certa sanha hormonal nessa história, embora as ideologias não se saibam porosas aos hormônios. O sujeito se inflama – e com isso experimenta um gozo que julga ser secreto. O outro fala em golpismo e se vê virando estátua no museu da revolução. Um terceiro se dá ares de indignação santificada, e surge aquele que se pretende imolar nas rotativas. A coisa toda é imaginariamente sangrenta, mas, no fundo, a coisa toda é muito mais simples. É natural, quero dizer, essa gritaria cheia de afetações fundamentalistas de um lado a outro, essa teatralização tanto dos que vêem atentado contra a democracia numa manchete e como dos que vêem golpe de Estado nos desaforos que o presidente da República pronuncia – tudo isso é natural, ainda que artificial. É do jogo, ainda que possa ferir a regra do jogo. Está na conta, ainda que subtraia quando prometa somar. É previsível, ainda que nos pregue sustos.

As ondas de raiva irrompem porque a polarização foi longe demais. Nem tão longe como na Venezuela, mas foi longe demais entre nós. Falta-nos serenidade. Tanto nos falta que, nesse momento, quem defende a serenidade passa por demagogo. Eu, como partidário convicto do movimento minoritário pela serenidade, ainda que demagógico, insisto: nada de novo sob o sol.

As lembranças que nos escapam

Não estou bem certo se já disse isso nos parágrafos anteriores, mas já faz muito tempo que jornais tomam partido em eleições. Deveríamos puxar pela memória, se é que temos alguma, e deveríamos pegar mais leve.

Eu me lembro que, em 2000, o mesmo Estadão que agora vai de Serra, foi de Marta Suplicy quando ela disputou a prefeitura de São Paulo contra Paulo Maluf. O meu ponto forte não é a memória – é o esquecimento. Não obstante, eu me lembro bem desse editorial, e fui buscá-lo em arquivos que estão aí à disposição dos mortais comuns. Era um bom editorial, aquele de dez anos atrás. Vamos a ele, ou, melhor, retornemos a ele. Ou, melhor ainda, retornemos a algumas passagens dele. Foi publicado na edição de 3 de outubro de 2000 de O Estado de S. Paulo.

"Um balanço positivo

"A ida de Paulo Maluf ao segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo – por uma diferença de 7.691 sufrágios, em mais de 5,5 milhões de votos depositados – é apenas uma ofuscante exceção nos resultados que – tomados em conjunto – podem ser considerados auspiciosos do pleito de domingo.

"O primeiro deles foi o pleno êxito da informatização do processo em todo o território eleitoral. Trata-se de uma verdadeira proeza, dadas as dimensões e a diversidade do País e o baixo índice de escolaridade da maioria do eleitorado brasileiro. Graças à votação e à apuração eletrônica, a fraude eleitoral foi, afinal, definitivamente riscada do mapa político brasileiro. Esse, literalmente, é um acontecimento histórico.

"Auspiciosos também podem ser considerados os resultados apurados pelo TSE nos médios e grandes municípios, nos quais se concentra a grande maioria do eleitorado, na medida em que não deixam qualquer dúvida sobre o amadurecimento da sociedade brasileira. Embora tivesse todos os motivos para fazê-lo, o povo não deu as costas à política, nem votou a esmo, apenas por obrigação, como se os candidatos fossem todos ‘farinha do mesmo saco’. Dando uma demonstração de discernimento que desmente os eternos céticos, para os quais ‘o povo não sabe votar’, os eleitores escolheram candidatos e partidos segundo critérios pragmáticos, estritamente vinculados à aspiração de ver melhoradas as condições de vida em suas cidades.

(...)

"Se o PT colheu bons resultados nos municípios com mais de 200 mil eleitores, onde haverá segundo turno, é exatamente porque, em vez de ‘federalizar’ o pleito municipal, os candidatos petistas colocaram a ética no topo de suas propostas eleitorais. Outros partidos também fizeram praça dos compromissos com a moralidade administrativa, mas o PT teve a respaldá-lo uma inequívoca tradição de combate às maracutaias com o dinheiro do contribuinte e de honestidade no exercício de cargos executivos.

