#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

[over12] CRISE NA INDÚSTRIA INTERMEDIÁRIA

::txt::Tiago Jucá Oliveira::

É permitido permitir

Até o final do breve século passado nós não imaginávamos o mundo sem a figura do intermediário. Ninguém exerceu melhor esse papel nem foi mais importante, em vários aspectos e em vários setores, do que a indústria. É quase impossível imaginar, pra melhor ou pra pior, como seria a música, a notícia, o cinema e a tecnologia durante as décadas em que a indústria intermediária monopolizou a informação e o entretenimento.

Mas, entre tantas conseqüências do avanço tecnológico em nossas vidas e que aos poucos percebemos, eis a queda do poder intermediário. A internet, nas palavras do sociólogo Sérgio Amadeu, “afetou a imprensa e as indústrias fonográfica, cinematográfica e de softwares, com intensidades diferentes”. Ele completa: “a internet colocou em crise todo tipo de intermediação do mundo industrial”. Para Amadeu, o que está em xeque é a “intermediação da mensagem, entre o artista e o público, entre o colaborador e aquilo que ele colabora”.

A sábia decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, uma exigência criada pelo AI-5 militar para censurar a oposição, é apenas um “detalhe”, diz Amadeu. Mesmo que o artigo 5º inciso IX da constituição seja clara, “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”, a internet já havia dado essa liberdade muito antes. A internet, antes do STF, acabou com a ditadura do diploma e eliminou barreiras geo-jurídicas. Que lei nacional poderá impedir uma reportagem hospedada num site ou blog estrangeiro? Seria algo tipo a Ordem dos Músicos do Brasil exigir que artistas como a M.I.A. ou a Amy Winehouse tenha carteirinha pra cantar.

O jornalismo tradicional, feito em redações, perdeu a exclusividade. O advogado Ronaldo Lemos acredita que a internet, “em toda a sua diversidade e complexidade, estabelece um canal direto muito mais rápido para a produção de notícias. Cada vez mais, ela terá impacto mais direto na esfera pública”. Um notável exemplo disso é o povo iraniano, que está a desmascarar a versão intermediária da imprensa oficial. Através de imagens feitas por amadores e colocadas no Youtube, o mundo pode assistir a cruel repressão por parte do governo do Irã. Como bem observa Sérgio Amadeu, “você pode, num governo autoritário ou numa situação difícil como a do Irã, colocar toda imprensa sobre controle, mas não vai colocar a rede sobre controle”.

No ponto de vista de Lemos, “a criação de notícias, antes privilégio da mídia tradicional, tornou-se e irá se tornar cada vez mais descentralizada, valendo-se de Twitter, Facebook, Youtube, blogs, celulares e o que vier depois”. Amadeu vai adiante: “inverte-se a idéia de notícia. O jornalista ou repórter que fazia a notícia perde essa condição exclusiva. E isso passa a ser feito pelo cidadão comum, que pode fazer um blog, pode mandar por e-mail uma informação, pode usar um celular pra fotografar, pra filmar. Ou seja, isso cria uma outra situação”, conclui.

Um caso recente no Brasil deixou os grandes jornais perplexos, constrangidos, indignados e defasados, porém sem nenhuma razão. A Petrobrás criou um blog e um perfil no Twitter, pra responder às perguntas formuladas por alguns jornais, que depois editariam essas respostas e publicariam em suas páginas. Neste caso, a sociedade passou a ter, direta e integralmente, informações oficiais sem a versão intermediada e manipulada pela grande imprensa. De acordo com Sérgio Amadeu, “esse intermediário queria ter o controle da informação. mas a rede alterou a situação do jornalista, pois ele nunca teve tanto espaço como hoje. A rede dificulta aquela velha prática do jornalismo burocrático”.

Na esfera musical, os casos são diferentes, mas os conceitos são semelhantes ou até mesmo iguais. Artistas famosos e independentes antenados nas variadas ferramentas digitais não precisam mais da indústria fonográfica pra gravar, prensar, vender e distribuir álbuns, disponibilizar músicas e promover seus próprios shows.

A Feira da Música, que aconteceu em 2009 Fortaleza, teve a tecnologia como tema central. O evento chegou a sua oitava edição com shows, palestras, workshops, oficinas, rodadas de negócios. Uma oportunidade de interação entre artistas e participantes. Aspas no site da Feira: “em sete anos, a Feira tem gerado soluções para a cadeia produtiva da música, contribuindo para a consolidação de uma rede nacional e abertura de um mercado internacional para a produção independente”. Em 2009 a Feira promoveu shows com 60 bandas brasileiras em cinco palcos espalhados nas regiões centrais e boêmias da capital do Ceará.

