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quarta-feira, 11 de março de 2015

[noé ae?!] WANDER WILDNER: O SHOW, O DISCO E O CONTO


 Será dia 13/03 às 21h, no Opinião Bar (20 barão) o show de lançamento do oitavo disco do Wander Wildner, “Existe alguém aí?”, que, segundo as palavras de Jimi Joe "é mais um exercício bem sucedido de criação artística por si só e de vigorosa reinvenção do ritual do habitual de Wander Wildner que sempre tem sido o de não marcar passo, mas sim procurar novos nortes para seguir, ousando, correndo riscos como quem anda na corda bamba sem rede de proteção, enquanto se reinventa e troca de pele mais uma vez".

 O disco foi lançado no último dia 02/03, é possível ouví-lo na íntegra e comprá-lo no Bandicamp, e além disso, estará disponível em LP, CD e pen card, ouva (só não se esqueça de dar um pause naquele playerzinho do ReverbNation ali à direita):




 E aproveitando o gancho, deixo aqui um conto superbacana do Giovani Iemini, o dono do Bar do Escritor, que é um fã do Wander e através da Mojo Books fez esse trabalho inspirado no disco Baladas Sangrentas. Confira:



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

[agência pirata] AS POLPETTAS E A LITERATURA ITALIANA



::txt::Dias Lopes::

Um casal de jovens apaixonados - o honesto e impulsivo operário têxtil e camponês Renzo Tramaglino, a dócil e piedosa tecedeira Lucia Mondella - pretende casar-se. Mas o vigário don Abbondio, um religioso de caráter fraco, não tem coragem de autorizar a união. A noiva é cobiçada pelo implacável don Rodrigo, o senhor feudal que pretende raptá-la. Para escapar da ameaça, Lucia se refugia em um convento, onde enfrenta as intimidações e tentações da Monja de Monza, uma mulher frustrada, e do áspero e hostil Innominato. Por fim, o capuchinho Cristoforo, um frade corajoso, salva Lucia e Renzo, fazendo a história ter final feliz.

Resumido assim, usando adjetivos comuns para traçar a personalidade dos personagens, o enredo de I Promessi Sposi (Os noivos), obra de Alessandro Manzoni (1785-1873), sugere um conto de fadas. Mas não é. Trata-se do mais importante romance da literatura da Itália e o livro mais representativo do Risorgimento - o movimento que unificou o país no século 19, então fracionado em pequenos Estados, cujo sesquicentenário se festeja em 2011. É também a obra mais lida e estudada pelos italianos depois da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321). Manzoni a publicou em 1827 e, apesar de ser milanês, reescreveu-a em 1840 no mais puro florentino, que parecia estar propondo como inspiração para a atual língua da pátria. Na época, havia uma desordem de vozes, cada Estado dispunha da sua. Daí se considerar I Promessi Sposi etapa fundamental na consolidação da língua italiana.

O romance transcorre no início do século 17, durante a ocupação espanhola, e descreve com precisão episódios históricos como a enorme epidemia de peste da época. Mas o cenário é falso. Na verdade, refere-se ao domínio austríaco do norte da Itália. Além disso, apesar de I Promessi Sposi evocar o dilema da fome, seus personagens comem e bebem como gente de carne e osso.

Pela sua importância documental, os historiadores gastronômicos investigam os alimentos citados no romance. A obra-prima La Scienza in Cucina e L’Arte de Mangiar Bene, do emiliano Pellegrino Artusi (1820-1911), que teve para a culinária italiana o mesmo papel agregador e nacionalista de I Promessi Sposi, só foi publicada 64 anos depois. No sétimo capítulo do seu romance, por exemplo, Manzoni faz o herói Renzo entrar em uma taverna com dois amigos e pedir um prato de polpette (almôndegas). "Pode estar certo de que não comeu melhores", garante-lhe o proprietário.

A questão é saber qual foi a receita preparada pelo taverneiro. Segundo a Grande Enciclopedia Illustrata della Gastronomia (Selezione dal Reader’s Digest, Milão, 2000), a polpetta é uma preparação antiquíssima na Itália. Leva carne, peixe ou verdura moída, ligada com ovo e moldada em forma de bola.

A Grande Enciclopédia Illustrata della Gastronomia divide a polpetta em dois tipos: a que leva ingredientes crus e a que os processa cozidos. A segunda categoria era chamada "dos pobres", por reaproveitar alimentos. A receita toscana, também chamada de florentina, recomenda carne cozida e pão dormido. Entretanto, caso Manzoni fosse à cozinha, certamente prepararia a polpetta alla milanese, mais conhecida por mondeghili, típica de sua cidade natal. Com carne cozida, mortadela e salame.

Descendente da aristocracia lombarda, neto do humanista e jurisconsulto Marquês de Beccaria (1738-1794), o romancista foi educado pela mãe, mulher culta, separada do marido. Vestia-se com roupas escuras, gostava de jogar na roleta e a boa mesa. Além de apaixonado pela polpetta, apreciava testina (cabeça) di vitelo glassata, chocolate e panettone. Manzoni se excedia no vinho. Tinha um copo especial, que mandou fazer, duas vezes maior que o normal.

