#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 26 de março de 2021

[noé ae] BANDIDOS NA TV

:: txt :: Tiago Jucá ::

É possível fazer jornalismo fora dos padrões comuns de reportagem. Usei muito este argumento quando defendia a não obrigatoriedade do diploma de jornalista para os debates que me convidavam a participar. A maior reportagem escrita até hoje, por exemplo, é Os Sertôes, livro de Euclides da Cunha, um clássico da literatura nacional.

Quando se trata de jornalismo filmado, considero dois filmes como o que de melhor já foi feito no Brasil. E se trata de cinema e não telejornalismo: Ônibus 174, de José Padilha, e Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund.

Bem, considerava os melhores até assistir à Bandidos na TV, série do Netflix, dirigido por Daniel Bogado. A reportagem é sobre um programa de televisão que se passa em Manaus. Canal Livre traz à tela aquelas matérias sangrentas de assassinatos muito costumeiras em várias emissoras do país. Líder de audiência, o programa acaba por consagrar seu apresentador Wallace Souza como um ícone manauara.

Não vou me aprofundar mais no enredo para não dar spoiller. No fim do primeiro episódio você já se surpreenderá com algumas revelações. E perguntará a si mesmo, assim como eu também fiz pra mim, como pude ficar surpreso com tamanha obviedade. É filmado em Manaus, mas poderia se passar num condomínio na Barra da Tijuca. É melhor jair fazendo a pipoca.

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

[agência pirata] O DIPLOMA E O FARO



::txt::Luiz Garcia::

Faço coro com a opinião dO GLOBO contra a proposta de emenda constitucional que restabelece a exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão.

É briga antiga: as empresas jornalísticas insistem no direito de ter em suas redações pessoas com formação em outras profissões - ou mesmo sem curso universitário algum.

Essa posição não significa, o que é óbvio, um desprezo pelas escolas de jornalismo. Muitas delas formam excelentes profissionais, outras nem tanto - o que obviamente é verdade em todos os cursos. Seja como for, é importante ficar bem claro que o diploma universitário sempre ajuda o jovem profissional a conseguir lugar numa redação. Principalmente se ele estudou numa universidade de boa reputação.

Mas não se pode esquecer: em casos não raros, a falta do diploma de curso superior não impede que jovens focas - apelido tradicional dos que se iniciam na profissão - venham a ser excelentes jornalistas.

É claro que a passagem pela faculdade pode ajudar muito. Mas sem garantia: há cursos bons e ruins, como acontece em qualquer profissão. E não é ilógico imaginar que, com o diploma obrigatório, haverá incentivo para a proliferação de faculdades de baixo nível.

Há uma pergunta que merece atenção: por que as empresas jornalísticas, praticamente sem exceção, são contra o diploma obrigatório? Certamente não é por interesse financeiro: os salários dependem da qualidade do trabalho, como acontece em qualquer empresa interessada em prosperar. E os lucros dependem da qualidade do produto.

O diploma de curso superior tem importância nas redações. Elas têm a obrigação, alguns falariam em ousadia, de contar e explicar ao leitor tudo que acontece na cidade e no mundo. Uma equipe que não tenha uma boa quantidade de profissionais com formação universitária - ou com todo mundo com o mesmo diploma - estará sempre em desvantagem na corrida pela fidelidade do leitor.

Temos a ousadia de falar de tudo que acontece, e precisamos de especialistas em tudo, ou quase tudo.

Isso inclui especialidades que não se aprendem em universidade alguma. Como o faro por notícias, algo que ninguém sabe explicar direito, mas podem acreditar: existe mesmo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

[agência pirata] JORNALISMO VOLTARÁ ÀS RAÍZES?




::txt::Jean Scharlau::

O jornalismo pode deixar de ser uma profissão bacaninha, agora que não se precisa nem ter faculdade para exercer, que dirá curso superior. Agora qualquer chinelão pode tentar ser jornalista, basta ter dois olhos, dois ouvidos e uma boca... Que nada, o cara pode ser totalmente cego, surdo, mudo (ainda que não simultaneamente, em princípio) desde que tenha algo de um cérebro que funcione (e talvez um blog, uma zine). Agora o sujeito lá que virá querer se meter a jornalista não terá mais que ler o que seu mestre mandar, nem terá que pagar ao mestre do mestre. Dizem alguns que só assim teremos menos jornalistas amestrados. Mas não é o mestre que amestra os jornalistas, é o dinheiro, rebaixamento que alicia profissionais de todas as categorias.

Muitos mestres agora ficarão ainda mais em minúsculas, coitados, e o máximo que conseguirão é continuar a amestrar a si mesmos e a uns poucos amestrandos... Ah, mas há os Mestres maiúsculos, que nunca dependeram de diplomas e continuarão a dar motivos para que outros queiram aprender. Vários deles dão aulas também em escolas.

Mas eu falava de jornalismo. E Jornalismo maiúsculo, parece-me que é feito primeiro da busca e a seguir da divulgação da verdade. Que diferença faz saber as 20 melhores maneiras de divulgar informação quando o sujeito não se interessa pela verdade ou não é capaz de buscá-la? Curiosidade, sede de justiça e verdade, capacidade de compreendê-las, coragem de revelá-las e brigar por elas não se aprende na escola. Lá se pode aprender a prática com mais método e eficiência. A escola é para o jornalista, mas o jornalista não o é só depois da escola.

Li alguns comentários sobre este assunto onde comparavam jornalista a dentista, para argumentar o quanto é importante o diploma. Já perdi e tive seriamente prejudicados alguns dentes por incompetência, negligência e má fé de dentistas, três dentistas, dois homens e uma mulher, em tempos diferentes, todos os três formados em odontologia. Já fiz também tratamento com dentista “prático” (não formado), que não prejudicou meu sorriso. Eu era bem novo e ele era bem velho. Atualmente, prefiro que dentistas tenham diploma mesmo. Dizem que amigos são os dentes... Principalmente dos dentistas, digo eu. Para o Jornalista, em jota maior, a verdade é a grande amiga e mulher amada. O diploma é só a carteira de motorista, que ele precisa caso queira levá-la a passear de carro.

Quando eu leio uma notícia, eu não me pergunto se quem a escreveu tem diploma. Eu me pergunto se o que está escrito ali é verdade, ou mostra uma bela vista dela. E sempre me pergunto isto porque muitos jornalistas usam a nossa sede, a nossa necessidade de verdade e justiça, para nos empurrar batalhões de mentiras. E isto nada tem a ver com eles terem diploma ou não.

Escrevi este comentário sobre o tema do dia a pedido do Hélio Paz e inspirado também por outros comentários lidos por aí, entre os quais destaco os de Tiago Jucá Oliveira, Nei Duclós, Celso Lungaretti e aqueles relacionados por Idelber Avelar. Neste assunto, Fausto Wolff foi minha Escola. Ele nunca tirou carteira de motorista. Levava sua amada a passear de táxi, de ônibus, a pé...


Atualização das 15 horas: nem todos os textos indicados acima são favoráveis ao fim da obrigatoriedade do diploma. Aqui vão mais duas indicações da pesada, com todo o impacto da liberdade de expressão de quem fala o que sabe, neste caso desde o ventre cerebral da universidade: Wladimir Ungaretti e Ivana Bentes.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

JORNALISMO E CULTURA LIVRE




::txt::Tiago Jucá Oliveira::

(este texto é um esforço cerebral pra pautar minha fala na mesa "Jornalismo e Cultura Livre", que acontece nesta quinta, e que faz parte do FISL 11; na mesa também estarão Rafael Evangelista e Marcelo Träsel)

O que entendo por cultura livre? Pelo nome, diria que se baseia em alguns aspectos para que a denominação seja viável. Para que isso aconteça, é preciso que sejam livres o canal/meio, o emissor/comunicador e a mensagem/conteúdo. E o que vemos é um amplo movimento remando contra a maré, contra essas garantias fundamentais. Um breve panorama dos problemas que atingem essas variantes.

CANAL LIVRE
Rede sem controle e livre, com amplo acesso a população; democratização dos meios de comunicação; liberdade de imprensa; liberdade artística.

Em diversos países, inclusive o nosso, há projetos de lei que visam restringir e controlar a rede. O espaço mais democrático da sociedade moderna está com a liberdade ameaçada. É o caso do AI-5 Digital, do senador tucano Eduardo Azeredo.

Na esfera da radio e teledifusão, a criação de um sistema público não-estatal de comunicação está garantida no Capítulo 5º, Artigo 223 da Constituição.

As rádios comunitárias, reguladas pela Lei 9612/98, levam de cinco a sete anos para ter sua outorga provisória e sofrem pelo menos quatro repressões ao longo deste período. A cada batida da Anatel, equipamentos são roubados, a propriedade coletiva é invadida e comunicadores populares são intimidados e frequentemente presos.

A maior parte das emissoras comerciais de rádio e TV estão com suas outorgas vencidas. Ou seja, são ilegais. Embora estejam fora da lei, continuam a receber patrocínio público e não sofrem repressão da Anatel. Somente aqui na cidade de Porto Alegre, 26 emissoras de rádio e TV não poderiam estar no ar.

LIVRE EXPRESSÃO
Liberdade de expressão e comunicação.

Constituição brasileira, artigo 5º, IX – "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença". A Carta Magna nos dá a liberdade de expressão, e graças a ela acabou-se a obrigatoriedade do diploma de jornalista, porém, há porém, no Congresso tramita a PEC 386-A, de 2009, do nobre deputado Paulo Pimenta (PT-RS). A proposta “altera dispositivos da Constituição Federal para estabelecer a necessidade de curso superior em jornalismo para o exercício da profissão de jornalista.” Ou seja, a liberdade de expressão ficaria restrita e exclusiva a uma elite graduada em jornalismo.

Se essa Proposta de Emenda a Constituição do Pimenta vingar e for aprovada, a sociedade brasileira terá que promover um amplo debate sobre o que é exatamente jornalismo. Blog é jornalismo? O meu blog ou o seu, é jornalismo? Quem vai definir qual blog é jornalismo e qual não é? Se o meu blog for jornalismo, quem vai me fiscalizar e obrigar a ter diploma pra escrever no meu próprio blog? E se o seu não for, quem vai tira-lo do ar?

Como diz o Sérgio Amadeu, a tecnologia já acabou com o diploma de jornalismo, muito antes da sábia decisão do STF. Qualquer cidadão pode hoje montar um blog e nele exercer jornalismo, com reportagens, entrevistas, telejornais, podcasts, fotografias, charges, resenhas críticas, etc.

CULTURA LIVRE
Compartilhar conhecimento; colaboratividade.

Lei número 9.610/98 - Artigo 28: “o autor tem o direito exclusivo de usar, fruir e dispor da obra literária, artística e científica”.