Entre os palestrantes, a cantora e compositora Alessandra Leão, pra falar sobre planejamento de carreira, inspirada no curso de Autogestão de Carreiras Musicais, ministrado por ela e a produtora Jô Maria desde 2008. “Já ministramos esse conteúdo para cerca de 200 profissionais da área, entre músicos, produtores e técnicos”, revela Leão. “A tecnologia”, completa ela, “tem sido uma ferramenta fundamental para a divulgação e distribuição, o que tem dado aos artistas a autonomia de se auto-gerirem, ou de fazer essa gestão em parceria com produtores. Essa autonomia tem sido muito saudável para as relações de trabalho dentro do mercado da música, não só para o músico, mas para toda a cadeia produtiva”. Alessandra finaliza dizendo que “essa mesma tecnologia também tem contribuído para a aproximação do artista com o público, modificando positivamente essa relação entre o músico e seus fãs.

Quem também participa da Feira, como uma das atrações musicais, é a banda mineira Black Sonora. Um de seus integrantes, DJ Yuga, agradece a tecnologia por poder participar da Feira da Música. Hoje, diz Yuga, “você é capaz de gravar e produzir seu disco em casa, com custo quase zero, e com uma qualidade bem legal. Com isso abriu várias possibilidades para todos. E quem está antenado com as novas tendências tecnológicas está um passo a frente.

As relações políticas também se tornam menos intermediadas, devido as condições tecnológicas. Marcelo Branco, coordenador-geral do FISL (Fórum Internacional de Software Livre), acredita que “defender uma causa qualquer é uma opção que dispensa adesão a um partido político. Novas redes de mobilização social, em favor de objetivos específicos, vão se multiplicando a cada instante. Ao contrário do que sustenta a crítica conservadora, elas não são apenas virtuais. Produzem efeitos concretos, dos quais há exemplos abundantes: a campanha contra a lei Azeredo (agora, no Brasil); a derrubada do governo Aznar (em 2004, na Espanha); a denúncia da invasão do Líbano por Israel (em 2006); a avalanche em favor de Barack Obama; a persistente mobilização dos iranianos contra o fundamentalismo do governo Ahminejad.

O Império contra ataca

Se por um lado a internet e seus usuários dependem cada vez menos de intermediários, setores poderosos da sociedade já estão em processo de reação. Processos e condenações judiciais contra quem disponibiliza e baixa arquivos na rede, leis e projetos de leis restritivas, mecanismos digitais da indústria do entretenimento. O problema, segundo Ronaldo Lemos, é que “chegou um ponto que não tem como mais limitar a restritividade do direito autoral, pois chegou ao limite. Não tem mais pra onde aumentar, pois já é o máximo fechado possível e concebível”. Para Sérgio Amadeu, “a indústria dos intermediários está organizando a batalha em defesa de um modelo fracassado de copyright”.

Na França e na Inglaterra surge uma outra tendência de tentativas da indústria. Após três notificações por download ilegal, o usuário francês é excluído da rede. Ronaldo alerta que leis, em nome do direito autoral, vão “afastar o princípio de que todos se presumem inocentes até serem julgados culpados. É uma segunda era de radicalização do direito autoral, que é de suprimir garantias fundamentais que são dadas pelas constituições de vários países”.

Pior ainda é na ilha britânica, diz Lemos, pois não é preciso lei, mas sim “uma espécie de um acordo entre os provedores de internet diretamente com a indústria, e esse acordo uma vez feito, passa a operar de modo que você desliga os usuários da rede, sem a necessidade de um controle legislativo ou judiciário”. Amadeu pergunta: “se fosse um governo, a gente chamava censura. E quando é uma empresa privada que controla a infra-estrutura de rede, como se chama esse poder?”.

Alguns de seus “símbolos”, diz Marcelo Branco, “são a lei de restrição à internet na França (aprovada por proposta e pressão do governo Sarkozy mas derrubada em seguida pelo tribunal constitucional), o processo contra o grupo sueco Pirate Bay, cujo site facilita a troca de arquivos digitalizados e, no Brasil, o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo”.

