#CADÊ MEU CHINELO?

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domingo, 28 de março de 2010

NARDONI, O REALITY SHOW

#over12
Poi Zé

txt: Tiago Jucá Oliveira

Você poderia responder pra mim algumas questões sobre nossa sociedade: quantas pessoas agonizam na fila de algum hospital neste exacto momento por falta de recursos pra saúde pública? Qual o número de crianças que estudam com fome por desvio de verba escolar? Quantos adolescentes estão “fazendo amor” com seus pais ou padrastos agora? Quanto ganha um policial que repassa armas pra traficante? Qual o tamanho do estrago ambiental que madeireiras, plantadores de soja e criadores de gado fazem na Amazônia diariamente? Quantas pessoas morrem nas estradas esburacadas, pois os recursos públicos foram desviados? E, pra finalizar, pergunto: quantos casos assim sequer são julgados?

Poi Zé, agora imagine você se a mídia tratasse dessas questões com o mesmo entusiasmo que cobre o julgamento do casal Nardoni. Transmissão ao vivo, helicóptero com imagens aéreas sobre o camburão que leva os dois para o presídio, manchetes de primeira página durante uma semana, cinegrafistas na carona do motoqueiro perseguindo a mãe da vítima.

A cobertura do caso foi uma das piores coisas que o jornalismo brasileiro já produziu. E a reação da opinião pública igualmente nojento. Fogos de artifício, top ten no Twitter, multidão em frente ao fórum. Uma das cenas que retratam o nível em que chegamos de intolerância democrática: um rapaz exibe solitário um cartaz de apoio aos Nardoni, e uma mulher tenta arrancar de suas mãos o democrático direito de se expressar. Também foi triste de assistir à explosão de alegria popular quando a sentença do juiz é proferida. Aquele povo todo comemorando a desgraça alheia, para a assim poder justificar suas cagadas diárias. “Bato na minha mulher, mas pelo menos não mato minha filha”, é capaz de se desculpar algum amigo do goleiro Bruno.

Quando somos medíocres, a única coisa que nos torna melhor é justamente o defeito do outro. Basta observar a igreja da imbecilidade, BBB, e a reação de quem o assiste. “Fulano tem que ir pro paredão porque é mal”. E lá vai ele gastar mais um trocado em ligação telefônica pra por o bicha ou o homofóbico, “exemplo desse tipo de gente que não presta”, na rua.

O caso Nardoni não deixa de ser um Big Brother. E o que questiono diante de tanta vibração quando um promotor ou o Bial anuncia o paredão: o que isso vai mudar na sua vida? Você acordou mais feliz hoje porque os Nardoni vão mofar anos na prisão e o Dourado pode ir pra rua? Sentimento de justiça num país injusto? Então desligue a TV e vá fazer plantão no Planalto Central.

Ah, minha opinião sobre o caso: é óbvio que eles são os culpados pelo assassinato, mas não nego que torci pela absolvição de ambos. Seria o estopim pra uma revolução popular no Brasil. Com certeza, os manifestantes e justiceiros que ontem estavam no Fórum hoje estarão no Projac pra apedrejar o eliminado do BBB. A justiça com as próprias mãos, mano, é só ligar. Somente 39 centavos mais os impostos. Pena que ninguém queira eliminar os impostos.

Não gostou do texto? Me indique ao paredão!

quinta-feira, 25 de março de 2010

NEM FUDENDO (ou CARECA BABACA)


#over12
A semana

txt: Tiago Jucá Oliveira

Duas coisas prenderam minha atenção à mídia nesta semana. Putaria da porra! Não sou a favor de câmaras escondidas pra obter informação jornalística. Isso deveria ser função policial. Falsidade ideológica, portanto crime? Somos nós, jornalistas, a polícia? Pergunto. Pois me parece instalado o quarto poder, com alguns poderes especiais. Ou, com o fim do AI-5 do diploma de jornalismo e da exclusividade de geração de conteúdo somente pelas grandes emissoras, uma nova era de cidadania e liberdade de imprensa está a se formar. O quarto poder, de fato: nós, em rede, comunicando e sendo comunicado, nos fiscalizando.

A primeira parte da denúncia que o Proteste Já do CQC fez a prefeitura de Barueri teve esse porém, embora muito mais revoltante foi assistir a pilantragem de nossos políticos em ação, no ato, no flagrante. Acuados pela verdade, tentaram a calar. E conseguiram num primeiro instante. Mas o babaca careca da mídia golpista reverteu a situação. Apesar de várias ações nos últimos meses que nos fazia sentir na Venezuela ou em Cuba, como a censura ao blog do Ungaretti ou a ofensiva contra a liberdade de comunicação por parte da FENAJ, há esperança.

Melhor do que a reportagem enfim ir ao ar, a delícia da noite foi espontaneamente nos dada pelo prefeito da cidade que tem nome em homenagem à uma música dos Os Mulheres Negras. O “babaca careca” que aquele senhor gritava e xingava e rugia não tem preço. Um digno representante da democracia representativa. Rouba, mente, censura e agride.

("Porém, ah porém", como dizia o mestre, "há um caso diferente que envolve toda minha gente": outra cousa também mereceu destaque na mídia, mas aí é papo pra outro texto, ok? Caso Nardoni).

O que também focou meu olhar foi o papel higiênico da Veja, cuja ótica jornalística para o caso Glauco faz crer que o assassino do cartunista é o Santo Daime. Resumi pro micro-povo : “A veja quer culpar o ayahuasca pela morte do Glauco. Então pq não culpar a droga da bíblia pela pedofilia dos padres?”

Sobre os dois casos, recomendo o texto do Alexandre Haubrich e o do Bruno Natal

Daime paciência? Nm fudendo, mano!

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