#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 19 de março de 2012

[noé ae?!] LULA QUEIROGA

[agência pirata] UMA ELEIÇÃO DO UM POR CENTO

::txt::David Brooks::

Que a eleição presidencial norte americana parece estar reduzida, com seu tsunami de fundos ilimitados e não regulados, a um concurso entre milionários para impor o seu favorito na Casa Branca já não é notícia. Para muitos, a impressão é que esta é uma eleição do um por cento, para o um por cento e pelo um por cento, guiada, desenhada e coreografada pelos melhores técnicos especializados em criar uma ilusão de democracia enquanto os donos do jogo se dedicam ao negócio do poder real. Portanto, talvez o mais interessante agora sejam os detalhes raros e absurdos deste concurso ou as coisas que se revelam da classe política por acidente.

Por exemplo, no sábado passado houve uma agitação no estado mais orgulhosamente anti-imigrante do país, o Arizona. Ali, uma das figuras mais “machonas” da política estadual, um “sheriff” reconhecido por sua feroz posição anti-imigrante e fama de ser ex-militar e grande defensor da “lei e da ordem”, também candidato ao Congresso, de repente teve que renunciar à vice-presidência estadual da campanha presidencial do republicano Mitt Romney. A razão: um conflito passional com um homem, que além de tudo é... um imigrante mexicano!

Paul Babeu, político muito popular no Arizona, xerife do condado de Pinal, anunciou sua renúncia após serem publicadas nos meios de comunicação locais, versões de que havia ameaçado deportar um ex-namorado, de origem mexicana, quando este – identificado como José – recusou ocultar uma relação que, afirmou, durou anos. José declarou ao Phoenix New Times que recusou assinar um acordo segundo o qual jamais revelaria sua relação com Babeu e por isso foi ameaçado com a deportação. No sábado, Babeu foi obrigado a confessar, em entrevista coletiva, que teve uma relação “pessoal” com José, mas negou que houvesse ameaçado deportá-lo, embora admitisse: “A verdade é que sou gay”. As primárias no Arizona se realizaram nestes dias e o que menos desejava Romney, que destaca suas credenciais de “conservador” extremo, é que alguém associado a ele seja gay.

Falando de estrangeiros, os republicanos ainda tentam manter a suspeita de que Obama não é norte-americano. Entre as filas ultraconservadoras se suspeita ainda da veracidade de sua certidão de nascimento e, embora os pré-candidatos tenham abandonado essa linha de ataque (que utilizaram na eleição de 2008), desejam gerar a ideia de que mesmo Obama sendo norte-americano, suas ideias sim são estrangeiras. Na impossibilidade de poder chamá-lo “africano” ou “muçulmano”, como tentaram antes, agora o pior insulto é que é um socialdemocrata ou socialista estilo europeu. O pré-candidato presidencial republicano Newt Gingrich o acusou de estar “a favor do socialismo europeu”.

Romney afirmou que Obama promove um “Estado de Bem estar de estilo europeu” em contraste com o seu, que é de “um país livre”. Como assinala o colunista Harold Meyerson, do The Washington Post, a “culpabilidade por associação era muito mais simples quando a associação, ou suposta associação, era com comunistas. Em sua ausência, os republicanos enfrentaram o desafio de tornarem-se mais ridículos. E conseguiram!”.

Enquanto isso houve um intenso debate sobre a “liberdade de religião” quando os bispos católicos proclamaram sua oposição a que hospitais e escolas católicas paguem o custo de anticoncepcionais para seus funcionários, como estipula a reforma de saúde impulsionada por Obama. Quando o governo de Obama conseguiu torcer a férrea oposição da hierarquia católica, ao dizer que as seguradoras e não suas instituições pagariam esses custos, os bispos insistiram que ninguém deve pagar por algo tão cheio de maldade como a contracepção. Agora alguns republicanos atacam Obama como “inimigo da religião”.

O espetáculo da hierarquia – por definição de puros homens –, defendendo seus supostos princípios morais sobre a sexualidade, apesar da vasta maioria de seus fiéis não compartilharem seu ponto de vista e de que não há nenhuma menção a tal coisa na Bíblia, foi triste. Mas o mais notável, quase obsceno, assinalaram cômicos e satíricos, foi que uma instituição que passa por uma das piores crises de sua história – e paga indenizações multimilionárias – pelas perversas atividades sexuais cometidas com menores de idade por vários de seus pastores espirituais, e depois encobertas por seus líderes, ainda acredite que tem autoridade moral para pronunciar-se sobre isto. Revelou, mais uma vez, essa combinação tão letal de política e religião neste país.

Talvez o exemplo mais extremo desta combinação entre política e religião entre os republicanos é o pré-candidato Rick Santorum, que não só se pronuncia contra a anticoncepção, mas também descarta o aquecimento global, a teoria da evolução, afirma que o sexo gay é “selvagem” e até questiona o papel do Estado na educação (seus filhos foram educados em casa). Tudo em nome de sua fé católica. O fato de ser um candidato viável para a presidência provoca que muitos aqui gritem: “Deus nos salve!”.

