#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

[do além] OTAN TRISTE



::txt::Kaddafi::

Quando fui capturado, perguntei aos rebeldes: o que eu fiz a vocês? Me tomaram por ingênuo e demente. Não entenderam a real intenção do questionamento. Se os insurgentes tivessem começado a responder, eu certamente ainda estaria vivo.

Ao ser retirado da cloaca, me senti como no Google+: atônito, sem saber o que fazer, rodeado de pessoas gritando e me solicitando algo.

Você viu o que tinha de soldados fora de peso na minha guarda pessoal? Definitivamente esses homens não eram fiéis ao regime.

Meu erro foi querer levar o movimento Occupancy Wall Street para as tubulações de esgoto de Sirte.

Sei que bombou na internet, mas não gosto desses vídeos caseiros com câmera tremida. Essa linguagem já cansou. Ultimamente, tenho preferido os filmes de tribunais produzidos em Haia.

Foi tudo muito rápido. Única coisa que lamento é não ter tido tempo de dar um check-in no Foursquare. Kaddafi está em decomposição w/ 2 others.

As redes sociais tiveram grande participação na tal da Primavera Árabe. Mas vou te contar que os tiros offline ainda têm seu impacto.

Apesar dos longos 42 anos que fiquei no poder, o filme da minha vida passou muito rápido. Achei que seria parecido com o Poderoso Chefão, mas o personagem principal me lembrou mais o Transformers.

Fui enterrado num deserto, em local secreto, inimaginável, para evitar a peregrinação de adoradores. Mas eu conto onde fica o meu jazigo: no cenário do programa Código de Honra da TV Justiça, que vai ao ar todos os dias, às 5:30. Não perca.

Óbvio que não gostei de ter um funeral fora dos preceitos muçulmanos. Mas o que me deixou chateado mesmo foi o Berlusconi não comparecer à cerimônia. De minha parte, acabou a Conexão Bunga-Bunga.

Hillary Clinton pediu que as circunstâncias de minha morte sejam apuradas. O que ela quer? Que passem o vídeo em fast forward?

Osama foi lançado ao mar, eu fui enterrado no deserto. Não sou de fazer terrorismo, mas o presidente da Síria, Bashar al-Assad, que se cuide para não ser explodido no ar.

O que me matou mesmo foram essas piadas sobre a grafia correta do meu nome. Cadê o Rafinha Bastos numa hora dessas?

Quando os embates começaram há oito meses, eu já sabia o resultado. América e Avaí fatalmente seriam rebaixados.

Quero dizer que não estou pessimista em relação ao futuro da Líbia. O jeito que os rebeldes me trataram depois da captura me faz acreditar que o governo de transição dará continuidade ao meu legado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

[do além] #PRONTOFALEI



::txt::Pero Vaz de Caminha::

Quando fui convidado a assumir o cargo de escrivão oficial da Armada de Cabral, fiquei deveras honrado. Pareceu-me uma tarefa gloriosa: relatar às Cortes de Lisboa o que encontraríamos no caminho para as novas índias. Não confundir com o novo caminho para as Índias. Era razoável vislumbrar que eu me candidatara, naquele momento, a ser o escritor de uma das páginas mais importantes da história da humanidade. Não achei desmedido sonhar com o Pulitzer.

Foi-me entregue a estrutura que pedi, me deram boas condições de trabalho. Não tenho do que me queixar. Mas as coisas não saíram como planejadas. Pelo menos não na cobertura da expedição. Logo depois da nau recolher a âncora, vazaram alguns tuítes que quase comprometeram a empreitada. Num deles, um tripulante perguntava se em Pindorama a voltagem era 110 ou 220. O que fez muita gente duvidar do real coeficiente de aventura que envolvia nossa expedição.

Vi que ia ser difícil tomar conta da situação. Todos que estavam a bordo eram potenciais concorrentes, senão à glória jornalística, à atenção da corte e do povo. Munidos de telefones com câmeras, cada marujo começou a emitir sua versão da expedição. Não deu outra. Em pouco tempo, alguns ganharam fama repentina escrevendo como um Cabral gago. Vai entender as coisas que funcionam nas redes sociais. Outros arrastaram hordas de seguidores simplesmente sacaneando os meus posts. Um engraçadinho propôs a rashtag #lugaresparaprimeiramissa e a partir dali as timelines foram tomadas de todo tipo de sugestão. A que mais me causou graça foi: na Igreja Universal.

Enquanto isso, eu tentava impressionar a corte e a plebe com posts longos, rebuscados e de pífia repercussão. É duro ser oficial. Antes de publicar qualquer coisa, é preciso apurar, conferir as fontes, passar pelo crivo do editor e depois pela revisão. Vocês não imaginam o trabalho que dá publicar uma simples informação objetiva como esta: quarta-feira, 22 de abril: Neste dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele: e de terra chá, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome:O MONTE PASCOAL e à terra: a TERRA DA VERA CRUZ. Até esse processo todo se concluir, alguém já te fura dando um check-in no foursquare.

