#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

[over12] A IGREJA NA TV



::txt::China::
::ilstrç::Kika Novaes::

Estou aqui na sala da minha casa, de frente pra TV, assistindo a um programa da Igreja Universal. Nada contra os protestantes ou qualquer outro tipo de religião. Eu mesmo já fui coroinha, e todo domingo levava os óleos que o padre usava na missa, apesar de querer mesmo levar o incensário. Gosto da fumaça. Mas, voltando ao assunto... nada contra as religiões, só que fiquei espantado com o que assisti.

O programa já começou com uma sessão de descarrego pesada (mas é madrugada, o horário permite). Tinha uma mulher virando os olhos e se remexendo toda, enquanto três caras seguravam ela. O pastor, gritando feito um louco, apertava o crânio da criatura com tanta força que doía até em mim. Depois de alguns gritos de ordem, como "sai satanás, que este corpo é do senhor" e "deixa essa alma em paz", o pastor deu um empurrão na mulher, que apagou completamente e ainda derrubou um dos caras com ela. Na hora eu pensei: porra, esse cara pode curar minha insônia!

Depois de alguns descarregos e muitos gritos, o pastor se acalmou. Andou bem devagar de um lado para o outro e se colocou atrás da mesa, no altar. Mandou os fiéis sentarem, tomou um gole de água e começou a contar uma passagem da Bíblia. No início a expressão do pastor era serena, mas quando ele falou num tal de Lúcifer, meu velho, o homem pegou ar. Arrancou o paletó, começou a gritar, esbravejar e deu vários tapas na Bíblia. Era cada tapa no livrinho que chegava a atrapalhar o som da sua voz no microfone. Pá, pá... satanás, Lúcifer, pá, pá. Será que esse pastor não sabe que rola a maior campanha para cuidar bem dos livros? E os gritos? Imagino que ali estavam várias pessoas com algum tipo de problema, físico ou psíquico. Com certeza devia ter algum surdo. Mas o pastor tinha que gritar daquele jeito? Um cara que grita para impor suas opiniões, com certeza, não tem uma opinião interessante.

Às vezes ele mudava o tom de voz e falava bem baixinho, para logo depois berrar "PORQUE SATANÁS...", numa altura que chegava a distorcer o som nas caixinhas da TV. Comecei a perceber que era uma artimanha do pastor para trazer de volta os fiéis mais dispersos. Mas me dei conta de que, na verdade, aquele porra tava era sacaneando a turma, pois ninguém conversava. Pense em você num grande galpão, cheio de gente olhando para o teto e rezando, e um cara dando uma caralhada de gritos? Não tinha como alguém ficar disperso. Mas o pastor continuava modulando a sua voz e dando tapas na Bíblia.

A imagem do templo foi cortada. Acho que era só uma “palhinha” do que você vai encontrar se quiser aparecer por lá. Agora estou vendo uma sala branca com uma cascata rolando num cromaqui. Natureza, para ser mais exato. Tudo clean, tudo azul. Adão e Eva no paraíso. A câmera tá andando. Tem uma mesa marrom que parece um caixão, e um cara sentado numa grande poltrona atrás da mesa, que está com alguns livros em cima... e, sim, tem uma Bíblia. Acho que esse cara é pastor também. Vou aumentar o volume para ouvir o que ele diz, pois está falando baixo.

A partir deste momento escrevo em real time, olhando para a TV e transcrevendo para vocês o que vejo. Ele fala sobre o valor da vida. Papo água da porra! Só conversa mole. Coloca a mão em cima da Bíblia bem devagar. Parece estar acariciando a palavra do senhor. Agora ele pega outro livro e mostra a capa para as câmeras. Continua falando da vida e insere o livro no contexto.

Claro! Como eu não me liguei nisso. O pastor manso está vendendo o livro. E não só ele, mas a série toda. Quatro volumes por 58 reais. É o que está escrito na tela. O pastor agora diz que, depois dos comerciais, voltará para dar uma benção na gente. Vou esperar.

Engraçado esse sistema que eles usam. No culto gritam, e no marketing falam baixo. Devia ser o contrário. Mas se eles conseguem vender mesmo esses livros, os ambulantes da cidade deveriam pegar umas aulas, pois nem se esguelando, os coitados apuram algum no fim do dia. Opa, volta a transmissão. O pastor manso tá com a Bíblia nas mãos. Pede pra gente levantar e colocar as mãos pro céu (a gente, que eu falo, são todas as pessoas que, como eu, estão assistindo esse programa). Vou ter que parar de escrever. 6 minutos depois...