"Mais de 2,1 milhões de paulistanos deram à petista Marta Suplicy 38% dos votos válidos porque ela e seu partido passaram a ser percebidos como a encarnação do antimalufismo. Outro não foi o motivo pelo qual o PT acaba de conquistar 16 cadeiras na Câmara Municipal de São Paulo (ante 10 há quatro anos), enquanto o PPB de Maluf, que elegera 19 vereadores em 1996, agora não foi além de 5. É pouco provável, porém, que o PT tivesse se saído como se saiu desta vez, pelo País afora, se o seu empenho em defesa da ética no governo continuasse a coexistir com o sectarismo e o rancor radical que dele sempre afugentaram parcelas ponderáveis do eleitorado.

"O PT vitorioso anteontem, a rigor, é ‘o PT que diz sim’: ao menos na esfera municipal, seus candidatos procuraram abrir-se ao diálogo, prometeram sepultar preconceitos, trataram de apresentar soluções inovadoras e, ao falar em ‘austeridade’, referiam-se não apenas ao manejo honesto dos recursos, mas também à administração responsável das finanças públicas –contra o que se insurgem, em escala nacional, os interesses corporativos cuja expressão política por excelência ainda é o próprio PT.

"Seja como for, o ‘centro civilizado’ de São Paulo, para quem o PT raramente é a primeira escolha eleitoral, só pode dar o seu voto a Marta Suplicy no segundo turno, ainda que nada haja em seu currículo que garanta sua competência como administradora da coisa pública. Entre ela e Maluf, o eleitor preocupado com a moralização dos costumes políticos não pode hesitar. 

(...)

"São Paulo espera do governador Mario Covas e do PSDB a grandeza de uma manifestação imediata em apoio da candidata contra quem o político ‘nefasto’ – a expressão é de Marta Suplicy – recorrerá a tudo nesta segunda campanha."

Além de apoio, voto de confiança

Foi um editorial que marcou meu precaríssimo reservatório de lembranças. Um editorial favorável ao PT. Favorável à defesa da bandeira da ética na política, àquela época encarnada no PT. E a boa vontade dos editorialistas do jornal voltou à carga logo após o segundo turno, no dia 1º de novembro de 2000, num outro texto marcante.

"Crédito de confiança

"Se, por uma fatalidade, o candidato Paulo Maluf – que representa tudo o que este jornal repudia em matéria de costumes políticos e administrativos – tivesse vencido a eleição para prefeito de São Paulo, ainda assim o Estado iria torcer para que ele fizesse um bom governo, apesar dos justificados receios de que essa esperança dificilmente se concretizaria. Isso porque, como já assinalamos outras vezes neste espaço, os princípios pelos quais se orienta a linha do jornal excluem qualquer desejo mórbido de que fracassem os governantes dos quais diverge, descalabro. Se assim é, só cabe fazer votos para que se confirmem as expectativas favoráveis dos eleitores dos novos prefeitos do PT, não obstante as profundas diferenças ideológicas que sempre nos separaram do partido.

(...)

"Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, (...), respondendo a uma pergunta sobre os limites das negociações que manterá com os vereadores paulistanos disse: ‘Não farei nada que não possa sair na imprensa.’ Pode ser – apenas pode ser – que algo de muito novo esteja começando em São Paulo. A nova prefeita de São Paulo vem mostrando boas atitudes."

(Engraçado como o tempo passa e ao mesmo tempo não passa. Enquanto escrevo estas maltraçadas, vejo Maluf, ele mesmo, no horário eleitoral: "Bias abigas e beus abigos". Nada de novo sob o sol.)