Quando fui abrir minha conta no Twitter, o @caminha não estava disponível. Tive de me contentar com o @caminharealmesmodeverdade. Ficou claro que não seria fácil arregimentar seguidores. O Caminha fake era muito mais divertido e sem compromissos. Propus à Corte promover o sorteio de alguns iPads para mantermos o interesse do público pelo relato oficial nas redes sociais. Mas o rei falou que o momento português não recomenda esse tipo de investimento e que para comprar tais artefatos teria de pedir dinheiro emprestado aos bancos europeus.

De qualquer forma, não tenho muito a lamentar. Um ano que já teve Primavera árabe, tsunami no Japão, morte do Bin Laden, falecimento da Amy, massacre de Oslo, chacina no Realengo, enchentes na Serra Fluminense, crise dos mercados financeiros, rebaixamento da nota da dívida americana, queda do Kaddafi e assassinato da Norma, os relatos da descoberta de uma nova sede para eventos esportivos mundiais não permaneceriam nem 15 minutos nos Trending Topics.

quinta-feira, 24 de março de 2011

[agência pirata] CHE KADAFI

::txt::Elio Gaspari::

Outro dia, um curioso estava em cima de um camelo nas ruínas de Petra. Saíra da pracinha onde Indiana Jones matou o beduíno fanfarrão, quando três sujeitos apareceram no caminho. Eram ladrões. Um deles vestia camiseta com a imagem do Che Guevara. Das selvas da Bolívia, a lenda do Guerrilheiro Heroico chegara à cidade perdida dos nabateus.

Ninguém pode prever o que acontecerá com Muamar Kadafi, mas os Estados Unidos estão no caminho da construção de mais um personagem lendário. Daqui a meio século, alguém poderá cruzar com um plantador de coca do altiplano boliviano vestindo uma camiseta do "Rei Filósofo" líbio.

Os mitos são construídos pelos inimigos. Se a Inglaterra tivesse mandado Napoleão para Boston talvez ele tivesse morrido comerciando vinhos com o ervanário que entesourou. Seu mito deve muito aos seis anos de confinamento na ilha de Santa Helena, onde morreu.

Muitos são os guerrilheiros latino-americanos lembrados — Jorge Masetti, Camilo Torres ou mesmo Sandino — mas só Guevara tem camisetas até em Petra.

Se Guevara tivesse ido a julgamento, certamente teria sido anistiado pela Bolívia e seria hoje um octogenário reminiscente em Havana. Em outubro de 1967, as forças da coalizão americano-boliviana que o capturaram decidiram executá-lo num casebre do vilarejo de La Higuera. A ordem foi dada pelo comando boliviano e transmitida por um agente da CIA que lhe tungou um Rolex.

A execução de Guevara e a exposição de seu corpo sobre tanques de lavar roupa, numa cena evocativa do Crucificado, abriram o protocolo da lenda. (No Youtube há dezenas de vídeos sobre esse episódio, para todos os gostos.) A casa virou museu e ao lado dela há um enorme busto do Che, à frente de um crucifixo.

Em 1997 seus restos mortais foram trasladados para Cuba e estão num mausoléu. As execuções que ordenou tornaram-se justiçamentos, seu fanatismo, coerência, e suas aventuras, desassombro.

Os personagens de cenas como a de La Higuera raramente percebem a dimensão histórica dos episódios de que participam. O general americano que comanda o bombardeio da Líbia acredita que a choldra é boba, manda explodir o conjunto onde se supunha que estivesse Kadafi, e diz que não se pretende matá-lo.

Exatos sete anos depois do bombardeio de Bagdá, transformou-se uma operação militar que se diz destinada a proteger civis numa ofensiva que incluiu o lançamento de bombas sobre a capital líbia. (Nunca é demais lembrar o primeiro verso do hino dos fuzileiros americanos: “Dos salões de Montezuma às praias de Trípoli”.)

À diferença de Che, Kadafi é um oligarca larápio, mas há nele um ingrediente messiânico ausente no DNA do tunisiano Ben Ali ou do egípcio Hosni Mubarak. Como eles, soube seduzir empreiteiros, petroleiros, políticos e professores.

Parece um fanfarrão, mas é possível que fale sério quando diz coisas assim: “Kadafi não é uma pessoa comum, que você possa envenenar ou armar uma revolução contra ele. Eu lutarei até a última gota de meu sangue”.

Imagine-se um cenário catastrófico: Kadafi sai do seu esconderijo e, em vez de se esconder numa cafua, como Saddam Hussein, desaparece, como d. Sebastião, durante um combate num oásis do Saara.

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