#CADÊ MEU CHINELO?

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

[do além] TERRA ARRASADA



::txt::Copérnico::

Já experimentou dizer a uma pessoa que se julga superimportante que ela não é o centro do universo? Difícil, né? Agora imagina dizer isso ao mundo. Pois é, não foi nada fácil explicar às pessoas que a Terra era apenas mais um planeta que girava ao redor do Sol, ainda mais pra mim que sou de Peixes.

Ninguém queria se convencer de que nosso lar não era o Astro-Rei. No máximo, éramos a Wanderlea do sistema solar. Em suma, minha constatação foi vital para o progresso da ciência, mas acabou por deprimir a todos.

Antes de minha descoberta, vejam vocês, as pessoas atribuíam-se uma importância imensurável. Muitos acreditavam que só chovia porque eles colocavam o carro para lavar. Outros juravam que se usassem uma específica peça de roupa, seu time favorito triunfaria.

Meu modelo cosmológico, em que os corpos celestes giram ao redor do Sol e não da Terra, demorou a ser aceito. A Igreja Católica chegou a proibir a divulgação de minha teoria. Ninguém queria aceitar nossa insignificância. Na época, tentei até organizar uma parada do orgulho terráqueo para diminuir os efeitos colaterais produzidos por minhas ideias.

Bom, felizmente hoje o heliocentrismo é considerado como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, rivalizando apenas com a teoria de que o disco Dark Side of The Moon do Pink Floyd serve de trilha sonora perfeita para as cenas inicias de O Mágico de Oz. Já experimentou? Funciona até de cara.

Agora que já nos recuperamos do primeiro choque narcísico da história, posso revelar outra verdade inconveniente. Mais do que aquela que Al Gore usou pra se promover naquele documentário. Creio que outra vez quebrarei a espinha dorsal de nossa já combalida estima. Mas não posso fugir ao meu dever de, sempre que possível, baixar o astral da humanidade.

Dito isso, vamos a nova revelação. Rufem os tambores (pausa). A Terra está perdendo sua forma esférica e está se tornando cada vez mais chata. E numa velocidade estonteante. Aqui relaciono, com rapidez e nenhum esforço, algumas evidências. Acompanhe:

Concertos de rock agora são sustentáveis.

Exigem-se dos estudantes propósitos claros para protestar.

Humor infantil e desbocado é tratado como politicamente incorreto.

Vinho virou conversa pernóstica em vez de bebida.

Conhecer pessoas agora é fazer networking.

O cinema só se interessa pelas crianças e adolescentes.

Viagens são chamadas de experiência.

Novelas precisam parar suas tramas para acomodar um pouco de temática social.

Vestir-se descontraidamente virou algo que demanda tempo, dinheiro e estudo.


Nesse ritmo, entraremos 2012 por debaixo da porta.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

[agência pirata] CHUTA QUE É MACUMBA - A INTOLERÂNCIA EVANGÉLICA



::txt::Xico Sá::

Minha santa mãezinha agora é evangélica. Católica não-praticante como todos da família, converteu-se, coisa de uns três anos, assim como vários membros do “milionário” clã dos Sás dos sertões do Ceará e de Pernambuco.

Mantenho o maior respeito pela forma como ela reencontrou a fé, caminho comum a tantos outros brasileiros: um irmão, quase em condição de rua, largou o vício. Minha mãe, meu amor, então “aceitou Jesus”. Acho bonito. Mesmo. Sem ironia alguma nessa fala, senhor diretor, por favor.

Dona Maria do Socorro me respeita e me ama ao extremo, apesar da minha vida torta. Sim, pensa na minha saúde, ora, ora por mim, mas não me julga. Linda.

Até ri quando algum sobrinho (eta que essa nova classe C internética faz um estrago na minha biografia antes escondida para ela!) mostra algum texto ou vídeo no qual exibo alguma imoralidade.

Tudo lindo.

Grau zero de intolerância entre a Bíblia aberta na Timbaúba, bairro que habita em Juazeiro do Norte, e a minha crença no excesso –a lama cura!- em São Paulo.

Os Sás, quizás, quizás, não podem servir como exemplo, somos diferenciados demais para tanto. Invoco, porém, o nosso “case” caseiro, diante do intolerante lobby da política evangélica brasileira. Especialmente os pentecostais.