O deputado paulista, Bipo Gê, dos Democrata, propõe uma ementa a essa lei na qual “cria penalidades civis para a baixa, download ou compartilhamento de arquivos eletrônicos na Internet, que contenham obras artísticas ou técnicas protegidas por direitos de propriedade intelectual, sem autorização dos legítimos titulares das obras”, diz o Projeto de Lei 5361/2009.

Assim como é facil produzir conteúdo na internet, é muito mais fácil copiar e reproduzir conteúdo dos outros.

Pensando em compartilhar conhecimento, difundir a cultura, ser colaborativo, é que propus a revista O DILÚVIO adotar uma licença Creative Commons em suas páginas. Todo nosso conteúdo jornalístico está livre, pré-autorizado, para ser copiado, colado, reproduzido, modificado, etc. Acreditamos que a obra jornalística não deve ter dono, e sim autor. E o autor não pode ser dono dos fatos que ele presenciou e narrou. Se determinado fato foi à público, é porque há interesse público nele. Então o fato se torna público, e não proprietário.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

FIM AO AI-5

Associação pede fim do registro profissional para jornalistas

:txt: Mariane Zendron/Redação Portal IMPRENSA

A Associação Brasileira de Jornalistas (ABJ) protocolou, na última segunda-feira (24), uma representação no Ministério Público Federal (MPF) solicitando o fim da emissão do registro de jornalista no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A solicitação é polêmica, pois, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), se a extinção do registro for somada ao fim da exigência do diploma haverá uma perda de capacitação e redução de salários.

O presidente da ABJ, Antonio Vieira, discorda e disse ao Portal IMPRENSA que a medida não prejudicará os jornalistas, ao contrário, fará uma inclusão de pessoas que já exercem a profissão sem o MTB. "Os empresários não vão deixar de pagar um bom profissional só porque ele não tem registro". E completou: "Na era da tecnologia, em que muitos profissionais são independentes e trabalham para sites e blogs no Brasil todo, esse tipo de exigência é retrógrada".

Vieira também afirmou que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que optou pela não obrigatoriedade do diploma para jornalistas, transforma a exigência de registro em uma ação inconstitucional. "O diploma já inclui o fim do MTB", acredita. "Registrar os profissionais é da época da ditatura e age como forma de controle prévio sobre o trabalho jornalístico. Nós somos a favor da liberdade de expressão".

A posicão da Associação é que o Brasil adote o mesmo procedimento usado na Inglaterra. "Lá, uma pessoa com graduação que se destaque em qualquer área pode fazer diversos cursos para poder trabalhar como jornalista".

Apesar de ser contrário ao diploma e registro profissional, Vieira destacou que não condena as empresas que exigem jornalistas formados em seu quadro de empregados. "As empresas têm o direito de querer um jornalista com ou sem diploma em seu quadro de empregados".

Com sede em Brasília (DF), a ABJ foi criada em 2009 por um grupo de mais de cem jornalistas contrários a exigência do diploma. Hoje a entidade conta com cerca de 300 filiados. Para fazer parte, o interessado precisa comprovar ter pelo menos três matérias assinadas em qualquer meio de comunicação e enviá-las para o e-mail da associação. Em seguida, a ABJ envia informações sobre os ideais da entidade e uma proposta de filiação.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

DIA DO JORNALISTA

#mandachuva
Comemorar o que?

txt: Tiago Jucá Oliveira

Um dia li: "médico pensa que é deus; jornalista tem certeza". Aspei a frase para questionar a presunção que os jornalistas tem. Jornalista acredita que vai mudar o mundo. Ninguém vai mudar o mundo, é o mundo que nos muda. Alguns, talvez a grande maioria, ainda tem a soberba de exigir diploma pra se habilitar como o pai todo poderoso que controla o mundo.

É uma data que não há nada a comemorar. A não ser que todas as pessoas fossem consideradas jornalistas, e não só uma elite capaz de pagar pra entrar e sair de uma faculdade. O curso de jornalismo é uma piada. Se você bobear, sai de lá mais filho da puta do que já era.

O que eu e meus colegas fazemos nO DILÚVIO e em outros meios alternativos de comunicação? Tudo, menos mudar o mundo. Eu, por exemplo, só quero viver de algo que curto fazer sem prestar conta a ninguém, de forma independente. Sem censura. E olha que tem muito jornalista a favor do controle das mídias. Aqui é descontrole total, barão!

Você se acha melhor do que a esmagadora maioria do povo por ser formado em jornalismo? Então, neste teu dia, siga o conselho do De Leve: "pegue o seu diploma, e limpe a sua bunda"

assista ao vídeo

segunda-feira, 29 de março de 2010

JORNALISTA ARMANDO NOGUEIRA

#mandachuva
O jornalismo piora

txt: Tiago Jucá Oliveira

O jornalismo e a arte brasileira perdem um de seus poetas, filósofos e mais dinâmicos homens que este país já teve. É difícil pra mim falar de Armando Nogueira, pois não tenho a mesma doçura com as palavras que ele tinha. Mas estou a aprender coisas do tipo "é possível criticar sem ofender e elogiar sem bajular".

Alguns setores da sociedade não devem lamentar a perda do mestre:

1. Os partidos conservadores (aqui no Brasil autodenominados de "esquerda"), pois Armando criou o Jornal Nacional pra Rede Globo.

2. Os retranqueiros que tomaram conta das redações esportivas e das comissões técnicas dos clubes e seleções de futebol.

3. Os medrosos que defendem a obrigatoriedade do diploma. Não sabem ou não querem saber que Nogueira não tinha diploma. Apesar disso, criou o jornal mais assistido da TV brasileira.

Nós, discípulos da arte e do romantismo, vamos sentir falta dele. E sabemos que é cada vez mais difícil ter jornalista e pensadores dessa linha nas redações de grandes jornais e emissoras. Em sua homenagem me atrevo a dizer a seguinte paródia: "se Armando Nogueira não tivessa nascido homem, teria nascido caneta".

quinta-feira, 25 de março de 2010

NEM FUDENDO (ou CARECA BABACA)


#over12
A semana

txt: Tiago Jucá Oliveira

Duas coisas prenderam minha atenção à mídia nesta semana. Putaria da porra! Não sou a favor de câmaras escondidas pra obter informação jornalística. Isso deveria ser função policial. Falsidade ideológica, portanto crime? Somos nós, jornalistas, a polícia? Pergunto. Pois me parece instalado o quarto poder, com alguns poderes especiais. Ou, com o fim do AI-5 do diploma de jornalismo e da exclusividade de geração de conteúdo somente pelas grandes emissoras, uma nova era de cidadania e liberdade de imprensa está a se formar. O quarto poder, de fato: nós, em rede, comunicando e sendo comunicado, nos fiscalizando.

A primeira parte da denúncia que o Proteste Já do CQC fez a prefeitura de Barueri teve esse porém, embora muito mais revoltante foi assistir a pilantragem de nossos políticos em ação, no ato, no flagrante. Acuados pela verdade, tentaram a calar. E conseguiram num primeiro instante. Mas o babaca careca da mídia golpista reverteu a situação. Apesar de várias ações nos últimos meses que nos fazia sentir na Venezuela ou em Cuba, como a censura ao blog do Ungaretti ou a ofensiva contra a liberdade de comunicação por parte da FENAJ, há esperança.

Melhor do que a reportagem enfim ir ao ar, a delícia da noite foi espontaneamente nos dada pelo prefeito da cidade que tem nome em homenagem à uma música dos Os Mulheres Negras. O “babaca careca” que aquele senhor gritava e xingava e rugia não tem preço. Um digno representante da democracia representativa. Rouba, mente, censura e agride.

("Porém, ah porém", como dizia o mestre, "há um caso diferente que envolve toda minha gente": outra cousa também mereceu destaque na mídia, mas aí é papo pra outro texto, ok? Caso Nardoni).

O que também focou meu olhar foi o papel higiênico da Veja, cuja ótica jornalística para o caso Glauco faz crer que o assassino do cartunista é o Santo Daime. Resumi pro micro-povo : “A veja quer culpar o ayahuasca pela morte do Glauco. Então pq não culpar a droga da bíblia pela pedofilia dos padres?”

Sobre os dois casos, recomendo o texto do Alexandre Haubrich e o do Bruno Natal

Daime paciência? Nm fudendo, mano!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

DEM




# gência pirata #
Mensagem aos Democratas

txt: Klauber Cristofen Pires

Hoje li uma mensagem distribuída pela Associação Brasileira dos Jornalistas - ABJ, lamentando o fato de que a Comissão de Constituição e Justiça aprovou nesta quarta-feira, dia 02/12/2009, a PEC nº 33/09, que retoma a obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalista e regulamenta a figura do colaborador, para a publicação de artigos de opinião.

Já tenho dito aos Democratas: entre o PT original e outro, digamos assim, "made in Paraguay", não há dúvida sobre a preferência entre os adeptos do primeiro.

Recentemente, muito feliz estive por conta da valente senadora Kátia Abreu, por ter pela primeira vez questionado a questão da produtividade como fator legitimador do direito de propriedade do imóvel rural. Não sei se por coincidência, mas poucos dias antes eu havia enviado à CNA uma mensagem, que foi publicada em vários sites e blogues, inclusive o meu, LIBERTATUM, eu que eu levantava justamente esta questão, tendo a colocado em planos doutrinários. Eu tenho absoluta certeza que a CNA e a sua presidente, a Sra Kátia Abreu, acertaram, e por mais que hoje tal proposta se distancie do nosso quadro atual, o argumento paulatinamente há de vencer pelo só fato de ser verdadeiro e realmente justo.

O caso acima reflete com clareza que os Democratas têm hoje à disposição uma fonte nascente, firme e próspera da doutrina liberal e dos valores do conservadorismo cristão. Hoje o Brasil conta com vários institutos e dezenas de pensadores, a começar por aquele que não temo em dizer que é um dos maiores sábios da atualidade mundial: o filósofo Olavo de Carvalho. Infelizmente, quanto ainda são desprezados!

Somente com a clareza da boa doutrina liberal na cabeça e com o conhecimento dos passos e das intenções das esquerdas é que os democratas haverão de reverter a preferência da opinião pública, denunciando-as, ao mesmo tempo em que ensinam ao povo sobre a filosofia da liberdade. Chega de jogar o jogo deles! Aprendam pelo menos que a repetição dos mesmos erros não é capaz de transformá-los em acertos.

Na nota da ABJ, que reproduz diálogos havidos na CCJ, salta-me aos olhos que o senador Efraim Morais (DEM-PB) tenha contestado os argumentos do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e enfraquecido a sua posição, assim fornecendo fôlego para que o petista Aluízio Mercadante se sentisse à vontade, com sua lógica peculiar, para atacar mais uma vez as liberdades civis em prol do projeto totalitarista de seu partido.

