#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 19 de março de 2013

[overmundo] MEU PRIMEIRO MORTO

:: txt :: Daniel Valentim ::

Pegava restos de papel de jornal de grandes carretéis pra fazer folha de rascunho. O secretário da redação sempre fazia cara feia quando eu pedia caneta nova, mas me dava, “vai regular bic, bicho?”. Terceiro período na faculdade de comunicação, queria trabalhar na editoria de cultura mas o editor chefe me mandou pra polícia. Tudo nas internas: estágio em reportagem era proibido pelo Sindicato. Era arquivista (função inexistente nas redações em que trabalhei), mas fazia ronda policial de segunda a segunda com exceção de dois fins de semana por mês.

Meu primeiro morto estava escondido num ramal lá pros lados do Tarumã. Estava rodando pela cidade quando o editor passou um rádio dando as direções. Poucos segundos depois a freqüência virou uma festa: “aê, Daniel, vai perder o cabaço”, alguém disse. Há dois cabaços ditos importantes a se perder numa editoria policial: achar um corpo ainda intacto no local do crime (ou onde foi abandonado) e cobrir uma rebelião numa penitenciária ou cadeia. Diz que endurece. Bobagem. É no dia-a-dia que a inocência vai sendo perdida, nas conversas, nos bastidores de redações e delegacias.

Não apenas inocência, mas o respeito. Pelas instituições, pelos homens, pela própria profissão. Já fiz uma matéria sobre um cara que supostamente havia estuprado uma criança na rua onde morava. Reportagem de topo de página, com foto e entrevista com o sujeito, que se dizia inocente. Meses depois descobriram o verdadeiro culpado e o antigo acusado foi pedir nova matéria no jornal (que saiu), mas nem isso impediu que todos os seus pertences fossem destruídos, nem que ele fosse espancado ao tentar retornar para casa.

Conversando com o diretor de um presídio, ele me relatou que um rapaz preso por estupro foi reclamar em sua sala que havia sido estuprado por outro presidiário. A piada era que o tal do sujeito mostrou a orelha toda mordiscada como prova. Cobrindo uma festa de Natal na penitenciária Raimundo Vidal Pessoa, fiquei conversando com um cara de trinta e poucos anos, preso pela terceira vez (sempre por latrocínio), que entendia tudo de direito penal e se dizia satisfeito com o atual diretor da penitenciária. O anterior, de acordo com o detento, era tão escroto que no último Natal, ganhou um “presunto” de presente. Ele e outros presos se juntaram, escolheram um “zé buceta” qualquer, mataram-no e penduraram o corpo na cela. Só para o diretor ter que voltar de casa e passar a noite na Raimundo.

Certa vez estava no Oitavo Distrito, na Compensa, quando uma viatura da Polícia Militar entrou trazendo um acusado de roubo. Os PMs tinham batido tanto no cara que ele estava desacordado. O investigador da civil disse para os policiais o levarem logo para o hospital, mas um PM interveio falando que aquilo era onda, que ele estava fingindo. “Quer ver?”. Segurou, então, a cabeça do homem (que estava deitado no chão) e a levantou até a altura de seu coldre. “Olha só!”. E largou. Sem reação alguma, o corpo caiu direto. Baque surdo, cabeça no concreto, sangue no nariz.

Em Manaus, o problema de falta de leitores de jornal é um dos mais graves do país. Numa capital de mais de 1,5 milhões de habitantes, o diário de maior circulação só consegue vender cerca de 30 mil exemplares (e num domingo!). Desesperadas, as empresas recorrem às editorias de polícia não para reportagens sobre criminalidade, violência ou políticas públicas de segurança, mas para golpes baixos do jornalismo marrom, com manchetes do tipo “Matou por um real”, pra ver se gente que vive com menos de um real por dia, com uma dieta a base de salsicha à granel, faz uma vaquinha e compra um jornal por R$ 1,50, ou R$ 2,50 se for domingo.

Em prol dessa brilhante lógica de linha editorial, lá estava eu, perdendo o cabaço com uma mulher na casa dos trinta, com um saco de papel com três furos de .38 cobrindo a cabeça que há três dias não se reconhecia, adorada por zumbidos de moscas gordas, verdes; ela também inchada, se esverdeando de voltar ao chão do ramal de onde saíra. Não vi seu rosto, não fui assombrado nos dias seguintes por um vulto estranhamente reconhecível, como aconteceu com a experiente repórter policial que durante a primeira semana de trabalho me acompanhou nas rondas, em seu primeiro contato com o aquém. Foi aquele cheiro apodrecido de coisa em transição que se impregnou em minha narina turca, e que às vezes me assaltava a lucidez.

Bem mais tarde, no IML, alguns familiares choravam timidamente, e embora escorados numa parede, pareciam sem encosto. Finalmente o pesar, homenagem mínima que reservamos à memória que nos define. Naquele breve instante – e só naquele breve instante – me dei conta de que meu primeiro morto era alguém (porque tinha alguém que o velasse), pois nada, em nenhum dos casos que contei nesse texto ou nos vários outros que presenciei, havia uma farpa sequer de reconhecimento do outro, da individualidade, idéias tão caras ao pensamento moderno; da modernidade em crise.

Por quanto tempo, pois, aquela mulher faria falta a alguém? “Sem ti, tudo correrá sem ti”, escreveu um dos heterônimos de Pessoa.

O cheiro dela era o cheiro de qualquer morto.
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