#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

[agência pirata] DEZ ANOS A MIL: MÍDIA E MÚSICA POPULAR MASSIVA EM TEMPOS DE INTERNET



::txt::Alt News Paper::

Uma iniciativa bem legal apareceu hoje por aqui. Acaba de sair o livro "Dez anos a mil: Mídia e Música Popular Massiva em Tempos de Internet", organizado por Jeder Janotti Jr. (Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação UFPE), idealizador do projeto, Victor de Almeida Pires (Mestrando em Comunicação da UFPE e idealizador do LAB) e Tatiana Lima (Professora da FISBA e doutoranda em comunicação UFBA). A publicação chega em três versões eletrônicas: como e-book (PDF), para tablets (ePub) e para Kindle (mobi), disponíveis para download neste site. A proposta é atualizar as discussões em torno da música massiva e, para isso, pesquisadores de várias partes do Brasil assinam nove artigos organizados em duas partes.

A primeira parte de “Dez anos a mil” tem como tema “Músicos, cenas e indústria da música”. No artigo que abre o livro, Janotti Jr. e Victor Pires atualizam a discussão sobre as cenas musicais, uma vez que esse conceito, muito ligado ao circuito geográfico onde a música é produzida, ganha novos contornos a partir da internet. Os autores tratam, entre outras coisas, de como abordar as cenas no ambiente virtual, no texto intitulado “Entre os afetos e os mercados culturais: as cenas musicais como formas de mediatização dos consumos musicais”.

Em seguida, o texto “Tendências da indústria da música no início do século XXI”, de Micael Herschmann e Marcelo Kischinhevsky, reflete sobre o atual panorama do mercado da música, mobilizando dados atualizados sobre a circulação da música na internet. O artigo “Michael Jackson e o thriller das gravadoras: trajetória e crise de um modelo”, de Tatiana Lima, dialoga mais diretamente com o texto de Herschmann e Kischinhevsky por trazer uma retrospectiva do negócio da música, refletindo sobre como chegamos ao cenário atual. Ainda na primeira parte, o artigo de Thiago Soares, “Cinco incertezas sobre Lady Gaga”, parte de indagações para discutir o status da performer na indústria da música e apontar “conceitos que ajudam a compreender o que significa ser uma estrela na cultura contemporânea”. Fecha essa primeira parte um artigo de Nadja Vladi intitulado “O negócio da música – como os gêneros musicais articulam estratégias de comunicação para o consumo cultural”, que também insere a discussão sobre gênero no novo panorama digital, trazendo exemplos do indie rock.

A segunda parte do livro trata das atuais “Práticas de consumo musical”. O professor Jorge Cardoso Filho examina as “Práticas de escuta e cultura de audição” no contexto contemporâneo, apontando “alguns sintomas de uma transformação mais ampla no âmbito da sensibilidade auditiva”. No texto “Discografias – mediações musicais em uma discoteca coletiva”, Jefferson Chagas e Simone Pereira de Sá se debruçam sobre as permanências e transformações ocorridas com a digitalização. Partem da comunidade “Discografias” do Orkut para examinar as novas práticas de disponibilização da música e a força de velhos formatos como o álbum.

Felipe Trotta comenta a seleção do repertório para uma festa para discutir a valoração da música enquanto “ação social que ocorre em um território de conflitos”, no artigo “Critérios de qualidade na música popular: o caso do samba brasileiro”. E fechando a discussão sobre a música em tempos de internet, o jornalista Bruno Nogueira trata das novas formas de debate em torno da música no texto “Por uma função jornalísticas nos blogs de MP3 - Download e crítica ressignificados na cadeia produtiva da música”. Onde o mesmo utiliza o blog Hominis Canidae em um estudo de caso e cita estratégias como a do novo disco da banda paraibana Burro Morto, vale a pena conferir o livro todo.

Então fica a dica, baixe e dissemine essa boa nova, discutindo e esclarecendo alguns pontos da música e do mercado fonografico brasileiro e mundial em tempos de internet.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

LES JUANITOS



# tapa na orelha #

Exotica

txt: Basket Selector
rsnh: Fabrice Wouters


Eu já havia recomendado o excelente site Jamendo, onde todas obras musicais estão disponibilizadas pra download por vontade dos artistas, e todas também licenciadas em Creative Commons.

Entre uma pesquisa e outra, descobri um som furioso, man! Bagulho doido da porra! Não vou me ater a resenhas. Pode me chamar de preguiçoso. Porém mais marolado é você, se não ouvir isso; ou se ouvir, gostar e não baixar.

Com vocês, a excelente banda LES JUANITOS, e o álbum "Exotica" (download e streaming aqui). Segundo definição do Jamendo, a banda é jazz latin spanish easylistening fusion lounge easy exotica latino samba.

Tá esperando o que, madureira? Abaixo a resenha oficial:

Je décerne sans aucune hésitation à Exotica le titre d'album le plus kitsch de l'année 2001 ! Ce CD, le quatrième de ce groupe de Chambéry, aurait pu être la bande originale de Pulp Fiction... ou de Dirty Dancing.

Pop psyché, rock, mambo, samba, cha cha cha, les Juanitos proposent un étonnant mélange qui fait toute leur originalité. Le groupe est grand fan des années soixante et les références et clins d'oeil aux 60's sont nombreux: des séries B de la télé, à Morricone et Duane Eddy, en passant par le boogaloo et le twist.

Drôle, décalé et enjoué, Exotica donne envie de se trémousser au son des guitares, des congas, des bongos, des tambourins et des maracas. Autant d'instruments qui apportent la touche... exotique à cet album.

Exotica nous emmène vers une île tropicale, sous le soleil et les cocotiers. Tiens, d'ailleurs nos cinq matadors proposent un mini cours de cha cha cha (Apprenons le cha cha cha).

Les textes, en anglais, en espagnol et en français, sont totalement surréalistes: "Yo soy el cha cha man, yo soy el supermán, yo soy el hombre de la fiesta de Sudamérica..." dans El Cha Cha Man.

Mais Exotica n'est pas simplement un album de plus des Juanitos, puisqu'il propose de surcroît les trois précédentes productions du groupe, Surfin' Matador (1992), Do The Cobra (1995) et The Crazy Vibrations of The Juanitos (1997), sous forme de fichiers MP3. Soit pas moins de 66 titres ! Ce qui permettra à ceux qui ne connaissaient pas encore les cinq "timbrés" de Chambéry de découvrir leur discographie délirante.

Sachez aussi que les Juanitos ont déjà planifié leur avenir: quatre albums jusqu'en 2011. Prochaine fournée en 2002 ! Je suis curieux d'entendre ça...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

CONVERGIR

# agência pirata #
Cultura da Convergência e o Próximo Passo

txt: Eric Harvey
tradução: coletiva


Se não dá para se ter saudade da caças a bruxas, a era da mídia de massa da música popular tem muito sobre o que se pode ser nostálgico. Em retrospectiva, um menu musical tão limitado significava que havia uma probabilidade muito maior de que a música que você estava ouvindo num momento qualquer estava sendo ouvida por muitos outros ao mesmo tempo. A ideologia da comunidade, mesmo uma comunidade imaginada, é difícil de sacudir – especialmente quando criadas por eventos como Elvis Presley ou os Beatles no “Ed Sullivan”, ou Michael Jackson na celebração “Motown 25″. Igualmente difícil de esquecer são aquelas imagens de jovens absolutamente frenéticas captadas em filme e vídeo – separadas de seus ídolos pelo que deve ter parecido anos luz, elas eram incapazes de se conter ao prospecto de estar à distância de um aceno. O sistema da estrela foi um produto inevitável do modelo de produção industrial do séc. XX que investiu milhões em um punhado de artistas na expectativa de um retorno que poderia subsidiar dúzias de outros.