Dois princípios, argumenta Sérgio Amadeu, devem ser defendidos: “o princípio da neutralidade na rede, quem controla a camada de infra-estrutura não pode controlar a camada lógica. Quem controla a infra-estrutura de rede, quer controlar os fluxos que passam pela rede. Mas a internet foi construída pelos seus usuários, são práticas reconfigurantes, e eles não se conformam com a rede distribuída, livre, onde você pode criar não somente conteúdos, você pode criar novos formatos e novas tecnologias. Nós não temos de pedir autorização pra ninguém, e isso incomoda aqueles que tinham a lógica da hierarquia, a tentativa de controle.

E o princípio da imputabilidade da rede: “um motorista de taxi, que leva um criminoso, por ventura, que desce e assalta alguém. Que culpa tem ele? Ele é apenas um motorista de taxi, ele é o meio”, ilustra Amadeu. “Eles”, continua o sociólogo, “querem culpar a rede, ela não é culpada de nada, pra impor controle não sobre a rede, sobre nós”.

De acordo com Amadeu, “o que está tirando a audiência deles não é o que eles chamam de pirataria, é a diversidade cultural, porque nunca antes nós pudemos produzir tanta cultura como agora na rede. É essa questão que colocam eles em risco”.

A propriedade intelectual é um roubo!

A vanguarda ataca em duas frentes: os desobedientes civis, que violam leis de direitos autorais interpretadas injustas e obsoletas. São os piratas do novo milênio. O mais famoso deles, o The Pirate Bay, o maior site de compartilhamento de arquivos protegidos por copyright. No campo político, partidos Pirata se organizam e até concorrem a eleições em alguns países, inclusive com uma cadeira conquistada no parlamento europeu.

Já o outro campo de atuação é socializado através da lógica colaborativa. Artistas disponibilizam suas músicas pra download e remix em sites como o Jamendo.com, que já conta com mais de 20 mil álbuns pra baixar gratuitamente, todos eles em CC (Creative Commons). Eventos como o FISL há 10 anos debatem e apontam caminhos na área de softwares com código aberto, que permitem o entendimento e aprimoramento de um programa usado por você em seu computador. Cresce o número de blogs e sites também licenciados em CC, que pré-autorizam, sem burocracia, a reprodução de seu conteúdo.

Piratas desobedientes invertem a lei. Pessoas colaborativas subvertem a tecnologia. Ambos caminhos se complementam e são peças decisivas para o fim de uma era: a era do intermediário industrial.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

LES JUANITOS



# tapa na orelha #

Exotica

txt: Basket Selector
rsnh: Fabrice Wouters


Eu já havia recomendado o excelente site Jamendo, onde todas obras musicais estão disponibilizadas pra download por vontade dos artistas, e todas também licenciadas em Creative Commons.

Entre uma pesquisa e outra, descobri um som furioso, man! Bagulho doido da porra! Não vou me ater a resenhas. Pode me chamar de preguiçoso. Porém mais marolado é você, se não ouvir isso; ou se ouvir, gostar e não baixar.

Com vocês, a excelente banda LES JUANITOS, e o álbum "Exotica" (download e streaming aqui). Segundo definição do Jamendo, a banda é jazz latin spanish easylistening fusion lounge easy exotica latino samba.

Tá esperando o que, madureira? Abaixo a resenha oficial:

Je décerne sans aucune hésitation à Exotica le titre d'album le plus kitsch de l'année 2001 ! Ce CD, le quatrième de ce groupe de Chambéry, aurait pu être la bande originale de Pulp Fiction... ou de Dirty Dancing.

Pop psyché, rock, mambo, samba, cha cha cha, les Juanitos proposent un étonnant mélange qui fait toute leur originalité. Le groupe est grand fan des années soixante et les références et clins d'oeil aux 60's sont nombreux: des séries B de la télé, à Morricone et Duane Eddy, en passant par le boogaloo et le twist.

Drôle, décalé et enjoué, Exotica donne envie de se trémousser au son des guitares, des congas, des bongos, des tambourins et des maracas. Autant d'instruments qui apportent la touche... exotique à cet album.

Exotica nous emmène vers une île tropicale, sous le soleil et les cocotiers. Tiens, d'ailleurs nos cinq matadors proposent un mini cours de cha cha cha (Apprenons le cha cha cha).

Les textes, en anglais, en espagnol et en français, sont totalement surréalistes: "Yo soy el cha cha man, yo soy el supermán, yo soy el hombre de la fiesta de Sudamérica..." dans El Cha Cha Man.

