#CADÊ MEU CHINELO?

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sábado, 14 de abril de 2012

[rango] A PIMENTA CAMBUCI



::txt::Neide Rigo::

Como é de se supor, a pimenta cambuci (Capsicum baccatum Var. pendulum) é membro da família das Solanáceas, do gênero Capsicum, tal qual todas as outras pimentas (menos as especiarias como pimenta-do-reino, de macaco, da jamaica e similares). Da mesma família, embora gêneros diferentes, pertencem ainda o tomate, a berinjela e até a batata.

Ela tem o formato gracioso de uma cabacinha e o sabor agradável que combina o aroma das pimentas ardidas com a doçura de um pimentão. Também pode ser conhecida como "chapeu de bispo", mas parece que o nome cambuci é mais popular. É que, quando verde, a pimenta lembra o formato da fruta cambuci. Em tupi guarani, a palavra cambuci ou cambuhi significa jarro. O nome é então uma alusão a esse formato globular e cônico, tanto da fruta como da pimenta, similar a uma miniatura das talhas usadas pelos índios como recipiente para água ou como urna funerária.

Assim como os pimentões, ela é do tipo doce, não causando ardência (às vezes pode acontecer) e pode ser encontrada facilmente nos meses de calor, já que costuma ser plantada entre primavera e verão e colhida depois de 110 dias em média. A planta é um pequeno arbusto vigoroso e produtivo que pode chegar a até 1 metro, com frutos de coloração verde quando imaturos e vermelhos quando amadurecem. Quase sempre são colhidos verdes, pois assim têm uma vida útil maior no comércio. Mas às vezes podemos encontrar vermelhos, como estes da foto, que já estavam assim meio murchinhos quando comprei, mas, desde que estejam íntegros, o murchamento não é ruim, especialmente para fazê-las recheadas, pois a desidratação faz concentrar o sabor e ficam ainda mais adocicadas.

Desde quando eu era pequena, minha mãe gostava de fazê-la frita só com sal e pimenta e este era o jeito que mais gostava, perfumada e se desmanchando, para comer com arroz ainda molinho recém-cozido. Ela também colocava grandes pedaços no arroz durante o cozimento. Agora inventou de fazer bolinhos salgados com as poucas pimentas que dão no sítio - algumas até meio ardidas. De resto, elas podem ser usadas no lugar pimentão. Pode ser frita no azeite e servida como antepasto ou como acompanhamento de peixes. Verdes e vermelhas, cortadas em tirinhas, assadas e depois temperadas com azeite, pitada de sal e de açúcar, salsinha, vinagre e pimenta-do-reino, fazem deliciosa salada.

E, lógico, sem as sementes a pimenta transforma-se em excelente recipiente para os mais diversos recheios como de carnes suína ou bovina, bacalhau desfiado, linguiças esmigalhadas, ricota, tomate com queijo etc., podendo assim ser cozida no vapor ou assada no forno. Com ela também se pode fazer, combinando-a com outras pimentas ardidas, uma geleia de pimenta para servir com torradas, queijos ou carnes assadas.

sexta-feira, 30 de março de 2012

[rango] COZINHA TRADICIONAL vs. GASTRONOMIA MOLECULAR


Bodeg¢n con caballas, limones y tomates, 1886

::txt::Tiago Jucá Oliveira::
::jpg::Van Gogh::

A unidade IV do livro de Gastronomia e Alta Cozinha, do curso do IGA (Instituto Gastronômico Argentino), me despertou um interesse além do esperado. Conhecer as diversas cozinhas do mundo, por si só, já é o suficiente pra me manter antenado e querer aprender quais são os pratos típicos, os métodos, os ingredientes e os temperos de cada país.

Eis que o referido capítulo, sobre a cozinha espanhola moderna, traz algo muito mais curioso e que ainda não havia estudado: as rivalidades, o antagonismo e as divergências gastronômicas. E isso me interessa, me atrai, me fascina: o conflito de pensamentos. Não curto unanimidades, elas são burras, já dizia Nelson Rodrigues. Porém, divergir por divergir sem a argumentação necessária e apenas por implicância, ou em busca somente da polêmica, não pode nos nortear pra um debate sério. Não podemos dar ouvidos a egos ciumentos. É necessário argumentos.

Vamos aos fatos! Ferran Adrià é considerado um dos melhores chefes de cozinha do mundo, senão o melhor, de acordo com especialistas. Sua grande façanha foi introduzir novas e modernas técnicas, tais como a desconstrução, que, segundo o livro do IGA, “consiste em isolar os diversos ingredientes de um prato, geralmente típico, e reconstruí-lo de maneira não usual, de tal modo que o aspecto e textura sejam completamente diferentes enquanto o sabor permanece inalterado”. Para chegar a esse resultado, o cozinheiro catalão se abastece com artimanhas químicas e aditivos industriais, tipo espumas feitas com sifões, alginatos, nitrogênio líquido, etc.

Chef proprietário do restaurante El Bulli, situado em Girona (Catalunha) e fechado em julho de 2011 com um banquete de 50 pratos, Adrià já foi condecorado com três estrelas Michelin. O sucesso dele não se resume a estrelas e prêmios. Seu legado atrai muitos admiradores e originou outros tantos imitadores. E foi essa onda de cópia gastronômica que gerou severas críticas.

O maior crítico da cozinha de Adrià é Santi Santamaria, também catalão e que partiu daqui para melhor em fevereiro de 2011 enquanto visitava seu restaurante em Cingapura. Adepto da cozinha tradicional, Santamaria denominou o método molecular de “tecnoemocional”. Autor do livro “La Cocina al Desnudo”, Santamaria soltou o verbo, desencadeando uma polêmica na Espanha e no mundo sobre como devem e não devem ser os métodos gastronômicos de se fazer comida. Não tenho o livro e nem o encontrei pra baixar na internet, mas Santamaria tinha um blog (e segue mantido por admiradores que postam seus textos e pensamentos) no qual opinava a respeito das polêmicas geradas por ele.

No artigo “Dicen que tú no cocinas”, Santi introduz o tema com a língua mais afiada que suas facas de cortar carnes: “A los cocineros jóvenes que abren restaurante con ciertas pretensiones, les interesa hoy practicar una cocina con las mínimas referencias posibles a la tradición local. Defienden una creación vanguardista baseada, paradójicamente, en copiar a los cocineros de moda, cambiando o adaptando los ingredientes de sus recetas, y al resultado lo llamam 'cocina creativa'. El conocimento, la técnica y la precisión pasan a un segundo plano: lo importante es seguir la corriente dominante y, si es posible, participar en el circo mediático y salir en los rankings y listas de cierta crítica”.

Observe acima que a crítica se refere mais aos seguidores de Adrià do que ao próprio, embora também tenha indiretas ao “circo midiático” que dá holofotes a estes “jóvenes cocineros”, pois é a mídia quem cria as listas de melhores restaurantes nas quais todos querem estar. Nota-se também que na lista que ele linka no blog não consta, entre os dez melhores restaurantes do mundo de 2011, nenhum de sua propriedade, embora também não apareça o El Bulli, de Adrià. Engraçado, ou paradoxo, é que Santamaria é o primeiro chef catalão a receber três estrelas no Guide Michelin.