Saltemos a porteira, os portais, direto para o noticiário desta Folha.com:

A presidente Dilma Rousseff determinou a suspensão da produção e distribuição do kit anti-homofobia em planejamento no Ministério da Educação, e definiu que todo material do governo que se refira a "costumes" passe por uma consulta.

Sim, pressão da bancada evangélica. Ou isso ou aquilo. Donde aquilo atende pelo batismo de Antônio Palocci, o ministro da Casa Civil, a cabeça de São João Baptista da vez.

Na campanha eleitoral não foi diferente. A própria Dilma foi vítima. Veio a palavra aborto e com ela acenderam todas as luzes vermelhas da histeria pentecostal-midiática.

Ah, cuidado, os evangélicos!

Ah, não mexam com eles!

Ah, eles têm a força!

Ah, religião com eles não se discute.

Ah, mal-estar da civilização uma ova, seu Sigmund!

Enquanto isso, em uma política de tolerância zero, os pentecostais chutam tudo que tem pela frente.

Chuta que é macumba, como eles tentam destruir, sem o menor respeito, as religiões e crenças que viajaram d´África ao Brasil nos navios negreiros.

Eles não discutem. Estão certos. Ponto, nada de parágrafo, só resta o versículo que justifica todo e qualquer ato.

E assim, num conluio intolerante entre fé e poder, no mesmo país que acaba de legitimar a união civil entre pessoas do mesmo sexo, engata-se a histórica marcha à ré no varejo da crônica de costumes.

Quando, em nome de Jesus, se metem tanto em nossas vidas, religião se discute. Estamos aqui para isso, não

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

[over12] A IGREJA NA TV



::txt::China::
::ilstrç::Kika Novaes::

Estou aqui na sala da minha casa, de frente pra TV, assistindo a um programa da Igreja Universal. Nada contra os protestantes ou qualquer outro tipo de religião. Eu mesmo já fui coroinha, e todo domingo levava os óleos que o padre usava na missa, apesar de querer mesmo levar o incensário. Gosto da fumaça. Mas, voltando ao assunto... nada contra as religiões, só que fiquei espantado com o que assisti.

O programa já começou com uma sessão de descarrego pesada (mas é madrugada, o horário permite). Tinha uma mulher virando os olhos e se remexendo toda, enquanto três caras seguravam ela. O pastor, gritando feito um louco, apertava o crânio da criatura com tanta força que doía até em mim. Depois de alguns gritos de ordem, como "sai satanás, que este corpo é do senhor" e "deixa essa alma em paz", o pastor deu um empurrão na mulher, que apagou completamente e ainda derrubou um dos caras com ela. Na hora eu pensei: porra, esse cara pode curar minha insônia!

Depois de alguns descarregos e muitos gritos, o pastor se acalmou. Andou bem devagar de um lado para o outro e se colocou atrás da mesa, no altar. Mandou os fiéis sentarem, tomou um gole de água e começou a contar uma passagem da Bíblia. No início a expressão do pastor era serena, mas quando ele falou num tal de Lúcifer, meu velho, o homem pegou ar. Arrancou o paletó, começou a gritar, esbravejar e deu vários tapas na Bíblia. Era cada tapa no livrinho que chegava a atrapalhar o som da sua voz no microfone. Pá, pá... satanás, Lúcifer, pá, pá. Será que esse pastor não sabe que rola a maior campanha para cuidar bem dos livros? E os gritos? Imagino que ali estavam várias pessoas com algum tipo de problema, físico ou psíquico. Com certeza devia ter algum surdo. Mas o pastor tinha que gritar daquele jeito? Um cara que grita para impor suas opiniões, com certeza, não tem uma opinião interessante.

Às vezes ele mudava o tom de voz e falava bem baixinho, para logo depois berrar "PORQUE SATANÁS...", numa altura que chegava a distorcer o som nas caixinhas da TV. Comecei a perceber que era uma artimanha do pastor para trazer de volta os fiéis mais dispersos. Mas me dei conta de que, na verdade, aquele porra tava era sacaneando a turma, pois ninguém conversava. Pense em você num grande galpão, cheio de gente olhando para o teto e rezando, e um cara dando uma caralhada de gritos? Não tinha como alguém ficar disperso. Mas o pastor continuava modulando a sua voz e dando tapas na Bíblia.