No lugar do antigo sistema há um novo, que tem sido chamado de “cultura de convergência”. Englobando a hibridização de tecnologias e a colaboração de corporações em uma mão, ele também realça a penetração da própria audiência nas esferas de produção, promoção e distribuição. Muitos acadêmicos, comentaristas e os próprios fãs veem a cultura de convergência como a vitória definitiva dos fãs de música: finalmente a indústria tem que escutar seu público, por que sua estabilidade financeira futura depende disso. Embora haja um pouco de verdade nessa perspectiva, no final ela apenas confunde ainda mais as coisas. Os fãs se tornaram importantes de muitas maneiras que jamais poderiam ser previstas, mas também porque a própria palavra significa agora algo diferente, dependendo de quem esteja fazendo a definição.

Em qualquer ponto no século passado ou similar, é possível, com a diligência adequada, reconstruir as possibilidades para os fãs de música ao se analisar como os domínios dos negócios, da tecnologia e do direito trabalham para moldar o público ouvinte – mediante um trabalho que muitas vezes ocorre ao nível da linguagem. Quando os selos dizem “fãs”, por exemplo, eles muitas vezes querem dizer “trabalho grátis”. As companhias da tecnologia usam o conceito de “interatividade” para marcarar estratégias de marketing que invisivelmente coletam dados demográficos cruciais, enquanto guiam as performances de fãs simplesmente eliminando opções. Advogados, se quiserem ser bem sucedidos, têm de aplicar a racionalidade fria de códigos a comportamentos que são impulsionados principalmente pela paixão. Para funcionar adequadamente (em outras palavras, para ganhar dinheiro), essas três categorias têm de se sobrepor significativamente, com as possibilidades para os fãs ficando em algum lugar no meio, o qual está em mudança constante.

Se considerarmos todos os mitos que se construiram ao longo dos anos ao redor dos Beatles e de Michael Jackson – para MJ, esta é provavelmente uma boa coisa – e, até agora, pelo menos, desconsiderando-se o fato de que eles foram brilhantes músicos, podemos chegar a uma nítida idéia do motivo pelo qual eles têm tanto domínio sobre nossa imaginação. Afinal, sempre houve músicos brilhantes – Por que estes dois tem esse poder por tanto tempo? Uma grande parte da razão reside em momentos históricos específicos em que ambos surgiram, o que lhes permitiu definir novos avanços na tecnologia, arte e indústria em suas próprias imagens.

Tanto os Beatles quanto Michael Jackson emergiram em tempos áridos para a indústria da música – os Beatles, logo após a primeira onda do rock’n'roll, permitiram que o pop sem graça suplantado tomasse nova forma e Jackson, no momento entre as mortes do punk e da música disco e a ascensão do hip-hop, do novo “country” e do alt-rock. Os Beatles aproveitaram-se desta situação, ajudando a definir o que uma banda de rock poderia ser e no que o LP e estúdios de gravação poderiam se tornar. Jackson surgiu quando a MTV estava à procura de outras coisas além de Eddie Money e Rod Stewart para exibir visualmente, e sua obra ainda lança uma sombra contínua sobre a mídia da video music (que os Beatles, não vamos esquecer, ajudaram a criar). Ele era tão admirável de se ver, especificamente, porque trouxe a dança de volta ao pop – inspirado em fontes como o sapateado, breakdance, ballet, James Brown, Fred Astaire e música disco, ele construiu o modelo de pop star polivalente que tantos têm tentado replicar.

Ou, ao menos, é o que nós lembramos deles. A história nunca é feita por atores individuais, ou mesmo por pequenos grupos, mas realizada retroativamente de modo a se encaixar em uma narrativa. É assim que um “fandom” (”Fan Kingdom”, conjunto de fãs) costumava ser construído. Lembramo-nos de nossas conexões com a cultura popular através dos momentos e das pessoas que pareciam alterar a nossa consciência por pura vontade. Nós lhes permitimos substituir o elenco muito maior de colaboradores invisíveis, influências, tecnologias e alinhamentos comercial que lhes possibilitou assumirem a imagem transcendente que criaram.

Essas espécies de lembranças nostálgicas, em grande parte, são facilitadas porque a indústria antiga, baseada na venda de mágica, propositalmente obscureceu todos os colaboradores que, nos bastidores, ajudaram as super estrelas a emergir. Mas agora, nós nos encontramos num momento histórico que nos permite acesso a todos os aspectos anteriormente ocultos da criação musical. Ao invés de abordar esta situação como se a “mágica” tivesse desaparecido, não seria muito mais produtivo aproveitar a oportunidade para criar uma cultura inteiramente nova de ídolos? Em outras palavras, se ser “fã” continuará a ter alguma relevância como uma apaixonada estratégia de escuta, no momento em que sua definição ainda está no ar, está claro que os próprios fãs precisam se encarregar da definição. O primeiro passo neste processo – a criação de novas infra-estruturas e tecnologias – já aconteceu.

O segundo passo é muito mais difícil: usar estas novas ferramentas para lutar contra as restrições ilógicas daqueles que pensam que o antigo modelo ainda é viável e começar a redefinir o valor da música. Estamos condicionados desde o século passado a pensar em música como uma mercadoria. Apesar de sua boa fé (”apoio os artistas”), essa maneira de pensar apenas propaga o mais fundamental ideal do capitalismo: obter mais coisas por menos dinheiro. Mais conhecido como baixar arquivos. Artistas precisam ganhar dinheiro com sua música (se o desejarem) e precisam de um conjunto flexível de garantias legais e tecnológicas para assegurar isso. Mas estas garantias precisam ser suficientemente flexíveis para permitir aos fãs usarem sua inteligência coletiva e paixão para ajudar os próprios artistas, sem serem explorados, ou colocados em um script ideal para atores aposentados. Se a esfera pública moldada por mp3s pudesse, de forma colaborativa, reimaginar-se não como uma audiência ou um mercado, mas como membros de uma sociedade civil, que sentem merecer uma participação na sua própria cultura; então as regras, daqui por diante, e nossa apreciação dos valores sociais e afetivos da música deverão emergir como os próprios mp3s: de baixo para cima. Há muito descobriu-se a forma de se obter e fazer a música circular. Agora vamos fazer algo com isto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

MUSIC RULES

# agência pirata #
Música Digital e Direito Autoral

txt: Eric Harvey
tradução: coletiva


Numa época em que tudo o que se relaciona às instituições, rituais e valores da música popular se encontra num estado de fluxo sem precedentes em virtude de mp3s, qualquer preço é justo pela música digital, certo? A Apple de certa forma emergiu como um determinador de preço – antes U$ 0,99, agora US$ 1,29 – para singles digitais adquiridos legalmente; mas cortes federais tomaram para si a atribuição de fixar o valor de mercadorias ilegalmente obtidas. Que tal U$ 22.500 por cada mp3 ? Tal foi o montante a que Joel Tenenbaum – um graduando da Boston University – foi condenado a pagar por um juri por cada download admitido durante seu julgamento recentemente concluído. No início deste ano, a sentença aplicada a Jamie Thomas-Rasset, uma mãe de Minesota, foi ainda mais ridícula: US$ 1,92 milhões por 23 músicas, perfazendo US$ 80.000 por música. De tão ilógicos, tais números, determinados por raciocínios tão arcaicos, são surrealistas. Trata-se de um satânico domínio do absurdo, comparável ao senador Iselin colhendo de uma garrafa de ketchup o número de comunistas no congresso em Sob o domínio do mal. Talvez o mais assustador seja que advogados tenham se tornado, neste quadro, a mais lucrativa categoria de intermediários musicais a emergir nesta década.

Após nove anos e cerca de 20.000 processos movidos pela RIAA depois do primeiro caso contra o Napster em 2000, os julgamentos de Tenenbaum e Thomas-Rasset claramente complementam o quadro do direito relativo ao mp3 nesta década. Face às abundantes evidências de que processar ouvintes não resulta em nada salvo rechear seus cofres e pagar seus advogados, grandes gravadoras recusam-se a abandonar seu propósito de intimidar quem baixa. Trata-se de uma estratégia estúpida, da qual julgo estarem cientes, mas ao menos eles estão reconhecendo um dos pressupostos básicos da lógica legal. Do mesmo modo como a tecnologia é uma força social criada por humanos com poder para expandir ou restringir o que somos capazes de fazer, tal se dá com o direito. Se a lei dos direitos autorais pudesse nos convencer de que música, uma das mais inerentementemente colaborativas formas de expressão, deva ser regulada por um estatuto baseado no ideal romântico do autor solitário; e que um desses indivíduos sozinhos possa de fato ser o Universal Music Group, no que mais poderia nos fazer crer?