Quiero denunciar”, dispara a metralhadora de Santamaria em direção a Adrià, “la cocina que no respeta el entorno natural, social y cultural de su país, porque castra la libertad creativa de los cocineros y contribuye a la aculturación de la ciudadania. Quiero denunciar también el abuso que se hace de la ciencia al relacionaria con la cocina: el método científico permite que, mediante una serie de conjeturas y refutaciones, nuestras teorías se acerquen a la verdad. Este acercamiento a la verdad es el progreso científico. Pero, en cocina, ¿a qué verdad nos acercamos? ¿Qué progreso 'científico' nos lleva a preferir una espuma a un guiso? Denuncio, pues, la impostura de la novedad por la novedad, porque siempre habrá alguien, en algún rincón del mundo, que haya inventado algún artilugio o utilizado algún producto o empleado algún proceso antes que tú, pero no por eso su cocina será mejor que la tuya. La cocina es fundamentalmente cultura y, si quieren, puede llegar a ser arte. La ciencia es otra cosa”.

Quando há um ataque ríspido como o entre aspas acima, sempre haverá um contra-ataque igualmente ríspido. Santamaria não saiu ileso de suas críticas. Uma das contestações mais contundentes anti Santi que encontrei foi a do jornalista e professor da Universidade de Santiago de Compostela, Manuel Gago. Editor do site Capítulo Cero (un menú degustación da vida), o galego também mostra que é bom no tiroteio:

Cando se produciu a polémica do seu libro 'La Cocina al Desnudo',” inicia Gago, “comecei a ler o volume con calma, para tentar saber de que ía todo isto. (…). Podemos falar do que queiramos, pero o libro é mediocre. Ten tres problemas: unha baixa calidade de edición (reiteracións, estrutura caótica, unha sensación de que todo isto se podía ter escrito en tres parágrafos), unha demagoxia bastante barata e evidente e unha absoluta carencia de dados e de rigor. (…). Santamaría eríxese en defensor da boa cociña, da cociña de sempre, coidada e con gran atención do produto. Constrúe o seu discurso en base ao negativo, com dous grandes inimigos argumentais: o fast food de raíz norteamericana e a cociña experimental de Adriá. Ao lelo, dábame conta da torpe trampa argumental da súa redacción. Lembrei todas as veces que malcomín, com mal produtos, com mal aceite, coccións pésimas, en antros de comidas máis ou menos tradicional, … Todo un malcomer de oficinista ao que Santamaría esquece de forma pasmosa. Un Cociñero de prestixio podería axudar a reflexionar publicamente sobre o problema, pero non o fai. Obviamente, a Santamaría non lle preocupa a saúde pública, ainda que apele a ela continuamente: malia reflexionar sobre os beneficios dunha dieta saudábel e a orixe dos alimentos no epígrafe II (Natural) pero non se chega máis alá. O cociñero preocúpase, máis ben, polos extremos intocábeis das Whopper e os Menús de 200 euros, deixando fóra a boa parte da poboación á que pretende dirixirse... non é difícil decatarse de que máis que defender e propagar, o seu argumento está construído para atacar”.

Assim como no começo eu contrariei o simples fato de criticar por criticar, sem o embasamento necessário para uma antítese, Gago segue o mesmo pensamento. Segundo ele, Santamaria constrói seu argumento para atacar, sendo que aquilo que defende (dieta saudável, origem dos alimentos) se resume apenas a um capítulo do livro. Gago também toca em outro assunto polêmico. De acordo com ele, “La Cocina al Desnudo está construída a partir de recortes de prensa! ¡Este home case non leu ningún estudo completo para facer o libro! Páxinas e páxinas argumentadas a partir de titulares e dúas columnas de El País, La Vanguardia ou El Periódico sobre estudos alimentarios ou agrícolas, sen ir máis alá”. Santamaria é criticado acima pelo fato de teorizar a partir de mínimas referências possíveis, algo que o próprio chef também ataca com tenacidade. Basta observar o início deste texto que vos escrevo, no qual o catalão desce a mamona na rapaziada: “aos jovens cozinheiros interessam praticar uma cozinha com as mínimas referências possíveis...” para logo em seguida citar uma das mais famosas frases do pensador Eugenio D'Ors: “todo lo que no es tradición, es plagio”.

Para a professora espanhola Luisa, autora do blog El Fondo del Estanque, que assim como Santamaria evoca a famigerada frase de Eugenio D'Ors para refletir a respeito do plágio, “tradición significa la transmisión de noticias, composiciones literarias, doctrinas, ritos, costumbres, etc., hecha de generación en generación”. Já o plágio, no entender dela, “se entiende como una copia en lo sustancial de obras ajenas, dándolas como propias”. No entanto, assim como eu, ela reconhece que “no se pude hacer nada creador sin la tradición y como dice el filósofo Nicolai Hartmann, 'nadie empieza con sus propias ideas'. El hombre individual y colectivamente considerado no crea nada sino que sólo desarolla unas posibilidades recibidas. La tradición por lo tanto es necesaria: así como cada persona tenemos una memoria que nos hace ser nosotros mismos, la tradición es la memoria de la comunidad, en tanto que se sabe que todo lo que tiene lo debe a las generaciones pasadas. Sin memoria cada ser humano se iguala, de manera que sin tradición las sociedades se igualan, al mismo tiempo se mueren”.

Um dos livros que faz parte de minha biblioteca básica também recorre ao tema plágio, o empolgante “Distúrbio Eletrônico”. Segundo o Critical Art Ensemble, “o plágio tem sido há muito considerado um mal no mundo cultural. Tipicamente, tem sido visto como um roubo de linguagem, idéias e imagens executado pelos menos talentosos, frequentemente para o aumento da fortuna ou do prestígio pessoal. Talvez as ações dos plagiadores, em determinadas condições sociais, sejam as que mais contribuem para o enriquecimento cultural. Antes do Iluminismo, o plágio tinha sua utilidade na disseminação das idéias. Um poeta inglês podia se apropriar de um soneto de Petrarca (poeta italiano), traduzi-lo e dizer que era seu. O verdadeiro valor dessa atividade estava mais na disseminação da obra para regiões onde de outra forma ela provavelmente não teria aparecido”.


ARTE MODERNA: UM PARALELO COM A GASTRONOMIA PARA CONTRIBUIR COM O DEBATE SOBRE A DIALÉTICA ENTRE O MODERNO E O TRADICIONAL


Bodeg¢n con limones y botella, 1887

O filósofo catalão Eugenio D'Ors foi um dos maiores críticos da Arte Moderna, expressão artística manifestada em diversas áreas (literatura, arquitetura, design, pintura, escultura, teatro, música) de diferentes tendências (cubismo, expressionismo, futurismo, surrealismo, dadaísmo) surgida da virada do século XIX para o XX, e que se contrapunha à tradição acadêmica em vigor até então. Dos modernistas mais conhecidos e fundamentais para a ruptura com o passado podemos destacar os pintores Kandinsky, Picasso, Van Gogh, Mondrian; escritores como T.S. Eliot, Virginia Woolf, James Joyce, Marcel Proust, Franz Kafka; os músicos Schömberg, Stravinsky; e os arquitetos Le Corbusier e Gropius. Junto com o modernismo há o advento do cinema, e Sergei Eisenstein é o pioneiro modernista na sétima arte. Aqui no Brasil os modernistas eclodem com a Semana de Arte Moderna, em 1922; os principais nomes são os irmãos Oswald e Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Manuel Bandeira, Villa Lobos, Menotti del Picchia, Tarsila do Amaral, Plínio Salgado. O modernismo brasileiro é uma inspiração fundamental pra inovações musicais posteriores, tais quais a Bossa Nova (João Gilberto, Tom Jobim), o Samba-Jazz (Moacir Santos, J.T. Meirelles, Sergio Mendes) e o Tropicalismo (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes).