A imagem do templo foi cortada. Acho que era só uma “palhinha” do que você vai encontrar se quiser aparecer por lá. Agora estou vendo uma sala branca com uma cascata rolando num cromaqui. Natureza, para ser mais exato. Tudo clean, tudo azul. Adão e Eva no paraíso. A câmera tá andando. Tem uma mesa marrom que parece um caixão, e um cara sentado numa grande poltrona atrás da mesa, que está com alguns livros em cima... e, sim, tem uma Bíblia. Acho que esse cara é pastor também. Vou aumentar o volume para ouvir o que ele diz, pois está falando baixo.

A partir deste momento escrevo em real time, olhando para a TV e transcrevendo para vocês o que vejo. Ele fala sobre o valor da vida. Papo água da porra! Só conversa mole. Coloca a mão em cima da Bíblia bem devagar. Parece estar acariciando a palavra do senhor. Agora ele pega outro livro e mostra a capa para as câmeras. Continua falando da vida e insere o livro no contexto.

Claro! Como eu não me liguei nisso. O pastor manso está vendendo o livro. E não só ele, mas a série toda. Quatro volumes por 58 reais. É o que está escrito na tela. O pastor agora diz que, depois dos comerciais, voltará para dar uma benção na gente. Vou esperar.

Engraçado esse sistema que eles usam. No culto gritam, e no marketing falam baixo. Devia ser o contrário. Mas se eles conseguem vender mesmo esses livros, os ambulantes da cidade deveriam pegar umas aulas, pois nem se esguelando, os coitados apuram algum no fim do dia. Opa, volta a transmissão. O pastor manso tá com a Bíblia nas mãos. Pede pra gente levantar e colocar as mãos pro céu (a gente, que eu falo, são todas as pessoas que, como eu, estão assistindo esse programa). Vou ter que parar de escrever. 6 minutos depois...

Pronto. Fui benzido via NTSC, ou PAL-M, não sei ao certo. Tomara que tenha funcionado. Queria ligar pra saber quanto tempo dura essa benção, mas na tela só aparece um telefone para pedidos de oração. Porra! Se eu quiser rezar por alguém, eu mesmo faço isso, né? Vou economizar essa grana e tentar dormir. No domingo de manhã assistirei a missa do padre Marcelo Rossi, na rede globo, para fazer uma comparação mais embasada. Aleluia, irmão!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

[cc] EFETIVAR O ESTADO LAICO




::txt::Túlio Vianna::

A Constituição estabeleceu um Estado no qual as liberdades de crença e culto são garantidas e a separação entre Estado e instituições religiosas é definida expressamente. Na prática, porém, a permissividade da política com a religião ainda é uma realidade a ser enfrentada

O monoteísmo não é nada democrático. A crença em um deus único pressupõe a negação da existência do deus do vizinho. Pior: pressupõe que os mandamentos do seu deus são mais justos que os do deus do vizinho. E é natural que todos aqueles que se arroguem o direito de falar em nome deste deus único e todo-poderoso não primem muito pelo pluralismo. Quem ousaria contestar alguém que fala em nome de um deus onipotente, onipresente e onisciente?

A história está repleta de casos de políticos que sustentaram seu poder em nome de Deus. A teoria do “Direito Divino dos Reis”, em voga no século XVII, deu a Luiz XIV a necessária fundamentação ideológica para tornar-se o maior monarca absolutista da França: “L`État c`est moi” (O Estado sou eu) é a frase que melhor sintetiza o poder do mandatário de Deus na Terra.

No século seguinte, a mão de Deus não evitou que as cabeças de seus representantes na Terra rolassem e só então os ideais iluministas de separação entre direito e religião começaram a prevalecer. Nascia, assim, a concepção de um Estado laico que viria a nortear as democracias ocidentais até hoje.

No Brasil, durante todo o Império, o catolicismo continuou sendo a religião oficial, e as demais eram apenas toleradas (art.5º da Constituição de 1824). Como Estado confessional, o imperador antes de ser aclamado jurava manter aquela religião (art.103) e cabia a ele nomear os bispos (art.102, XIV). Somente com a proclamação da República, o Brasil se tornou um Estado laico, garantindo assim a separação entre Estado e religião (art.72, §3º a 7º da Constituição de 1891).

A atual Constituição brasileira de 1988 não deixa dúvidas quanto ao caráter laico de nosso Estado, garantindo expressamente a liberdade de crença, a liberdade de culto e a liberdade de organização religiosa (art. 5, VI da CR) e estabelecendo claramente a separação entre Estado e religião (art.19, I, da CR).