Na verdade, em muitas coisas. Especialmente quanto a como nos conhecemos em relação à música. A propriedade intelectual tem se expandido rapidamente por todos os cantos de nossa vida diária durante as últimas décadas, dando dois grandes passos até chegar à situação atual. Primeiro, a indústria do entretenimento percebeu, sob Ronald Reagan, que suas commodities culturais, se pudessem ser protegidas contra redes piratas estrangeiras, poderiam ser uma imensa fonte de lucro para os EUA no nascente mercado global. Segundo, Bill Clinton e Al Gore reconheceram, no início dos anos 90, que a “supervia da informação” era de fato um mercado vasto e superpopuloso, deixando a midia corporativa e seus advogados esboçarem a mais radical revisão do direito autoral desde que sua versão britânica foi adotada em 1790. O Digital Millenium Copyright Act, aprovado em 1998, redefiniu o ato de copiar uma música ou álbum como equivalente, mais ou menos, a ouvi-lo(a) – se baseando no fato tecnológico de que quando alguém clica duas vezes em um mp3 no iTunes, tecnicamente duplica a música na memória RAM de seu computador por toda sua extensão. Logo, cada vez que você ouve uma música em seu computador, está, de acordo com o DMCA, violando a lei dos direitos autorais.

Então, há o “não tão querido” defunto DRM. O DMCA permitiu aos proprietários de direitos autorais embutir o código em cada mp3, restringindo determinadas formas de ouvir antes mesmo que o consumidor legal pudesse pensar sobre elas. Ele também tornou ilegal remover essas restrições. O “equilíbrio” determinado constitucionalmente entre a proteção de direitos autorais e o uso justo, em outras palavras, já não estava a ser decidido por argumentos judiciais bagunçados, mas imposta pelo código digital criado por empresas de tecnologia. Esses inofensivo agregados de zeros e uns, iconicamente representando o trabalho criativo de muitas pessoas, estava te encarando de volta, com o pleno conhecimento de que você estava prestes a fazer algo ilegal. Como tais, elas se limitavam (porcamente no entanto) a cinco outros computadores, tendo como resultado a imposição de restrições artificiais aos rituais sociais que tinham permitido à música sobreviver e circular por milênios.

O que o DRM nos ensinou durante a sua vida curta é que para a lei funcionar as pessoas têm de acreditar nela. Isso não precisa de um desvio contracultural no nível do Pirate Bay, mas a simples idéia de que as regras estabelecidas são baseadas em bom senso e não na lógica fria de balanços corporativos. Os selos e os seus sócios lobistas da RIAA não são estúpidos, eles estão apenas desesperados. Eles sabem que quando as coisas não são lógicas, a forma mais inteligente de levar as pessoas a assinar embaixo é começar jovem e misturar a retórica da educação com uma porção razoável de alarmismo passivo-agressivo. Eu lhes ofereço “Music Rules“, um conjunto de material impresso para professores, que certamente não precisam de mais arcabouços externamente sancionados lhes dizendo como ensinar, muito menos de um que recorra a uma pedagogia construída para criar submissão irrefletida a uma lei ilógica. Aqui está um trecho real – isso não é uma piada – que recorre ao alarmismo da Guerra-Fria e a um termo novo, estrategicamente escolhido (songlifting, “furto de canções”) pelo seu efeito retórico:

Agora, descubra se o furto de canções é um problema real em sua comunidade. Use esta tabela para entrevistar membros da família e amigos sobre onde eles obtêm música. Traga os seus resultados de volta pra classe e compare-os com os de seus colegas. Use seus dados para descobrir quanto o furto de canções ocorre entre as pessoas que você conhece. Veja por si mesmo, completando o cálculo abaixo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

P2P

# agência pirata #
Armazenamento, Compartilhamento e The Recording Angel

txt: Eric Harvey
tradução: coletiva


Em seu maravilhoso livro de 1987 The Recording Angel, Evan Eisenberg faz a pergunta: “O que aconteceu exatamente quando a música se tornou uma coisa?” Ele começa a respondê-la nos apresentando Clarence, um excêntrico amante da música que amontoou todos os cantos de sua casa suburbana com discos. Embora ele acumulasse discos obsessivamente, Clarence não via a si mesmo como um “colecionador”. Ele explica: “Minha idéia original … era compartilhar minha coleção com todo mundo. Você sabe, colecionadores – pense em colecionadores de pinturas a óleo – eles não fazem isso, eles compartilham apenas com eles mesmos. Compartilhe com todo mundo!” Para provar, ele acha Shall We Dance e A Damsel in Distress em cima da geladeira Frigidaire e força um Eisenberg inicialmente relutante – que havia mencionado anteriormente que ele era um fã de Astaire/Rogers – a levar os discos pra casa consigo. Clarence não agiria de outra forma. Ele era um acumulador, certo, mas acima de tudo Clarence era um compartilhador. Eisenberg abre seu livro com Clarence porque ele representa as possibilidades sociais da música-como-uma-coisa, tanto quanto as aquisitivas.

Cara, lembra quando pessoas como Clarence eram diferentes? Ele tinha pilhas de discos em seu forno, porque o espaço físico em que ele vivia não conseguia acomodar sua paixão pela música. Ele ganhava menos de US $ 300 por mês, e mesmo assim comprava discos. Duas décadas mais tarde, uma quantidade de músicas 10 vezes maior do que Clarence jamais poderia imaginar, não só não ocupa casas suburbanas inteiras, mas cabe em dispositivos menores do que rádios transistores. Pessoas com esta quantidade de música não só não são estranhas, mas os dispositivos que utilizam para o armazenamento atuam como símbolos de status. Esta pode ser a mudança social mais profunda da era do mp3: o acúmulo e partilha de música passaram de uma atividade de excêntricos para o modo padrão de apreciação musical para milhões. Pessoas como Clarence existiram porque os discos registravam o intangível e efêmero som da música em objetos, permitindo que aquela música fosse vendida, comprada, e colecionada. Os mp3s tiraram a música de objetos, liberando-a para mover-se e reproduzir-se em formas que os objetos físicos, e a indústria que eles apoiavam, nunca permitiriam.

Se deixarmos, as novas tecnologias alteram nossas certezas ao ponto em que tudo que faziamos rapidamente fica bizarro. O anúncio do Radiohead de um novo álbum em outubro de 2007 fez parecer, por pelo menos alguns dias, como se a maior banda da década tivesse encontrado uma forma de misturar a nostalgia dos velhos tempos do mercado unificado (os anos 90) com um inovador modelo econômico que escapava totalmente ao mercado. A façanha “pote de gorjetas” do seu In Rainbows foi um dos poucos momentos nos últimos 10 anos onde honestamente pareceu que todo mundo ficou empolgado por um novo lançamento – um que ninguém tinha ouvido, que a maioria não sabia sequer que estava saindo – exatamente ao mesmo momento. Foi um grande choque porque mp3s há muito haviam aberto o buraco de minhoca temporal no continuum espaço-tempo da música. Em 2007, a maioria de nós estava bastante acostumada a um estado de coisas em que a música intangível adquire valor antes mesmo de ser prensada em CD ou LP – isto é, antes que ela tivesse até mesmo existido, na década anterior.

Estranhamente, esse efeito especial de mp3s e redes de compartilhamento – onde a informação viaja muito mais rapidamente do que os bens materiais – mais se assemelha ao do telégrafo nos mercados de commodities do século 19. Antes dessa inovação – o bisavô da Internet – os mercados individuais com base nas grandes cidades estavam separados por centenas de quilômetros, e mercadorias só viajavam na velocidade das ferrovias. No entanto, porque a informação sobre as condições de colheita podiam chegar através do telégrafo exponencialmente mais rápido do que as colheitas reais, a troca de dinheiro por mercadorias físicas foi amplamente substituída por um mercado de futuros, baseado no que iria acontecer. Em outras palavras, o espaço foi eliminado em favor do tempo, por uma nova rede rápida. As apostas podem ser muito mais baixas no jeito que mp3s e compartilhamento reorganizaram o mercado da música, mas a idéia básica é a mesma. Dentro do mercado de futuros musical os vazamentos são negociados como mp3s através de peer-to-peer e blogs, muitas vezes adquirindo valores inflacionados antes de seus equivalentes físicos chegarem às prateleiras das lojas. Eles estão agregados na Hype Machine, o índice Dow Jones para este novo domínio de valor musical em que as formas primárias de capital são cultural e social, não monetárias.