Assim como há uma ruptura com a cozinha tradicional feita por Adrià e uma reação feroz por parte de Santi, a Semana de 22 foi duramente criticada por Monteiro Lobato. O escritor acreditava na ideia que o verdadeiro brasileiro era o homem do interior, então, por conta disso, a cidade de São Paulo e seu povo nunca foram fontes de inspiração para ambientar sua obra nem para caracterizar seus personagens. Ainda mais uma São Paulo que emergia culturalmente e industrialmente, e que seria sede da Semana de Arte Moderna. Uma das raras vezes em que falou sobre a capital paulista, Lobato estava a ironizar a modernidade e urbanidade da metrópole, mas também a cutucar Mário de Andrade, autor do poema “Anhangabaú”, de Paulicéia Desvairada, em 1920:

parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora
oh larguezas dos meus itinerários!...
estátuas de bronze nu correndo eternamente
num parado desdém pelas velocidades...


No conto “O Fisco”, Lobato se mostra talentoso como humorista satírico: “No princípio era pântano, com valas de agrião e rãs coaxantes. Hoje é o parque do Anhangabaú, todo ele revaldo, com ruas de asfalto, pérgola grata a namoricos noturnos, a Eva de Brecheret, a estátua dum adolescente nu que corre – e mais coisas. Autos voam pela via central, e cruzam-se pedestres em todas as direções. Lindo parque, civilizadíssimo”, conclui com fina e elegante ironia.

Antes disso, em 1917, duas exposições de pinturas são realizadas em São Paulo, nas quais Lasar Segall e Anita Malfatti concretamente trazem a arte moderna pro Brasil. A reação de Lobato, homem de princípios estéticos conservadores, veio através dum artigo publicado nO Estado de S. Paulo, em dezembro de 1917, com o título “A Proprósito da Exposição Malfatti”: “todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude. Quando as sensações do mundo externo transformaram-se em impressões cerebrais, nós 'sentimos'; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em 'pane' por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a percepção sensorial se fizer normalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá 'sentir' senão um gato, e é falsa a 'interpretação' que do bichano fizer um totó, um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes”.

Como vimos, não é de hoje que se dá esse embate entre o tradicional e o moderno, sobre o que é certo ou errado, sobre o que é melhor ou pior, seja no mundo das artes ou da gastronomia. Eu, ainda nos primórdios dos estudos culinários e com recente iniciação profissional na área, não tenho o embasamento suficiente, muito menos a ousadia e pretensão de querer firmar aqui uma posição categórica nessa briga entre Adrià e Santamaria. Tenho opiniões como consumidor e amante da comida. Entendo que as mudanças na gastronomia são essenciais e necessárias, bem como as experimentações que nela precisam ser feitas constantemente. E respeito também aos que se preocupam em manter vivo antigas receitas e costumes. Uma cozinha não vive sem a outra. E nem sempre me atrai o “nada no prato, tudo na conta”, como sabiamente cunhou Paul Bocuse sobre os “palácios da moda”. Precisamos muito de Adrià para o progresso e experimentalismo gastronômico e pela não predominância de matérias-primas de elevado custo (“uma boa sardinha é melhor que uma má lagosta”) sem por isso esquecer da importância conceitual de Santamaria sobre a qualidade dos ingredientes:

Yo quiero que el público pueda probar en los restaurantes una cocina que no se haga a base de sopas liofilizadas o de bote, ni caldo en pastillas o cubitos, ni tomate de lata, congelados semipreparados, píldoras multivitamínicas y todo el arsenal que la industria química incorpora a nuestra alimentación. Quiero que el comensal pueda escoger producto fresco, elaborado con el máximo cuidado, con una combinación de sabores que no le estrague el paladar, y que se sienta bien tratado en todos los sentidos”.

O melhor seria se, enquanto eu fiquei na frente dos livros e do computador lendo e escrevendo, os dois estivessem preparando a minha janta. Mas não estão. Fui pra cozinha!

sexta-feira, 23 de março de 2012

[rango] LA CUCINA TÍPICA UMBRA




::txt::Monsenhor Jucá::

Lunedi, il 19, ho partecipato a un colloquio com il cuoco Federico Leoni, nativo di Assissi in Umbria, Italia. La conversazione faceva parte della classe inaugurale del 2012 la Massolin Di Fiori Società Italiana, com sede a Azenha. Circa 50 persone erano presenti, e dopo la conferenza há avuto un cocktail di antipasti e vino. Una borsa di studio è stato redatto, ma sono stato sfortunato. Leoni há detto in italiano, di seguito ho fatto un riassunto di ciò che ho potuto capite e scrivere.


LA CUCINA TÍPICA UMBRA

L'Umbria è l'unica regione dell'Italia non bagnata dal mare. La regione há quasi un milione di abitanti. La sua area há otto mille e cinquecento km². Un piccolo ecossistema alimentare fino alla fino del 1800, a causa del territorio montuoso.

Gli Etruschi ed I Romani in Umbria

Gli Etruschi (300-100 a.C.) ed I Romani (fino al 500 d.C.) hanno fasciato in eredita il gusto dei legumi e del cereali come il frumento ed il farro.

Il Medioevo e l'influenza della Chiesa

Nel Medioevo i frati dei monasteri preparavano piatti sostanziosi e saporiti sfruttando le proprie risorse ma senza abbondare il respetto dei periodi di vigilia, i pasti privi di carni imposti dalla Chiesa fece aumentare l'uso di verduri, erbe aromatiche e pesce di fiume.

La Norcineria

Nella città di Norcia la lavorazione della carne di maiale e la preparazione di insaccati come il salame e le salsiccie raggiungono lo stato dell'arte. Il Prosciutto di Norcia ottiene la certificazione IGP (Indicazione Geografica Protetta) nel 1998. Il termine italiano "norcino" indica il produttore ed il venditore di salumi.

L'olio di oliva umbro

Orgoglio della regione viene prodotto da secoli con procedimenti di estrazione prevalentemente a freddo. Spesso i piccoli produttori come “Raccolta Sapore” di Gnavolini ad Assisi riescono a fornire una qualitá ben oltre la media. Alla prima spremitura l'olio é piccante.

La base della cucina umbra nell'era moderna sono i prodotti della terra e la carne.

Mangiare alla italiana

Il pasto completo è formato da:

Antipasto
Primo Piatto
Secondo (con Contorno)
Dolce
Frutta
Caffè e Liquori.


I Antipasti

La Brusschetta: per riutilizzare il pane vecchio com uno spicchio d'aglio e poi ricoperte di olio d'oliva.

Antipasto umbro: salame, prosciutto, salsiccia secca, capocollo, formaggio pecorino.

La panzanella: pomodori, cipolla, insalata o basílico.


II Primi piatti

La pasta é l'emento principale ed é normale che sia fatta in casa. Il “Mattarello” e la “Spianatora”, che é la tavola di legno dove si prepara la pasta, sono strumenti di cucina molto utilizzati.


Pappardelle al sugo: com una salsa a base di carne di lebre o di cinghiale.

Gnocchi al sugo d'oca: gnocchi di patate con ragù d'oca.

Strangozzi al tartufo: tartufo è un tubero molto raro.

Cappelletti in brodo: é una pasta ripiena di carne di cappone (gallo castrato).


III Secondi

Largo uso di carne di maiale non significa che non si consumi altro in Umbria, la dieta é molto varia. La scelta della carne cambia in base al giorno della settimana. La Domenica tipicamente si consuma carne più pregiata. La cucina si ta più elaborata.