Somente para início de conversa, pondo a questão em termos jurídicos, que, afinal, é a própria tarefa de uma Comissão de Constituição e Justiça, a liberdade de expressão é ampla (art. 5º, IV e IX) e não admite regulações, pois tem aplicação imediata (Art. 5º, §1º) . Finalmente, qualquer proposta de emenda constitucional tendente a abolir este direito dos cidadãos é nula (Art. 60, § 4, IV) .

Agora, preste atenção, Senhor senador Efraim Morais, e aprendam se tiverem um pingo de consciência os petistas e congêneres: A Constituição é um documento elaborado por homens e mulheres livres. Qualquer restrição de liberdade, pois, é caso de extremo cuidado legislativo, e somente pode ser lançada aos cidadãos em prol da defesa contra um grave perigo para a existência da própria sociedade.

Exemplar e histórica, portanto, a decisão do STF, ao abolir lei que não foi recepcionada pela nova Carta nem por uma vírgula que fosse, por absolutamente imprestável, haja vista que o material de trabalho do jornalista é puramente decorrente do direito amplo à liberdade de expressão.

Ademais, a proposta do Poder Legislativo de propor emenda contrária à decisão da Suprema Corte, logo assim, em ato contínuo, configura o que o jurista Cristiano Carvalho denomina de ruptura da “autopoiese”, isto é, da capacidade de a sociedade poder manter vivo e saudável seu sistema jurídico, por prejudicar o sistema de cheks and balances. O que o Senado neste momento está fazendo é produzir grosso “ruído” na comunicação com a sociedade, que se traduz pelo convite ao desprezo à decisão por parte daqueles cuja missão maior é proteger a Constituição. Em termos mais simples, trata-se de uma afronta à harmonia entre os poderes.

Ora, que perigo há em que jornalistas não diplomados exerçam a profissão? Que alguns cometam erros ortográficos ou gramaticais? Pois todos os dias eu testemunho as piores aberrações nos jornais, e são produzidas por diplomados. Que alguns deles deturpem a notícia? Oras, o Brasil dos jornalistas diplomados é o maior caso de ocultação em massa da notícia, desde há pelo menos dezenove anos atrás, quando decidiram esconder do público as tramas do Foro de São Paulo. Pelo contrário, um famoso jornalista não diplomado, o Sr Bóris Casoy, viu-se desempregado tão somente por perguntar ao candidato Lula sobre a existência do FSP, após ter recebido o pito de que "nem deveria falar na tv sobre uma coisa dessas".

A questão das faculdades de jornalismo não pede a complacência dos parlamentares para os futuros repórteres. Quem o Congresso deve defender? Os direitos de reserva de mercado dos jornalistas diplomados ou o direito da população de escolhê-los dentre os melhores e de maior reputação, e ainda mais do que isto, de expressarem-se cada um dos cidadãos como bem lhes aprouver? Que sejam muito úteis as faculdades, tão úteis que os profissionais da notícia sintam a necessidade de freqüentá-las. Assim nasceram todas as universidades, isto é, a partir de um desejo íntimo sincero e decidido de buscar o conhecimento, casado com uma proposta honesta de oferecê-lo.

A obrigatoriedade do diploma, ao contrário, inverte esta fórmula, fazendo das faculdades umas fábricas de diplomas, a quem os interessados as buscam tão somente com intenção pró-forma, ou seja, tendo em vista obter uma licença para trabalhar, e isto, afinal, vale para todas as outras profissões, exceto aquelas para o qual o perigo para a sociedade é real e estimável, tal como o risco do prédio desabar ou do internado morrer. Não é mais a faculdade que serve à profissão, mas a profissão é que serve à faculdade, nos próprios termos do Sr senador Aluízio Mercadante.

Agora, somente para nos atermos ao caso, justamente para se tornar um ministro da mais alta corte do país não se exige diploma de bacharel em Direito, mas que seja cidadão brasileiro com “notável saber jurídico e reputação ilibada” . Em via contrária, recentemente foi acolhido um novo ministro que, não obstante ostentar o diploma de bacharel e a carteira da OAB, sugere alguma discussão quanto ao seu notável saber, eis que, por duas vezes, foi reprovado em concurso para juiz.

Do exposto, não é o Senhor Demóstenes Torres quem tem que suar a camisa para defender a inutilidade desta coisa que, aprovada, há de reforçar o conceito da sociedade corporativista ou como tenho cunhado, da sociedade de trincheiras. Quem tem que se explicar são os defensores da obrigatoriedade do diploma, este que já tentaram várias vezes ceifar a liberdade de expressão. Estes têm de ser denunciados em alta voz!



Art. 5º, IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;


Art. 5º, § 1º - As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.

Art. 60, § 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: (...) IV - os direitos e garantias individuais.

Cristiano Carvalho. Teoria do Sistema Jurídico - direito, economia, tributação. São Paulo: Quartier Latin, 2005.

Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

LIBERDADE

# agência pirata #

Diploma de jornalista: uma questão já decidida
txt: Judith Brito

Duas propostas no Congresso querem - via Constituição - mudar decisão do STF que considerou inconstitucional a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão

Apesar da recente decisão do Supremo Tribunal Federal de considerar inconstitucional a exigência do diploma universitário de jornalista para o exercício da profissão, tramitam no Congresso duas propostas - uma na Câmara e outra o Senado - cujo objetivo é exatamente incluir na Constituição essa exigência. A exigência do diploma vinha de um decreto-lei baixado pela Junta Militar que governava o Brasil em 1969, no auge da ditadura. Na época, tratava-se de tentativa de dificultar a vida de jornalistas sem o diploma que se manifestavam contra o regime. A perspectiva - felizmente, frustrada - de controlar as escolas de jornalismo também fazia parte do plano. Em junho, o STF decidiu que essa legislação é totalmente incompatível com a Constituição de 88, por ir contra o princípio maior da liberdade de expressão. Agora, pretende-se colocar dentro da Constituição aquilo que a mais alta Corte do país definiu como inconstitucional.

Que fique claro: não há quem seja contra a qualificação dos jornalistas por meio de cursos universitários. Jornalismo é uma atividade nobre, fundamental para a cidadania, pois visa servir a sociedade com a apuração e divulgação de fatos de seu interesse. Quanto melhor preparados os profissionais de jornalismo, melhor para os cidadãos, que terão à sua disposição informações de qualidade para formar suas opiniões, para melhor entender o mundo em que vivem. Os bons cursos de jornalismo, além de ensinar as melhores técnicas para o exercício da profissão nos diferentes tipos de mídia, dão a seus estudantes a formação humanista indispensável para esse papel de interlocução com a sociedade.

Mesmo com a decisão do Supremo, as empresas jornalísticas continuarão a contratar a imensa maioria dos seus profissionais dos cursos de jornalismo. Afinal, se o principal patrimônio de um veículo de comunicação jornalístico é a informação de qualidade, de credibilidade, ele é o maior interessado em ter os melhores profissionais. Tanto é assim que, antes da decisão do Supremo, mas quando já vigorava liminar que desobrigava as empresas jornalísticas de contratarem exclusivamente os formados em escolas de jornalismo, elas prosseguiram na contratação de profissionais com essa qualificação. É assim na maior parte das democracias do mundo, onde não há a exigência do diploma universitário de jornalista para o exercício da profissão, mas existem excelentes cursos de jornalismo.

A decisão do Supremo nada teve a ver com essa questão. Foi uma definição em favor do direito fundamental da liberdade de expressão, que é uma das chamadas "cláusulas pétreas" da Constituição (aquelas que não podem ser mudadas em nenhuma hipótese). Disse o Supremo que a liberdade de expressão não pode ser condicionada de nenhuma forma. Quem quiser ser repórter de um jornal, por exemplo, poderá pretender sê-lo independente da formação que tenha. Da mesma forma que não se pode exigir qualquer condicionamento prévio para quem queira escrever um livro. Esse respeito à plena liberdade de expressão permite que talentos que não tenham diploma de jornalista possam dar sua contribuição ao jornalismo e à sociedade.

Ao definir de forma tão clara e sábia esse alcance da liberdade de expressão em relação ao exercício do jornalismo, o Supremo deu continuidade a outra decisão que havia tomado poucas semanas antes, que foi o histórico fim da autoritária Lei de Imprensa, essa também fruto do regime militar. Naquela oportunidade, o STF já havia apontado o caminho da ampla liberdade de expressão como elemento essencial da democracia brasileira. Houve perfeita coerência entre os dois julgamentos- da Lei de Imprensa e da exigência do diploma- e o coroamento do espírito democrático que queremos para nosso país.

Agora, temos essas iniciativas parlamentares vindo na contramão da história. Na remota hipótese de prosperarem, serão julgadas inconstitucionais pelo Supremo, que já definiu categoricamente a questão. Mais do que isso, contudo, o que espanta é a pretensão de colocar tema tão específico na Constituição, como se ela fosse uma colcha de retalhos, onde cabe tudo: "Já que não pode por lei, vamos tentar na Constituição". O processo legislativo de emenda constitucional não pode ser uma instância a mais de recurso contra decisões do Poder Judiciário. E seria esdrúxulo ter na Constituição uma regulamentação para o exercício da profissão de jornalista, como para qualquer outra atividade profissional. A Carta Maior é um documento de princípios gerais, filosóficos mesmo, e por isso não contém absolutamente nenhum tipo de regulamentação profissional.

Há inúmeras questões que realmente importam no mundo contemporâneo da comunicação e que merecem ações do Legislativo brasileiro, como a da preservação do conteúdo nacional em meio à concentração em âmbito global - tanto de infraestrutura de distribuição quanto de sistemas tecnológicos -, trazida pela nova realidade digital. Não faz sentido e será perda de tempo - diante do claro posicionamento do STF em favor da plena liberdade de expressão - tentar a volta da exigência do diploma para o exercício do jornalismo. Vamos olhar para frente e concentrar nossos esforços e energia na modernização do país e na consolidação dos princípios democráticos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DE VOLTA PARA O FUTURO

# agência pirata #
Proposta de Novas diretrizes curriculares de jornalismo empurra curso para uma concepção reacionária na formação, não percebendo que as novas práticas do fazer jornalístico não passam pelo estágio, mas pela produção autônoma de veículos, que são a cada dia criados e mantidos pela sociedade em rede.

txt: Fabio Malini

Escrevo esse artigo, que trataria da relação das chamadas mídias livres no campo da comunicação social, no momento que sai a proposta das novas diretrizes para o curso de jornalismo. Inevitável mostrar como o cenário do midialivrismo gera reação até onde seria o campo da recepção das novas demandas sociais: a formação acadêmica. De antemão, não há muitas novidades nas diretrizes para o ensino de jornalismo, senão uma tentativa de posicionarem-se diante ao fato cabal de que o campo da comunicação social se tornou mais elástico e rico, e o campo do jornalismo, mais restrito e corporativo. É nessa tensa relação que as diretrizes foram geradas. Novidades radicais: estágio supervisionado obrigatório e separação do curso de jornalismo do campo da comunicação social. O restante é chover no molhado, só atualização às novas necessidades.