Mais Exotica n'est pas simplement un album de plus des Juanitos, puisqu'il propose de surcroît les trois précédentes productions du groupe, Surfin' Matador (1992), Do The Cobra (1995) et The Crazy Vibrations of The Juanitos (1997), sous forme de fichiers MP3. Soit pas moins de 66 titres ! Ce qui permettra à ceux qui ne connaissaient pas encore les cinq "timbrés" de Chambéry de découvrir leur discographie délirante.

Sachez aussi que les Juanitos ont déjà planifié leur avenir: quatre albums jusqu'en 2011. Prochaine fournée en 2002 ! Je suis curieux d'entendre ça...

domingo, 28 de junho de 2009

MAIS +ou- MENAS #007

FISL, PORTO ALEGRE, BRASIL
que dia é hoje?

O único caderno dominical publicado no sábado e lido na segunda





TAPA NA ORELHA

dj basket sound system

editor sonoro de O DILÚVIO Space Radio

Acabo de conquistar dois espaços ao mesmo tempo. Uma coluna no caderno dominical +ou- e outra no blog Chicultura, também semanal. Minha função é fazer o que mais curto: ouvir música e indicar os caminhos pra tomar um bom tapa sonoro na sua orelha, prezado cágado ou prezada pomba.

E pra de começo de conversa, quero indicar o site Jamendo, que tem um acervo de mais de 20 mil álbuns disponibilizados em Creative Commons por artistas e bandas de todo o mundo. Entre tantas coisas, encontrei disponível um álbum Latino Tracks vol. 1, do Flu . Uma licença em CC é bom pra quem baixa tanto quanto pro artista. Pra quem curte pesquisar, ir a procura de novos sons, entre no site e se divirta.

  


Disco novo na parada. A banda Luisa Mandou um Beijo tá com novo trabalho. Não é muito a minha praia, mas talvez você possa curtir. É um rock levado. Mas a banda é boa, as músicas tem corpo e está bem produzido. É só uma questão de onda. Saiba mais no myspace da banda. Vale por "A Odalisca e o Pirata".

Sensacional é como defino a banda Instituto Mexicano del Sonido (ou Mexican Institut of Sound). Os chicanos mandam bem na explosão de latinidades e eletrônica. O verdadeiro tapa na orelha pra fazer jus ao nome da coluna. Procurem no oráculo pelo novíssimo CD dos moleques, Soy Sauce. Os porros caribenhos fizeram efeito na aparelhagem. Viaje ao som de "Sinfonia Agridulce". De curiosos títulos, "White Stripes" e "Karate Kid 2". É video-game com salsa. Acesse o myspace do MIS.



Quem lança EP e está perto de acabar o segundo disco é CéU. O EP, Cangote, tem apenas quatro músicas e já dá uma breve noção do que pode ser "Vagarosa", novo disco da cantora e previsto pra ser lançado em breve. Tá menos Beto Villares e mais Sonantes. Não que isso seja melhor ou pior. Mas a característica samba cede espaço a etiqueta jamaica, embora rótulos nem sempre são bons. Quer saber mais? Ouça a página de Céu no Myspace.







PIRATE BAY

Aracele Torres

colunista do Trezentos


Suécia: Tomas Norstrom não foi tendencioso. Brasil: Peter Sunde: Continuem a copiar!

Como se já não bastasse os absurdos de ter condenado os quatro administradores do site The Pirate Bay a um ano de prisão, ter estipulado o pagamento de cerca de 3,6 milhões de dólares em multa e depois ter congelado suas contas bancárias, agora a justiça sueca recusou a apelação feita pela defesa do TPB, que alegava que o juiz responsável pelo caso teria sido tendencioso.

Os advogados do TPB haviam pedido um novo julgamento tendo em vista que o juiz, Tomas Norstrom, responsável pela sentença de condenação do grupo, é membro da Associação Sueca do Direito Autoral. Mas, nesta quinta-feira (25), a corte sueca determinou (pasmem!) que Tomas Norstrom não foi tendencioso.

Se a condenação de um site de Bit Torrent, que facilita o compartilhamento não autorizado de arquivos sob copyright, como é o caso do The Pirate Bay, não seria interessante ou desejável para um membro da Associação Sueca do Direito Autoral, então, eu não sei para quem poderia ser. Isso é uma piada!