E, enquanto tantas coisas sérias acontecem, a convulsão continua em Wall Street. Há duas semanas se realizou um rito anual de uma confraria de banqueiros e executivos de Wall Street que se divertiram zombando do Ocupy Wall Street e de como foram resgatados da crise pelo tesouro público. Todo culminou com o rito de indução de novos membros, que tiveram que vestir roupa de mulher, dançar, cantar e submeterem-se a um bombardeio de pasteizinhos e guardanapos empapados em vinho exclusivo. Estes são, como informou The New York Times, os que tomam decisões cotidianas que “coletivamente podem fazer ou romper os mercados financeiros globais”.

Só com estes exemplos – e tem muito mais – pode-se concluir que, se por um lado os conservadores aqui tem razão: a imigração, o socialismo e o sexo ameaçam os Estados Unidos, por outro, é que talvez o estribilho da canção tema do grande filme Cabaret é o melhor exemplo para descrever a conjuntura neste país: “a vida, meu amigo, é um cabaret”.

sexta-feira, 16 de março de 2012

[paladar] A ÚLTIMA DAS MOICANAS



::txt::Nana Tucci::


De um jeito ou de outro, um curioso à solta em Paraty chegará até Maria Izabel. Nos melhores bares e restaurantes, o garçom costuma inflar o peito ao anunciar “nossa caipirinha é feita com a cachaça Maria Izabel”. Na pousada mais elegante da cidade, a Casa Turquesa, os hóspedes ganham de brinde uma miniatura da bebida. Se, mesmo assim, a Maria Izabel não te pegar, ela chamará sua atenção nas prateleiras dos armazéns no Centro Histórico. Que cachaça local é essa com nome de mulher, rótulo de grafismo sofisticado como o de um livro de Scott Fitzgerald e preço de scotch?

A cachaça mais cult de Paraty, cidade que é o berço da cachaça no Brasil e virou santuário de intelectuais por sediar a feira literária Flip, é feita por uma mulher, sozinha, que é a menor produtora local - são cerca de 7.500 litros/ano, obtidos exclusivamente da cana plantada em três hectares do próprio terreno.

A Maria Izabel do rótulo existe, é Maria Izabel Gibrail Costa, cidadã paratiense de 61 anos. É ela quem cuida de todas as etapas da bebida que produz há seis anos - da plantação da cana ao engarrafamento, incluindo a destilação. Para tanto, cana, alambique e a casa onde Maria Izabel mora ficam no mesmo lugar, com distâncias medidas em passos, no sítio Santo Antônio.

O sítio está em uma encosta de frente para o mar. Em encostas costuma haver uma considerável variação de temperatura no verão (quente e chuvoso) e no inverno (frio e seco), então a tendência é que a cana dali concentre mais açúcar. Por outro lado, a vizinhança do mar aumenta a presença de salinidade - que, a grosso modo, é o que caracteriza o “terroir” de Paraty, dando à região personalidade suficiente para competir com as cachaças de Minas Gerais. Não bastassem os atributos naturais, o sítio tem enredo de Letícia Wierzchowski: é a casa de sete mulheres. Maria Izabel e suas seis filhas, Izabel, Maria, Mabel, Mariza, Maira e Maia.

Na cidade todos sabem quem é Maria Izabel, mas pouco se sabe sobre ela. Diz-se que a poderosa editora inglesa Liz Calder, a criadora da Flip (que descobriu Harry Potter), só toma cachaça Maria Izabel - foi ela, aliás, quem encomendou do amigo Jeff Fisher o rótulo, presenteando sua alambiqueira protegida. Um dos maiores especialistas do País no assunto, Erwin Weimann, muda o tom de voz ao falar dela :“A Maria Izabel é uma guerreira e faz uma cachaça de respeito”.

Mas Maria Izabel não é uma mulher que gosta de curtir a fama. Vive recolhida. Dá a impressão de que as únicas notícias que recebe “de fora” vêm pelas filhas, mulheres bonitas e bem articuladas, envolvidas na organização da feira literária de Paraty. “Ela só anda descalça”, diz o amigo Ismaelzinho, dono de um restaurante em cima de uma árvore a poucos quilômetros do sítio.

Sentada à mesinha de madeira onde realiza degustações em seu alambique, cabelos molhados de quem acabou de tomar um banho de mar, Maria Izabel conta sua história. “Digo que eu sou a última das moicanas”, começa, referindo-se ao fato de manter viva a tradição de fazer cachaça pessoal e artesanalmente. Registros confirmam que seu trisavô paterno, Francisco Lopes da Costa, produzia cachaça em 1800. Mas ela aprendeu tudo na prática. Depois de trabalhar com arquitetura, organizar passeios turísticos em uma baleeira (ela não fica sem um barco), vender pães feitos por ela mesma...

“Vocês deveriam ter ligado, poderiam ter me encontrado andando pelada”, advertiu ela. Portanto, o leitor curioso chegará, sim, até Maria Izabel, mas, já sabe - é melhor que avise.

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