Agnello Scottadito: costele di agnello.

Coratella di Agnello: cotti in umido in bianco com cipolla o aglio.

La porchetta: piatto molto tradizionale ma di dificile preparazione. È facile trovare venditori ambulanti in qualsiasi momento della giornata.

Piccione alla ghiotta: é preparato allo spiedo ma la particolaritá sta nel recupero del liquido che sade durante la cottura.

IV Contorni

La verdure di contorno vengolo preparate com più attenzione.

La lenticchie: sono ricche di ferro e proteine. Vengolo preparate in umido com il pomodoro. Consumate soprattutto durante il periodo natalizio.

Erba Cotta: spinaci, bietole e varie erbe campestri selvatiche lessato in molta acqua.

La Bandiera: a base di verdure, peperoni verdi, cipolle bianchi e pomodori rossi.

La Torta al testo: farina, acqua, sale e olio di oliva, questa la base della torta al testo umbra che puó essere riempita a piacere. Estremamente nutriente, un quarto di torta con ripieno puó sostituire un pasto completo. Prende il nome dal “testo” che è una pietra refrattaria che viene messa direttamente sopra il fuoco. Spesso viene usata al posto del pane.

V Dolci

La fantasia italiana per preparare i dolci é bem visibile anche in umbria ogni citta há il suo dolce preferito.

Pinoccatte di Perugia a Natale, Strufoli, Frappe e Castagnole a Carnevale; e Ciaramicola a Pasqua.

VI I vini umbri

Il territorio montuoso ben esposto al sole é caratterizzato dalla presenza di vigneti di uve pregiate. I vini bianchi più importanti sono l'Orvieto el il Torgiano.

VII E dopo il caffè

Questa espressione indica bere un liquore dopo il caffè, tipicamente un digestivo, per concludere il pasto e facilitare la digestione. Sono bevande generalmente molto alcoliche: Amaro al Tartufo di Norcia, Nocino Umbro, Grappa di Sagrantino.

[comida] EU ME RENDO AO ATALA



::txt::Nina Horta::

Saímos para celebrar o aniversário de um neto que sabe comer muito bem, mas tem horror de comida de grife, de comida de autor. Só que, dessa vez, ele foi arrastado com namorada e tudo para o Atala.

Vocês não podem imaginar como sou difícil de ser enganada por comidinhas modernas. Vou com uma sacola de preconceitos, com esgares de ironia, com implicâncias à flor da pele encontrar a pretensão.

Mas, felizmente, tenho orgulho e me rendo ao Atala. Sinto até uma certa emoção piegas ao me lembrar dele mocinho mexendo com as panelas. Simpático, bonitão, bom marqueteiro, viajante de olhos abertos.

Junto a isso, muito trabalho e uma dedicação enorme, perseverança, desprendimento, saúde de ferro e capacidade de passar adiante o que aprendeu. Generosidade com os outros chefs, esse um segredo maior, que revela maturidade e sabedoria.

Quem se tranca com suas próprias receitas, com seu aprendizado, com a última novidade, simplesmente se tranca. Um dia se vê antiquado, dentro de sua própria cela.

Durante esse jantar, eu não perguntei a ele, mas, como estamos na época do cinema mudo, ficamos vendo a cozinha, tentando adivinhar quem eram as pessoas sem uniforme, num canto, que de vez em quando eram abordadas pelo Atala, que lhes enfiava uma colher na boca.

No fim da noite, restaurante vazio, se sentaram a uma mesa com pratos diferentes e cada um enfiava o garfo no prato do outro, comendo, sérios. Eram chefs de restaurantes provando, e aprendendo, e alargando horizontes, e mastigando, e podendo inventar através daquela experiência, filtrá-la e reinventá-la segundo seus próprios estilos de vida, trajetória e terreiro.

Uma vez fui jantar no Atala com uma festeira, isto é, dona de bufê. Os pratos começaram a chegar e ela só suspirava. "Ah, se pudesse usar esses ingredientes simples na cozinha, ficaria rica. Em vez de caviar, tapioca..." Mas essa coisa é só pra quem pode, dona banqueteira.

No dia em que você conseguir que a sardinha frita seja tão boa quanto a barriga de atum, então, sim, terá alcançado o céu de todo festeiro.

É para quem pode usar purê de inhame ou de cará ou de batata mesmo. Já tentou oferecer isso a um cliente ao telefone? Sardinha frita com purê de inhame e umas gotinhas de priprioca? O cliente se ofende. "Eu te telefonei porque quero uma coisa muito elaborada!"

Pois o Atala levou anos elaborando e tomando coragem para escrever no menu: "olho de cão tostado, frito e cru com molho de limão e fígado". "Olho de cão" é o nome de um peixe, peixinho. Que vinha com o rabo bem frito, do tipo que você mastiga como pipoca. Sobre o rabo, a carne do peixe marinada, crua. Ao lado, a barriga do bicho, frita sem exageros, daquele jeito caseiro.

E quem ousa oferecer "lombo de javali com farofa e sorbet de panã"? Eu não sabia o que era panã (araticum), mas nunca vi um sorbet combinar tanto com o lombo, hum...

Eu me perco nos detalhes das comidinhas do Atala. É tudo muito, muito, muito bom. Entrem no blog e verão o que ele, como empresário, está aprontando para fazer chegar a nós os produtos brasileiros.

sexta-feira, 16 de março de 2012

[paladar] A ÚLTIMA DAS MOICANAS



::txt::Nana Tucci::


De um jeito ou de outro, um curioso à solta em Paraty chegará até Maria Izabel. Nos melhores bares e restaurantes, o garçom costuma inflar o peito ao anunciar “nossa caipirinha é feita com a cachaça Maria Izabel”. Na pousada mais elegante da cidade, a Casa Turquesa, os hóspedes ganham de brinde uma miniatura da bebida. Se, mesmo assim, a Maria Izabel não te pegar, ela chamará sua atenção nas prateleiras dos armazéns no Centro Histórico. Que cachaça local é essa com nome de mulher, rótulo de grafismo sofisticado como o de um livro de Scott Fitzgerald e preço de scotch?

A cachaça mais cult de Paraty, cidade que é o berço da cachaça no Brasil e virou santuário de intelectuais por sediar a feira literária Flip, é feita por uma mulher, sozinha, que é a menor produtora local - são cerca de 7.500 litros/ano, obtidos exclusivamente da cana plantada em três hectares do próprio terreno.

A Maria Izabel do rótulo existe, é Maria Izabel Gibrail Costa, cidadã paratiense de 61 anos. É ela quem cuida de todas as etapas da bebida que produz há seis anos - da plantação da cana ao engarrafamento, incluindo a destilação. Para tanto, cana, alambique e a casa onde Maria Izabel mora ficam no mesmo lugar, com distâncias medidas em passos, no sítio Santo Antônio.

O sítio está em uma encosta de frente para o mar. Em encostas costuma haver uma considerável variação de temperatura no verão (quente e chuvoso) e no inverno (frio e seco), então a tendência é que a cana dali concentre mais açúcar. Por outro lado, a vizinhança do mar aumenta a presença de salinidade - que, a grosso modo, é o que caracteriza o “terroir” de Paraty, dando à região personalidade suficiente para competir com as cachaças de Minas Gerais. Não bastassem os atributos naturais, o sítio tem enredo de Letícia Wierzchowski: é a casa de sete mulheres. Maria Izabel e suas seis filhas, Izabel, Maria, Mabel, Mariza, Maira e Maia.