Este novo sistema de comércio de música digital mais diretamente ameaçou o antigo pela eliminação dos intermediários – varejistas de lojas de CD, críticos musicais da imprensa, distribuidores de independentes, o rádio – substituindo por meios mais baratos e flexíveis como redes interpessoais de compartilhamento peer to peer, blogueiros e sites como Rapidshare, MySpace, Last.fm ou Pandora. O antigo modelo industrial era um sistema fechado, impermeável a infiltrações e projetado para retornar lucros diretamente a si próprio (para mais detalhes, confira o segundo capítulo de Ripped, de Greg Kot, ou todos do excelente Appetite for Self-Destruction, de Steve Knopper). Afora pontos de vendas oficiais como iTunes, eMusic e Amazon, o novo modelo em rede é quase o contrário: radicalmente descentralizado, oferece poucas barreiras à entrada, dispersando qualquer lucro monetário, por menor que seja, entre pessoas e entidades que, em sua maioria, não possuem qualquer interesse em perpetuar o atual modelo da indústria fonográfica.

Ao mesmo tempo, no entanto, a circulação global de mp3 é um dos mais populosos mercados culturais que jamais existiu. Ainda que o mp3 possa ter pulverizado a música em milhões de pequenos pedaços, cada um deles parece ter encontrado um publicitário. O fã musical médio posui agora uma dupla capacidade como promotor e distribuidor numa arena sempre crescente que faz e elimina regras a cada minuto, incluindo a necessidade de novos intermediários críticos (e, muito raramente, mulheres críticas) a se intrometer e fazer sentido das coisas. Não foi, é claro, por acaso que a própria ascensão do site de recomendações Pitchfork coincidiu com a superabundância do mercado mp3, ou que blogs mp3 emergiriam como uma rede eclética de fãs musicais no início da década.

De fato, um dos mais subestimados efeitos do mp3 é sua democratização ostensiva da função crítica. Antes que cada álbum começasse a vazar das fábricas ou arrancado de contas de armazenamento online, resenhadores musicais credenciados eram os únicos fora da indústria com o privilégio de escutar álbuns completos bem antes de suas datas de lançamento – uma necessidade inerente aos igualmente longos ciclos da imprensa e dos calendários promocionais dos selos. Vazamentos incomodam, que fique claro. Acontecerão, todavia, gostemos ou não. Então, se pensou, por que não se tentar torná-los algo produtivo ? Uma das premissas da cultura do vazamento era a possibilidade de que mil novos Greil Marcusese e Robert Christgaus, criticos renomados, florecessem – centenas de novos críticos-fãs, ou fãs-críticos, começando conversações sobre música que fossem acessíveis a qualquer um, mobilizando leitores-ouvintes suficientemente ao ponto de comprarem música do mesmo modo pelo qual o rádio e a imprensa o faziam. Até certo ponto isto aconteceu, e ainda acontece: busca cuidadosa e clicagem curiosa em listas de blogs revelarão muitos blogs musicais maravilhosos, em estilos que variam do pessoal ao acadêmico, com autores dizendo coisas mais pungentes, sofisticadas e engraçadas do que muitos escritores “profissionais”.

No transcorrer da década, entretanto, o grande número de blogs mp3 começou a ultrapassar a quantidade de escrita e conversação sobre música. Se começaram por mesclar zines com rádios pirata, no início de 2005 a cobertura em grandes jornais e revistas musicais levou à maldição de qualquer subcultura: a exposição generalizada. Como resultado, milhares de novos blogs foram criados nos anos seguintes, incluindo os que imitavam os blogs de fofocas, postando uma dúzia de atualizações ao dia e vendendo espaço publicitário. Quando a velha guarda de fontes críticas e promocionais secou, selos e empresas de RP rapidamente desenvolveram estratégias para redirecioná-los em troca de acesso a faixas pré-selecionadas para promoção gratuita. Como resultado, blogs de mp3 se tornaram um dos principais exemplos de modelo promocional curado, em pequena escala, refletindo preferências de blogueiros individuais e o giro incrivelmente rápido da economia de atenção indie. Pode-se argumentar que a primeira era industrial do rock durou exatamente 50 anos, de 1955 a por volta de 2005, o ponto de inflexão do ipacto da Internet, cinco anos após o TRL (”Disk MTV”) e a última bolha pop estourada.

Se, como tantos artigos na imprensa sustentam, o número de “formadores de gosto” proliferou exponencialmente através do acesso irrestrito à música, isto significa que, em média, preferências individuais também estejam em alta. É difícil contestar tal fato a não ser por meio de evidências anedóticas. Conquanto a Internet não represente “o mundo”, havendo ainda muitos sujeitos satisfeitos apenas mantendo seus velhos hábitos, aqueles que acompanham a evolução da música online tem a capacidade de se transformar em pouco tempo em honestos diletantes musicais ou, por vezes, em respeitáveis especialistas. Ampliando-se o olhar ao conjunto, tal tendência se afigura diferente, e menos otimista. O ideal seria que uma nova rede de amantes independentes da música tivesse consagrado diferentes tipos de música, ou mesmo descoberto novos, do mesmo modo que rock’n’roll nascente, honky tonk, bluegrass e R&B se beneficiaram do 45 rpm. Mas online, novos gêneros correm risco de serem estrangulados no berço antes que qualquer um saiba que existam e as pessoas estão “fartas” de novos álbuns antes que suas capas sejam aprovadas. Este aspecto de compressão do tempo da cultura musical baseada no mp3 não advém naturalmente da tecnologia em si – resultando, outrossim, de muitas pessoas deixando publicamente, ao mesmo tempo, de resistir a seus mais básicos impulsos de aquisição. Experimentar música em pequenos e interminaveis goles é, certamente, excitante. Mas está longe de ser sustentável.

Parte de mim quer chorar, como tantos críticos, pelo que “poderia ter sido”. Outra parte sabe, entretanto, que não há por que chorar sobre uma meta utópica. Tal como é, a esfera do público musical criada pelos blogs mp3 e filtrada através da Hype Machine é mais variada e aberta à participação de uma audiência baseada em gosto do que o modelo industrial norte-americano tem sido em anos recentes (apesar de bem distante de como foi durante a maior parte da era do rock) e uma crescente quantidade de musica de todo o mundo vem obtendo mais exposição do que se poderia imaginar há apenas uma década atrás. Então não me entristece que revistas e jornais estejam morrendo; me entristece que crítica musical e jornalismo estejam ameaçados. Me entristece que editores, anunciantes e empresários tenham estado incrivelmente atrasados por tanto tempo, apegando-se cegamente a um modelo crítico ultrapassado, deixando tantos escritores talentosos no limbo. Pessoas expressando suas preferências musicais para uma audiência ávida nas horas de folga de seus empregos diurnos é uma coisa e certamente uma coisa muito boa. Concomitantemente a estes sujeitos, precisamos desesperadamente de pessoas a serem pagas para escutar, discutir, contextualizar e criticar música em tempo integral. Até que alguém descubra como fazer com que isto funcione, uma cultura musical permanecerá machucada. A imprensa está morta: longa vida à crítica.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