Voltando ao ano 2000, pelo que me lembro, naquele tempo, não se falava em "golpe" – embora, como avisei há pouco, se não me falha a memória, a memória não seja exatamente o meu forte. O jornal deu sua opinião. Cravou sua posição. Apoiou uma candidata, apoiou-a resolutamente. Também não me recordo de registros de que tenha sido acusado, por isso, de distorcer seu noticiário. Os tempos mudam. As pessoas mudam. O humano esquece. Eu é que, justamente por não ser bom de memória, às vezes me esqueço de esquecer.

Um post scriptum em sentido inverso

As investidas de Lula contra os jornais foram tão contundentes, tão perfuro-cortantes, que roubaram a cena. Roubaram, digo, com todo o respeito. Por terem roubado (com todo o respeito) a cena, saiu de cena a comparação entre Dilma e Serra, que são os dois concorrentes aptos a receber votos. Mas se a nossa memória nos lembrasse de que são eles, Dilma e Serra, que disputam o voto, nós iríamos comparar um com o outro, também no que se refere ao trato com a imprensa.

O resultado da comparação seria engraçado. Muito se acusa a candidata Dilma Rousseff de querer censurar jornalistas, mas, no plano dos fatos, é José Serra quem briga com repórteres. Ele já interpelou agressivamente jornalistas da TV Brasil, alegando que as perguntas eram orientadas eleitoralmente, como no episódio de falta d’água em São Paulo (foi numa terça-feira, 9 de fevereiro de 2010). Antes e depois disso, foi protagonista de outros atritos.

Em setembro, no dia 15, uma quarta-feira, quem apanhou foi a jornalista Márcia Peltier, na gravação do programa Jogo do Poder, da CNT, se a memória não me sabota. Ela indagava sobre a quebra do sigilo na receita e sobre o mau desempenho do tucano nas pesquisas, e o tucano perdeu as estribeiras. Conforme relato do repórter Marcio Allemand, no site de O Globo, Serra afirmou que estavam "perdendo tempo" ali com a repetição de "argumentos do PT" que são "fajutos". Houve uma interrupção na gravação, que foi retomada em seguida, depois de breve diálogo, sem holofotes nem câmeras.

Apenas para que fique anotado: em matéria de fustigar a imprensa, o presidente da República segue imbatível, mas, quando se compara o candidato do PSDB com a candidata do PT, Serra dá sinais de ser bem menos paciente com entrevistadores que o contrariem. No entanto, é ela quem leva a fama. Ah, sim, a memória me avisa que foi o programa de governo dela, e não o dele, que, nas primeiras versões, atacava o jornalismo. Mas depois o trecho de media criticism do programa de Dilma foi deixado de lado. Foi esquecido. Alguém se lembra?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

[cc] O SERTÃO VAI VIRAR MAR



::txt::Carlos Brickmann::

Dizem que Rudolf Hess, por muitos anos o segundo homem da Alemanha nazista, quando morreu foi logo ao inferno, para encontrar-se com Hitler. Diante da pergunta a respeito das coisas na Terra, respondeu: "Führer, o senhor não vai acreditar. Os alemães estão fazendo negócios e os judeus estão fazendo guerra".

Ou, como diria Sebá, o último exilado, grande personagem de Jô Soares, "vocês não querem que eu volte". Pois não é que o Clube Militar promoveu um encontro sobre liberdade de expressão e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo abrigou uma reunião contra a imprensa?

Está bem, não é "contra a imprensa". É "a favor da democratização da comunicação", contra "a velha mídia", "a imprensa golpista", "os que tentam o golpe midiático", "os jornais que assumiram o papel de partidos políticos de oposição". Em outras palavras, aqueles meios de comunicação que vivem inventando factóides a respeito de irregularidades no governo – factóides tão sem pé nem cabeça que o governo passou uma semana demitindo parentes da ministra-chefe da Casa Civil; factóides tão ridículos que a ministra anterior, Dilma Rousseff, disse que não tinha nada a ver com sua sucessora, e o presidente Lula, além de garantir que foi traído, afirmou que quem tenta se aproveitar de favores oficiais sempre acaba sendo surpreendido e derrubado.