No entanto, muitos do problemas dessas diretrizes têm a ver com o fato de nascer fora de lugar, dissociadas das decisões do Supremo Tribunal Federal, que gerou o fim da exigibilidade do diploma de jornalismo, a queda da lei de imprensa e do acórdão que entende a internet como espaço da liberdade absoluta.

As novidades das “novas diretrizes” são um trágico “de volta para o futuro”. Elas apontam muito mais para trás, mesmo que exista uma boa fé daqueles que pensam em estar olhando para frente.

Quem institucionaliza a formação em jornalismo?

Uma questão concreta, um interesse concreto. Aqui na Universidade Federal do Espírito Santo, propomos um novo curso de especialização lato sensu, em jornalismo. O foco é ser uma especialização teórico-técnica aberta a todos os profissionais graduados, como queremos e a justiça também. Ordem do Supremo. Não podemos, por lei, dizer que somente graduados em jornalismo podem fazer o curso de aperfeiçoamento, nível pós-graduação lato sensu, em jornalismo. Claro que também é uma atitude política. Queremos qualificar a formação do campo dos não-jornalistas, graduados em habilitações da comunicação social e outras áreas, que agora são jornalistas, de direito.

Ao mesmo tempo as novas diretrizes permitirão que a graduação em jornalismo não será mais uma habilitação da comunicação social. Nada de delírio sulamericano, pensam alguns, que acreditam que essa coisa de comunicação social é abstrata demais e impede o ensino de jornalismo de focar mais no fazer jornalístico.

Mas veja o nosso caso aqui de Vitória como vai no núcleo da “questão da formação”.

Se um dia, um departamento, como o nosso, propor fazer uma pós-graduação lato sensu de jornalismo, com foco no “campo profissional”, será que o curso/departamento de jornalismo iria dizer o quê? Não, pelo amor de Deus, é só na graduação de jornalismo que aprendemos a fazer fotojornalismo, pelo amor de deus é só na graduação de jornalismo que aprendemos a fazer telejornalismo? As diretrizes curriculares do campo profissional vão impedir cursos de jornalismo lato sensu nas universidades públicas e faculdades privadas desenvolvidos por professores, que são jornalistas, mas que atuam em outros cursos de habilitação da Comunicação Social ou em outras áreas da Humanidades?

Veja que essa idéia de criar um “campo profissional” dissociado de um “campo de conhecimento” pode gerar uma dinâmica de guerra na área. Eu, se estiver num curso de audiovisual ou de economia, para usar exemplos concretos, posso propor um curso de jornalismo em nível de pós-graduação lato sensu, quer o departamentto de jornalismo da minha instituição queira ou não. Eu posso propor, e a instituição superior de ensino aceitar criar um curso de especialização com todas as disciplinas técnicas do jornalismo. E aí, de novo, quem vai me proibir? Ninguém, porque as diretrizes querem separar a formação de jornalismo da área de comunicação no nível de graduação, mas não no de pós-graduação, porque neste o que vale é o fato de jornalismo ser parte do grande campo de conhecimento chamado Comunicação Social. E daí o discurso do jornalismo como apenas campo profissional não cola. Dessa forma, o nosso curso de lato sensu para profissionais “do” jornalismo é absolutamente algo legitimado institucionalmente e traz, de volta, a junção daquilo que a comissão sugere separar: o jornalismo como uma faceta do campo da comunicação social. Eu posso formar jornalistas, graduados em qualquer área, no nível de pós-graduação, independente da formação que o estudante possa vir a ter.

Então, no lugar de fortalecer os cursos de jornalismo, a proposta acaba por criar um conflito entre áreas da comunicação social que pode, em última instância, fragilizar as graduações, senão até acabar com muitas delas, porque, pela lógica, só poderão estar dentro dos cursos de jornalismo graduados em jornalismo. Lembre-se, para comissão, o jornalismo é campo profissional e não campo de conhecimento. Eis aí a primeira volta para o futuro. Enquanto a sociedade radicaliza a comunicação social (pressionando pela ampliação de direitos no campo da comunicação), aqueles que formam jornalistas querem dissociá-los das dinâmicas concretas da sociedade.

Pela lógica, o estágio supervisionado é ilegal

Não podemos esquecer que temos uma dimensão constitucional nova sobre o que é jornalismo. O fim da exigibilidade gerou viúvas, sabemos. E aí, essas diretrizes podem estar é acabando com os cursos de jornalismo, na maior boa fé.

Essa coisa do estágio supervisionado é uma atidude pedagógica reacionária, repressiva, mesmo que, repetindo, exista uma boa fé nisso. Num contexto em que a sociedade produz comunicação (e jornalismo como uma das suas linguagens), como eu vou pedir pro cara que cursa jornalismo e tem um blog indepedente de jornalismo político fazer estágio na editoria de política do jornal local? Como eu vou pedir pro cara que atua num coletivo de jornalismo independente, que mistura, cinema, audiovisual, produção gráfica, computação, sociologia, teoria da comunicação, etc, e ganha uma grana com novas formas de sustentabilidade profissional, a passar pelos “postos de trabalho” da fábrica fordista? Eu, que tenho minha revista online, com 10 mil acessos dia, focada em jornalismo cultural, vou ter de fazer estágio onde? Esses são exemplos reais, pois estamos num cenário de radicalização da comunicação social e de esplendor para o jornalismo. E o pior que nem sou somente eu quem diz isso, é só fazer uma pesquisa básica no Google e encontrar entrevista do editor do Washington Post Philip Bennet, publicada no jornal El Pais, comentando o fato de ter demitido 250 jornalistas nos últimos três anos: “tive que fazer isso com um paradoxo sempre na mente que estamos a viver uma época terrível para empresas de notícias e uma era de ouro para o jornalismo”.

A proposta dessas diretrizes quer – de novo, com a maior boa fé – é retomar a proposta de exigibilidade do diploma, mas só para uma classe de trabalhadores, e pasmem, para os jornalistas. Reparem a lógica. O cara que faz jornalismo terá que fazer estágio. Onde? Nas redações e ambientes institucionais. O estágio poderá ser feito apenas em “instituições” (com curioso detalhe que poderá ser em assessoria de imprensa). De qualquer forma, o estágio recupera a velha concepção da fábrica fordista (estudante primeiro, produtor depois). Assim, o fazer jornalismo fica condicionado, nas faculdades, a um estágio, portanto, dentro das redações (no sentido mais amplo possível do termo, por mais irônico que isso seja, para aqueles que pensam em jornalismo, legitimando o jornalismo de uma fonte só). O cara fica quatro meses, no mínimo lá no local, depois, pé na buzanfa.

Nessa lógica, não pode existir jornalista formado sem residência. Contudo, o que vai acontecer? Só é jornalista graduado aquele que passar pela dimensão corporativo-sindical. Com um avanço (rs), o cara que for fazer estágio não entrará como estudante, mas como JORNALISTA, porque legalmente o ESTÁGIO EM JORNALISMO É UMA FICÇÃO. Com o fim da exigibilidade do diploma, não se pode criar, nas redações, a figura do estagiário. Ninguém sacou que o fim da exigibilidade deixará o sindicato dos jornalistas rico? Então essa de estágio é ilegal nas redações, porque a atuação jornalística não requer diploma e o estudante terá que ser contratado como profissional ou, o pior, ser contratado lá pela organização como um estagiário de serviços gerais, para fugir das normas que regem a legalidade em questão. Com a decisão do Supremo, esqueçam, não pode haver “estagiário em jornalismo”, só jornalistas.

Mas o pior, cômico e trágico ao mesmo tempo: o cara que cursa História poderá fazer jornalismo sem passar pelo estágio. É verdade, poderá. Mas o cara que já é jornalista, e cursa jornalismo, não pode ser jornalista se não fizer estágio. Então, as diretrizes, com todo respeito, pioraram a situação para quem quer fazer jornalismo, porque só é “jornalista quem for fichado”. E o pior: nenhuma redação vai querer contratar o cara, num regime de trabalho CLT, para ficar trabalhando apenas um ano, porque depois vai ter de demitir e pagar todos aqueles encargos que empresário não gosta de pagar (40% de demissão etecetera). O estágio inviabiliza os cursos de jornalismo no país porque, na verdade, não existe mais conceito de estágio em jornalismo. Quem for atuar no jornalismo, por não exigir diploma, precisa ser sindicalizado como tal. Se existe residência em medicina, não haverá no jornalismo. É por isso que os cursos de residência em jornalismo no país não pagavam, e vão continuar a não pagar, um centavo para os nossos estudantes, porque se trata de uma benevolência do grupo de comunicação em ensinar o jornalismo a partir das suas regras editoriais. Agora com a obrigatoriedade do estágio as coisas melhoram para o empresariado (apesar do contrato de estágio fake que terão que criar, como já criam, diga-se de passagem). E agora, de volta para o futuro, a comissão recorre no esquecimento da decisão do Supremo. Nada de estágio, vamos assumir, dentro da CLT, o trabalho jornalístico profissional, seja ele de um garoto de 18 anos ou de um senhor de 60.

Mas o pior não é a interpretação caduca da comissão. Mas é a visão mesmo de que só há jornalista se houver o estágio institucional. O estágio supervisionado obrigatório é rescaldo da cultura do aprisionamento do fazer jornalismo como uma atividade corporativo. E “tá na cara” que inseri-lo no currículo pode criar uma situação de inconstitucionalidade. Afinal, impor-se-á uma obrigação na formação que não tem amparo legal, à medida que o estudante pode atuar na produção de jornalismo antes ou depois de formado, tal como o estudante de audiovisual ou de história que podem, agora ou amanhã, atuar no jornalismo. Valerá à pena fazer o curso de jornalismo à medida que este coloca a barreira do estágio como condição para ser jornalista?

Para mim, a questão passa é por romper essa dimensão disciplinar do estágio. O que significa afirmar que a gurizada precisa fazer o que curte hoje: criar suas próprias mídias, de forma autônoma, inclusive, em relação ao próprio professor. Para que somente ter a moral do escravo entre nós? Não, não, não. Hoje podemos construir nossas próprias mídias e viver delas. Há tantos exemplos, tantos, de inovações jornalísticas, na rede sobretudo, que não passam por ter um chefe, que fica difícil apoiar essa história de “obrigação do estágio”, porque este exclui as novas práticas sociais de mídia livre, em que ter seu próprio veículo é condição de estar no mercado de trabalho. Então no lugar da moral do escravo, temos é que criar a moral do empreendedor coletivo que articula diversos saberes na produção de veículos jornalísticos para além de ter um patrão. Mídia Livre nos currículos de jornalismo para conseguirmos ter a oportunidade de produzir novas linguagens, novas oportunidades de trabalho.