Na cidade todos sabem quem é Maria Izabel, mas pouco se sabe sobre ela. Diz-se que a poderosa editora inglesa Liz Calder, a criadora da Flip (que descobriu Harry Potter), só toma cachaça Maria Izabel - foi ela, aliás, quem encomendou do amigo Jeff Fisher o rótulo, presenteando sua alambiqueira protegida. Um dos maiores especialistas do País no assunto, Erwin Weimann, muda o tom de voz ao falar dela :“A Maria Izabel é uma guerreira e faz uma cachaça de respeito”.

Mas Maria Izabel não é uma mulher que gosta de curtir a fama. Vive recolhida. Dá a impressão de que as únicas notícias que recebe “de fora” vêm pelas filhas, mulheres bonitas e bem articuladas, envolvidas na organização da feira literária de Paraty. “Ela só anda descalça”, diz o amigo Ismaelzinho, dono de um restaurante em cima de uma árvore a poucos quilômetros do sítio.

Sentada à mesinha de madeira onde realiza degustações em seu alambique, cabelos molhados de quem acabou de tomar um banho de mar, Maria Izabel conta sua história. “Digo que eu sou a última das moicanas”, começa, referindo-se ao fato de manter viva a tradição de fazer cachaça pessoal e artesanalmente. Registros confirmam que seu trisavô paterno, Francisco Lopes da Costa, produzia cachaça em 1800. Mas ela aprendeu tudo na prática. Depois de trabalhar com arquitetura, organizar passeios turísticos em uma baleeira (ela não fica sem um barco), vender pães feitos por ela mesma...

“Vocês deveriam ter ligado, poderiam ter me encontrado andando pelada”, advertiu ela. Portanto, o leitor curioso chegará, sim, até Maria Izabel, mas, já sabe - é melhor que avise.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

[paladar] PROVOCAR É PRECISO



::txt::Janaina Fidalgo::

Cozinhar, tão somente, já não basta. Tem de haver magia, ilusão e encantamento. Provocar os sentidos. Todos eles e, se possível, ao mesmo tempo. Divertir e surpreender. Nem que para isso seja necessário cruzar a fronteira da cozinha e, por que não, recorrer a linguagens multimídias como o 3D. No San Sebastián Gastronomika deste ano, o conceitualismo dos chefs espanhóis falou mais alto e marcou boa parte das apresentações.

Vídeos caprichados, com tomadas bem filmadas e edição competente, há muito não são novidade nos congressos de gastronomia, especialmente nos internacionais. Raras são as conferências em que um "filme" não conduz o discurso do cozinheiro, enquanto ele mostra o preparo de pratos complexos, impossíveis de demonstrar naquela meia hora a ele concedida. Tanto que em algumas das aulas, como a de Joan Roca, do El Celler de Can Roca, a estação de trabalho convencional - com fogão, pia e forno - permaneceu intocada e quase escondida pela escuridão de um auditório transformado momentaneamente em sala de cinema.

Mas, voltando ao 3D, Christian Escribà e sua mulher, a brasileira Patricia Schmidt, se inspiraram em Peter Pan e levaram a terra-do-nunca-modelada-em-açúcar de sua confeitaria em Barcelona, a Pastelería Escribà, ao palco do Palácio Kursaal. Exibiram numa tela gigantesca, a um público devidamente paramentado com óculos especiais, um vídeo com cenas filmadas em 3D em que apareciam ora "soprando" açúcar ora "espirrando" gotas de espumante no gastroespectador. "É um mundo que imaginamos e podemos tocar", explicou Escribà sobre o lado lúdico da confeitaria expresso ali, se não em quatro, ao menos em três dimensões.

Outro que surpreendeu, no caso por seu ímpeto teatral e pouco talento para ator, mas que ainda assim arrancou risos na última terça-feira, foi Juan Mari Arzak. Ao lado da filha, Elena, encenou o serviço de um jantar levando ao palco dois convidados com pauta prévia armada. Explicou que, pela primeira vez, recorreriam à multissensorialidade. E a encenação não se limitou ao jantar. Apareceu também num fogo simulado. Sob um limão assado com camarões, Arzak pôs uma tela com uma imagem em movimento de chama crepitando. "É para provocar sensações, estimular os sentidos antes de começarmos de fato a comer", disse o chef triestrelado. Diante da impossibilidade de reproduzia essa alusão à chama a todos que assistiam à aula, improvisou. Os limões foram servidos sobre um foguinho impresso em papel fotográfico.

Um dia antes, na segunda-feira, Joan Roca e seu irmão Jordi já haviam estimulado o lado sensorial (e o humor) do público do Gastronomika numa das aulas mais aplaudidas e comentadas do congresso. Atrás de um púlpito, Joan fez uma apresentação didática, explicando detalhes da preparação de alguns pratos e de técnicas usadas no El Celler de Can Roca, em Girona, sempre amparado por um vídeo demonstrativo. Falou da adaptação do clássico ajo blanco, que numa combinação a la yin e yang ganhou a companhia do "ajo negro", e mostrou como fazem as trufas líquidas servidas num prato que chega à mesa envolvido por um globo de papel - algo como a alusão a uma volta ao mundo imaginária.

O atrevimento, a provocação, deixou para o irmão Jordi. Substituindo Joan no palco, Jordi mostrou como faziam um "bloody mary" bem peculiar. Exibido em vídeo, dispensou maiores explicações e provocou riso coletivo na plateia. Como dar a vermelhidão de sangue à translúcida água de tomate com infusão de folhas de aipo? Por que não buscando inspiração no próprio sangue? Modelou uma teia de algodão-doce em forma de tubete, molhou o "tampão" num molho de tomate vermelho-escuro e o jogou na clara água de tomate. Derreteu em instantes, tingindo o caldo. Precisa explicar mais? Como escreveu Rodrigo Oliveira em seu caderno de anotações, "os Roca rocks".

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

[paladar] OCCUPY SEU QUINTAL



::txt::Janaina Fidalgo::

Não há desculpa: sempre dá para fazer roça em casa, nem que seja um canteiro de ervas. 'Roceiros urbanos' ensinam a comer bem, se divertir e preservar o ambiente plantando - e até criando cabras e abelhas - em espaços pequenos.

Morar em uma cidade grande e dispor de um ínfimo pedaço de terra e de pouco tempo livre não são empecilhos para uma turma que retomou uma das mais primitivas atividades desde que o homem deixou de ser nômade e coletor: o cultivo e o preparo de alimentos para o próprio consumo.

Não são agricultores, no sentido estrito da palavra, porque não dependem diretamente da terra para sobreviver nem moram em áreas rurais. São, digamos, sitiantes urbanos cada vez mais independentes. Cultivam verduras, legumes e frutas em pequenos espaços de terra na cidade. Criam abelhas, galinhas e coelhos. Alimentam fermentos naturais e assam os próprios pães. Fazem geleias, iogurte, caldo e embutidos.

Buscam a segurança de saber exatamente onde e como foi produzido o que eles e a família vão comer e também o prazer de trabalhar com as mãos - e não há como negar o viés político-ideológico que move alguns.

Em Pasadena, Califórnia, uma família transformou há mais de 20 anos uma casa comum de cidade num sítio urbano onde produz 3 toneladas de alimentos orgânicos por ano. Jules Dervaes e os três filhos - Justin, Anaïs e Jordanne - plantam tomate, moranga, feijão, verduras, maçãs, mirtilo, goiaba, morango, laranja e ervas.

