#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

[ato 1] ZIRIGDUM DO ALÉM



::crdl::Jucazito::

Chico Science subiu ao céu
Sem saber pra onde ia
Se era noite ou era dia
Ai, ai, ai, que confusão !
Mas quando a porta se abriu
Na espinha deu calafrio
Ele viu o fura cão

Muita gente ao seu redor
Grandes homens da história
Porém nenhum da escória
Ai meu Deus, que sensação !
Num canto tava o Zumbi
Pedindo um colomy
Para Virgulino Lampeão

Encoberto com um véu
Clara Nunes triste sorria
O mangue boi nada entendia
Vixe Maria, que gozação !
Bateu bola com Mané
Com Mussum bebeu um mé
Num copo com limão

O caranguejo entón pensou
Que talvez, se acaso fosse
Uma viagem legal de doce
Cruz credo, como tá bão !
Ver Machado e Guimarães
Abraçados com as mães
Dançando Gonzagão

Chico deu um descanso
Estourou um com Bob Marley
Andou no cometa Harley
Arriégua, que chapação !
Cartola ainda o convidou
Para um samba de Nagô
Com pandeiro e violão

O caranguejo tava faceiro
E quero que o jornal publique
Assistiu a um Kubrick
Nossa mãe do céu, que telão !
Sua nave era 2001
E o som zirigdum
Num era ficção

Depois de ver o filme
Um barbudo, coisa rara
Seu nome Che Guevara
Viva la Revolución !
Chico rezou Ave Maria
E jurou que levaria
A Águia Sam até o cão

Lampião ouviu a promessa
Chamou Chico pruma prosa
- Cabra macho não é rosa
Ó diabos, que facão !
Talvez por medo ou pavor
Mas o caranguejo aceitô
em integrar a missão

Dali pintou o mapa
Com o caminho até o inferno
Também lhe deu um terno
Oiga tchê, que arrumação !
Torça comigo você
Pra tudo certo acontecer
E Chico ganhar o perdão

Para ilustrar a jornada
Quantas fitas eu não sei
Tinha Jackson e Marvin Gaye
Caramba, que canção !
Chegou a hora agá
De Chico se vingar
Desta triste danação

quinta-feira, 31 de março de 2011

[over12] VIVA LA REVOLUCION... DE 64!



::txt::Arlei Arnt::

Dia 31 de marzo, 1964. Os milicos declaram a revolução no Brazil. As consequências são pagas até hoje: desigualdade social, dívidas, pessoas sumidas que continuam sumidas. Mas a pior herança está no Planalto. O imortal José Sarney segue firme nos bastidores do poder. Nosso país, após a era dos milicos, hoje é um exemplo do neo-coronelismo. Pro povão pagamos uma bolsa esmola em troca de votos pra eleger e reeleger os representantes dos coronéis.

No tempo dos milicos não era permitido opinar. No neo-coronelismo, podemos nos expressar, mas claro, dizer o que foi dito acima é coisa de golpista. É a mesma turma que apoia a ditadura cubana, mas critica a também cruel ditadura militar, porém esquece que todos governos pós-Tancredo tem milicos e/ou arenistas no poder ou em suas barbas, sugando cargos, dinheiro e impondo restrições.

Pra toda essa gentália, minha humilde sugestão: peque sua camiseta do Che Guevara, e vá comemorar la revolucion que hoy completa 47 anos. Há que endurecer sem perder um carguinho!

quinta-feira, 24 de março de 2011

[agência pirata] CHE KADAFI

::txt::Elio Gaspari::

Outro dia, um curioso estava em cima de um camelo nas ruínas de Petra. Saíra da pracinha onde Indiana Jones matou o beduíno fanfarrão, quando três sujeitos apareceram no caminho. Eram ladrões. Um deles vestia camiseta com a imagem do Che Guevara. Das selvas da Bolívia, a lenda do Guerrilheiro Heroico chegara à cidade perdida dos nabateus.

Ninguém pode prever o que acontecerá com Muamar Kadafi, mas os Estados Unidos estão no caminho da construção de mais um personagem lendário. Daqui a meio século, alguém poderá cruzar com um plantador de coca do altiplano boliviano vestindo uma camiseta do "Rei Filósofo" líbio.

Os mitos são construídos pelos inimigos. Se a Inglaterra tivesse mandado Napoleão para Boston talvez ele tivesse morrido comerciando vinhos com o ervanário que entesourou. Seu mito deve muito aos seis anos de confinamento na ilha de Santa Helena, onde morreu.

Muitos são os guerrilheiros latino-americanos lembrados — Jorge Masetti, Camilo Torres ou mesmo Sandino — mas só Guevara tem camisetas até em Petra.

Se Guevara tivesse ido a julgamento, certamente teria sido anistiado pela Bolívia e seria hoje um octogenário reminiscente em Havana. Em outubro de 1967, as forças da coalizão americano-boliviana que o capturaram decidiram executá-lo num casebre do vilarejo de La Higuera. A ordem foi dada pelo comando boliviano e transmitida por um agente da CIA que lhe tungou um Rolex.

A execução de Guevara e a exposição de seu corpo sobre tanques de lavar roupa, numa cena evocativa do Crucificado, abriram o protocolo da lenda. (No Youtube há dezenas de vídeos sobre esse episódio, para todos os gostos.) A casa virou museu e ao lado dela há um enorme busto do Che, à frente de um crucifixo.

Em 1997 seus restos mortais foram trasladados para Cuba e estão num mausoléu. As execuções que ordenou tornaram-se justiçamentos, seu fanatismo, coerência, e suas aventuras, desassombro.