Os empregos continuarão a existir.

Os espaços institucionais não cessarão. Estarão sempre à disposição de talentosos jornalistas (formados ou não em jornalismo/comunicação social). Mas, veja bem, eu não sei se uma entidade poderá criar estágios em jornalismo, repito. Já estamos a ver concursos públicos que abrem vagas de jornalismo, mas que não pode priorizar aqueles formados em jornalismo. Os gestores que fizerem essa priorização pode ver o concurso público sendo questionado na justiça. E no campo da redações profissionais é o talento e a obediência (não é vero?) à cultura organizacional que vai decidir a parada. Enquanto isso centenas de jovens talentos já estarão produzindo os seus próprios veículos, quase sempre de forma coletiva, junto com carinhas que são cineastas, publicitários, designers, programadores, matemáticos, cientistas sociais etc, num processo incrível de mistura de conhecimentos para criar histórias contemporâneas. E não há dúvidas que é nessa maioria que a inovação deve passar, o que não inviabiliza que a “grande mídia” pesque alguns desses talentos, remunerando-os de maneira digna (oremos!).

Então, vejo, como dentro da normalidade que alguns professores de jornalismo tenham receio da cultura da comunicação social (que vemos hoje na própria internet). Mas é dela que precisamos. Sei que o termo “comunicação social” pode soar muito abstrato para esses professores, de fato, é. Mas, para mim, se trata apenas de um termo para mostrar o óbvio. O processo sempre aberto do campo da liberdade de expressão. Nossa constituição tem lá, o capítulo Da Comunicação Social. O termo não é só acadêmico, mas constitucional. Não se trata de ter uma perspectiva estruturalista no campo. Ao contrário, é entender que a dimensão da comunicação social é exatamente o que o “novo jornalismo” deve ter como horizonte profissional. Perder a dimensão comunicacional é perder parte da ética jornalística e das dinâmicas concretas de exigência de democratização da comunicação, porque o jornalismo é feito das diferentes linguagens, práticas e éticas que estão circunscritas ao domínio da comunicação. O que eu posso fazer se os americanos pensam a formação de “jornalismo como curso de jornalismo”? Veja lá a situação dos caras. O processo intenso de disputa com o campo da comunicação social, que se insurge contra ou chacoalha o “campo profissional de jornalismo”. A situação americana é esta. E a gente aqui dizendo que o campo da comunicação social é coisa menor para o jornalista, enquanto aprovamos uma legislação eleitoral que afirma que todo cidadão deve ter direito à produção da informação, quer os políticos queiram ou não.

O que é isso, companheiro? A luta, de hoje, significa trazer a cultura do remix para dentro do jornalismo. E não excluir dele as novas linguagens originadas dentro da comunicação social, que tem hoje a rede como seu principal paradigma.

Este semestre dou aula para o jornalismo e o desenho industrial, no mesmo espaço, no mesmo dia. Descobri que não tem como pensar narrativas multimídia dissociadas do campo do design e da programação. Antes, os meninos e meninas de jornalismo faziam conteúdos bem legais, mas, o que adiantava, se não sabíamos programar e potencializar ainda mais o grau de conhecimento aplicado na produção de reportagem. Então resolvi radicalizar. Botei todo mundo na mesma sala. A galera do design discute personagens, narrativas, iconicidade dos personagens etc. A galera do jornalismo design, formas de organização da notícia dentro das narrativas do multimídia, programação php e desenho a partir da lógica CSS. Isso para mim é comunicação social. É radicalizar o princípio da comunicação social. A galera vai produzir seis especiais jornalísticos multimídia. Reportagem com profundidade a partir da hibridização jornalismo + design + informática.

Só penso nisso porque fui formado em comunicação social, habilitado em jornalismo. E não quero fazer a viagem “de volta para o futuro”. Não me façam tirar os alunos do design e sistema de informação da minha turma de laboratório de jornalismo online.

Meus antigos professores, vocês estavam certos. É a comunicação social que está sendo radicalizada hoje. Deixem os americanos e os europeus na crise. E assumam o devir latino-americano do jornalismo como “comunicação social”. É como diz o Roberto e o Erasmo, “Não dê ouvidos a maldade alheia / E creia / Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo / Meu bem / meu bem / Use a inteligência uma vez só / Quantos idiotas vivem só / Sem ter amor / E você vai ficar também sozinha / Eu sei porque …”.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

JORNALISMO É ARTE




# agência pirata #
O resto é conversa fiada

txt: Antonio Vieira

Um acadêmico resolveu descrever em um livro suas experiências no mundo da matemática. O fato é que morava em um país, onde para exercer a atividade, obrigatoriamente teria que possuir “Diploma de Escritor”. Impossibilitado, a solução foi escrever, verter para outra língua e publicar no estrangeiro. Lançado nestas circunstâncias o livro teve enorme sucesso, sendo, então, traduzido e editado em diversos países, inclusive no seu.

Afinal, para escrever deveríamos ter diploma? O que se esconde neste exército a favor do Diploma obrigatório?

Ao contextualizarem exaltando tal fonte como única indutora da ética, da capacitação: tropeçam feio, pior, nos próprios pés. Inacreditável, a pasmaceira em plena aldeia global, onde novas conectividades e tecnologias, dinamizam os conceitos, os formatos, os meios e modelos, quebrando paradigmas. Porque impedir que alguém escreva seja ou não profissional, se este é um dos princípios basilares da liberdade de expressão?

A intenção de vender a imagem de que o jornalismo é uma profissão essencialmente técnica é absurda, irreal. Fatos sociais ou políticos sempre terão a possibilidade jornalística de expor diversidade conceptiva e textual. Entendo o jornalismo como arte, nobre arte, conceitualmente livre, mesmo quando encerra equívocos interpretativos, faz parte da liberdade que se prega e que deve ser protegida. Escrever é a expressão de um dom: e tal condição não foi, não é, nunca será restrita apenas a diplomados.

Óbvio, nada temos contra o bom ensino, o valor do diploma, as boas faculdades, os bons docentes, muito pelo contrário, somos contra o que aí está, uma máquina de sonhos iludindo jovens. Aprendem pouco da realidade do mercado, das grandes redações, da liberdade restrita, dos interesses envolvidos. Nos espantamos com tantos arautos da Ética e lembramos do Cazuza, “sua piscina está cheia de ratos, suas palavras não correspondem aos fatos...”.

A grande imprensa é permeada pelo viés político, pelo interesse privado e muito poucas vezes pelo real interesse público. A mídia pública sofre ingerência política de toda ordem. A decisão do STF muito mais do que libertar o exercício do jornalismo libertou a criatividade e a arte no escrever. Cabe a nós exercer bem este papel.

Tivemos nossa experiência com a ditadura militar, basta! Herdamos um sindicalismo dos anos 40, viciado, casuísta, basta! Lutaremos contra as imposições absurdas de uma legislação perdida no tempo, que na verdade atua “contra” os profissionais como esclareceremos gradativamente.

O mundo transforma a relação patrão e empregado, no futuro seremos parceiros, frilas, surgem novos rumos e possibilidades. A Internet, a rede, são exemplos da liberdade transformadora, os blogueiros, sem lenço, documento ou diploma, estão pautando as noticias. O engraçado é que são eles a fonte da grande mídia.

Viva a arte de escrever! Viva a terceira onda! Viva o visionário Alvin Toffler, ele previu: os rápidos engolirão os lentos, o resto é conversa fiada.

(*)Antonio Vieira é contabilista, administrador de empresas, com especialização em matemática financeira, jornalista “sem diploma” por amor a arte de escrever. Presidente da Associação Brasileira dos Jornalistas – ABJ - Entidade que associa jornalistas com e sem diploma.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

QUAL O MEDO DA FENAJ ?

# agência pirata #
O retorno sombrio do tacão da ditadura militar

txt: Jair Viana

As entidades que dizem defender os interesses de jornalistas (?) lutam agora por uma alteração na Constituição federal. Querem mudar o texto do artigo 220, que prega a liberdade das atividades intelectuais e artísticas. Ora, num passado não muito distante, lutamos pelas liberdades, saímos às ruas, levamos borrachadas, fomos presos e até torturados. Agora, em nome de uma vergonhosa reserva de mercado, assistimos, atônitos, a ações políticas mal explicadas em busca do retorno sombrio do tacão da ditadura militar. Querem estrangular a Constituição por nada.

Não se propõe uma PEC (proposta de emenda constitucional) por qualquer razão. Aliás, a tal PEC proposta no Senado e na Câmara, em dose dupla, foge dos verdadeiros propósitos da medida. As entidades que se dizem "preocupadas" com o fim da obrigatoriedade do diploma para jornalista na verdade fazem um jogo de manipulação para garantir uma relação suspeita com universidades particulares. Usam profissionais diplomados, com discurso de fundo falso, em busca de adesões.

O trabalho que estão fazendo agora devia ter sido feito lá atrás. A Fenaj e seus sindicatos se preocuparam em xingar, ameaçar e processar jornalistas com registro provisório, antes de lutar de verdade por aquilo que dizem querer. Fizeram discursos em mobilizações que nunca contaram com uma expressiva participação da categoria. Hoje, dirigentes dessas entidades percorrem os corredores mais que suspeitos do Congresso Nacional, em reuniões com senadores e deputados, pedindo esmolas em defesa da categoria. Vergonhoso!

Um debate franco

As PECs apresentadas, visivelmente redigidas nas salas da Fenaj, contemplam apenas os diplomados. As duas propostas excluem do texto os jornalistas que militam há décadas, porém não possuem diploma, mas estão regulamentados junto ao Ministério do Trabalho. Vale lembrar que os registros profissionais concedidos na vigência da tutela antecipada da 16ª Vara Federal, em 2001, estão valendo, sim. No acórdão do TRF3, os efeitos da tutela não foram cassados. A decisão foi no efeito ex-nunc. Tais profissionais precisam ser protegidos por qualquer medida que possa ser adotada.

O deputado federal Paulo Pimenta (PT) e o senador Antônio Carlos Valadares (PSB) não podem fugir da discussão com todos os profissionais. Não é democrático, nem ético e moral uma discussão apenas com os sindicalistas, muitos apenas travestidos de jornalistas. O debate, até por envolver profissionais que defendem a liberdade de expressão, precisa contar com os diplomados e os não diplomados. Basta saber se há coragem para um debate franco, aberto, em que a qualidade das duas categorias de jornalistas (diplomados e não diplomados) seja confrontada. Qual a razão do medo da Fenaj?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

MANIFESTO CONTRA ZUMBI



# over12 #
Quando pensamos que vamos parar de comentar o diploma...

txt: Tiago Jucá Oliveira e Arlei Arnt

Poi Zé, os dois últimos resquícios do AI-5 caíram, mas ainda tem muito mané chorando e organizando protestos. E pelo orkut, twitter, blogs, e no momento em que escrevemos, até o Nando Gross tá dando sua sniffada ao vivo na rádio Gaúcha, umas das 26 emissoras de rádio e tv de Porto Alegre que estão com a concessão vencida e que deveriam estar fora do ar. E, claro, ele não tem coragem suficiente pra falar disso.