MP3

# agência pirata #
Começa a História do MP3

txt: Eric Harvey
tradução: coletiva


A história do mp3 começa, apropriadamente, do mesmo modo subversivo, de baixo para cima, que muitos arquivos acabam na internet hoje: como um vazamento. Em 1988, o coletivo MPEG, (The Moving Picture Coding Experts Group) um grupo de cerca de 25 geeks, tecnicos da indústria da informatica e do cinema, foi encarregado pela Organização Internacional para Normatização – ISO – que define padrões para tudo, desde a engenharia da estrada de ferro a borracha ou plástico – para a elaboração de um padrão funcional para trabalhar filmes digitalmente (e, como antecipado, mais barato). Em julho de 1989 eles apareceriam com o padrão “MPEG-1 Áudio e Vídeo”, que foi colocado em uso em 1992. Logo após isso, um hacker chamado “SoloH” surrupiou o programa codificador de um servidor desprotegido, extraiu a camada dedicada a codificação de áudio, e a espalhou ao redor do globo. Em alguns anos a represa havia estourado. Instantaneamente, parecia, os fãs começaram ripar músicas de CDs para trocas com desconhecidos e os pequenos artistas e empresários começaram a tentar descobrir como transformar mp3 em algo lucrativo. A indústria fonográfica inicialmente viu o mp3 também como uma oportunidade. O diretor de tecnologia da Geffen Records disse ao USA Today em 1997: a Geffen “não vê MPEG como um problema. Nós gostamos de tudo o que aumenta a capacidade dos consumidores de ouvir música de alta qualidade e se isso significa em seu computador, tudo bem. Estamos trabalhando em maneiras de programar e fornecer produtos nesse formato porque os consumidores estão deixando claro que este é um formato de que eles gostam“.

Nem precisa dizer que eles falharam. Por volta de 2003, as coisas tinham chegado ao nível de o senador conservador Orrin Hatch esbravejar contra empresas de tecnologia em audiências do Comitê Judiciário do Senado americano considerando a possibilidade de “advertir” os infratores de copyright, e em seguida – isso não é mentira – destruir seus computadores. “Se essa é a única forma“, disse Hatch, “então sou a favor de destruir suas máquinas. Se você tiver algumas centenas de milhares desses, eu acho que as pessoas perceberiam a gravidade dos seus atos“. Em 1997 os mp3s estavam desorganizados e difíceis de encontrar online, sem contar a dificuldade de baixar arquivos através de uma conexão de linha telefônica. Em 2003 eles estavam por toda parte e impossíveis de serem parados. Em uma virada irônica, as redes peer-to-peer de compartilhamento pelas quais os mp3s começaram a circular eram uma re-engenharia básica de um modelo desenvolvido por uma razão totalmente diferente, se não para uma função semelhante. Originada durante a Segunda Guerra Mundial para melhorar o fluxo de trabalho e fugir da lentidão burocrática entre universidades e agências governamentais, a internet cresceu gradualmente para facilitar a discussão orientada entre comunidades, se tornando finalmente disponivel para todos nos anos 90. Até o final dessa década, essas mesmas idéias encontraram o seu caminho na música online, através de um calouro antenado e cabulador de aula do nordeste americano. Shawn Fanning era um cara difícil, mas o que ele instigou com o Napster na virada do século - ainda mais importante do que os outros fizeram com a sua idéia desde então – foi a inovação mais relevante na distribuição de música desde a gravação em 45 rpm.

Num sentido mais amplo, mp3s preenchem uma função semelhante de distribuição para a era da Internet, que a convergência de compactos de 45 rpm, as vitrolas automaticas e rádio AM fizeram nas décadas de 1940 e 50. Este processo anterior foi colocado em movimento em 1939, quando a ASCAP, organização de licenciamento, não conseguiu chegar a um acordo de royalties com as redes de rádio. Como resultado, os executivos de rádio se uniram para formar a rival BMI e começaram a vasculhar o interior do país procurando por novos talentos. Os caipiras e cantores de blues que eles encontraram foram gravados em estúdios precarios utilizando-se de novos meios e maneiras mais simples de gravação, estampados em discos mais baratos e resistentes que a RCA havia acabado de patentear e divulgados no país todo por meio das vitrolas automaticas e pela programação noturna das radios. Ah, e ao longo do caminho, eles inventaram o rock’n'roll.

A semelhança entre as duas tecnologias e seus efeitos sobre as indústrias são claros: os discos de 45 rpm, os compactos, também eram exemplares individuais de música gravada feitos para fluir através de uma rede mais rapidamente que seus antecessores (os discos de 78 rotações, que os 45 rpm substituíram, eram caros e frágeis). Alem disso, esses discos pequenos também se basearam na música independente para a criação de um novo mercado de música, expansivel, ao alcance dos jovens, o que causou um abalo no mercado das grandes gravadoras. Quando nós pensamos sobre o que mp3s causaram para a versão atual da indústria fonográfica, devemos compará-lo ao que as independentes e 45s fizeram meio século atrás: em 1948, as grandes gravadoras controlavam espantosos 81% do mercado. Em 1959, o número caiu para 34%. Parte da razão pela qual os Beatles tinham as cinco primeiras músicas na parada da Billboard em abril de 1964? Aqueles compactos foram lançadas nos EUA em quatro diferentes selos – Capitol, uma grande gravadora, mas também nos selos independentes Swan, Tollie e Vee-Jay.

Há muitas semelhanças entre discos compactos e mp3, mas é claro que, em termos de relações de poder, investimentos monetários e a grande quantidade de músicas disponíveis como resultado, mp3s são uma coisa muito diferente. Ao mesmo tempo que os compactos ameaçavam o domínio das grandes gravadoras, eles também foram criados dentro do mesmo setor (em uma corrida de patentes entre RCA e Columbia) e, em seguida, foram incorporadas por ela para servir como seu próprio sangue. Como resultado, em vez de se desintegrar, as grandes emergiram como uma força ainda mais poderosa na década de 1960. O mp3, por outro lado, multiplicou-se fora do controle dessa indústria após ter sido arrancado do CD, um formato criado em parte para fazer a música parecer ser um item de luxo, dar um novo sentido aos antigos catálogos e revitalizar uma indústria desarvorada. Junto com as redes de compartilhamento, o mp3 rapidamente fez com que a cópia e distribuição de músicas se tornassem baratas e rápidas, mas transformou algo que costumava ser um processo industrial e distante em uma coisa acessível e fácil que qualquer pessoa poderia fazer. Em outras palavras, não é nada surpreendente que uma indústria sustentável de música independente tenha tomado forma ao lado do mp3. Olhando para trás, é impensável que as coisas pudessem ter acontecido de qualquer outra maneira.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

P2K



# agência pirata #
A História Social do MP3

txt: Eric Harvey
tradução: coletiva


para classificar até agora durante o século 21, certamente nesses últimos tempos nos concentramos muito em duas das maiores estrelas do século 20. Décadas após seus respectivos picos de popularidade, acontecimentos recentes nos lembram que nem os Beatles nem Michael Jackson afrouxaram o domínio sobre a nossa imaginação. No entanto, notei algo especial na nostalgia envolvendo as mais recentes (e provavelmente últimas) reedições do CD dos Beatles e da súbita morte de Jackson: um sentimento de resignação de que as eras em que ambas as estrelas surgiram muito provavelmente não se repetirão. Os Beatles, em 1963-64 e 1967, e Michael Jackson em 1983-4 indiscutivelmente simbolizam para a música pop o que as Copas do Mundo, as Olimpíadas e os Super Bowls nos EUA significam para os esportes, e o que os grandes sucessos comerciais de verão representam para o cinema: a capacidade de dominar a atenção de todos ao mesmo tempo.

Os capítulos mais recentes destas duas longas histórias do pop não apenas celebraram seu impacto sobre a arte e a cultura pop, mas também – com Michael Jackson chegando postumamente ao topo das paradas e milhões se preparando para pagar caro mais uma vez por novas cópias de Revolver e mais – comemoraram o ritual de pagar por isso. É uma forma de enquadrar esses eventos que só poderia acontecer agora, em um momento em que mp3 e redes de compartilhamento de arquivos permitiram que milhões de diferentes colaboradores globais criassem a maior economia paralela na história – que corroeu a indústria da música como cupins na fundação de uma casa velha. Em seu lugar, uma infra-estrutura instável, que criou infinitas novas demandas para a nossa atenção, mas ainda instável demais para apoiar superstars que conquistam o mundo. Todos nós lemos os artigos e editoriais que lamentam as decisões ruins da indústria fonográfica e seu modelo de negócio em colapso, o fato de que os jovens não dão mais valor à música e as estratégias ultrapassadas usadas para tentar reconquistar clientes pagantes. Essas discussões tornaram-se tão onipresentes, na verdade, que é possível que os últimos 10 anos possam vir a se tornar a primeira década da música pop a ser lembrada pela história pela sua tecnologia musical, em vez de pela música propriamente dita.

