#CADÊ MEU CHINELO?

quarta-feira, 16 de julho de 2014

[nem te conto] RUA TRISTÃO, Nº 7

:: txt :: Valter F. Santos ::

Havia uma casa abandonada que sempre me chamou bastante atenção. Era cercada por uma grade verde e rodeada de mato. Ela tinha as paredes brancas com janelas e portas da mesma cor do gradeado. Curiosamente, nunca teve uma viva alma que a habitasse por muito tempo.

Quando eu era pequeno e passava por ela, delirava imaginando mil coisas que poderiam acontecer de dia e de noite naquele lugar. Era divertido. Certa vez, imaginei cobras, macacos e zebras tocando violino sob a regência de um caboclo da mata, que assumia a função de maestro. Loucura total. E naquela época nem ocorria na minha cabeça que um dia eu beberia cafés, fumaria cigarros e tomaria algumas garrafas de cerveja enquanto uma música seria executada no jukebox do boteco da esquina. Bons tempos. A vida parecia não ter fim. O passar dos dias eram mais vagarosos; os dias de sol eram mais felizes; as festas em família eram mais animadas, com toda aquela gente correndo, pulando e gargalhando de um lado para o outro; o estouro do champagne era mais seco e barulhento; o som do choque das garrafas era mais límpido e estridente; e o disco do Senegal e do Carlos Barbosa pareciam-me mais lúdicos. Naquela época a vida era outra. Boa fase. Boa fase, mas que, aqui, não voltará mais - em virtude do “bolachão” do Senegal e do Carlos Barbosa, lógico. Mentira.

O tempo passou e tudo mudou. Ao mesmo passo em que a areia da ampulheta se esvai para o polo negativo, a corda se estica e, por conseguinte, fica mais suscetível ao seu ponto de rebentamento.

A casa foi demolida. Construíram um estacionamento em cima do terreno. Os dias estão voando em velocidades quase que imperceptíveis à mente humana. Os dias de sol não são mais tão agradáveis como eram; porque a camada de ozônio já está mais arregaçada que buceta de puta em época de pagamento de décimo terceiro. Hoje, as festas em família já não possuem o mesmo brilho, tal como àquele que era presente no olhar de todos os membros que um dia as constituíram. Não tenho mais forças para abrir o champagne nem um sistema auditivo apto a escutar aquele velho barulho de que não mais me recordo.

O tempo levou tudo. Só me restaram vagas impressões do que um dia existiu e que daqui um pouco não vou mais lembrar.

Assim é a vida. Assim é o tempo. Isso é existir.
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