Como diria o açougueiro, vamos por partes. No twitter, metade de um neurônio convoca seus seguidores para um protesto pelo fim da exigência do diploma. No cutucar da raiva alheia, lá se foi nossa provocação: "o Decreto-Lei 972/1969 foi baixado durante o regime militar, logo após o AI-5. E quem baixou esse decreto foi uma junta militar formado pelos ministros das Forças Armadas". A resposta da meio neurônio veio a galope: "e não é porque essa lei surgiu no AI-5 que ela deve ser desmerecida.". CUMA? Esse Decreto-Lei, que ela crê ser algo justíssimo, só tinha como objetivo calar intelectuais e políticos que frequentavam redações, bem como escreviam e opinavam suas oposições ao regime militar.

O argumento utilizado pela rapariga foi o mesmo debatido ao vivo no auditório da Famecos/PUC pelo presidente da Federação Nacional dos Papagaios, ops, dos Jornalistas. Observe, cágado ou pomba: os jornalistas que clamam por democracia, acreditam radicalmente que o Decreto-Lei, num ato de censura, autoritário e anti-democrático, deva continuar valendo, apesar de ser criado pela ditadura.

Observe novamente: censurar, calar e proibir que pessoas se comuniquem é justo e merecido, apesar de ser criado pela ditadura. Então o problema não é a censura, e sim o censor de então? No seguir do raciocínio, é de se acreditar que estuprar também é algo justo e não deveria ser proibido. O problema não é o estupro, e sim o estuprador. "Que mal há um padastro violentar sua enteada de 12 anos? Eles se conhecem, moram juntos, há carinho na relação", é bem provável a outra metade do neurônio argumentar.

Vamos pular a ignorância e partir pra idiotice. No twitter, outra pessoa em total falta de sintonia entre o tico e o teco (deby & loyd, em inglês), lança a idéia: "agora que acabaram com o diploma de jornalista, vamos acabar com o de juiz e assumir uma vaga no STF". Mas pra isso, pra julgar as leis, é preciso conhecer a constituição. Nós até podemos não conhecer e concordar com a carta magna, mas o Supremo Tribunal Federal deste país precisa sabe-la decor e validá-la. É essa a sua maior função e responsabilidade. O Supremo não pode nem deve, de jeito maneira, ir contra a carta, aprovar inconstituicionalidades. E o artigo 5, inciso IX, da constituição é claro: "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença". O problema da maioiria dos jornalistas deste querido Brasil é que eles se argumentam na base do "eu acho". Nenhuma surpresa, pois quem já estudou em faculdade de comunicação sabe que nas aulas não se ensina porra nenhuma, e fica aquela roda de bate papo: alguém acha que a ana paula é padrão, porém o outro prefere felipe, pois é massa.

Dentre os tantos livros que sempre carregamos debaixo do braço, que são nossas bases, pois aqui ninguém "acha aquilo que acha", está o já clássico Manifesto Contra o Trabalho, do grupo Krisis. É uma crítica contundente à sociedade do trabalho. E quando se vê jornalistas e estudantes desocupados no marchar favorável da ditadura e contra a constituição, unicamente preocupados com a cadeira de empregado onde vão sentar o cu, lembramos do Krisis. Repetimos um importante trecho: "Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam ainda mais veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. Não só porque eles precisam obrigatoriamente se vender só para 'poder' viver, mas porque eles se identificam realmente com a sua existência limitada. Para sociólogos, sindicalistas, sacerdotes e outros teólogos profissionais da 'questão social', trabalho forma a personalidade. Personalidade de zumbis da produção de mercadorias, que não conseguem mais imaginar a vida fora de sua Roda-Viva fervorosamente amada.”

Neste domingo em que se escreve este manifesto, um dia antes de você, cágado ou pomba, nos ler, um belo texto cai aqui na redação. E como é bom ler aquilo que gostaríamos de ter escrito. A façanha é da professora da Escola de Comunicação da UFRJ, Ivana Bentes. O artigo tá fresquinho, acaba de sair do forno. De acordo com Ivana, "estranho e triste é ver jovens que acham que só podem ter direitos 'adquiridos' com 'diploma' e carteira assinada e dentro da relação patrão/empregado. Ou seja, acham que a única luta que vale a pena é , como diria Spinoza, a luta pela sua própria 'escravidão'". Brilhante!

Não há, naquelas cabeças miúdas, outra a coisa a fazer a não ser trabalhar como escravo zumbi da grande imprensa. A única possibilidade, de quem pensa assim, é qualificar e dar credibilidade aos quatro padrões de manipulação da grande mídia, vide Perseu Abramo, através do diploma. Eles não querem acabar, ou atacar, ou contrapor a mídia manipuladora. Eles querem que essa manipulação seja mais profissional e qualificada, praticado por pessoas formadas, com canudo. Portanto, o que eles querem é sustentar a manipulação diária, em vez de subverte-la.

E essas pessoas são oriundas de faculdades que mais formam mulas do que cidadãos. Nem todos, é bom lembrar, se formam e viram mula. Se você, cágado ou pomba, souber distinguir o que é bom do que é ruim na universidade, você nao será mula. Recordar é viver, e o professor João Gato sempre dizia: "eu tinha um cão, ensinei ele a não comer; uma semana depois ele morreu". Resumo: se a faculdade nos ensina a ser mula, obedece quem quer.

Interessante também o ponto de vista do sociólogo Sérgio Amadeu via twitter: "a rede afetou todas as indústrias de intermediação: fonográfica, cinematográfica, de softwares e a imprensa... com intensidades diferentes". No acrescentar das idéias, podemos dizer que assim como a internet, o mp3 e o Naspter sacudiram a indústria fonográfica, no diminuir dos lucros e no democratizar do livre acesso a cultura e conhecimento; os blogs e o youtube estão a balançar o conceito de mídia.

Baseado no que diz Amadeu, e resgatando uma entrevista feita semana passada por uma estudante de jornalismo da PUC/RS, Bruna Ostermann, que visitou a redação pra colher nossa palavra, é possível responder perguntando: mas afinal, o que é jornalismo? Onde se limita a liberdade de expressão?, que a menina disse que não deve acabar, com o exercitar da atividade jornalística exigido por diploma.

Um caso, hipotético, mas não duvide que exista: imagine que um grupo de pessoas, nenhuma delas formada, crie uma conta no You Tube. Esse grupo cria um roteiro, faz reportagens, entrevistas, usa uma pequena ilha de edição, escolhe um bom apresentador e monta um tele jornal a ser exibido no próprio You Tube. Com um bom material e uma divulgação bem planejada, a audiência cresce e o telejornal se torna um sucesso na rede. Digamos também que outras experiências aconteçam simultaneamente em todo o país. Quem dirá que isso não é jornalismo? E se for, vamos exigir diploma? E se não tiver diploma, vamos proibir o programa?

Se no You Tube há uma certa complexidade pra fazer um telejornal, com muito mais facilidades se faz jornalismo em blogs. Entrevistas hoje podem ser feitas por msn, por gtalk, por skype. Resenhas de discos e shows são feitos diariamente. E que lei é capaz de distinguir se blog, ou determinado blog, é ou não jornalismo? Qual lei vai obrigar que blogueiros necessitam de diploma? E quem vai tirar do ar os blogs feitos por não diplomados? O blog da Petrobrás deu, dias atrás, que pode ser muito mais útil ao jornalismo e a sociedade do que os grandes jornais. E os blogs e usuários de twitter do Irã tem mostrado ao mundo que não há paz e calma como o jornalismo oficial de estado afirma.

E nesse mesmo raciocínio podemos ilustrar casos como as web rádios, os flicks, os vídeos documentários. Agora imagine se o AI-5 da comunicação não caísse e se dentro de algumas semanas o senado aprovar o projeto de lei do Senador Eduardo Azeredo, proposta devidademente apelidada de AI-5 digital. Recém acabou uma encrenca, vem outra maior por aí.

Por tudo isso, nunca o STF foi tão sábio em abolir mais um resquício do AI-5 em pouco espaço de tempo (dias antes, o Supremo acabou com a vergonhosa Lei de Imprensa). A mesma junta militar que nos censurava até semana passada, fez a seguinte presepada, como bem faz lembrar Carlos Brickmann, do Observatório da Imprensa: "Pois não é que os mesmos oficiais-generais que generosamente regulamentaram o exercício da profissão de jornalista cuidaram também de regulamentar o que os jornalistas poderiam publicar? Um texto engraçadíssimo, que vale a pena pesquisar, é o de regulamentação das revistas de mulher pelada. Está escrito que, nas fotos, poderia aparecer um mamilo nu; dois, não. Mas, se a foto fosse feita com camiseta molhada, ambos os mamilos poderiam aparecer através do tecido. Pelos púbicos, nem pensar. E ficavam proibidas as fotos de nádegas frontais. Alguém já terá visto nádegas frontais?".

E aqui, neste finalizar de letras, deste Manifesto Contra Zumbi, citamos o grande jornalista, não diplomado, André Forastieri: "toda escola serve para esmagar o espírito e a imaginação do ser humano para que ele se torne um escravo zumbi da sociedade". Os direitosos nos chamam de esquerda, os esquerdas caviar nos rotulam de direita. Nem pra direita, nem pra esquerda. Como dizia o Superman: "para o alto e avante"! Comunicadores do século XXI, uni-vos!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

PEGA O DIPLOMA E LIMPA SUA BUNDA



# manda chuva #
Chora, não vou ligar, pode chorar

txt: Tiago Jucá Oliveira
pht: Thais Brandão
msc: De Leve


Nas últimas três semanas, participei de três debates sobre a obrigatoriedade do diploma. Em todos eles ouvi muita cousa sem fundamento por parte dos outros debatedores, e,principalmente, ouvimos cada asneira vinda do público. Também lemos inúmeras pérolas pela internet, entre postagens, comentários e twittadas.

E sempre afirmei: não sou o cara indicado pra debater, a discussão é inútil, não vai mudar nada, não represento ninguém pra debater. Mas mal sabia eu que o debate era mais inútil ainda, por ser inconstitucional, graças as minhas consultas aos textos do advogado Túlio Vianna, após os debates. Ele trouxe à tona o que mal percebi na carta magna: diz ela no artigo 5º, IX – "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

No mesmo artigo, XIII, diz a constituição: "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer". Em outro artigo, o 220, está escrito: "a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição".