Este é um pensamento punitivo, mas ao mesmo tempo temos que ter cuidado para não esquecer como as tecnologias que inventamos para entregar música também trabalham para moldar a nossa percepção dela. Quando o rádio surgiu, os seus programas criaram comunidades de ouvintes estranhos uns aos outros, fisicamente distantes mas conectados pelo conhecimento de que eles estavam ouvindo a mesma música ao mesmo tempo. Se o rádio uniu os ouvintes como um público, o LP começou a dividi-los. O LP e o formato 45rpm levaram o fonógrafo, que existia há mais de meio século, para as massas, bem no momento em que a classe média americana estava indo para os subúrbios e privatizando suas vidas. Podia-se então usar objetos musicais da mesma forma em que a literatura e a arte haviam sido usadas por muitos séculos: como itens de coleção e sinais de gosto pessoal. O surgimento da fita cassete – a primeira tecnologia resistente e regravável da música – permitiu-nos “fabricar” a nossa própria música na privacidade de nossas próprias casas e recirculá-la conforme nossa vontade, através da troca de mixes e de cópias de álbuns inteiros. No início dos anos 80, gravar em casa havia se tornado o mais recente bode expiatório de uma indústria que tentava atribuir a culpa da queda de suas fortunas à delinquência dos consumidores, em vez de a seus próprios gastos excessivos.

A “crise” da fita cassete parece obsoleta quando comparada com o surgimento do mp3. Primeira tecnologia de entrega de música em massa a surgir longe do controle da indústria, os arquivos mp3s, circulando através de peer-to-peer, entre outros caminhos escondidos a olho nu, realizou a tarefa radical de separar a música da indústria da música, pela primeira vez em um século. Eles têm facilitado o surgimento de uma enorme infra-estrutura pirata; ideologicamente separada da estrutura oficial, mas alimentando, multiplicando e distribuindo seus produtos livremente, sem seguir as regras obsoletas do intercâmbio capitalista. O capitalismo não desapareceu, é claro, mas os mp3s ameaçaram seriamente seus hábitos e rituais dentro da cultura musical. Não há nada inerente ou natural em se pagar por música e a circulação de mp3s através de redes ilegais reafirma a música como um processo social movido pela paixão, e não pela lógica do mercado ou de direitos autorais. Ao mesmo tempo, a Internet libertou amplamente a música de seu status de mercadoria bem-embalada e abriu um reino de trocas livre, permitindo também que esses novos e excitantes rituais sejam bem rastreáveis. Da mesma forma que o Facebook visualmente representa “ter amigos”, compartilhar mp3s através de redes P2P quantifica a vida social online da música ao traçar seu caminho. As rotinas sociais que ocorrem em torno da música on-line são dados visíveis – o que os torna muito mais suscetíveis aos estatutos de propriedade intelectual do que no caso de fitas cassete ou CDs.

Estas mudanças são parte de uma mudança econômica e social que é tanto revolucionária no âmbito de aplicação e potencial, mas também dependente de idéias muito tradicionais de interação e de produção. No século 19, a Revolução Industrial afastou as sociedades ocidentais de seu modo de vida agrária, afastando a pessoa comum dos meios de produção, e introduziu o que viria a ser chamado de “modernidade”. No final do século 20, a Internet rapidamente fez esta fase da comunicação e da economia parecer exótica e distante. Esta última mudança – você pode contar aos seus netos que você viveu durante esse tempo – abre a possibilidade de criar e distribuir livremente cultura, com a idéia de atingir uma audiência global. Comparado com o modelo um-para-muitos do século passado, o atual, que ainda está tomando forma, nos dá a capacidade – talvez até a necessidade – de colaborar, criar, organizar e falar a verdade ao poder de forma barata e fácil. Tecnologicamente, isto é futurista. Em termos do que pode assegurar à organização social, as raízes são pré-modernas, até mesmo antigas.

No entanto, não vamos nos deixar levar. Várias forças teriam de se juntar para qualquer tipo de revolução acontecer. Mais provavelmente, irá demorar um pouco, como aconteceu com o rádio e o fonógrafo, para os mp3s estabilizarem e chegarem a um ponto em que as velhas formas de fazer as coisas aprendam com as novas ferramentas. A confusão deixada pela música digital gratuita – uma indústria em colapso, o surgimento de uma nova geração de crianças com uma noção muito diferente do “valor” musical do que seus pais, um subconjunto desse conjunto com gostos mais ecléticos do que uma adolescente deveria ser capaz de ter e uma onda de ações judiciais que vão parecer cada vez mais surreais e ridículas com o passar do tempo – vai demorar um pouco para conseguir colocar as coisas de volta em seus lugares e limpar a bagunça.

Esta é a nossa tentativa de levantamento dos prejuízos, avaliar os ganhos e tentar colocar a primeira década completa do formato mp3 em perspectiva. Tenha em mente que o mp3 é uma tecnologia radicalmente nova e não um meio musical diferente: o mp3 ainda é “música gravada” – que não vai mudar até que a Apple crie o iBrain – mas é música gravada que se movimenta de forma muito diferente. Como resultado, o mp3 abriu vastos novos horizontes para a música ao longo dos últimos 10 anos – como podemos descobri-la, o valor que damos a ela e como nós nos vemos ligados a outras pessoas por ela – horizontes que tanto se afastam como constroem sobre as inovações que vieram antes. Tudo ainda está confuso no momento, mas não vai ser assim para sempre – daqui há algumas décadas provavelmente estaremos com saudade da década do mp3.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

TECNOBREGA

# agência pirata #
Ritmo louco, negócio sério




txt e ntrvst: Bruno Dorigatti
pht: Henrik Moltke


Vem de Belém do Pará, uma revolução barulhenta na nossa famigerada indústria cultural. O tecnobrega, com suas dezenas de festas de aparelhagens por semana, onde se reúnem alguns milhares de pessoas, para dançar, curtir e interagir com os DJs ao som do brega, turbinado pela música eletrônica.

Quem poderia imaginar, quando o mercado fonográfico começou a experimentar anos atrás as primeiras etapas de uma crise que o forçaria a se adaptar – e seguir tentando fazê-lo, ainda hoje – aos tempos de internet e distribuição livre de canções, que um gênero musical paraense mostraria ao Brasil e ao mundo um modelo de negócio para a indústria cultural calcado em novas formas de produção e distribuição? Pois isso ocorreu, e o advogado Ronaldo Lemos e a jornalista Oona Castro transformaram o fenômeno em livro: Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música. Nono volume da coleção Tramas Urbanas (Aeroplano Editora), que tem a curadoria de Heloisa Buarque de Hollanda, Tecnobrega teve lançamento no dia 30 de setembro, na livraria Unibanco Arteplex, no Rio de Janeiro. Mas você confere o livro na íntegra aqui. E ouve um sem fim de tecnobrega – e bregacalypso, guitarrada, mpp (música popular paraense) etc. – no portal BregaPop.

Resultado dos estudos do projeto Modelos de Negócios Abertos – América Latina (Open business models – Latin America), sob a coordenação do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas, em parceria com o Instituto Overmundo, o livro traz respostas à crise da indústria cultural – mantendo o respeito à diversidade e às culturas locais. Confira a entrevista com Oona Castro, uma das co-autoras do livro, que contou com outros colaboradores da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) – Arilson Favareto, Reginaldo Magalhães e Ricardo Abramovay –, e também da FGV Opinião – Alessandra Tosta, Elizete, Ignácio, Marcelo Simas e Monique Menezes.


Como vocês tomaram conhecimento do circuito do tecnobrega?


