#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 5 de julho de 2011

[agência pirata] O MELHOR DISCO DE 2011... E O DE 1986



::txt::Zeca Camargo::

Sim, é chegada aquela hora crucial – e dramática – em que eu, na metade do ano, anuncio o melhor álbum do corrente, para indignação de muitos, chacota de uns, e revelação de outros. Se a experiência me ensina alguma coisa é que uma parte das pessoas que gosta de música pop não pode conceber, meses antes de 2011 terminar, que alguém tenha a empáfia de decretar qual é o melhor disco para representar todos os doze meses no ano! Há, felizmente, exceções: pessoas genuinamente curiosas que, se não concordam comigo, no mínimo agradecem o achado. Mas, tirando pela primeira vez que fiz isso, em meados de 2010, elegendo “The boxer”, de Kele, para tal honra, a reação (prevejo) vai ser próxima ao ultraje. Então, já que ele é inevitável, vamos a ele!

Mas antes – e este “mas antes” é minha homenagem a você, que sempre reclama que eu dou voltas antes de entrar no assunto principal (você que, se pudesse, resumiria todo o meu texto em uma mensagem em letras vermelhas lá em cima, para não dar trabalho nenhum de ler…) -, enfim, mas antes, eu gostaria de apresentar o melhor disco de 1986 – um ano muito longínquo mas que foi de importância crucial para o mundo do pop. Por que ele foi tão importante assim? Porque foi o ano em que “The queen is dead” veio ao mundo, cortesia de uma banda que talvez você tenha ouvido falar chamada The Smiths.

Esta não é a primeira vez que cito eles aqui – pelo contrário. Nem preciso de muitas desculpas para jogar os Smiths na conversa. Mas estamos falando de um aniversário – e dos mais importantes. Há 25 anos – quando você talvez ainda não tivesse nascido – “The queen is dead” chegava para mudar todas as regras de um pop que nem sonhava que o “grunge” estava ali na esquina. Não chegou a ser uma surpresa – afinal, os dois discos anteriores da banda (o primeiro, com o nome deles; e o segundo, o sensacional “Meat is murder”) já tinham criado suas pequenas revoluções, ressuscitado a então incerta cena alternativa inglesa, sacudido a letárgica parada britânica, apresentado a incomparável guitarra de Johnny Marr e a delirante poesia de Morrisey, conquistado legiões de fãs (inclusive, para não perder o trocadilho, um certo líder de uma legião urbana aqui mesmo no Brasil) e confundido uma boa parte deles com suas letras (“O que eu estou fazendo cantando ‘This charming man’ a plenos pulmões?”, perguntou-se mais de um admirador heterossexual da banda…).

Mas “Queen” era diferente: mais poderoso, mais melódico, mais radical, mais poético, mais sonoro, mais sedutor, mais nervoso, mais irreverente, mais sério, mais atrevido, mais impossível, mais genial. Enfim, um clássico.

Não que o pop inglês estivesse parado. 1986 foi também o ano do lançamento do icônico “C86″ – uma fita cassete compilada pelo não menos icônico semanário musical inglês “NME”, com o melhor das bandas então desconhecidas, e que se tornou uma referência para a música daquela década (boa parte dos artistas que estavam na coletânea, com exceção talvez de Primal Scream e The Wedding Present, tiveram fôlego para ir além de um ou dois álbuns, mas, de qualquer maneira, só o mérito de ter participado do “C86″ já garantiu o lugar deles na História). Mas “The queen is dead” veio para estabelecer um outro patamar. Era como se Marr e Morrissey estivessem dizendo: “Se vocês querem fazer música, de agora em diante, é assim – tem que ter melodia, tem que ter um refrão que você registra logo na primeira vez que ouve, e tem que ter versos como você mesmo escreveria se estivesse tomado de uma paixão infinita”.