O mais curioso, entretanto, é o que se entende por "democratização da comunicação". O PCdoB, por exemplo, partido comunista que segue a vertente chinesa, será favorável à democratização da comunicação? Há algum país comunista, linha soviética, chinesa, albanesa, norte-coreana, cubana, em que haja essa "comunicação democrática" que nos sirva de exemplo? Dizem que existe comunicação democrática, sim: todos têm acesso à mesma informação. E ai deles se não tiverem.

Mas sigamos o que diz o próprio manifesto que convocou a manifestação: "Vamos dar um basta às baixarias da direita!" Aonde foi parar o arco democrático? PCdoB pode, mas Cláudio Lembo não pode? O evento se proclamou pluripartidário – desde que só participe gente de esquerda. E que é ser de esquerda? Parece que o partido de Marcelinho Carioca, de Gabriel Chalita e de Paulo Skaf é de esquerda, tanto assim que uma representante do PSB fez um discurso muito aplaudido. Parece que o partido de Aldo Rebelo, porta-voz da bancada ruralista no Congresso, é de esquerda, porque foi um dos organizadores da manifestação. Parece que Ney Santos, aquele ex-presidiário que é dono de postos de gasolina, carros Ferrari e patrimônio de R$ 50 milhões, também é de esquerda, porque seu partido, o PSC de Régis de Oliveira (o vice de Celso Pitta), está coligado nacionalmente ao PCdoB e ao PT. Ou talvez não seja, porque em São Paulo apóia o PSDB de Alckmin e Serra. Só mesmo um profundo estudo ideológico poderá resolver o problema.

E, naturalmente, temos o astro maior dessa coligação marxista da linha Groucho: o revolucionário midiático Tiririca, do PR. Seus votos ajudarão a eleger não apenas Valdemar Costa Neto, líder de seu partido, idealizador de sua candidatura, mas também o pessoal do PT, PCdoB, PSC. É isso aí! E Netinho na cabeça, como já comprovaram alguns repórteres e também sua aterrorizada ex-mulher.



O nome das coisas

Há muitos e muitos anos, o grande Saul Galvão dizia que, para saber que o interlocutor era comunista, bastava prestar atenção no que dizia: chamava a Rússia de União Soviética e caboclo de camponês. Hoje a linguagem ficou mais requintada: para identificar um progressista, é preciso observar se chama a imprensa de "mídia", Fernando Henrique de "FHC", oposição de "golpismo", reportagens sobre irregularidades no governo de "factóides" ou "sensacionalismo". Importante: isso vale se as irregularidades ocorrerem no governo federal. Se envolverem governos estaduais de partidos que se opõem ao presidente Lula, não são espúrias: são é escondidas pela mídia, que nada divulga a esse respeito. (A propósito, como é que tomaram conhecimento dessas notícias? Bingo! Pela imprensa).



Cadê o meu?

Alguns colegas foram ainda mais longe do que a "democratização da informação": defenderam, nos acirrados debates provocados pela manifestação contra a imprensa dentro do Sindicato dos Jornalistas, a estatização dos meios de comunicação. OK, para eles deve ser bom: é a melhor maneira de conseguir emprego para quem não o consegue sem QI nem parentes importantes e bem situados na máquina.



Millôr, sempre Millôr

A propósito, a tese de que jornalismo é oposição não é da Associação Nacional de Jornais, nem da "velha mídia golpista": é muito mais antiga. Quem melhor a formulou foi Millôr Fernandes – que enfrentou a ditadura, que não pediu indenização por sua luta, que há muitos e muitos anos é um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros: "Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados". A imprensa tem de ser crítica, e portanto é objetivamente oposicionista. Mas tem de ser crítica seja Fernando Henrique o presidente, ou Lula, Dilma, Serra ou Marina. Um meio de comunicação pode tomar posição, nas eleições, declarando seu candidato. E, se esse candidato for eleito, será crítico do mesmo jeito.