Enquanto isso…

Enquanto lá na Suécia a justiça tenta, descaradamente, favorecer às indústrias fonográfica e cinematográfica, aqui no Brasil, Peter Sunde, um dos cabeças do TPB, lança várias críticas ao modelo de negócio delas. Durante sua palestra no FISL (Fórum Internacional de Software Livre), que está acontecendo em Porto Alegre, Peter, disse que por se recusarem a achar um novo modelo de negócio essas indústrias estão fadadas ao fim.

Ele defendeu, ainda, o direito do público de copiar obras para qualquer finalidade: “Se uma obra tem licenças, então ela tem restrições. Sou contra qualquer tipo de restrição. Todo mundo deveria ter o direito de baixar o quanto e o que quiser, seja para qualquer finalidade, comercial ou não. O público já decidiu que não deseja pagar nada pelo conteúdo.”

E segue o principal recado de Sunde: Não parem de copiar!


photo: Mariel Zasso







P2P

Cristina De Luca

autora do blog Circuito

87% dos usuários não sentem criminosos

O "Primeiro Relatório MuyComputer" sobre o uso de serviços P2P está dabdo o que falar. Os números atestam mais uma vez a percepção de legalidade dos usuários de redes de compartilhamento. Nada menos que 87% dos 3.830 internautas consultados não acreitam estar cometendo nenhum crime ao compartilhar arquivos protegidos por direitos de autor. Tem mais: 86% garante que as campanhas oficiais de combate a pirataria não afeta a todos os que fazem uso da tecnologia P2P.

Clique aqui para ver a íntegra da pesquisa.






ÁGUAS PASSADAS

Tiago Jucá Oliveira

ex-aluno do Pereira Coruja

Filhote de Coruja


Professora Luzia me pergunta em tom de lamento, por e-milho: "VIU SÓ O QUE ACONTECEU COM A NOSSA PEREIRA CORUJA? ESTAMOS DESOLADOS, MAS COM MUITA ESPERANÇA NA SUA RECONSTRUÇÃO. ABRAÇO, LUZIA"

Pereira Coruja foi onde fiz todo o meo segundo grao, em São José do Tibiquari, pequeno e bonito município interiorano da Província de São Pedro. Mais que isso. Fui presidente do Grêmio Estudantil dacoela escola estadual. Época dos caras pintadas, geração pós-lata, que ainda não tivera o prazer de levantar uma Copa do Mundo. Pelé, Gérson e Rivelino eram mitos; e Dunga era a triste realidade, marcado em brasa perché esqueceu de anotar a placa do Maradona.

Eu diria que vivíamos uma era final. Muita coisa se encerrava nacoele final de século antecipado. Fim que dera o primeiro sinal na queda do muro de Berlin, enquanto a utopia populista Brizola-Lula desmoronava perante o Caçador de Marajás. Ao som quase mórbido do Nirvana. Reclamávamos que nossos pais tinham sido manipulados pela mídia em 89, mas em 92 foi nossa vez de entrar pro circo. Elite jornalística e política depositaram a merda na patente na histórica eleição pós-Sarney, mas nacoela altura do certame queriam dar a descarga. Então pintaram nossa cara de preto, e nos levaram às ruas na missão de descollorir o planalto.

No Tibiquari, cidade conservadora nas coestões políticas - o cruel Costa e Silva não era de lá por acaso -, mobilizamos os estudantes e os partidos de oposição. Em palanque montado na Praça da Matriz, bradei ao microfone: "onde estão os partidos que apoiaram a eleição do Collor? Per chè não aparecem para falar e ficam se escondendo atrás das árvores?" Era ano de eleições municipais, e o candidato a vice-prefeito do então PDS espiava entre os galhos minha inocente rebeldia e a de outros candidatos a prefeito e vereador, que se aproveitaram da posição nacional de seos partidos pra ganhar mais votos.

Pode parecer mentira, mas eu era envolvido na política. Além de presidente do Grêmio, eu era vice-presidente da Juventude Socialista do PDT local. O brizolismo que corria em minhas veias não foi suficiente pra me calar diante do desgoverno de meo quase padrinho de batismo Alceu Collares. Sem consultar meu partido - nem creio que devia ter feito isso -, convoquei, através do Grêmio, um ato de protesto contra o hilariante e caprichoso calendário rotativo da Neusa. E durante o dia inteiro fechamos a rua em frente ao Pereirão.