Essa paixão não precisava ser exatamente por alguém. Podia ser pelo ódio à família real britânica (como na faixa-título). Ou pelas pessoas realmente estranhas (“Vicar in a tutu”). Pela liberdade (“Frankly Mr. Shankly”). Paixão pelo fim de uma paixão (“Bigmouth strikes again”). Ou pelo começo de uma (“There’s a light that never goes out” – será que alguém se lembra de uma declaração de amor, em forma de refrão, mais bonita e delirante do que essa, onde um amante diz ao outro que morrer ao seu lado, atropelado por um ônibus de dois andares, seria um privilégio, e que nenhum prazer seria maior do que esse fim trágico?). Fato é que essa paixão pingava de cada verso, de cada frase musical, de cada coro, de cada abertura (o que é aquela introdução de “The boy with the thorn in his side”?), de cada encerramento (garanto que aquela flauta do final de “There’s a light” está até hoje na cabeça de quem ouviu a canção pelo menos uma vez!).

Apreciadores da boa música comemoraram recentemente os 25 anos de “The queen is dead” – lançado oficialmente em 16 de junho de 1986 – e garantiram que ele ainda seja ouvido por muitas e muitas gerações. Afinal, o que os Smiths conseguiram ali foi fazer uma obra atemporal. Não importa sua idade, eu tenho certeza de que você vai ser capaz de dançar ao som de “Some girls are bigger than others”. Independente de qual o seu gosto musical, posso apostar que você vai se embalar com “Cemetry gates”. E basta apenas você ser humano para um dia ter se sentido como personagem principal de “I know it’s over” (ah… nunca teve seu coração completamente destruído? sei…).

Brinquei no início do texto que esse era (e foi, de fato) o melhor disco de 1986, mas um título como esse só diminui a obra. “The queen is dead” é uma das melhores coisas que já surgiram na história do rock (o próprio “NME”, em edição recente, que celebrou os 25 anos na capa, também não teve pudor de colocar o álbum no cânone dos melhores da história da Grã-Bretanha). Se fosse possível ele entraria também na lista dos melhores de 1987 – e 88, 89, 90, 91… E século 21 adentro. “Queen” é tão perfeito, que, depois de tantos elogios, fico até sem graça de falar do tal melhor disco deste ano, 2011, que eu vou revelar hoje aqui…

Mas vamos a ele: o escolhido (a ser depois confirmado ou desmentido por todas as listas que começam a aparecer nos sites de música que a gente gosta já no final de novembro) é… “The English riviera”, do Metronomy. Quem?

Pois então. Se você não for um fã de música eletrônica, talvez esse nome lhe escape por completo. Mas espere: se você não é um fã de música eletrônica, não pare de ler por aqui. “The English riviera” é uma espécie de guinada na trajetória dessa banda inglesa, que chamou atenção pela primeira vez em 2006, com o álbum “Pip paine” – um trabalho (vamos ser francos) muito chato. Fui atrás do Metronomy porque a crítica, na época, se entusiasmou com esse lançamento. Mas fiquei extremamente decepcionado.

Depois disso, nem me animei a conferir o álbum seguinte, “Nights out”. Mas, de repente, há algumas semanas, comecei a detectar o nome deles novamente no meu radar – e os elogios para “Riviera” eram tantos (e vindos de fontes que eu realmente respeito) -, que resolvi (olha que antigo!) comprar esse CD, numa viagem recente. Ficou na minha mala de mão uns bons dez dias, até que numa noite cansada, coloquei-o para tocar, menos por curiosidade do que iria ouvir, e mais para procurar uma trilha sonora que me convidasse ao sono. Não dormi.

Ou pelo menos não dormi tão rápido quanto eu pensava. Senti-me quase que obrigado a escutar “The English riviera” mais de uma vez – e só parei quando fui realmente vencido pelo cansaço. Fiquei completamente entusiasmo pela riqueza do álbum – e olha que esse é um atributo que uso com muita parcimônia. Tudo que eu já esperava da banda estava lá – especialmente os arranjos eletrônicos tão despojados que lembravam o melhor do “synthpop” dos anos 80. Mas o que me surpreendeu foi a inventividade que cada faixa trazia.