"Comida cultivada em casa é muito superior em sabor e nutrientes do que a que vem do supermercado. Além disso, não é mais saudável só para você, mas também para o ambiente. Plantando localmente, você reduz sua pegada ecológica", diz Jules em entrevista ao Paladar.

O projeto de cultivo caseiro que Jules batizou de Urban Homestead (sítio urbano) supre as necessidades da família direta e indiretamente. Eles se alimentam do que plantam, compartilham a produção com amigos e familiares e vendem o excedente da colheita a restaurantes e moradores de Pasadena para comprar o que não conseguem produzir em casa, como açúcar, arroz e farinha de trigo.

"Quando comecei não havia modelos bem-sucedidos para copiar. Tudo que eu tinha em mente eram as grandes fazendas. Transportar esses modelos para meu reduzido espaço custou muito trabalho físico e mental. Nosso sucesso veio de tentativas e erros - e muito suor."

O projeto não é só de cultivo e de criação de animais para produção de ovos, leite e mel. Inclui práticas ecológicas, como compostagem de resíduos orgânicos, uso de energia e fornos solares e de equipamentos movidos a manivela e a pedal, reúso de água e até produção de biodiesel.

O Urban Homestead deu tão certo que virou até um premiado curta-metragem, Homegrown Revolution, em que a família compartilha a experiência; e Jules, sua filosofia: "Cultivar alimentos é uma das ocupações mais perigosas da face da terra. Porque você corre o risco de se tornar livre".

"Todo mundo pode fazer algo com o que tem. Você só precisa aprender o comportamento do ambiente. Sempre encorajo as pessoas a aprender práticas antigas e a pesquisar como as gerações pioneiras sobreviviam", diz.

Também na Califórnia, no Vale do Napa, a enóloga Heather Munden cria abelhas, planta vegetais em pequenos canteiros, faz pão em fogão a lenha e mata porcos para preparar embutidos. "Não precisa muito para plantar a própria comida, é só usar bem o terreno", diz ao Paladar.

Aqui no Brasil, três casais amigos vivem há quase dois anos a experiência de conciliar a rotina de profissionais liberais com a prática da agricultura e pecuária urbanas. Mudaram para a mesma rua, num condomínio de classe média alta em Curitiba, e alugaram um terreno rodeado por prédios onde plantam e criam galinhas, coelhos e cabras.

"Quem disse que a gente não pode voltar a ser responsável por 60 a 70% da nossa comida? Não vamos produzir tudo que precisamos, mas quanto mais gente tivermos na nossa network, menos vamos precisar do supermercado", diz Claudio Oliver, da Casa da Videira.

Em São Paulo, na Lapa, a blogueira Neide Rigo não deixa descoberto nem um pedacinho de terra, seja nas praças do bairro ou nos muito bem aproveitados 12 m² de seu quintal. Nele, tem ervas, verduras, frutas e legumes. Fora as abelhas indígenas, os pães e uma porção de alimentos que faz.

"É preciso começar. Plantar, colher e fazer comida são coisas que estão no inconsciente coletivo. É instintivo e fazem parte da nossa sobrevivência."


Assista e leia.

Você pode ver o premiado documentário sobre a família Dervaes no YouTube (escreva no campo de busca "homegrown revolution"). Para conhecer melhor o projeto, visite o urbanhomestead.org.

E para saber mais sobre o projeto da comunidade autossustentável de Curitiba visite o site mantido pelo grupo: casadavideira.com.br

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

[paladar] CUCA É COISA DE PADEIRO



::txt::Olívia Fraga::

Oito e meia da manhã de sábado e a clientela já se aproxima da Banca Penedo no Mercado Municipal de Santo Amaro. O bom-dia ao padeiro Thomas Huppert é dado em alemão, assim como todo o diálogo entre o vendedor e seus fregueses. Por isso, quando você visitar a banca, não diga cuca, diga Streuselkuchen (em tradução livre, bolo de flocos).

As cucas preparadas na madrugada chegam frescas à banca, com as cestas de pães alemães, bagels e strudels, alguns levados na hora ao forno improvisado. Outras levadas já prontas. A fila é grande e só aumenta.

Thomas Huppert aprendeu "o certo e o errado" das cucas na escola de panificação de Worms, em sua Alemanha natal. "Minha mãe fazia cuca sem qualquer critério e quando não acertava colocava a culpa no forno", brinca.

Estudou cinco anos e, de volta ao Brasil, em 1994, ajudou os pais a abrirem a Huppert & Huppert, em Curitiba. Há dez anos, mudou-se para São Paulo, equipou um galpão em Santo André, associou-se a Daniel Hollaender, proprietário da Banca Penedo, e se concentrou na produção de cucas.

De seu galpão saem, semanalmente, quase 400 cucas, vendidas em mercados de São Paulo, como o Emporium Dinis, no Shopping Pátio Higienópolis, e na Casa Zilanna. Ele não gosta de invencionices e não faz pirações dulcíssimas, como rechear com chocolate ou doce de leite. "Alemão gosta do contraste e não vê a cuca como um doce, mas como um pão de frutas mesmo", diz.

Naquele sábado, as cucas tradicionais de maçã eram ladeadas com outras feitas de ameixa e de jabuticaba que ele testou na última safra. Os trabalhos começam às 2h da manhã de sexta para sábado, quando Huppert fermenta a massa podre com fermento biológico e assa as maçãs lentamente. O padeiro recomenda que as cucas sejam consumidas até dois dias depois da fabricação.

O 'bolo da mãe' era, na verdade, a cuca da vizinha alemã. As famílias felizes são todas iguais, é verdade. Nossas avós nos fazem bolos, doces e mimos com os quais a gente sonha a vida inteira. Como em todas as casas, a minha era assim. Até que, em algum momento da infância, notei que minha mãe, rara e pouco atrevida no fogão, repetia a mesma receita "errada"de bolo. Era errado, mas tão gostoso!

Parecia uma torta de maçã, mas não era. Se fosse, talvez não agradasse tanto (maçã toda criança encara, mas maçã-e-pão foi um gosto adquirido). Entendia aquilo como um pão que não cresceu muito e ainda conseguia ser doce, com uma crosta diferente, uma farofa doce por cima. Era um pão doce que queria ser mais do que era, queria agradar a gente.

Complicando todas as coisas, minha mãe dizia que era o "bolo da dona Ana". Que Ana? Que dona? Ela tinha um bolo? A explicação veio anos mais tarde, quando finalmente entendi que a receita do "bolo" era de uma senhora alemã, Ana, de quem a família alugou a primeira casa. O "bolo" era a cuca, deliciosa, que agora conheço por "bolo da mãe".


Onde fica
Banca Penedo
Mercado Municipal de Santo Amaro -
R. Padre José de Anchieta, 953, loja 37, Santo Amaro
tel. 5686-5312

sábado, 29 de outubro de 2011

[paladar] OITO CERVEJEIROS E UM SEGREDO FERMENTADO




::txt::Roberto Fonseca::

Dizem que quanto mais pessoas sabem de um segredo, menores são as chances de que ele dure muito tempo. O mistério guardado desde segunda-feira por oito cervejeiros reunidos em Curitiba, porém, tem data para acabar: meados de novembro.

Evento teve cerca de 100 rótulos naiconais e importados.

É quando a Way Double American Pale Ale, cerveja colaborativa que envolveu a participação de produtores e especialistas do Brasil, Estados Unidos, Escócia e Canadá, deve ficar pronta. Ela deve ser apelidada de 8S, cuja explicação, embora remeta à ideia de "oito homens e um segredo", os envolvidos fazem questão de deixar em aberto.