O Hermano Vianna já conhecia há algum tempo, tinha tido contato com o Chimbinha, antes do Calypso, quando ele estava envolvido com a guitarrada (música instrumental do Pará). Ele esteve lá com a Regina Casé, produziram um programa para o “Central da Periferia”. Entrei no projeto no início dele, quando estava fazendo uma especialização na Fundação Getúlio Vargas (FGV), sobre propriedade intelectual. Minha questão era em torno da cadeia de negócios, que tem sua própria engrenagem, e quando você tira uma peça dessa engrenagem, tudo muda. Na verdade, minha perspectiva nem era em termos de lucro, lucratividade da indústria. Quando entrei, a pesquisa de campo não havia começado ainda, cheguei com as primeiras reuniões acontecendo, isso em 2006.

Como foi chegar lá? Já conhecia Belém do Pará?

Conhecia, mas não tinha nada a ver com essa cena. Estive lá em 2000, quando essa cena estava começando a acontecer, mas ainda era concentrada na periferia, porque hoje o tecnobrega se alastrou para a região central, inclusive para casas de show da classe média. Mas as festas de aparalhagens, os estúdios, os artistas, os djs, tudo ainda fica concentrado na periferia de Belém e da Grande Belém. Mas hoje a classe média local já conhece. O preconceito já foi maior. Hoje, diminuiu, reconhecem a importância, e muitos até gostam. Tem alguma similaridade com o que aconteceu com o funk carioca

A Gabi Amarantos (cantora de tecnobrega) foi muito importante nessa ponte com a classe média e, além dela, alguns personagens do tecnobrega dialogam com setores mais elitistas, digamos assim, da sociedade paraense. Eu tive uma boa idéia da cena, fiquei uma semana lá. Mas a Alessandra Tosta, antropóloga, ficou um mês, desenvolvendo a pesquisa qualitativa. Mesmo assim, conheci muito dos protagonistas da cena, fui a algumas festas de aparelhagens, na periferia, na região central e fora de Belém também. È brilhante, causa um impacto muito grande, a atmosfera, o chão começa a tremer ainda longe do local da festa, as luzes podem ser vistas a quilômetros de distância. Não tem como não se surpreender, é muito vibrante. Mas, ao mesmo tempo, não dá para se sentir parte daquilo, pois há uma identidade paraense muito forte. Dá para se sentir muito à vontade. E por mais que exista um processo de massificação na distribuição, na produção, existe um componente local fortíssimo, e isso para mim é muito valoroso, pois eles simplesmente não pegaram o que vem de fora, eles recriaram, e isso alcança outros estados da região Norte e Nordeste; e aqui no Sul, tem chegado à academia, aos jornais, ainda não como fenômeno de público.

Apesar de funcionar muito bem lá no Pará, o que dele poderia ser aproveitado e reproduzido em outros circuitos e redes?

Os conceitos mais abstratos e genéricos. Primeiro, identificar as brechas entre a informalidade e a formalidade, essa fissura, esse vazio, onde não havia uma ocupação. Nunca teve grandes gravadoras investindo naquele mercado. Identificar nas fissuras a oportunidade, com um senso prático e de empreendedorismo. Utilizar a corrente natural de distribuição que já havia, ainda que informal, e isso pode ser experimentado em outros espaços.

O filme Tropa de Elite passou por algo parecido, o que demonstra que a rede informal de distribuição no Rio de Janeiro tem uma força surpreendente. Ainda que o caso do audiovisual seja bem diferente, já que não temos uma indústria do cinema – é tudo feito via mecenato, lei de incentivo – como temos uma indústria da música, ainda que decadente e passando por amplas transformações. Em tese, os filmes, quando estréiam, já estão pagos; seria interessante que se facilitasse o acesso aos bens culturais, ampliando a circulação, como fez Bruno Vianna, com o filme Cafuné, que lançou o longa simultaneamente, em 2006, nos cinemas e na rede. Em tese, deveria retornar para o público, mas como criar uma indústria do audiovisual? Você produz um filme com dinheiro público, mas quase não tem dinheiro para o lançamento e a distribuição.

E quando se questiona essa lógica, como este governo fez bem no começo de sua gestão, em 2003, é acusado de dirigismo, stalinismo, por aqueles que sempre se beneficiaram com o estado das coisas. A malfadada “contrapartida” seria, ao meu ver, acesso, distribuição.




Exatamente. Quase não se tem filme voltado para o mercado infantil, logo não se tem a criação, para esses filmes, de uma audiência, de um público consumidor de cinema, não se tem uma política de distribuição. O Brasil é um dos poucos países onde a tributação é em cima da obra, e não em cima do número de cópias. Então os blockbusters chegam com 200 cópias e pagam a mesma coisa que um filme com uma, duas três cópias. Sem falar que o cinema é caro para a média da população. Então como você vai gerar um mercado assim? E há pouquíssimas salas de cinema. Além do acesso, seria necessário que se pensasse em criar uma indústria, em uma política de Estado, junto com a sociedade e os produtores. Acontece que tem esse gargalo aí, e com certeza tem mais alguns gargalos que não levanto – até porque o audiovisual não é a área que mais domino. Embora a produção audiovisual tenha barateado bastante, o equipamento ainda é caro, o retorno é bem diferente do músico, que hoje sobrevive de shows e apresentações. O diretor de cinema, não.

Além da fissura, quais são as outras fontes de recurso que podem garantir um retorno para a produção? É isso que precisa ser identificado, além do direito autoral. É preciso garantir o acesso sem encarecer a cadeia produtiva.

Voltando ao Pará, como se estruturam os agentes dessa cena tecnobrega?

As empresas são familiares, tem muito compadrio, baseado nas relações de confiança que o mercado formal não tem. Aliás, o Brasil é muito calcado por essas relações pessoais. E lá, isso é fundamental para manter o equilíbrio do próprio mercado. Hoje eu posso ganhar mais, seja na aparelhagem, ou na banda, mas se busca sempre um equilíbrio, pois amanhã pode ser diferente, e aí é você que vai procurar dividir de maneira mais igual o que foi ganho em uma festa de aparelhagem, em um show. Muitos questionam que o tecnobrega não subverte a lógica do mercado. E de fato, é mercado, mas não vejo como o mal absoluto. A questão é se é mais concentrado ou menos concentrado, mais desigual ou menos desigual, mais flexível ou menos flexível. As gravadoras não lançam mais os novos artistas, há algum tempo já. E essa rede cria e permite o acesso, a distribuição. Com a rede do tecnobrega, os gargalos deixam de existir.

Aqui no Rio de Janeiro está sendo formada a Rede Rio Música, com participação da FGV, do Sebrae, do Overmundo, uma articulação para aquecer o negócio da música no estado, mas ainda é muito focado no rock, uma vez que outros gêneros, como o samba, já estariam “estabelecidos”. Mas, na verdade, toda música precisa ser renovada, arejada. Não é à toa que lá vigora essa cena hoje, e aqui está se correndo atrás. Há 10 anos, lá no Pará, era isso: pouquíssimas gravadoras, algo praticamente inexistente, se comparado com o que tem hoje. E as majors já estão se mexendo há alguns anos, em busca de alternativas, mas querem entrar também como majors nestes novos mercados. Mas para o rearranjo é preciso o desarranjo. No caso deles, me parece que falta ousadia para criar algo novo.

Mesmo assim, há alguma concentração na cena do tecnobrega, com somente quatro grandes aparelhagens, em um total de mais de 100. No que isso é bom, no que é ruim?


De fato, as aparelhagens são o setor mais concentrado do mercado. E hoje, a importância que elas têm é similar a que já tiveram um dia as rádios (no caso do Pará). Muitos fazem questão de tocar na aparelhagem X, como já se fez questão de tocar na rádio Y. Elas hoje ocupam esse espaço e cumprem esse papel, de fazer com que as músicas estourem. Mas, mesmo assim, há um dinamismo muito grande. As aparelhagens começam pequenas, na periferia de Belém. No interior do estado, os burros ainda carregam as caixas de som. É vigoroso, porque ainda é aberto. O risco disso acabar é essa concentração crescer. Mas há também espaço para crescer, sobretudo no interior do Pará, porque a aparelhagem envolve muito equipamento, para viajar é sempre complicado; então o espaço para os novos surge. Só a história do mercado vai dizer, mas o que acontece hoje é que as aparelhagens, conforme vão crescendo, passam a ocupar a região central de Belém, abrindo espaço na periferia para as menores. Outro dado curioso é que a maior aparelhagem não é necessariamente a que lucra mais.



