#CADÊ MEU CHINELO?

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quinta-feira, 9 de junho de 2011

[agência pirata] CHUTA QUE É MACUMBA - A INTOLERÂNCIA EVANGÉLICA



::txt::Xico Sá::

Minha santa mãezinha agora é evangélica. Católica não-praticante como todos da família, converteu-se, coisa de uns três anos, assim como vários membros do “milionário” clã dos Sás dos sertões do Ceará e de Pernambuco.

Mantenho o maior respeito pela forma como ela reencontrou a fé, caminho comum a tantos outros brasileiros: um irmão, quase em condição de rua, largou o vício. Minha mãe, meu amor, então “aceitou Jesus”. Acho bonito. Mesmo. Sem ironia alguma nessa fala, senhor diretor, por favor.

Dona Maria do Socorro me respeita e me ama ao extremo, apesar da minha vida torta. Sim, pensa na minha saúde, ora, ora por mim, mas não me julga. Linda.

Até ri quando algum sobrinho (eta que essa nova classe C internética faz um estrago na minha biografia antes escondida para ela!) mostra algum texto ou vídeo no qual exibo alguma imoralidade.

Tudo lindo.

Grau zero de intolerância entre a Bíblia aberta na Timbaúba, bairro que habita em Juazeiro do Norte, e a minha crença no excesso –a lama cura!- em São Paulo.

Os Sás, quizás, quizás, não podem servir como exemplo, somos diferenciados demais para tanto. Invoco, porém, o nosso “case” caseiro, diante do intolerante lobby da política evangélica brasileira. Especialmente os pentecostais.

Saltemos a porteira, os portais, direto para o noticiário desta Folha.com:

A presidente Dilma Rousseff determinou a suspensão da produção e distribuição do kit anti-homofobia em planejamento no Ministério da Educação, e definiu que todo material do governo que se refira a "costumes" passe por uma consulta.

Sim, pressão da bancada evangélica. Ou isso ou aquilo. Donde aquilo atende pelo batismo de Antônio Palocci, o ministro da Casa Civil, a cabeça de São João Baptista da vez.

Na campanha eleitoral não foi diferente. A própria Dilma foi vítima. Veio a palavra aborto e com ela acenderam todas as luzes vermelhas da histeria pentecostal-midiática.

Ah, cuidado, os evangélicos!

Ah, não mexam com eles!

Ah, eles têm a força!

Ah, religião com eles não se discute.

Ah, mal-estar da civilização uma ova, seu Sigmund!

Enquanto isso, em uma política de tolerância zero, os pentecostais chutam tudo que tem pela frente.

Chuta que é macumba, como eles tentam destruir, sem o menor respeito, as religiões e crenças que viajaram d´África ao Brasil nos navios negreiros.

Eles não discutem. Estão certos. Ponto, nada de parágrafo, só resta o versículo que justifica todo e qualquer ato.

E assim, num conluio intolerante entre fé e poder, no mesmo país que acaba de legitimar a união civil entre pessoas do mesmo sexo, engata-se a histórica marcha à ré no varejo da crônica de costumes.

Quando, em nome de Jesus, se metem tanto em nossas vidas, religião se discute. Estamos aqui para isso, não

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

[cc] O FATOR ABORTO NA CAMPANHA PRESIDENCIAL



::txt::Bruno Lima Rocha::

Este país nunca pára de surpreender, para pior.

Apesar de termos índices de violência altíssimos, o ato da soberania cidadã através do voto se vê sempre coagido por um conjunto de agentes com poderes de veto. Estes, nunca hesitam em exercer tal poder, por mais absurdo que seus enunciados pareçam. Tal é o caso dos neopentecostais e dos católicos carismáticos ou conservadores no quesito legalização ou descriminalização do aborto.

Desde o começo o termo e o tema foram mal empregados, jogando na confusão e nas manobras diversionistas alimentadas mediante a galvanização dos preconceitos embutidos no voto pobre e reacionário.

Para começar, é preciso dizer que não conheço ninguém “a favor do aborto”. As pessoas lúcidas defendem os direitos reprodutivos e o controle da mulher sobre seu próprio corpo.

Ninguém em sã consciência é um entusiasta do ato abortivo. Médico algum que cumpra o código de ética do oficio realiza um procedimento assim com entusiasmo.

A legalização do aborto tampouco implica na apologia da prática. Qualquer brasileiro adulto conhece um ou mais episódios de abortos arriscados ou em clínicas ilegais atingindo mulheres em distintas idades. É um problema de saúde pública e não de ordem moral. Ainda mais em se tratando de um país com costumes sexuais liberalizados como o nosso.

Por isso considero tratar-se de hipocrisia a pregação conservadora contra a legalização do aborto enquanto a linguagem publicitária e os programas de TV aberta tornam-se cada vez mais sexualmente apelativos.

É um absurdo preocupar-nos com o direito reprodutivo como um tabu e não nos escandalizarmos, enquanto sociedade, com a erotização da infância e da juventude e a conseqüente puberdade e gravidez precoce disseminada por vilas e periferias do Brasil.

Quanto a isto os pregadores não se manifestam, talvez porque a desestrutura das famílias humildes retroalimenta a fé como um mercado de expectativas desesperadoras. Obviamente esta relação mercadológica dá-se mediante significativa remuneração oriunda em sua maioria de famílias de baixa renda.

Mesmo sabendo ser o tema um tabu eleitoral, não posso evitar posicionar-me. Particularmente não posso crer no discurso de Dilma Rousseff (PT) e também de José Serra (PSDB) no assunto. São dois economistas e ex-ministros de Estado, ambos com formação científica e experiência na aplicação de políticas públicas, incluindo as de saúde. Ao se pronunciarem “contra o aborto e a favor da vida”, estão simplesmente atendendo seus marqueteiros e “jogando para a platéia”.

Por fim, confesso que a virulência do tema me assusta, em especial pela expectativa de médio prazo. Estaremos nós brasileiros, caminhando para disputas políticas como a dos EUA, pré-determinadas por grupos fundamentalistas cristãos? Qual será o próximo passo dos agentes político-religiosos com capacidades e poderes de veto? Vão fazer campanha pelo criacionismo como fator explicativo do surgimento do universo? Depois da demarcação de espaço e a imposição da pauta na campanha presidencial, daqui para frente abriu-se a porteira para o pior do agendamento reacionário.

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