Segundo Alejandro Winocur, da Way, a ideia inicial era fazer uma cerveja comemorativa do primeiro ano de existência da marca. Até ele e o sócio, Alessandro Oliveira, saberem que a cervejaria escocesa Brewdog, conhecida pelo estilo radical de suas produções, mandaria ao Wikibier - evento cervejeiro que ocorreu em Curitiba no último fim de semana - o cervejeiro Stewart Bowman.

"Aí pensamos em fazer uma cerveja em parceria e começamos a trocar ideias sobre a receita, os maltes e lúpulos a serem usados."

Bowman não conseguiu vir ao Brasil, mas a Brewdog mandou Graeme Wallace. A parceria ganhou, então, a participação de outros convidados do evento, como Joseph Tucker, do site de avaliações cervejeiras Ratebeer.com; e o belga Jacques Bourdouxhe, cervejeiro caseiro há mais de 30 anos.

A eles se juntaram representantes de microcervejarias brasileiras, como Samuel Cavalcanti, da paranaense Bodebrown; José Felipe Carneiro, da mineira Wäls; e Rafael Rodrigues, da gaúcha Coruja.

"A partir daí, sentamos na fábrica e cada um deu seus ‘pitacos’ na receita até chegarmos à versão final", conta Winocur.

A cerveja, segundo ele, deve ficar mais próxima do estilo Imperial India Pale Ale. O nome Double American Pale Ale surgiu porque os produtores queriam fazer versão mais potente de sua American Pale Ale. "Por ora, a receita é segredo, mas vamos divulgá-la quando a cerveja for lançada."

Duas pistas


Ao menos um dos segredos, porém, já vazou: um dos lúpulos usados foi o Falconer’s Flight, seleção de variedades mais cítricas e florais, cujo nome é homenagem ao cervejeiro americano Glen Hay Falconer, morto em 2002.

Outra dica: a nova cerveja terá mais que o dobro do índice de amargor da American Pale Ale - que, por sua vez, tem três vezes e meia o amargor de uma lager industrial.
Não é a revelação do segredo, porém, que tornará a degustação desta cerveja fácil. Serão só 3 mil garrafas - e parte delas vai para os Estados Unidos e Escócia.

Boas receitas caseiras e de micros

O guia que os participantes do Wikibier recebiam logo na entrada já dava ideia da diversidade do evento que ocorreu no último sábado em Curitiba, no Paraná. Com o "mapa" de produtores e produções - uma boa ideia da organização -, era possível traçar um roteiro do que tomar e em qual ordem.

E as escolhas eram muitas: entre receitas caseiras, de microcervejarias e importadoras, havia, segundo organizadores, cerca de uma centena de rótulos, muitos dos quais ainda não aportaram no mercado paulistano.

O Wikibier ainda ofereceu um kit de harmonizações de cinco pratos com cervejas; no geral, elas funcionaram, mas em alguns casos as fermentadas ficaram mais fortes que a comida.

O evento ainda teve como ponto positivo a distribuição gratuita de água, providência saudável para degustadores - pena que ela acabou antes do fim. A música ao vivo também poderia estar mais baixa. Mas, no geral, foi uma boa experiência cervejeira.

Sacis e bruxas

Em todo dia 31 de outubro os fãs do Halloween, de inspiração estrangeira, e do Dia do Saci costumam se opor. Ao menos no mundo cervejeiro há opções para os dois públicos. A cervejaria Nacional, em Pinheiros, lança versão especial da stout Sa’Si, com maltes defumados e cerca de 5% de teor alcoólico. Ela alia notas de chocolate, suave mas de perceptível defumação e bom corpo. Custa R$ 8 (half pint) e R$ 12 (pint). Dos EUA, chega a Brooklyn Post Road Pumpkin Ale, que leva abóbora. Há ainda especiarias - são perceptíveis a canela e o cravo. Com 5%, tem notas de abóbora em bom balanço com os demais ingredientes. Da Beer Maniacs, deve custar a partir de R$ 15.
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domingo, 23 de outubro de 2011

[paladar] UM GENOVÊS BEM NAPOLITANO



::txt::Dias Lopes::

Quando imigraram para São Paulo nos séculos 19 e 20, primeiro para trabalhar nas lavouras de café do interior do Estado, depois na indústria e comércio da capital, os italianos de Nápoles e arredores trouxeram uma cozinha rica e apetitosa. Várias das suas receitas tradicionais se integraram ao cardápio da nova terra.

Um desses imigrantes fundou no bairro paulistano do Brás, em 1910, a pizzaria número um do Brasil. Outros abriram cantinas barulhentas com toalhas xadrez e garrafas dependuradas no teto, cujos donos falantes empunhavam os pratos que devíamos comer. A clientela saboreava spaghetti aglio e oglio ou alle vongole, brasciola, scaloppina, ragù alla napoletana, filé alla pizzaiola, torta di ricotta, etc.

Mas algumas receitas se extraviaram e uma pela qual suspiram os descendentes daqueles imigrantes é a veterana salsa alla genovese (molho à genovesa). "Até hoje fico com água na boca ao lembrar da que fazia a mamma napolitana do quartieri de Vomero", confessa o restaurateur Toninho Buonerba, dono da Cantina e Pizzaria Jardim de Napoli, no bairro de Higienópolis. "Nunca a preparei, mas ainda farei isso." Apesar do nome, a receita não foi inventada em Gênova, na Ligúria, berço do pesto, da focaccia e da torta pasqualina, mas em Nápoles, a mais de 700 km dali.

Faz-se o molho à genovesa cozinhando pedaços de carne bovina com cebola picada, pancetta, aipo, cenoura, salsinha, azeite, vinho e sal, até obter um creme amarronzado de sabor surpreendente. A preparação deve pippiare (borbulhar) por horas a fio em fogo baixo. A carne recomendada é o girello (lagarto), chamado lacerto em Nápoles. Na falta, usa-se a punta di scamone (ponta da alcatra). Retira-se do molho no final do cozimento. A carne é servida como segundo prato. O molho se harmoniza com massas em formato de tubo, como perciatelli, ziti, penne e paccheri.

A novidade é que "la salsa regina della gastronomia napoletana", como se proclama no sul da Itália - o rei é certamente o ragù - está de volta a São Paulo, por iniciativa do BottaGallo, no bairro do Itaim. Outra mamma se envolveu na história. "Introduzimos o molho há oito meses por sugestão do napolitano Aurelio Cinque, dono do Cinque Frigorífico, de Cotia, que nos fornece seus excelentes embutidos", conta André Lima, o Deco, sócio do BottaGallo. "Ele nos ensinou a receita da mãe. Só mudamos a massa. Escolhemos o pappardelle, em vez do penne que nos aconselhou."

Os napolitanos não sabem por que deram a um molho porta-bandeira da sua culinária o nome de uma cidade da Ligúria. Lejla Mancusi Sorrentino, no livro I Dodici Capolavori della Cucina Napoletana ("As 12 obras-primas da cozinha napolitana", Edizioni Intra Moenia, Napoli, 2003), comenta a hipótese de a receita ter sido criada no século 16, 17 ou 18, nas casas dos mercadores e banqueiros genoveses que viviam na cidade, ou em alguma tratoria aberta para satisfazer-lhes os hábitos alimentares.

A presença da cebola seria uma prova. Ainda hoje os genoveses adoram esse bulbo carnoso e aromático. A focaccia com cebola, por exemplo, é bastante difundida em sua terra, especialmente nos bairros populares e entre os estivadores do porto local. Para completar, os napolitanos brincam que as mulheres genovesas são as que menos choram ao cortar cebola... Outra hipótese é o molho ter sido criado por um cozinheiro de sobrenome Genovese, bastante difundido na região.