Algo interessante do modelo são as inversões, como o fato de as aparelhagens pautarem as rádios, de os ouvintes exigirem as músicas, de as casas de shows se renderem ao tecnobrega. Como se deu isso?


Há um mercado que foi se impondo, com uma popularidade tal, e que guarda semelhanças com o que aconteceu com o funk carioca, também relegado às periferias, aos morros. A rádio surgiu assim, para refletir o que mais se produzia e mais se ouvia, mas foi desvirtuada para ditar o que as majors impõem, fazer o gosto na marra, através da repetição. No tecnobrega a relação do público com as aparelhagens é diferente, os djs tocam de frente para seu público, interagem, pedem a participação. Com o crescimento, os djs passaram a ser chamados para tocar nas rádios, alguns têm horários onde só toca tecnobrega, e muitos acham o espaço pequeno, com uma, duas horas, além de reservado, pois muitas rádios não tocam tecnobrega na programação normal, o que gera um ressentimento e uma ambição de tocar mais. E isso me fez pensar num paralelo com os movimentos sociais, de mulheres, dos gays. Há uma conquista de espaço, mas ele ainda é segmentado, a demanda reprimida é enorme e, conseqüentemente, o desejo é que isso se amplie, cada vez mais.

No Pará eles têm noção de que fazem parte da indústria cultural local, que geram muita renda, além de impostos (através dos mecanismos legais da rede) e, portanto, acham natural esse espaço maior. Há também as rádios poste, onde toca de tudo, com uma programação voltada para o seu raio de alcance, geralmente algumas centenas de metros. Elas tocam mais tecnobrega que as rádios comerciais, sem dúvida, chama os djs e artistas para entrevista.

Outro ponto interessante é a estrutura de direitos flexíveis de propriedade intelectual, como se estabeleceu no Pará. De que maneira poderia ser replicada em outros lugares?

No início dos contatos para a pesquisa, havia certo receio em relação a isso, um pé atrás. Há um senso comum de que é errado liberar música, eles acham que têm que se justificar. A verdade é que poucos artistas em poucos momentos viveram de direitos autorais no Pará. Eles trocaram direito autoral igual = zero por direito autoral = zero + mais divulgação + circulação + a possibilidade de se tornarem mais conhecidos. Isso começou a se dar em meados dos anos 1990. Houve um movimento de conscientização, levado adiante pelo Júnior Nevese pela Silvinha (hoje proprietária de uma gravadora no Recife), para um modelo de cobrança, mas não foi adiante.



Eu também não sou anti-direito autoral sob qualquer circunstância. O problema é ceder o direito autoral para alguém administrar e isso virar mais um gargalo. As gravadoras até chegaram a sugerir formas de remuneração aos artistas do tecnobrega, mas estes nunca viram vantagem nisso, já que elas nunca apresentaram algo que valesse a pena para eles. Não é à toa que o número de artistas e djs que nunca lançaram por uma gravadora chega a 88%. E a lógica de estabelecimento de um artista e dj é inversa ao que foi até então praticado neste mercado. Primeiro, a música produzida em casa, ou no estúdio de um dj amigo estoura em uma festa de aparelhagem. Com os convites que começam a aparecer, é o momento de formar uma banda, para ensair, se apresentar nas festas e casas de show, para então gravar um álbum. O que também está acontecendo no mercado de pop, rock, mpb, de uma maneira mais ampla. No Pará, é também relevante o fato de a música ser cada vez mais aberta, com a oportunidade de ser alterada, experimentada, modificada, remixada de diferenres maneiras. E foi uma lógica que se desenrolou empiricamente, intuitivamente, com essa flexibilidade dos artistas.

O potencial de crescimento deste mercado está sobretudo nos novos, que têm muito mais a apostar e não têm nada a perder. O mercado é mais fechado para os artistas estabelecidos, pois envolve mais dinheiro e o risco deve ser menor. Para os novos, que estão começando na periferia, por ser mais barato, podem inovar, inventar e criar muito mais. O maior potencial está nas pequenas aparelhagens.

E o faturamento?


É certo que uma renda média mensal estimada em R$ 2.600 pode não ser muito para os artistas daqui do sul, mas no Pará, onde a renda média mensal da população é de R$ 700 (dados do IBGE de 2001), este valor é significativo. É um mercado que se permite viver da música que faz. E a maioria continua morando na periferia, próximo à rede de estúdios, artistas, djs, aparelhagens, festas. É um mercado de música, onde se pode viver daquilo. Acho que ensina muita coisa, mas não quero tratá-lo como excêntrico e sem dificuldades. O importante é mostrar que existem saídas, buscar uma formalização, mas dentro dos mecanismos que eles têm, partir disso para se chegar nessa linha tênue do equilíbrio entre legalidade, formalidade e ilegalide, informalidade. Idéias como estações de cópias legais, locais permitidos à circulação de pessoas para as vendas, políticas de acesso, novas formas de tributação.

Vocês identificaram outras redes similares ao tecnobrega pelo país?

Com essa lógica de circulação e distribuição informais, há o reggae no Maranhão, o forró eletrônico pelo Nordeste, embora este último seja muito mais desproporcional, pois há os donos das bandas, praticamente empresários, que assumem o comando de tudo. No tecnobrega, há o dj de estúdio, o centro de tudo, pode onde tudo passa, mas é nas festas de aparelhagens onde as coisas acontecem.

E como foi a recepção do pessoal do tecnobrega quando chegaram para realizar a pesquisa?


Havia o glamour, de ser a Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro, mas também surgia uma desconfiança. Quando chegava para conhecer, muito legal, mas quando começava a perguntar demais, eles desconfiavam. O que é natural, dada a circunstância entra a ilegalidade e a legalidade, a informalidade e a formalidade.

E como eles vêem a banda Calypso? Há esse desejo de estourar fora do Pará?

Eles percebem a importância da banda Calypso, é inspirador. Sobretudo o fato de eles terem até hoje a própria gravadora, de nunca terem fechado com outra gravadora, apesar das inúmeras propostas que apareceram depois de eles terem estourado. Inspirador nesse sentido. Além da admiração e proximidade com Chimbinha, guitarrista que por muitos anos tocou em bandas de guitarrada antes de formar o Calypso com a Joelma.

Agora, há uma ambição de estourar fora do Pará, talvez em São Paulo. Eles já vão à Expomusic, para compar o que há de mais moderno em equipamentos. A Gabi Amarantos tocou na Loka (boate GLS), em São Paulo (Gabi participou também do show da Orquestra Imperial, no Circo Voador, Rio de Janeiro). Não é bem um objetivo deles, ninguém faz para tocar no Rio ou em São Paulo, não é pauta, demanda, desafio, nem objetivo, mas é referência o Calypso no Faustão, a Gabi na Loka.



As fotos que ilustram essa entrevista veio do Flickr de Henrik Moltke, feitas em 2006, quando esteve em Belém para filmar o tecnobrega para o documentário Good copy, bad copy.

Texto de Hermano Vianna, da contracapa do livro:

"Que a indústria fonográfica mundial está em crise, disso ninguém duvida. Todo mundo anda procurando o "novo modelo de negócios". Escondido em Belém do Pará, o tecnobrega testa uma original economia cria há aos, na marra. As músicas saem direto de estúdios da periferia e são distribuídas nos camelôs da cidade, animando gigantescas festas de aparelhagem, sem mais depender da grande mídia ou gravadoras. Um mundo paralelo cujo funcionamento é finalmente revelado neste livro: estudo pioneiro sobre as novas indústrias culturais que comandam a vida musical mais popular no Brasil de hoje. Quem quiser pensar o futuro da música não pode ignorar as lições tecnobregas da Amazônia digital."

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