#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

[cc] É O MOMENTO DE UMA NOVA ORDEM MUNDIAL?



::txt::Bruno Lima Rocha::

A ameaça de calote da dívida pública dos Estados Unidos vem suscitando uma série de debates a respeito do possível fim de uma era ou ciclo de dominação dentro do capitalismo. Para quem viveu o período da Guerra Fria, o cenário hoje vislumbrado não era sequer imaginável. Hoje, pela primeira vez na história contemporânea, os efeitos da política interna e externa dos EUA pós-11 de setembro de 2001 se vêem como uma possível crise de legitimidade e perda da hegemonia mundial – no médio prazo – do único Estado do planeta que é uma superpotência militar.

Isto se dá por uma série de fatores, mas uma relação de causal de fácil compreensão é que a conta simplesmente não fecha. A equação é simples. Os EUA sozinhos gastam mais com o complexo industrial-militar do que todos os demais Estados existentes no planeta. Isto ajuda a gerar a maior dívida interna do mundo acompanhada de um progressivo corte de gastos públicos e aumento de isenções e repasses de verbas para grandes transnacionais. O efeito é o abismo social, fortalecendo os 1% mais ricos e seus poderosos lobbies. Um Império decadente com supremacia militar e sistemas produtivos dependentes da China não tem condições prolongadas de exercer sua vontade soberana acima de organismos multilaterais, desde que os Estados emergentes assim o desejem.

A gangorra poderia começar a pender para outros lados se blocos regionais ou de países, como a Unasur e o G-20, estabelecessem medidas de proteção mútua, tais como fundos de emergência e índices de risco, por fora das estruturas estabelecidas pela atual hegemonia em franca decadência. Por mais surreal que pareça, o balizador das dívidas dos países são índices de empresas privadas de análise de risco (da possível ausência de pagamento), a saber, Standard & Poors, Moody’s e Fitch. Para os organismos financiadores do capitalismo, a informação produzida através destas empresas é considerada superior a co-produzida pelas autoridades de países como Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e Coréia do Sul.

Retirar a absurda legitimidade das empresas de “análise” de risco e, ao mesmo tempo, iniciar acordos multilaterais em busca de novos lastros para além do fator dólar-dólar, tal como uma possível moeda cambial dos emergentes, seria um belo primeiro passo. Se a economia do Império decadente é o motor engasgado da locomotiva mundial, romper com esta interdependência em escala planetária é tarefa de todo e qualquer governo minimamente balizado no respeito da soberania de seu país.

domingo, 26 de dezembro de 2010

[agência pirata] DAR UMA CHANCE À PAZ

::txt::Ricardo Noblat::

Há sempre a esperança de que, nesta época do ano, o espírito do Natal consiga infiltrar-se pelas veias esclerosadas do mundo. Ele é bem necessário, num momento em que toda uma fileira de países sofre o impacto de uma crise econômica brutal. Pode ser ainda mais necessário, um pouco adiante, quando tensões políticas e econômicas ressuscitarem o espectro do confronto direto entre nações.

Desde o final do último conflito global, o mundo tem sido palco de guerras localizadas — a do Vietnam, a da Bósnia, a do Iraque, a do Afeganistão. Surgem, agora, novos motivos de tensão. Há quem se lembre, contemplando este cenário, do período que antecedeu a I Guerra Mundial.

Naquele início de século XX, a civilização europeia conhecera algumas décadas de paz. Por conta disso, havia progressos econômicos e científicos, um clima geral de prosperidade, de vitalidade. Mas, nesse aumento da riqueza e do poder, alguns países sentiam-se prejudicados na divisão do bolo — por exemplo, a Alemanha imperial e o Japão. Sem que houvesse motivo concreto para isso, esse crescimento de energia levou à primeira guerra mundial, que foi também a preparação da segunda.

O mundo tem hoje pontos de estagnação e de crise. Mas, a partir do leste da Ásia, propaga-se uma onda inédita de crescimento e de enriquecimento. A China de agora é uma potência que se candidata a mais poder e a maiores espaços na geopolítica mundial. Isso lança ondas de choque por toda a vizinhança — inclusive porque o poderio militar chinês tem aumentado muito além do que seria necessário para fins defensivos.

As reações não se fazem esperar. O Japão, depois de ter sido humilhado num conflito sobre águas territoriais, já modifica os seus mecanismos de defesa — sem alterar totalmente a política pacifista com que emergiu da II Guerra Mundial. A India endurece suas posições em relação à China — com a qual já teve um conflito sério nos anos 60. A China, por sua vez, incrementa seus laços com o Paquistão, inimigo da India. Poucos dias atrás, Estados Unidos e Vietnam elaboraram um projeto comum de defesa (quem podia achar isso possível, há não muito tempo?). A Coreia do Sul reforça sua política de segurança, tendo ao lado a ameaça de um regime alucinado.

O pano de fundo deste cenário é que se projeta, a médio prazo, uma mudança de posição relativa entre as grandes potências, sendo a China candidata ao número um. Isso também aconteceu antes da I Guerra Mundial, envolvendo, ali, Inglaterra e Estados Unidos. Faz parte da psicologia nacional americana a identificação de adversários. Se, nesse contexto, a China passa a ser vista como adversária, isso prejudicaria profundamente o relacionamento entre os dois gigantes.

Nenhum dos dois tem tradição de diplomacia sofisticada — e a China vem de um período de profundo isolamento, seguido, agora, por acessos de insegurança que alimentam um nacionalismo mal resolvido. Neste cenário, quem poderia atuar como mediador no caso de um agravamento das tensões? Talvez, só mesmo o medo do pior — de um conflito incrivelmente devastador, com armas nucleares.

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