Em Nápoles, desfruta de merecida fama o penne alla genovese da centenária Osteria da Tonino, na Via S. Teresa a Chiaia 45. Ali, saboreia-se o prato, mais um segundo de carne e vinho regional, ao preço médio de 20 por pessoa. Tonino Canfora, atual proprietário, orgulha-se de sua casa ter sido frequentada por Enrico Caruso (1873-1921), "o maior tenor de todos os tempos". Só não sabe dizer se ele pedia o penne ou outra massa alla genovese. Mas, como era napolitano genuíno, o genial intérprete de Radamés, da ópera Aida, de Giuseppe Verdi, certamente apreciava o molho.

MOLHO ALLA GENOVESE

Ingredientes

1kg de carne de boi (prefira lagarto) cortada em pedaços grandes
50g de pancetta defumada cortada em pequenos cubos
1,5kg de cebola bem picada
1 talo de aipo bem picado
2 cenouras bem picadas
2 a 3 talos de folhas de salsinha picadas
100 ml de azeite
250 ml de vinho branco seco
Queijo parmesão ralado a gosto (opcional)
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

Preparo

Em uma panela, de preferência de barro, coloque junto a carne, a pancetta, a cebola, o aipo, a cenoura, a salsinha, o azeite, o sal e a pimenta.
Cubra a panela e cozinhe em fogo muito baixo, mexendo de vez em quando. Após uma hora de cozimento, levante um pouco a chama, para os ingredientes pegarem cor.
Incorpore o vinho e misture bem. Diminua o fogo e prossiga o cozimento por cerca de três horas, até a carne ficar bem cozida e tenra. Mexa de vez em quando e, se necessário, pingue um pouco de água durante o cozimento.
O molho deve ficar denso e com uma bonita cor marrom.
Sirva o molho de preferência com massas curtas em formato de tubinho, tipo zite e penne lisce (sem estrias na superfície). Se gostar, pulverize por cima do prato um pouco de parmesão.
Reserve a carne para um segundo prato ou para alguma outra preparação.

Rendimento: 6 porções

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

[agência pirata] AS POLPETTAS E A LITERATURA ITALIANA



::txt::Dias Lopes::

Um casal de jovens apaixonados - o honesto e impulsivo operário têxtil e camponês Renzo Tramaglino, a dócil e piedosa tecedeira Lucia Mondella - pretende casar-se. Mas o vigário don Abbondio, um religioso de caráter fraco, não tem coragem de autorizar a união. A noiva é cobiçada pelo implacável don Rodrigo, o senhor feudal que pretende raptá-la. Para escapar da ameaça, Lucia se refugia em um convento, onde enfrenta as intimidações e tentações da Monja de Monza, uma mulher frustrada, e do áspero e hostil Innominato. Por fim, o capuchinho Cristoforo, um frade corajoso, salva Lucia e Renzo, fazendo a história ter final feliz.

Resumido assim, usando adjetivos comuns para traçar a personalidade dos personagens, o enredo de I Promessi Sposi (Os noivos), obra de Alessandro Manzoni (1785-1873), sugere um conto de fadas. Mas não é. Trata-se do mais importante romance da literatura da Itália e o livro mais representativo do Risorgimento - o movimento que unificou o país no século 19, então fracionado em pequenos Estados, cujo sesquicentenário se festeja em 2011. É também a obra mais lida e estudada pelos italianos depois da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321). Manzoni a publicou em 1827 e, apesar de ser milanês, reescreveu-a em 1840 no mais puro florentino, que parecia estar propondo como inspiração para a atual língua da pátria. Na época, havia uma desordem de vozes, cada Estado dispunha da sua. Daí se considerar I Promessi Sposi etapa fundamental na consolidação da língua italiana.

O romance transcorre no início do século 17, durante a ocupação espanhola, e descreve com precisão episódios históricos como a enorme epidemia de peste da época. Mas o cenário é falso. Na verdade, refere-se ao domínio austríaco do norte da Itália. Além disso, apesar de I Promessi Sposi evocar o dilema da fome, seus personagens comem e bebem como gente de carne e osso.

Pela sua importância documental, os historiadores gastronômicos investigam os alimentos citados no romance. A obra-prima La Scienza in Cucina e L’Arte de Mangiar Bene, do emiliano Pellegrino Artusi (1820-1911), que teve para a culinária italiana o mesmo papel agregador e nacionalista de I Promessi Sposi, só foi publicada 64 anos depois. No sétimo capítulo do seu romance, por exemplo, Manzoni faz o herói Renzo entrar em uma taverna com dois amigos e pedir um prato de polpette (almôndegas). "Pode estar certo de que não comeu melhores", garante-lhe o proprietário.

A questão é saber qual foi a receita preparada pelo taverneiro. Segundo a Grande Enciclopedia Illustrata della Gastronomia (Selezione dal Reader’s Digest, Milão, 2000), a polpetta é uma preparação antiquíssima na Itália. Leva carne, peixe ou verdura moída, ligada com ovo e moldada em forma de bola.

A Grande Enciclopédia Illustrata della Gastronomia divide a polpetta em dois tipos: a que leva ingredientes crus e a que os processa cozidos. A segunda categoria era chamada "dos pobres", por reaproveitar alimentos. A receita toscana, também chamada de florentina, recomenda carne cozida e pão dormido. Entretanto, caso Manzoni fosse à cozinha, certamente prepararia a polpetta alla milanese, mais conhecida por mondeghili, típica de sua cidade natal. Com carne cozida, mortadela e salame.

Descendente da aristocracia lombarda, neto do humanista e jurisconsulto Marquês de Beccaria (1738-1794), o romancista foi educado pela mãe, mulher culta, separada do marido. Vestia-se com roupas escuras, gostava de jogar na roleta e a boa mesa. Além de apaixonado pela polpetta, apreciava testina (cabeça) di vitelo glassata, chocolate e panettone. Manzoni se excedia no vinho. Tinha um copo especial, que mandou fazer, duas vezes maior que o normal.

Receita

Mondeghili

4-6 porções
Preparo: 30 min
Muito fácil

Ingredientes

350g de carne bovina moída sem gordura
100g de mortadela bem picadinha
2 fatias de salame bem picadinhas
1 dente de alho amassado
2 ovos inteiros
O miolo de 1 pãozinho banhado no leite e depois apertado em uma peneira para perder o excesso de líquido
1/2 xícara (chá) de salsinha picada
1/4 de casca de limão ralada
1 pitada de noz-moscada; 1 pitada de sal
2 a 3 ovos ligeiramente batidos para empanar; farinha de rosca misturada com farinha de trigo quanto baste; manteiga para fritar; sal a gosto

Preparo

Em uma tigela, junte os ingredientes (exceto os ovos, a farinha de rosca e a manteiga) e misture muito bem, até ficar homogêneo. Faça bolinhas de aproximadamente 4 cm de diâmetro, achatando-as ligeiramente. Passe as bolinhas nos ovos batidos, depois na farinha de rosca misturada à farinha de trigo. Sacuda-as ligeiramente em uma peneira para retirar o excesso de farinha e frite-as, poucas por vez, na manteiga previamente aquecida.
A manteiga estará no ponto certo quando atingir uma leve cor de avelã. Retire as mondeghili e deixe-as escorrer em papel absorvente, para que percam o excesso de gordura.

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