E “nunca antes na história deste país” esta separação entre direito e religião foi tão importante. Com a expansão das religiões neo-pentecostais nos últimos anos, o catolicismo, que sempre foi francamente majoritário no Brasil, começou a perder espaço e os brasileiros começaram a deparar com os problemas típicos do pluralismo religioso.

Divergências de crenças de um povo 90% cristão

Pesquisa Datafolha de maio de 2007 mostrou que 64% dos brasileiros se declaram católicos, 17% evangélicos pentecostais ou neo-pentecostais, 5% protestantes não pentecostais, 3% espíritas kardecistas, 1% umbandistas, 3% outra religião e 7% sem religião.

Poderíamos simplificar estes números e afirmar que o Brasil é um país 90% cristão, mas, na verdade, estas religiões divergem sobre pontos significativos de suas doutrinas, a começar por católicos e protestantes. Para os protestantes, a Bíblia é a única fonte de revelação de Deus e eles tendem a interpretá-la em sentido mais literal. Já os católicos acreditam também na Sagrada Tradição, isto é, nos ensinamentos orais transmitidos pelos cristãos ao longo dos séculos, como complementares ao texto bíblico. Daí surgem diferenças importantes: católicos adoram os santos e Maria, mãe de Cristo; os protestantes, não. Os católicos reconhecem o Papa como líder espiritual e acreditam nos sete sacramentos como instrumento para sua salvação; os protestantes creem que somente a fé em Jesus é capaz de salvá-los. Católicos interpretam o livro do Gênesis, que narra a história de Adão e Eva, como uma metáfora; alguns protestantes o interpretam literalmente e defendem o ensino do criacionismo na escola.

Mas há diferenças significativas também entre as Igrejas Protestantes históricas (Batistas, Luteranos, Presbiterianos, Metodistas e outras) e as Pentecostais (conhecidas no Brasil como evangélicas). A principal delas é a de que os pentecostais acreditam que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, por meio das práticas de curas milagrosas, profecias e exorcismos, entre outras.

Há diferenças substanciais também entre o Pentecostalismo Clássico (Assembleia de Deus, Congregações Cristãs, Deus é Amor e outras) e o Movimento Neo-Pentecostal (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Renascer em Cristo e outras). A primeira delas é visível: os pentecostais clássicos se vestem com roupas bastante formais por imposição das Igrejas: homens de terno; mulheres de saias longas e cabelos compridos. Outros usos e costumes rígidos normalmente são impostos aos fiéis, como por exemplo, não assistir à TV e não praticar esportes e, para as mulheres, não se depilar ou usar anticonceptivos. O conservadorismo é a tônica da doutrina pentecostal clássica, que se baseia no ascetismo e no sectarismo. Já os neo-pentecostais são bem mais liberais, não se vestem de forma determinada e têm como principal foco a Teologia da Prosperidade, que propugna que os fiéis têm o direito de desfrutar uma vida terrena com saúde e riquezas materiais. Para tanto, precisam demonstrar sua devoção a Deus doando suas economias de modo a se tornarem credores de Deus em uma dívida que será paga com a concessão das dádivas divinas. O sacrifício ascético do corpo é substituído por um sacrifício econômico em honra de Deus.

Finalmente, os neo-pentecostais têm uma divergência inconciliável com os espíritas. Ambos creem em manifestações sobrenaturais na vida cotidiana. Os espíritas acreditam na reencarnação e creem que estas manifestações são causadas por espíritos de pessoas comuns que faleceram e ainda não reencarnaram. Já os neo-pentecostais não acreditam em reencarnação e nem na possibilidade de os mortos se comunicarem com os vivos. Para eles, estes espíritos são na verdade manifestações do demônio e, portanto, precisam ser combatidos. Daí o motivo de tanta hostilidade entre evangélicos e espíritas: enquanto estes creem na possibilidade de conversar com os espíritos de parentes e amigos já falecidos, aqueles os acusam de conversar com demônios.

Neste contexto fervilhante de crenças, nada mais natural que se retomem as discussões sobre a importância do Estado laico. Enquanto o Brasil era um país com população quase que exclusivamente católica, a maioria simplesmente impunha suas crenças sobre a minoria que, de tão pequena, não levantava sua voz para lutar pelo Estado laico.