Naquele dia passei a dar mais prestígio a um político tibiquarense. Gênis Muxfeldt, candidato a vice na chapa PMDB-PDT-PT e principal quadro dos trabalhistas, transitava de carro coando foi barrado por nós. Deu total apoio. Jamais me repreendeu em público ou em particular. Pelo contrário. Ele parecia acreditar nacoele projeto humano de 16 anos que se negava a calar. Passei a marcar presença no horário eleitoral, sempre soltando tiro pra tudo que é lado. A reação foi forte. Fui insultado nos comícios do PDS-PTB por um candidato a vereador e intimidado na rua por meia dúzia de covardes, entre eles o filho do atual prefeito, que também vencera o pleito daquele ano.

Fora do universo político, nossa gestão foi recordista em vários aspectos. Realizamos os maiores campeonatos de basket e de voley de dupla. O concurso mais rentável e com maior número de candidatas ao Miss Brotinho da cidade. Assim como o Municipal de Voley de Duplas, recordista em participantes. Creio que alguns números ainda não foram batidos, 16 anos depois. Agilizamos jornal, projeto de lei municipal em defesa dos animais, protestos e constante diálogo com alunos e representantes de turma. De ruim, só meo momento pop-getulista a la Jânio: em vez do suicídio, renunciei por uns meses, chocado com a morte de meo pai e chapado com diversas doses diárias de erva. Retomei coando notei que os inimigos cultos se aproveitavam de minha ausência pra retornar ao Grêmio.

Apesar do engajamento, eu também era enganjado. E em muitos momentos de deslucidez aprontei tudo que é tipo de malandragem na escola. Uma meia dúzia de bicicletas costumavam aparecer penduradas nas árvores. Botei fogo num rabo de papel que haviam laçado nas calças do Luís Sérgio. Rasguei alguns cadernos do Quimico. Entreguei uma prova coase em branco pro Juca Bala. Coase, pois havia um FUCK YOU bem grande ocupando a folha. Impedido de ir ao banheiro, pulava a janela escondido e voltava pela porta, deixando o professor Pedro Paulo desconcertado e perplexo. E costumava entrar pela janela nas salas de outras turmas. Uma professora (esqueci o nome, a mãe da Paula, minha colega) abriu a porta e pediu pra eu sair. Saí pela janela, ouvindo gritos de "volta aqui, seu praga"!

Roubei uma prova de Física, guardada dentro da sala da direção,com um esquema bem bolado por mim e meos colegas (exceto a inimiga culta, inteligente demais pra participar da sabotagem, embora não tenha dado com a língua nos dentes), a fim de evitar que Pedro Paulo reprovasse mais da metade da turma. Irritados pela minha constante perturbação em sala de aula, meos colegas Bira e o Rincão treinavam karatê pruma luta que marcaram comigo. Sabedor da preparação deles, me fiz de loco. A escola inteira, após o turno da manhã, parou pra ver uma briga, mas acabou por assistir a uma legitima palhaçada. Desengoçado que eu era, mexia meos longos braços e pernas pra tudo que é lado, aos gritos de YAH, YAH, YAHYAH!, imitando um samurai japonês. Meos adversários não se agüentaram e caíram na risada também. E refizemos a amizade.

Não há como negar. O Pereira Coruja foi muito importante no pouco que sou hoje. Briguei e brinquei, colei e dei cola. Professores, colegas e amigos marcaram acoele momento único em minha vida. Após ler e-mail da Luzia, pesquisei no orkut e em um minuto descobri que o Pereira Coruja havia pegado fogo semana passada. Queimou coase tudo, mas não minhas lembranças duma juventude sadia e pitoresca, sonhadora e dorminhoca. Mesmo com tantas dificuldades por coais passam as escolas estaduais - desde o professor Ruy Ostermann até o atucanato de hoje coase nada de bom foi feito -, o Pereira Coruja me encaminhou pra universidade. Formou um jornalista, mas acima disso, acoelas pessoas com as coais convivi me fizeram um homem de caracter. Não posso mentir pra você, professora Luzia. Se um vidente me garantisse que nem Deus impediria as chamas de queimar nossa querida escola, eu mesmo trataria de riscar o fósforo. Só um protesto. Eu seria o vilão, mas pelo menos a desgovernadora viria a público dar uma voz de carinho ao ensino público. "Vejam o que esses marginais estão fazendo com nossas escolas", diria ela ao vivo na televisão. Ironia ou coincidência, mas meo cartaz de protesto dizia a mesma cousa. Colou de mim? Vejam vocês!


#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • AtribuiçãoVocê deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licençaSe você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

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