Não, os meios de comunicação não devem se limitar a noticiar. Devem analisar, devem pesquisar, devem descobrir como é que as coisas acontecem, devem ser críticos. Devem ficar perto das autoridades o suficiente para obter informações e tão longe quanto possível para evitar contaminações. Imparcialidade quer dizer que isso se fará com qualquer governo, seja qual for.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

[agência pirata] POR UM PINGO DE SERENIDADE



Manchete 1 da edição do jornal carioca Extra desta sexta-feira: "Bonito, hein, Lula... - Essa é a manchete para os que acham que o dever da imprensa é fiscalizar o governo..."

Manchete 2: "Lula é bonito - Essa é a manchete para os que acham que o papel da imprensa é bajular os donos do poder..."


::txt::Eugênio Bucci::

Por iniciativa pessoal do presidente da República, a imprensa vai se convertendo em ré nesta campanha eleitoral. Nos palanques, ele vem investindo agressivamente contra ela. Diz que vai derrotá-la nas eleições. Lula grita, gesticula, fala com muita virulência. Por que será?

É difícil de entender. Ele sairá consagrado de seus dois mandatos. A aprovação popular que o eleva às alturas é um feito sem precedentes. O clima no País é de otimismo. Os indicadores econômicos, em sua maioria, atestam expansão, crescimento, solidez. Sua candidata ao Planalto lidera as pesquisas com imensa folga. Por que, então, todo esse ressentimento?

Uma ministra da Casa Civil acaba de sair da Pasta porque reportagens revelaram irregularidades graves em torno dela. As notícias que a derrubaram eram mentirosas? Se não eram, por que a demissão (dela e de outros)? Agora: se a demissão procede, por que tanta raiva?

É compreensível, isto sim, que as autoridades guardem mágoas do noticiário. Quem já exerceu cargo público, ainda que de projeção modesta, sabe que a leitura diária dos jornais é uma roleta-russa macabra: de repente, vem lá uma bordoada envolvendo o nome do sujeito em maracutaias das quais ele jamais ouvira falar. Dar de cara com esse tipo de aleivosia é das piores experiências que existem (para quem tem vergonha na cara, vale lembrar). Além de despreparo técnico, que leva as reportagens a confundirem deselegância com ilicitude, assim como confundem mandado com mandato, há também o despreparo humano, emocional, o desrespeito aos semelhantes, o preconceito mais deslavado. Tudo isso é lamentável. Mas tudo isso se refere à dor da pessoa física. O estadista, por dever de ofício, não pode permitir que sua dor pessoal conduza suas atitudes como chefe de Estado. Simplesmente não pode.

Lula sabe disso. Ele sabe disso muito mais do que todos nós. E, também por isso, é difícil aceitar e entender a brutalidade dos seus ataques aos jornalistas. Mas, se nos esforçarmos, podemos encontrar uma linha de explicação.

Ela começa pela necessidade de blindar a candidatura de Dilma Rousseff contra reportagens que possam minar o voto de confiança que ela vem recebendo nas pesquisas. Para isso, Lula caracteriza a imprensa como "partidos de oposição". Ele iguala o discurso jornalístico ao discurso da oposição e, na sequência, conclama os eleitores a "derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos". Eis a fórmula da blindagem necessária. Portanto, o movimento teatral de Lula é estritamente racional, calculado. E faz sentido.