Os personagens de cenas como a de La Higuera raramente percebem a dimensão histórica dos episódios de que participam. O general americano que comanda o bombardeio da Líbia acredita que a choldra é boba, manda explodir o conjunto onde se supunha que estivesse Kadafi, e diz que não se pretende matá-lo.

Exatos sete anos depois do bombardeio de Bagdá, transformou-se uma operação militar que se diz destinada a proteger civis numa ofensiva que incluiu o lançamento de bombas sobre a capital líbia. (Nunca é demais lembrar o primeiro verso do hino dos fuzileiros americanos: “Dos salões de Montezuma às praias de Trípoli”.)

À diferença de Che, Kadafi é um oligarca larápio, mas há nele um ingrediente messiânico ausente no DNA do tunisiano Ben Ali ou do egípcio Hosni Mubarak. Como eles, soube seduzir empreiteiros, petroleiros, políticos e professores.

Parece um fanfarrão, mas é possível que fale sério quando diz coisas assim: “Kadafi não é uma pessoa comum, que você possa envenenar ou armar uma revolução contra ele. Eu lutarei até a última gota de meu sangue”.

Imagine-se um cenário catastrófico: Kadafi sai do seu esconderijo e, em vez de se esconder numa cafua, como Saddam Hussein, desaparece, como d. Sebastião, durante um combate num oásis do Saara.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

[cc] TURISMO SOCIALISTA

::txt::Ale Lucchese::
::phts::Thais Brandão::



O helicóptero ianque decola na quebrada do rio Yuro em direção a La Higuiera. Em seu bojo, subjugado, sujo de sangue e de terra, está Ernesto Guevara. Voando entre as estrelas da noite sul-americana, sem mais poder lutar, Che adivinha que o fim da sua vida virá em poucas horas, ao romper o dia.

Ao seu lado, soldados norte-americanos sabiam o valor e o peso daquele moribundo troféu que carregavam. O que não poderiam adivinhar, no entanto, é que gerações e gerações de compatriotas, e talvez até mesmo seus netos e bisnetos, percorreriam aquelas densas matas e abissais caminhos para sentir ainda algum suspiro desse prisioneiro que para a morte estavam levando.



O roteiro turístico chamado de “Ruta del Che“, um dos atrativos de visitantes à Bolívia, não é inusitado “apenas” por demonstrar esse choque ideológico-geracional dos primeiro-mundistas, mas também por dois fatores anti-socialistas: messianismo e exploração capitalista.

O rosto do fotogênico Guevara pode ser encontrado em pousadas, bares e restaurantes a serviço da venda de diárias, refrigerantes e hambúrgueres. O revolucionário foi transformado em fetiche tal como Mickey Mouse. A única diferença é que quando você compra o relógio do Mickey Mouse você está comprando um bem-estar relacionado à sua extinta alegria infantil; e quando você escolhe o X-Che-Guevara no cardápio você está comprando uma bem estar relacionado a transformar o mundo e suas relações sociais.

Mas, bem no fundo, você sabe que o relógio do Mickey é tão vagabundo quanto qualquer outro relógio coreano e você não vai voltar e ser criança; e que o X-Che-Guevara é tão gorduroso quanto todos os outros do cardápio e você não vai transformar coisa nenhuma ao comê-lo, a não ser seu peso.



Em Vallegrande, onde começa a Ruta, pode-se tomar um táxi ou ir com um guia até La Higuiera. Por pouco mais de 60 km dirigindo entre precipícios, o taxista irá te cobrar um preço tabelado, pouco menos de 100 reais (um valor absurdamente alto para os padrões de preço do transporte boliviano). Também se pode contratar um guia ou táxi para ver o mausoléu onde foram encontrados os restos mortais do guerrilheiro.

Ao ver as fotos de La Higuiera, uma cruz estava postada ao lado do busto do Che. Cartazes de empresas turísticas também anunciam um roteiro de “luta, morte e ressurreição“. Aí está o outro fator paradoxal: o messianismo. Parecem ter esquecido que os socialistas eram (não sei se ainda são) ateus. O sorridente Guevara é transformado aqui num mero Jesus Cristo com fuzil.

Visitamos Vallegrande, e é de lá que são essas fotos. Lá se pode visitar gratuitamente a lavanderia do hospital onde Che Guevera foi exibido para a imprensa depois de morte. Também há um museu bem meia-boca, com um pouco de história, fotos e objetos. Estrangeiros precisam pagar dez bolivianos (cerca de R$ 3,00) para entrar. Velho Che, que pregava a igualdade, deve se revirar no túmulo ao pensar que estrangeiros interessados em sua história são tratados com diferença em relação aos nativos bolivianos, sendo obrigados a pagar para entrar no seu museu.


A famosa lavanderia, Vallegrande (BO)

Para mim, Che Guevara sempre foi uma entidade etéria, um ícone sem passado nem futuro, um rosto numa camiseta. Nunca senti necessidade de sanar minha ignorância e descobrir quem foi realmente aquele rosto. É como aquela foto do casal se beijando em Paris: não interessa quem eles são, interessa que a cena em si representa um amálgama entre amor e sensualidade. Pois os traços de Che contra o pano vermelho de uma camiseta por si só representavam um força obstinada e transformadora, não interessando se algum dia existiu mesmo um homem com aquele rosto sobre esse planeta.

Portanto, não fomos até Vallegrande para buscar a história desse homem. Para nós, o verdadeiro Guevara está vivo, pendurado nas araras de um camelô que vende camisetas na praça da Alfândega, em Porto Alegre ou em qualquer outra capital. O que fomos lá buscar foi essa bizarra cria entre indústria do turismo e socialismo. E é sobre isso que esse texto e essas fotos tratam.

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