Pronto. Fui benzido via NTSC, ou PAL-M, não sei ao certo. Tomara que tenha funcionado. Queria ligar pra saber quanto tempo dura essa benção, mas na tela só aparece um telefone para pedidos de oração. Porra! Se eu quiser rezar por alguém, eu mesmo faço isso, né? Vou economizar essa grana e tentar dormir. No domingo de manhã assistirei a missa do padre Marcelo Rossi, na rede globo, para fazer uma comparação mais embasada. Aleluia, irmão!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

[cc] CHINA E O ELOGIO DA CRUELDADE



::txt::Bruno Lima Rocha::

A situação do dissidente chinês Liu Xiaobo retrata uma proposta de regime político fechado com expansão capitalista ilimitada. Enquanto o professor é agraciado com o prêmio Nobel da Paz de 2010 e não pôde recebê-lo porque se encontra em prisão domiciliar, o mundo transpira – e se cala - a cada oscilação da taxa de juros do país que é o maior comprador mundial de títulos da dívida pública dos EUA.

Nada disso é à toa. A China inspirada pelo ex-premiê Deng Xiaoping materializa um conceito caro ao neoliberalismo. É um raciocínio simples já expresso abertamente por doutrinadores como Milton Friedman. Trata de conceber as liberdades econômicas como superiores das liberdades políticas. Este Estado não inaugura uma era, mas expande em escala a conjunção de regime autoritário com economia de mercado incentivada por um governo interveniente. O regime “pioneiro” deste conceito foi o de Pinochet. Após o golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile, a equipe econômica foi composta basicamente de ex-alunos de Friedman na Universidade de Chicago, também conhecidos como “Chicago boys”. O apelido destes mesmos operadores político-econômicos, dentro do país, era outro, um tanto mais realista, sendo chamados de “piranhas vorazes”.

Já na terra de Confúcio, os estudos recentes de implantação do capitalismo na década de 1990 apontavam para o nexo político-criminal como a forma de crescer economicamente. O lema “enriqueçam!”, proclamado por Deng ainda em vida, não veio acompanhado de normas e condutas de contenção do animal econômico e menos ainda de ampliação de direitos e garantias. Ao revés, a abundância de mão de obra barata e subserviente é essencial para aumentar as margens de quem lá investe.

Mesmo sabendo destas mazelas, no Brasil vemos economistas, colunistas e empreendedores econômicos demonstrando entusiasmo no modelo chinês como um todo. Já ouvi em programa de TV a notórios conservadores afirmando, após uma visita, a maravilha que é a “economia se desenvolvendo sem a pressão de sindicatos”. Outros se dizem gratamente surpreendidos pela “agilidade do poder Executivo” em tomar decisões fundamentais. Ou seja, sem pressão da sociedade organizada, a aliança entre Estado e Empresas faz o que quer e como quiser.

O elogio aberto da China traz consigo a idéia-guia de que o desenvolvimento produtivo está acima dos direitos fundamentais. Trata-se de pura e simples crueldade.



* Deng Xiaoping (1904-1997), líder inconteste do capitalismo chinês, homem forte da China quando do Massacre de Tian Amen, operador – de forma indireta – de conceitos macro-societários dos degenerados neoliberais de Mont Pèlerin

domingo, 2 de janeiro de 2011

[agência pirata] LULA: R$ 10 BI EM PUBLICIDADE

::txt::Amanda Costa::

Em oito anos, Lula gastou quase R$ 10 bilhões em publicidade

Se propaganda é a alma do negócio, não à toa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrará o mandato com uma aprovação popular recorde de 83%, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Em oito anos de mandato, Lula gastou pouco mais de R$ 9,3 bilhões dos cofres públicos no intuito de manter a sociedade informada sobre os atos de governo – em valores corrigidos pela inflação. Um balanço preliminar da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), divulgado na última semana, informa aplicações de R$ 1,1 bilhão em publicidade neste ano, apenas até o início de dezembro, uma média diária de R$ 3 milhões. A cifra refere-se a todos os ministérios, autarquias, fundações, empresas estatais e sociedades de economia mista.

A mídia mais procurada pelos órgãos públicos federais foi, mais uma vez, a televisão, que respondeu por R$ 707,2 milhões, ou 64% de todos os anúncios feitos neste ano (veja tabela). A publicidade nos jornais obteve investimentos de R$ 100,1 milhões, o que representa 9% dos gastos com propaganda. Bem próximo, os anúncios em rádios chegaram a quase R$ 100 milhões.

As revistas foram responsáveis por R$ 83 milhões. A Internet e os outdoors receberam anúncios de R$ 36,6 milhões e R$ 5,8 milhões, respectivamente. Já a publicidade governamental em cinema, mobiliário urbano, carro de som, telas digitais em shopping, elevadores, supermercados e aeroportos respondeu por R$ 68,4 milhões, ou 6% do total investido no período.