O lastro eleitoral de Dilma vem de Lula. Se o mesmo Lula amaldiçoa os que a criticam, desqualificando-os um a um, pode, além de lastreá-la, vaciná-la contra as críticas. Esse é o sentido eleitoral do discurso do presidente. A logística é bem simples. Primeiro, ele afirma que certos "jornais e revistas" não são imprensa, mas "partidos de oposição". Assim, joga-os no descrédito. Se são partidários, merecem a mesma confiança que os partidos da oposição (embora o governo demita autoridades cujas condutas foram reveladas suspeitas por esses mesmos jornais e revistas, ou seja, na prática, o governo lhes dá crédito, mas no discurso tenta desmoralizá-las). Em seguida, Lula cuida de se afirmar democrata: "A liberdade de imprensa é uma coisa sagrada." Portanto, ninguém pode acusá-lo de autoritário. Imediatamente, porém, estabelece condições para a liberdade. "A liberdade de imprensa não significa que você possa inventar coisas o dia inteiro." (...) "Significa que você tem a liberdade de informar corretamente a opinião pública, para fazer críticas políticas, e não o que a gente assiste de vez em quando."

Claro: o raciocínio tem problemas sérios. Lula cumpre o seu objetivo eleitoral, sem dúvida. Mas a que preço? Ao preço de promover o engano e a discórdia.

O engano. Lula faz crer que liberdade existe apenas para os que informam "corretamente". Não é bem assim. A liberdade de imprensa inclui a liberdade de que veículos impressos - que não são radiodifusão e, portanto, não dependem de concessão pública - assumam uma linha editorial abertamente partidária. Qualquer órgão impresso (ou na internet) pode, se quiser, fazer oposição sistemática. A liberdade não foi conquistada apenas para os que "informam corretamente", mas também para os que, na opinião desse ou daquele presidente da República, não informam tão corretamente assim. Se um jornal quiser assumir uma postura militante, de cabo eleitoral histérico, e, mais, se quiser não declarar que faz as vezes de cabo eleitoral, o problema é desse jornal, que se arrisca a perder credibilidade. O problema é dele, só dele, não é do governo.

A discórdia. Alguém poderá acreditar que cabe ao Estado definir o que é "informação correta" e, com base nessa crença, poderá pedir a perseguição estatal de órgãos de imprensa. Seria tenebroso. Não cabe ao Executivo, ao Legislativo ou ao Judiciário definir o que é "informação correta". Isso é prerrogativa do cidadão e da sociedade. Que setores da sociedade protestem contra esse ou aquele jornal faz parte da vida democrática. Às vezes, é bom. Pode ser profilático. Agora, que o governo emule, patrocine ou encoraje esses movimentos é no mínimo temerário.

Enfim, é possível entender o tom furibundo do maior eleitor de Dilma. É possível, também, criticá-lo. A pessoa do presidente tem direito de se irritar com o noticiário. Tem até o direito de processar jornalistas. Mas o chefe de Estado não deveria semear o ódio, conclamando o povo a "derrotar" órgãos de imprensa. Não que isso ameace a ordem democrática. Não exageremos. Temos ampla liberdade de expressão no Brasil. Mesmo assim, vale anotar: essas declarações presidenciais, ainda que explicáveis, são inaceitáveis.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O CASO ELISEU SANTOS



#over12
Ainda bem que existe Ministério Público

txt: Tiago Jucá Oliveira

Talvez você que não é daqui do Rio Grande do Sul esteja por fora do caso Eliseu Santos. Não tenho muita paciência pra explicar, então é um texto dirigido a nós gaúchos. Mesmo assim cabe um resumo: um secretário da prefeitura de Porto Alegre é assassinado, e em pouco tempo a polícia dá o caso como encerrado, ao explicar que foi um assalto seguido de morte. Os suspeitos foram detidos, e nossa brilhante imprensa engoliu a versão e também deu como esclarecido o caso.

Uma coincidência não quis calar. Eliseu havia recebido ameaças de morte na mesma semana em que morreu. Facto que não recebeu muita atenção da polícia e imprensa. E é ae onde quero chegar. A polícia é incompetente ou quis abafar o caso? Não duvido que sejam ambas as coisas. E até entendo, embora não compreenda a que pontos chegamos.