Eu também não tinha conhecimento do fato do Decreto-Lei 972/1969, baixado durante o regime militar, logo após o AI-5. E quem baixou esse decreto foi uma junta militar formado pelos ministros das Forças Armadas: Aurélio de Lyra Tavares, ministro do Exército (presidente da junta), Augusto Rademaker, ministro da Marinha, e Marcio de Mello e Souza, ministro da Aeronáutica. Era o começo da fase terrorista dos milicos, e calar era a missão. Quanto menos pessoas exercendo o jornalismo, mais fácil de controlar.

Ah, se eu soubesse disso antes. Talvez não perdesse meu tempo pesquisando nomes de ótimos jornalistas sem diploma. Somente com a constituição debaixo do braço e o argumento que a ditadura acabou, eu teria desmontado os debates já de início. O Supremo Tribunal Federal não pode ir contra à constituição. E contraditório que pessoas que clamam por democracia, queiram a continuação de um dos principais pilares da era do terror estatal.

E agora que o STF derruba esse pesadelo, por goleada (8 votos a 1), já posso dizer o que estava entalado na garganta. A hora só poderia ser após a definição do Supremo, caso contrário haveria muita gente ridícula de nariz em pé, no soltar dos foguetes. Todos os quatro debatedores, incluindo os puxa-sacos de platéia, são medíocres. Os debatedores são jornalistas frustrados. Excluídos pelo mercado exigente de qualidade, foram fazer carreira em sindicatos e federações. São pessoas sem talento, sem importância pro jornalismo. Ah, se os debates fossem hoje! Nada como um dia após o outro, mano! Procurem levantar uma bandeira mais importante pro jornalismo. Nenhum de vocês defendeu o Ungaretti; ninguém condenou o governo Lula por fechar tantas rádios comunitárias. Rabo preso? Pelas coisas ridículas ditas em público, não duvido de nada. Pelo contrário. Um brinde, amigo leitor, a derrubada dos herdeiros da ditadura. Adeus cancer do jornalismo brasileiro!

Diploma (De Leve)

Cê se formou advogado, mas nao passou na OAB
Relaxa, tem mais de cinco mil neguin, que nem você
Que estudaram mais de quatro anos, e hoje limpa o chão
Ou tão em fila de loja pra ficar atrás do balcão
Não adianta anunciar serviço no balcão
Salário é uma merda, mercado só tem falcão
Pede emprego pro tio vereador senão
Se vai ficar anos procurando e levando nao
Então

Pega o diploma e limpa sua bunda
Não tem emprego, tenta na segunda !
Pega o diploma e limpa sua bunda
Não tem emprego, tenta na segunda !

Sê achava maneiro andar de terno no sol
Hoje já nao acha, tá no eternosol
Da burocracia sem democracia de verdade
Decide acordar, gravata e nem tem variedade
Achava a faculdade um trampolim pro sucesso
Mas comprou com cambista, era falso o ingresso
Deu mole, não come nem no lamole
Só baba o ovo do chefe servindo um outro gole

Pega o diploma e limpa sua bunda
Não tem emprego, tenta na segunda !
Pega o diploma e limpa sua bunda
Não tem emprego, tenta na segunda !

Voce é jornalista, a família acha lindo
O exemplo pros irmãos, pela mae sempre bem vindo
Tira mó onda no choppinho da sexta
Mas o que ninguem sabe é se trabalha no extra
E o jornal é uma bosta
Voce tem acessoria nas costas
O que se escreve é deprimente
Mas tira onda quando tá com a gente

Pega o diploma e limpa sua bunda
Não tem emprego, tenta na segunda !
Pega o diploma e limpa sua bunda
Não tem emprego, tenta na segunda !

Pega seu diploma, e limpa o seu rêgo
Não tem trabalho hoje, muito menos um emprego !

segunda-feira, 15 de junho de 2009

PUTAS A FODER



# manda chuva #
Ainda o chato assunto do diploma

txt: Tiago Jucá Oliveira


Primeiramente, eu gostaria de criticar e elogiar o pessoal do Jornalismo B. Criticar por que acho que debater exigência de diploma de jornalismo não leva a nada. Não vai mudar porra nenhuma, independente da obrigação ou não. E também pelo fato que não sou eu a pessoa indicada pra defender um dos lados das questões. Não pertenço a nenhuma entidade, movimento, coletivo ou ong que defenda a não obrigatoriedade. E por último, criticar por ter chamado uma pessoa do sindicato que não quer que vocês exerçam o jornalismo. Duvido que haja mais de cinco blogs, em Porto Alegre, melhores que o Jornalismo B. E eu, uma pessoa formada, sou muito pior fotojornalista do que a Thais, que é bióloga, e que faz fotos pro Jornalismo B, prO DILÚVIO e pro Jornal Já. Se depender do sindicato, seus dias de jornalismo e fotojornalismo estão contados. Vocês convidaram o inimigo pra trincheira.

Mas eu os elogio ao mesmo tempo, pois debater jornalismo sempre é bom. E também agradeço as palavras do Alexandre Lucchese sobre minha pessoa e sobre O DILÚVIO ao nos qualificar como um dos debatedores. Diz ele, no próprio blog, semana passada: “O Jucá e sua O DILÚVIO representam o que há de mais independente, autônomo e livre na imprensa de Porto Alegre – quer o próprio Jucá queira reconhecer isso ou não. Desde seus temas e pautas, até sua organização e ’sede’, passando pela diagramação e textos, O DILÚVIO congrega a grande maioria das características que qualquer veículo alternativo e informal gostaria de ter. E, acredito, é alguém que tem este tipo de experiência durante tantos anos que poderá levantar esta discussão de maneira genuinamente rica perante a entidade que busca formalizar o exercício do jornalismo.”

E acho que ele tem uma certa razão no que disse. O DILÚVIO é uma referência nacional em cultura livre, em reciclagem de idéias, em autonomia editorial, em jornalismo cultural. Já ganhamos uma bolsa da Fundação Avina pra produzir uma série de reportagens sobre licenças livres e multiplicação do conhecimento. Entre os 50 veículos contemplados com a bolsa de investigação, somente O DILÚVIO era uma publicação independente, no meio de grandes como CNN, Rádio CBN, Carta Capital, El Clárin, La Nación, Jornal do Conmércio, etc.

Também já fomos convidados pra debater jornalismo, com outras 40 experiências bem sucedidas de modelos alternativos de comunicação, no evento Onda Cidadã, promovido pelo Itaú Cultural. Recentemente, fomos escolhidos a 6º melhor publicação impressa do país, através do Prêmio Dynamite.

Portanto, se não sou o apropriado pra debater diploma, tenho uma certa credibilidade pra discutir jornalismo. Também temos forte personalidade pra dizer que ninguém vai nos obrigar a ter somente jornalistas com diploma em nossa revista. Leis que não consideramos justas, nós não obedecemos. Isto se deve ao nosso maior inspirador que é Henry Thoreau, autor do clássico A Desobediência Civil. Diz ele, em certo trecho do livro:

"Deve o cidadão, sequer por um momento, ou minimamente, renunciar à sua consciência em favor do legislador? Então por que todo homem tem uma consciência? Penso que devemos ser homens, em primeiro lugar, e depois súditos. Não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito."

Conclui o mestre: "A lei jamais tornou os homens mais justos, e, por meio de seu respeito por ela, mesmo os mais bem-intencionados transformam-se diariamente em agentes da injustiça."

O DILÚVIO é uma revista que comete dezenas de desobediências, ilegalidades por dia. É só dar uma olhada na nossa comunidade no orkut, que tem quase 3.500 membros subversivos. Milhares de downloads de músicas protegidas pelo direito autoral são realizados a partir dos links disponibilizados lá na comunidade. Nosso perfil no orkut já foi denunciado por desrespeito aos direitos autorais e excluído duas vezes. Já criamos o terceiro, e rapidinho já chegamos a 500 amizades solidárias. E criaremos pela quarta vez, se for necessário.

No nosso blog, estamos cometendo outro delito, quase que diariamente. Utilizamos fotos, ilustrações e charges de outras pessoas sem pedir permissão e sem dar créditos ao autor. Motivo: são obras licenciadas em copyright, e não em Copyleft, Domínio Público ou Creative Commons. A gente faz pirataria e plágio com aqueles que não liberam a obra pra livre reprodução. E incentivamos isso. A propriedade é um roubo, disse Proudhon. Eu digo: a propriedade intelectual também é um roubo.

Duas pessoas da redação criaram uma obra que critica a desgovernadora Yedinha, e omitimos o nome destas duas pessoas. Ela está lá, nua, esperando que qualquer pessoa a use, que a plagie. E já vimos que ela já se espalhou por aí, no orkut já vi vários álbuns de fotografias com a obra lá, como se fossem de autorias de outras pessoas, e não nossa.

Não queremos ser donos de obras jornalísticas e artísticas. Queremos que as idéias se espalhem aos milhões. Pra mim é muito mais importante ver uma idéia minha sendo difundida e ampliada, modificada pra melhor e plagiada, do que dizer e obrigar que eu sou o autor dela. Esses dias eu vi no site do jornal O Globo a reprodução integral dum texto que já havia sido publicado na revista O DILÚVIO. Eles não citaram o autor da matéria. Problema nisso? Pra gente não.

Manu Chao, grande referência musical pra gente, também já reproduziu no seu site a entrevista que fizemos com ele, na íntegra e citando a fonte, sem nos pedir permissão, pois como usamos uma licença Creative Commons, já está pré-autorizada pra qualquer pessoa do mundo reproduzir nossas fotos e reportagens, da maneira como ela quiser, sem precisar nos contatar pra pedir autorização. Depois de publicado, nosso conteúdo deixa de ser de nossa propriedade e passa a ser do mundo. Assim como nossos filhos, dos quais somos pais, mas não somos donos. Depois de criados, eles também passam a ser do mundo em que vivem, sujeitos a ser justamente o oposto daquilo que os pais eram.

Quando alguém pega uma idéia nossa, não deixamos de possuir esta idéia, não nos sentimos roubados ou sem idéias. Assim como alguém acende uma vela na nossa, a gente não fica sem luz. Quem disse essa frase bonita não fui eu, foi o Thomas Jefferson, e está em domínio público. Se estivesse em copyright, eu diria que a frase era minha, ou não citaria o autor.

Enquanto isso, no senado federal, tramita o projeto de lei Azeredo, que vai vigiar e punir qualquer pessoa que fizer download ilegal de conteúdo protegido pelos direitos autorais. Se eu quiser fazer uma resenha do novo álbum da Sandy Junior, a filha do Chitãozinho e Xororó, eu vou precisar baixar o disco na web. A gravadora e a produtora dela não nos enviam CDs. Enviam somente a grandes meios de comunicação. Se eu quiser agir de forma legal, ou compro na loja, ou pago pra baixar no itunes. Isso vai me custar mais de 20 reais, quase 30. Ou seja, eu vou ter que pagar pra ajudar na divulgação do novo disco dela. Quem deveria me pagar era ela, pra eu ter que ouvir aquela bosta e ainda escrever uma resenha.