O começo até que foi meio lento. Depois de uma breve introdução, ao som de pássaros (numa encosta? numa “riviera”?) e violinos, a segunda faixa vem mansa. “We broke free” traz vocais suaves, modestas guitarras e familiares sintetizadores. Mas aí chega “Everything goes my way” – e você começa a prestar atenção! Como um mantra, “Love, I’m in love again” entra pelos seus ouvidos e se recusa a sair – e o ritmo é tão irresistível quanto o refrão. “The look” – a música seguinte – te desloca sem aviso para os anos 80. Quando você está quase se recuperando da viagem no tempo, “She wants” oferece o conforto das canções bem construídas dos anos 90 – e apenas mais duas faixas depois você já está em pleno século 21 (“Loving arm”), com um pé no 22 (“Corinne”).

Essa última canção é tão maravilhosa, que mesmo sabendo que eu já queria escrever sobre “The English riviera” mais adiante, eu não aguentei e indiquei ela para você logo no início deste mês, aqui no nosso já tradicional “pé de página” onde se lê “O refrão nosso de cada dia”. E com um bom motivo – fora o meu entusiasmo geral com a banda. “Corinne” é uma coisa esquisita – uma música que parece feita de partes desconjuntadas, mas que depois que você ouve pela segunda ou terceira vez, faz todo o sentido. E mais: ela se torna brilhante! (Não sou a favor, a princípio, de músicas “difíceis” – um dia até quero escrever um post sobre elas. Mas é que “Corinne” é verdadeiramente excepcional, ainda que ela te dê algum trabalho para você gostar dela!).

No finalzinho, Metronomy vem com mais uma faixa deliciosa (“Some written”), e fecha o jogo com uma espécie de enigma: “Love underlined” – parte Depeche Mode, parte Of Montreal, parte The Big Pink, parte Atlas Sound. Hum… Nem sei se é isso mesmo – mas qualquer banda que me faz lembrar de todas essas outras ao mesmo tempo, já merece o meu respeito.

Assim, senhoras e senhores, está apresentado aqui “o melhor disco de 2011″ (do meio do ano). Sei o que vem por aí – e estou preparado. Pode mandar! Ah! E já que eu vou levar pedra mesmo, aproveito para escolher também o melhor videoclipe do ano: “The greeks”, de uma banda chamada Is Tropical . Sim, mais uma banda britânica (hoje o post está cheio delas). Mas não vou gastar muito tempo com esses caras (pelo menos não agora). Só quero mesmo é chamar atenção para o vídeo de “The greeks”, que é estupendo. É até simples – feito todo em cima de uma ideia só. Mas essa ideia é genial, espertamente subversiva, e, apesar de serem extremamente violentas (aliás, essa é a questão!), as imagens são quase líricas… Afinal, o que você espera de um clipe feito com crianças?

Veja lá se você concorda com minhas escolhas (acho que já sei as respostas!) e segunda-feira falamos dos perigos da escrita criativa…



O refrão nosso de cada dia

“El galán de la Paternal”, Alvy, Nacho y Rubin – uma estranha associação de idéias me levou a esse refrão de hoje. Já mencionei minha paixão por esse projeto de ótimos músicos argentinos (ok, um uruguaio), quando escrevi sobre “Como un pollo degollado” há algumas semanas. Eles tiveram a coragem – e a inspiração – de fazer versões (para o castelhano) de algumas das melhores músicas de um clássico moderno chamado “69 love songs”, do Magnetic Fields (leia-se, Stephen Merritt). Mas isso não vem ao caso agora. Lembrei de “Galán” por que estava ouvindo justamente “There is a light that never goes out”, para escrever o post acima – e logo meu pensamento foi parar em outra música dos Smiths que também falava de um romance (mais ou menos) dentro de um carro: “This charming man”. “Por que se preocupar com as complexidades da vida, quando o couro desliza macio no banco de passageiros?”, pergunta Morrissey (na minha tradução apressada), numa clara alusão a um bom amasso entre duas portas… E isso me levou ao refrão de “Galán”, que, de maneira até mais romântica que “This charming man”, convida quem ouve a um passeio de carro cheio de possibilidades: “Tengo un Renault y vos querés ir a pasear”… Enfim, acho que viajei legal – mas pelo menos deixo aqui um belíssimo refrão para você aproveitar o feriado.
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