Basta ver os crucifixos afixados nas paredes dos tribunais e órgãos públicos brasileiros. Se até então o símbolo do predomínio católico em nossos tribunais só incomodava à pequena minoria não-cristã da população, atualmente muitos protestantes já se insurgem contra ele. Infelizmente, em 2007, o Conselho Nacional de Justiça decidiu que os crucifixos nos tribunais não violam o princípio constitucional da laicidade, por se tratar de um costume já arraigado na tradição brasileira. Com este simplório argumento, os conselheiros do CNJ justificariam até mesmo a escravatura que, quando foi abolida em 1888, ainda era costume no Brasil. Se costume fosse fundamento jurídico para justificar o próprio costume, as mulheres ainda teriam que se casar virgens, não haveria o divórcio e o adultério ainda seria crime. Fato é que tribunais e órgãos públicos são mantidos com dinheiro público e não devem expressar as crenças pessoais de seus dirigentes. Os crucifixos não são, pois, apenas um símbolo do predomínio católico, mas antes de tudo de uma apropriação privada da coisa pública para a manifestação de crenças pessoais.

Ensino religioso nas escolas públicas

A questão atualmente mais polêmica que decorre do princípio constitucional da laicidade é a do ensino religioso, de matrícula facultativa, nas escolas públicas, previsto expressamente no art.210, §1º, da Constituição Brasileira.

O Acordo Brasil-Vaticano (Decreto 7.107/10) que em seu art.11, §1º, prevê “o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” provocou imediata reação da sociedade civil ao colocar em risco a igualdade de tratamento entre as religiões. A constitucionalidade do dispositivo está sendo contestada atualmente no Supremo Tribunal Federal (ADI 4.439) pela Procuradoria-Geral da República, que defende corretamente que o ensino religioso no Brasil deva ser não-confessional, limitando-se, pois a um apanhado teórico da diversidade de religiões existentes em nosso país.

Melhor seria, porém, que o Estado deixasse cada família decidir sobre a melhor formação religiosa de seus filhos, matriculando-os em cursos fornecidos pelas próprias Igrejas e outras instituições religiosas. Uma emenda constitucional que abolisse o ensino religioso nas escolas públicas resolveria de vez a controvérsia relegando a formação religiosa para a esfera exclusivamente privada.

A meta do Estado laico

O Estado laico ainda é uma meta a ser perseguida pelo Direito brasileiro. Se na questão dos crucifixos e do ensino religioso, a manifestação de cristãos não-católicos tem sido decisiva para colocar em pauta os debates, as violações do princípio da laicidade tendem a ser menosprezadas quando há consenso entre católicos e protestantes.

Veja-se, por exemplo, o art.79, §1º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que prevê que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”. Se o Estado é de fato laico e a religião não deve ser fundamento da elaboração das leis, qual sentido há neste dispositivo? Se o deputado é cristão, que compre sua própria Bíblia e a leve consigo.

O nome do deus monoteísta tem sido usado sem maiores pudores na esfera pública, sob o argumento de que contemplaria todas as religiões. Alega-se que o preâmbulo da Constituição de 1988 se refere expressamente à “proteção de Deus” e, portanto, o ateísmo estaria excluído da liberdade de crença. Trata-se de um falso fundamento jurídico, já que o preâmbulo, por sua própria definição, é o texto que antecede a norma e, portanto, não faz parte dela. Em suma: não tem qualquer valor normativo.

A liberdade constitucional de crença é também uma liberdade de descrença, e ateus e agnósticos também são cidadãos brasileiros que devem ter seus direitos constitucionais respeitados. O mesmo se diga em relação aos politeístas, que acreditam em vários deuses e não aceitam a ideia de um deus onipotente, onisciente e onipresente.

Um bom exemplo do uso do nome de Deus com violação do princípio da laicidade é a expressão “Deus seja louvado” no dinheiro brasileiro. Como não incomoda à maioria da população, acaba sendo negligenciada em detrimento dos direitos constitucionais dos ateus, agnósticos e politeístas, que ainda não são bem representados no Brasil. Já se vê, porém, algumas destas expressões riscadas à caneta nas notas brasileiras, o que é uma clara manifestação de descontentamento com o desrespeito à descrença alheia.

O paradoxal desta menção de Deus no dinheiro brasileiro é que a Bíblia narra (Mateus: 22, 21) uma passagem na qual Jesus rechaça uma tentativa de uso político de seus ensinamentos e reconhece a importância do Estado laico, referindo-se justamente à moeda romana: “Dai o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus”. Das duas, uma: ou o Deus cristão mudou de ideia nestes últimos dois mil anos ou seus representantes na Terra andam excedendo os limites da procuração por Ele outorgada.

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