Receita

Mondeghili

4-6 porções
Preparo: 30 min
Muito fácil

Ingredientes

350g de carne bovina moída sem gordura
100g de mortadela bem picadinha
2 fatias de salame bem picadinhas
1 dente de alho amassado
2 ovos inteiros
O miolo de 1 pãozinho banhado no leite e depois apertado em uma peneira para perder o excesso de líquido
1/2 xícara (chá) de salsinha picada
1/4 de casca de limão ralada
1 pitada de noz-moscada; 1 pitada de sal
2 a 3 ovos ligeiramente batidos para empanar; farinha de rosca misturada com farinha de trigo quanto baste; manteiga para fritar; sal a gosto

Preparo

Em uma tigela, junte os ingredientes (exceto os ovos, a farinha de rosca e a manteiga) e misture muito bem, até ficar homogêneo. Faça bolinhas de aproximadamente 4 cm de diâmetro, achatando-as ligeiramente. Passe as bolinhas nos ovos batidos, depois na farinha de rosca misturada à farinha de trigo. Sacuda-as ligeiramente em uma peneira para retirar o excesso de farinha e frite-as, poucas por vez, na manteiga previamente aquecida.
A manteiga estará no ponto certo quando atingir uma leve cor de avelã. Retire as mondeghili e deixe-as escorrer em papel absorvente, para que percam o excesso de gordura.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

[agência pirata] A VERGONHA DOS E-BOOKS BRASILEIROS

::txt::Helder Caldeira::

Os e-books são a sensação mundial em vendas da atualidade. São modernos, portáteis, práticos, de fácil compra e acesso e, principalmente, infinitamente mais baratos. No entanto, o mercado editorial brasileiro ainda não compreendeu essa dinâmica econômica dos livros digitais. Ou pior: compreendeu e está tentando lesar os consumidores para ganhar mais dinheiro enquanto for possível manter encoberta a farsa bandida ao grande público brasileiro. Você, caro leitor, está sendo literalmente roubado.

Vou tomar como grande exemplo o meu próprio caso, afinal, nada melhor que uma experiência pessoal para ilustrar um assunto tão delicado. Acredito que a maioria dos meus leitores, desde os mais distantes ricões às grandes capitais, tenha ciência de que eu lancei, no final de janeiro, o livro “A Primeira Presidenta”, com a honra de ser a primeira obra publicada no país sobre a trajetória política de Dilma Rousseff.

Diante da morosidade das editoras na análise dos jovens autores e do cruel monopólio da intelectualidade reinante no Brasil, decidi arriscar tudo: banquei minha própria publicação, arcando com todas as responsabilidades, incluindo divulgação, marketing e afins.

Guardando ufanismos imbecis, mas sem ficar atolado em falsas modéstias, tive um resultado surpreendente e em questão de dias, com comércio exclusivamente digital, tinha vendido milhares de cópias. Como consequência imediata, algumas editoras começaram a me cercar interessadas em publicar meu trabalho, agora já reconhecido. Por não concordar com a política editoral anacrônica e até mesmo por certo rancor, neguei todas elas. E explico: depois que eu tinha me arriscado, bancado todo jogo e feito todo o trabalho, agora alguns estavam interessados em garfar uma fatia dos meus lucros. Simples assim.

Eis que a editora-chefe de uma empresa me apresentou aquela que considerei a melhor e mais justa proposta e nesta semana estamos chegando às livrarias e ao comércio eletrônico com “A Primeira Presidenta” pela Editora Faces, uma jovem e arrojada empresa, comandada por Bia Willcox, uma “mulher-alfa” que parece não dormir nunca. Sua proposta é perfeita: ser justa com o consumidor literário brasileiro e dar aos e-books a cara que eles realmente devem ter, como em qualquer outro lugar do planeta. Um livro digital, muito além da praticidade e da tecnologia embutidas em sua concepção, tem o dever absoluto de ser mais barato, mantendo uma expressa qualidade. E foi exatamente dentro desses critérios que a Editora Faces me seduziu. Me são caras e fascinantes a possibilidade brigar pela democratização do acesso aos livros digitais e a luta intransigente contra o monopólio intelectual e os roubos descarados a que os brasileiros estão sendo submetidos.

Parece papo de “comuna”? Não é não. Com a publicação do meu livro pela Editora Faces e o início das vendas, veio a grande surpresa: minha obra é uma das mais baratas do mercado atual. O livro está sendo vendido nos principais sites do país por apenas R$ 9,90. Ainda assim, eu estou recebendo minha devida e justa quantia pelos direitos autorais e a editora está ganhando seu naco para arcar com toda a equipe de profissionais envolvida no processo, além dos lucros e dos impostos, obviamente. Parece uma pizza pequena a ser dividida por muitos? É sim. Mas é justo. É honesto. Principalmente com os consumidores.

Enquanto isso, uma pesquisa rápida pelos sítios de comércio eletrônico me comprovaram o absurdo: livros cujas versões impressas são vendidas nas livrarias por R$ 40 estão sendo colocados à venda no formato e-book por algo entre R$ 35 e R$ 38. Ou seja, tanto os autores quanto às editoras estão enganando os consumidores e faturando alto com a padronização irresponsável de preços dos livros digitais no Brasil. Certamente, cada um desses e-books poderiam estar sendo vendidos por, no máximo, R$ 15. Mas há um cartel disposto a continuar lesando o bolso dos leitores enquanto essa realidade esquizofrênica permanecer no mercado editorial. Sinceramente, como escritor eu me sinto envergonhado e insultado com essa prática suja dos nossos “pseudonotáveis”.

Fique aqui o alerta: se você vai comprar um e-book e ele estiver sendo vendido por mais que R$ 20, tenha a certeza de que você está sendo descaradamente roubado. Nesse sentido, acredito no poder dinâmico do mercado em pressionar essas empresas por um preço justo para um produto cada vez mais moderno e que chegou para dominar o comércio literário. O e-book é uma realidade mundial e é sensacional. Mas o Brasil precisa, com urgência e no mínimo, corrigir sua compreensão sobre esse mercado. Caso contrário, vamos continuar no nosso atrasado atoleiro cultural.

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