O pior é a imprensa da província. Estão sempre com câmeras escondidas pra meter no cu de algum pobre coitado que vende vale-transporte na Rua da Praia, e agora se comportou de maneira vergonhosa. Cadê os jornalistas investigativos? Nós, da imprensa nanica, não temos condições pra desvendar um caso como este. Esse papel caíria bem pros fotonaldos da vida.

O ridículo disso tudo é que a mídia se calou, aceitou a versão oficial e ecoou o caso como definitivo e encerrado. Incompetência ou submissão? As duas coisas, creio eu. Nossa sorte que sempre há algum promotor do Ministério Público com a pulga atrás da orelha, que sustenta que é crime político. Até a torcida do Flamengo já sabia disso!

segunda-feira, 22 de março de 2010

O PIG TAMBÉM MANIPULA

#mandachuva

txt: Tiago Jucá Oliveira

Com a aproximação das eleições, algum setores da imprensa começam a perder a compostura, o senso crítico e inclusive faltam com a razão. Beiram ao ridículo.

O PIG, também conhecido por Partido da Imprensa Governista, virou uma espécie de bajulador do governo federal. Está proibido de criticar a administração Lula-Sarney-Globo. Faça isso e será rotulado de direitoso, golpista ou tucano. Como se a velha direita golpista de 64 não fizesse parte do governo populista da bolsa-esmola (expressão criada pelo Mino Carta, de certo também um golpista). Como se o tucano Henrique Meirelles não fosse o presidente do Banco Central dando seqüência à política econômica que todo banqueiro adora.

Talvez você não conheça Perseu Abramo. Ele é autor do livro “Padrões de Manipulação da Grande Imprensa”. Tudo indica que a imprensa nanica adotou o livro pra manipular também. Há dois tipos de padrões de manipulação em prática no momento pelos jornalistas do PIO: ocultação e inversão dos factos.

O PIG tem ocultado algumas coisas. Oculta Sarney, oculta Henrique Meirelles, oculta o representante dos latifundiários no Ministério da Agricultura e oculta o principal facto: o Ministro das Comunicações chama-se Hélio Costa, braço direito da Rede Globo no estado de Minas Gerais.

Ao ocultar isso, acaba por inverter a sigla pra Partido da Imprensa Golpista com o objetivo de atacar a Rede Globo e outros meios de comunicação. Mas como, cara pálida, que a Globo vai ser golpista? Por que a Globo vai ser oposição ao seu próprio governo? Auto-crítica? Qual razão teria a Globo de derrubar o governo que a levantou após a quebradeira que ela e o país tiveram assim que FHC foi reeleito?

Agora, se Veja, Estadão, Foia di Sampa e Zero Hora criticam o governo, é outra coisa. São revistas impressas, e não concessões públicas. Eles tem todo direito de criticar quem quer que seja. Vivemos num país democrático, e não na Venezuela, Irã ou Cuba, cujos presidentes são super amigos do nosso. Você não vai querer que a Veja apóie o MST, né? A Veja representa uma elite que todos sabem quem é. Mas claro, como ela sabe que grande parte de seus leitores é formada por conservadores (eleitores de FHC, Lula, Serra e Dilma), ela aproveita pra cutucar. Se você não é conservador, não deveria estar lendo essa bosta de revista. Mas não, perde seu precioso tempo lendo e relendo Veja, e depois vai pro twitter que nem uma bicha louca: “PIG”, “Veja é Golpista”. Ridículo, mano!

E ainda há coisas piores. Mestres do jornalismo brasileiro caíram em desgraça com a ala conservadora da imprensa nanica. Cansei de ver porrada pra cima de Marcelo Tas e Arnaldo Jabor. Ninguém pode criticar neste país. O sonho dessa gente é que aqui vire uma Venezuela, com censura a imprensa, restrições à internet e, claro, sem nenhuma luz no fim do túnel, literalmente. O pior apagão, meu amigo, não é o da Dilma nem o atual na Venezueira. É o da cabeça. Te liga, mané!

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