O órgão que mais desembolsou recursos neste ano com publicidade foi o Ministério da Saúde, que dispensou R$ 137,8 milhões para anúncios. Já as aplicações da Secom chegaram a R$ 100,8 milhões. Ministério das Cidades dispensou R$ 60,3 milhões. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aparece na quarta colocação, tendo um consumo publicitário de R$ 23 milhões. Um pouco mais abaixo na lista dos maiores investidores em mídia, a Infraero aplicou R$ 842,3 mil.

Na outra ponta, o Ministério do Trabalho e Emprego desembolsou R$ 363,2 mil, seguido do Banco Central com R$ 328,9 mil e da Eletrobras Eletronuclear com R$ 48 mil (veja tabela). O governo federal não divulga individualmente os gastos publicitários das estatais que concorrem no mercado sob o argumento de que a divulgação faria com que empresas como a Petrobras e o Banco do Brasil perdessem competitividade.

Apesar de não constarem os valores individuais, no cálculo global estão incluídas as aplicações em campanhas publicitárias de todos os órgãos da administração direta e indireta em ações de publicidade institucional e de utilidade pública. Os dados, contudo, não computam informações sobre publicidade legal, produção e patrocínio.

A publicidade institucional e a de utilidade pública, objetos do levantamento da Secom, diferenciam-se nos fins almejados. Enquanto a publicidade de utilidade pública prevê informar, orientar, prevenir ou alertar a população para que adote um comportamento específico, visando benefícios sociais, a publicidade institucional se limita a divulgar informações sobre atos, obras, programas, metas e resultados do órgão público.
Década

Em 10 anos, o maior valor registrado em anúncio publicitário foi no ano passado, quando o governo aplicou quase R$ 1,7 bilhão em campanhas. A média diária de investimentos chegou a R$ 4,6 milhões, recorde desde o início da década. A cifra representa um incremento de R$ 519,7 milhões na comparação com 2008, quando foi aplicado R$ 1,2 bilhão em propaganda. O principal responsável pelo acréscimo foi a Internet, que teve aumento de 101% no ano passado em relação a 2008. Em números, a Internet recebeu R$ 30,3 milhões a mais de investimentos em 2009.

A TV, por outro lado, teve um incremento de apenas 46% na comparação com 2008. Apesar do baixo crescimento se comparado a outros veículos, a televisão continuou sendo o carro-chefe da propaganda pública, com R$ 1,1 bilhão gasto, o que representou 63% do valor aplicado em publicidade no ano passado.

Na comparação entre os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a atual gestão sai ligeiramente na frente. Entre 2000 e 2002, FHC aplicou R$ 3,1 bilhões em publicidade, uma média de pouco mais de R$ 1 bilhão por ano. Já o presidente Lula, que dispensou R$ 9,3 bilhões durante oito anos, teve média anual de gastos estimada em quase R$ 1,2 bilhão.

Os dados sobre os investimentos em mídia do governo federal são fornecidos gratuitamente à Secretaria de Comunicação da Presidência pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP). O IAP, instituição sem fins lucrativos, é constituído por empresas de comunicação que prestam serviço de publicidade a órgãos e entidades do Poder Executivo Federal.

O balanço final dos anúncios publicitários referentes a 2010, de acordo com a Secom, só será divulgado em janeiro do próximo ano.

Expansão

De acordo com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, 7.047 veículos – entre rádios, jornais, TVs e revistas – de 2.184 municípios estão incluídos no plano de mídia do governo federal e, portanto, aptos a divulgarem campanhas. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, a quantidade de veículos estava limitada a 499 em 182 cidades brasileiras.

Ao longo de seu mandato, o presidente Lula inovou e estabeleceu contatos diários com a imprensa, enviando recados a todos o país. Entre as criações midiáticas de Lula está o programa semanal de rádio “Café com o Presidente”, a coluna impressa “O presidente Responde”, além da publicação bimestral “Caderno Destaques” e o boletim diário “Em Questão”, que visa orientar a sociedade sobre as políticas públicas do Poder Executivo.

O cientista político e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo, Fernando Azevedo ressalta que um dos princípios que rege as democracias modernas é a transparência e a prestação de contas do governo perante o cidadão. Neste sentido, portanto, a publicidade seria um instrumento de transparência governamental. Por outro lado, Azevedo não descarta a possibilidade de autopromoção de autoridades públicas. “A tendência é que os governos ampliem seus investimentos nessa área porque a divulgação governamental beneficia o partido ou a coalizão partidária que controla o governo”, avalia.

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