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segunda-feira, 4 de abril de 2011

[a vida como ela noé] O PIÁ DE BOSTA E SEU AMIGO INVISÍVEL

::txt::Jucazito::

Distantes doze outonos passados. Eu ainda me encontrava sob a luz das descobertas visuais e auditivas de outras dimensões. Apesar da evolução alucinógena, te digo e repito que eu não passava de um piá de merda. As gurias no máximo me queriam para passar cola na prova de inglês. Pois eu ainda nem tinha carteira de motorista, nem título eleitoral. Digo melhor: eu num dirigia nem escolhia quem nos dirigisse. Um piá de bosta mesmo, era isso o que eu era. Minhas sacanagens se resumiam a roubar provas de física, colocar rabinho de folha de caderno na traseira das calças dos colegas para depois atear fogo, e pendurar as bike dos piá lá no não-tô-vendo das árvores.

Destas violências, causadas pela ingestão de ervas do mato, eu, certa manhã de domingo, fui jogar vôlei de dupla sozinho. Da língua alheia ouvi espanto: se eu tava sem parceria, como é que eu poderia formar dupla para jogar. Entón escutei aquela voz que ainda hoje me chacoalha a lembrança:

- Eu jogo com você. Muito prazer, meu nome é Arlei.

Ninguém viu Arlei. Nem eu. Ele era invisível. Claro, somente eu o escutei. E, por dois longos anos, fui seu único intérprete. Foi uma comédia a presença de Arlei em Tibicuari. Não raro era aquela roda de piás de bosta querendo conhecer o guri invisível. Neste mesmo domingo em que ele chegou, levamos Arlei para conhecer a night da city. Sentamos num boteco, Arlei com seu banco só pra si, e planejamos com goles de cerveja o que aprontar. Um tinha rojão, outro spray, sei lá quem tinha não sei o quê.

Enquanto a cidade dormia na paz dos anjos, a gente tratava de personalizar o pesadelo. Pichações pelos muros da cidade pediam diversão e arte e legalize já. Nas moitas onde casais iam gozar seus namoros, nós brochamos a transa deles com rojões e pedras. E, como sempre gostei de pentear os cabelos para os holofotes, procurei incentivar a queima dos latões de lixo para iluminar a nossa arte, para que a cidade pudesse apreciar nossa criação. Arlei era o que mais se divertia. Como ninguém tinha condições de enxergá-lo, ele aproveitava ao máximo na arte de construir a destruição. E desse caos ele ria sem parar.

Mamãe é que não gostava dessa minha nova amizade. Ele rangueava, dava descarga, se banhava e capotava lá na baia. Era uma boca a mais para comer. E dois a menos a estudar. Vagabundeamos por dois anos seguidos, no espalhar terror por Tibicuari. Certa vez, em noite de lua fofa, levantamos um carro e o colocamos virado de frente à contramão. Excesso de porra acumulada faz mal pra saúde mental.

Nestes dois anos em que Arlei se cobriu sob o céu de Tibicuari, é de se ressaltar que ele roubou a fama que eu nem havia conquistado. A cidade inteira sabia de sua existência, até conta em boteco de sinuca-e-pinga-e-fumo-de-rolo ele tinha.

Arlei partiu justamente no dia em que uma peidorreira me chamou pelo nome dele. Não sei se ele se sentiu desrespeitado ou não, mas quando fui ver, meu amigo invisível havia sumido sem deixar pegadas ou fio de cabelo. A cidade de Tibicuari, tão acostumada que estava com a presença do forasteiro, tratou de procurar informações a respeito de Arlei. Centenas de cartazes foram colados em postes, balcão de bar e mural de escola. O cartaz com um PROCURA-SE bem grande, acima de um quadrado em branco, pois fotografia de gente invisível devia ser daquele jeito, em branco, segundo nossa fértil e nula imaginação.

Mas que nada! Arlei de certo voltou ao seu planeta invisível. Mamãe achou que eu tinha curado da loucura. Alguns ainda hoje perguntam onde anda Arlei. Outros concordavam com mamãe:

- O cara é doido, tem até amigo invisível, muita fumaça do mato na cabeça, saca.



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