Ao mesmo tempo, aqui na província, um professor universitário e jornalista é censurado por uma empresa, que usa um cascateiro como laranja. A crítica mais contudente ao péssimo jornalismo que esta empresa faz está calada. Dizem que é uma pessoa processando outra por difamação. Não. É uma empresa censurando um jornalista por trazer a verdade a tona.

Há somente em Porto Alegre 26 emissoras de televisão e rádio com as outorgas já vencidas. Quem diz isso não sou eu, é a Anatel, é só entrar no site deles e conferir. E pra trabalhar nessas empresas que deveriam estar fechadas pela justiça, há pessoas aqui defendendo que se tenha o diploma. Como não vejo muita diferença em uma quadrilha de traficantes e estas emissoras, creio que vá se pedir diploma pra ser avião de traficante. Jornalista que trabalha numa dessas emissoras é um criminoso também. É cúmplice disso que eu qualifico como o pior jornalismo já feito na história no país. Nem nas ditaduras de Vargas e dos militares se fazia coisa pior.

Este ato contra a liberdade de expressão vai calar diversos comunicadores de rádios comunitárias. Já são calados na base da porrada pelo governo Lula, que é que mais fechou rádios comunitárias. Rádios comuntárias que são criminalizadas pelas rádios comerciais, são denunciadas e chamadas de piratas. Pirata é a rádio Gaúcha, a rádio Guaíba, a rádio Band, a rádio Cultura, a rádio da Universidade, a rádio Atlântida, a rádio Itapema, a RBS TV, a Band TV, etc. Todas elas estão com concessão pública vencida. Note, há duas rádios públicas que deveriam estar fora do ar. E nas rádios comerciais, governos municipais, estaduais e federal investem verbas publicitárias, pagas pelo nosso bolso.

E fiquei sabendo semana passada que meus amigos da Black Sonora e a Lica Tito tiveram que conseguir liminar pra poder se apresentar ao vivo. O que mais vai ser preciso ter diploma pra poder se expressar? Só falta os tucanos apresentarem um projeto que impeça analfabetos de concorrerem a presidência.

Então você soma tudo disso: censura a jornalistas + limitar que somente uma elite possa se comunicar + fechamento de rádios comunitárias + grandes emissoras funcionando sem outorgas + proteção da não difusão do conhecimento + proibir artistas de se apresentarem ao vivo + concentração de emissoras de radio e TV em poucas mãos = menos democracia e péssimo jornalismo

Esta exigência besta de diploma quer é calar a voz da maioria. Somente uma elite formada e diplomada poderá ser capaz de fazer o serviço sujo de uma dúzia de famílias que comandam a comunicação e a mídia no Brasil. Não me venham com esse papo furado que é preciso diploma pra segurar um microfone, alisar o cabelo e dizer que hoje vai chover na fronteira e fazer frio na serra. O cara que tinha mais talento pra fazer isso não tinha diploma de jornalista, e hoje é deputado estadual. Era muito mais divertido ele do que essas menininhas formadas na Fabico ou Famecos de cabelo alisado. Qualquer Maísa dá a previsão do tempo.



TOMATE CRU

Duas meninas comentaram, uma no nosso blog, e outra no twitter: então me devolva o dinheiro que gastei na faculdade. Não pude deixar de responder: se tivesse estudado como eu estudei, tinha passado numa federal. Porra, a preocupação delas é somente dinheiro. Em nenhum momento parou pra pensar que elas, com diploma, tem uma qualificação a mais de quem não tem.

Não é exigido, pra ser jornalista, estudar inglês, francês e castelhano, fazer mestrado e doutorado, tirar um curso de fotografia no SENAC, freqüentar algumas aulas na história, cursar photoshop, ler livros sobre a profissão que os professores nunca exigiram ou jamais recomendaram. Vou eu pedir a livraria meu dinheiro de volta porque a lei não obriga ler Darcy Ribeiro pra exercer a profissão de jornalismo? Claro que não. Eu procurei me qualificar. Por isso que entrei numa faculdade. Foi lá que conheci, além do Darcy Ribeiro, o Eric Hobsbawm e o Marshal McLuhan.

O presidente da Fenaj ilustrou um caso pra defender a obrigatoriedade do diploma. Um cara que pediu carteira de jornalista, mas que era analfabeto. Eu pergunto: você tem medo de concorrer e perder emprego pra um cara analfabeto? Então vaza, meu filho, enquanto é tempo. Desista do jornalismo e vá fazer outra coisa, vá plantar batatas.

Também tem alguns que dizem que blog não é jornalismo, eu pergunto: mas pra trabalhar no blog da folha online? Ou num blog da rede globo? Neste caso blog é jornalismo? Levo a crer que jornalismo então é somente aquilo feito na grande mídia. O blog da Petrobrás foi um bom exemplo esta semana de um bom jornalismo, muito melhor que os jornais. O blog d’O DILÚVIO, o blog do Jornalismo B, o blog do Celeuma, o blog do Marcelo Tas, o blog do Luis Nassif, o blog do Wladymir Ungaretti, entre outros, não são jornalismo? Digo mais: se você estuda jornalismo e ainda não tem um blog, escolheu a profissão errada.

E livros como “Estação Carandiru”, do Drauzio Varela; “Noites Tropicais” e “Tim Maia – Vale Tudo”, do Nelson Motta; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, de John Reed; “A Sangue Frio”, de Truman Capote; “O Mistério do Samba” e “Mundo Funk Carioca”, de Hermano Vianna. Todos esses livros, entre tantos, não são jornalismo? Preciso de diploma pra escrever um livro reportagem?

E filmes? “Ônibus 174”, do José Padilha; “Notícias de uma Guerra Particular”, do João Moreira Salles. Estes filmes não são jornalismo? Se forem, preciso ter diploma pra fazer um documentário?

E quanto a esses caras que vou citar. MINO CARTA – Quatro Rodas, Carta Capital, Veja; ANDRÉ FORASTIERI – Bizz, Set, General, Conrad, Folha, MTV; ZIRALDO – O Pasquim, Bundas, Palavra; MACOS FAERMAN – Versus, Singular e Plural; SEBASTIÃO OLIVEIRA – Caac – centro de artes e alternativas de cidadania; ELIEZER MUNIZ – projeto canal motoboy; LOBÃO – Outra Coisa, MTV; IDELBER AVELAR – brilhante cobertura dos ataques israelenses à Palestina; REGINA CASÉ – Central da Periferia; HERMANO VIANNA – Música do Brasil, Overmundo e Central da Periferia; ARNALDO JABOR – Jornal da Globo; RONALDO LEMOS - Overmundo. Em comum entre todos estes nomes é que nenhum deles tem diploma. Vamos queimar a Carta Capital? Vamos tirar o Overmundo do ar?

Também dizem que assim que não for mais exigido o diploma, as empresas vão demitir os jornalistas formados. Alguém aqui acredita que a Globo vai demitir o Caco Barcelos ou o Carlos Eduardo Dornelles? Alguém acredita que O DILÚVIO não vai mais querer entre seus colunistas nomes como Bruno Lima Rocha e Wladymir Ungaretti. Só os medíocres acreditam nisso, pois só eles tem medo de perder emprego, porque sabem que são medíocres.

Nessa sexta que passou houve outro debate sobre o assunto, e ouvi várias vezes a palavra patrão. Que com diploma o patrão não vai nos explorar, vai pagar melhor, não vai nos demitir pra contratar outro em seu lugar. E notei que a grande preocupação dessas pessoas é não perder emprego nem ganhar mal na grande mídia. Elas não querem abolir a grande mídia, não querem boicotar a grande mídia. Não. Elas querem continuar sustentando, com diploma e mais qualidade, a grande mídia. Quere continuar dando coro a manipulação, engrossando o caldo da mentira. Mas com diploma, claro, a mentira terá mais qualidade. Um cara que não estudou jornalismo dificilmente estudou e sabe os quatro padrões básicos de manipulação utilizados pela grande imprensa. Ou será que eles acham que vão inverter a pauta do MST para um novo ângulo, para uma nova ótica?

Cito o grupo Krisis, autor do brilhante livro Manifesto Contra o Trabalho: “Trabalho e capital são os dois lados da mesma moeda. A esquerda política sempre adorou entusiasticamente o trabalho. Ela não só elevou o trabalho à essência do homem, mas também mistificou-o como pretenso contra-princípio do capital. O escândalo não era o trabalho, mas apenas a sua exploração pelo capital. Por isso, o programa de todos os "partidos de trabalhadores" foi sempre "libertar o trabalho" e não "libertar do trabalho". Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam ainda mais veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. E os "ocupados" da Volkswagen, Ford e Toyota são os defensores mais fanáticos do programa suicida automobilístico. Não só porque eles precisam obrigatoriamente se vender só para "poder" viver, mas porque eles se identificam realmente com a sua existência limitada. Para sociólogos, sindicalistas, sacerdotes e outros teólogos profissionais da "questão social", trabalho forma a personalidade. Personalidade de zumbis da produção de mercadorias, que não conseguem mais imaginar a vida fora de sua Roda-Viva fervorosamente amada.”

O jornalista Hélio Paz, que pensa parecido comigo sobre o diploma, disse: “os sindicatos vivem essa atrasada visão dicotômica de burguesia x proletariado quando o jornalista JAMAIS se constituiu em um proletário ou em um escravo miserável. Além disso, não enxergam bem outra possibilidade que não seja a de serem empregados injustiçados de um patrão totalitário.” Citei ele porque também ouvi muitos argumentos do tipo “jornalista é diferente de comentarista e colunista; o primeiro faz reportagens e os outros opinam”. Então jornalista não deve opinar? Jornalista é o pau mandado do editor que o coloca pra cobrir o que interessa a empresa?

Vou procurar adaptar a situação do jornalismo pra outra profissão bem parecida com a nossa. Digamos que haja diploma pra ser prostituta. Você acredita que uma diplomada diz pro patrão dela na zona e diz: “olha, eu só transo com o Brad Pitt e com o Rodrigo Santoro”. Mesmo com diploma, ela vai transar com qualquer um que pagar, seja gordo ou magro, alto ou baixo, bonito ou feio, vascaíno ou flamenguista, cabeludo ou careca, cepacol ou desdentado. E se pensar que nem pensam os favoráveis a exigência de diploma, vai fazer passeata em Brasília pra impedir que qualquer puta sem nível superior faça programa nas esquinas.

Eu digo: com diploma ou sem diploma, quem pensa assim vai sempre acabar se fudendo. E sendo assim, só posso dar este conselho: jornalista com caráter de puta que nem você tem mesmo é que tomar no cu.

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