#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

[release] ONDE MORA O SEGREDO



::txt::Patricia Palumbo::

Muito se fala do suíngue da musica negra, mas se diz pouco sobre a sabedoria que vem do índio e do negro dos quais nós brasileiros herdamos o sangue e a cultura. “Quem balança como o mar não tem medo”, canta Arícia Mess em “Onde Mora o Segredo”. Essa cantora e compositora negra, carioca, descendente de índios, celebra a vida e o divino com sua música há mais de 15 anos. Ela nasceu com o ritmo e o pulso, incorporou a influência da música pop e faz qualquer um dançar sem o menor esforço. Mas não pense que basta se jogar na pista para curtir esse disco, prestar atenção nas letras faz parte da viagem.

Para Arícia Mess a arte é uma oferenda, uma forma de amenizar o sofrimento até mesmo de quem já foi. Por isso seu trabalho é dedicado às divindades femininas, às índias e negras que habitaram nosso país continental e que entregaram suas vidas em décadas de escravidão e dor. No batuque dos terreiros se faz a conexão com o divino, na pista a experiência se repete com alegria : “Rainha de Angola mandou dançar”. E todo mundo dança. Não dá pra ficar parado enquanto esse convite nos chama.

Arícia cuidou de cada detalhe dessa produção de qualidade técnica apuradíssima que tem a energia da música feita ao vivo. Por pouco mais de um ano ela testou esse repertório nos palcos e depois da banda quente e afinada gravou as bases com o power trio que a acompanha : Bruno Silveira (bateria), João Paulo Deo Gracias (baixo) e Mauricio Caruso (guitarra). Ela assina a direção artística do CD e todos os arranjos junto com a banda, Carlos Triha e Fernando Morello – esses, parceiros desde o final dos anos 90.

Arícia Mess em começo de carreira foi a sensação dos palcos cariocas com uma banda de 9 pessoas e essa mistura de música pop com tropicalismo baiano. O Brasil estava carente de originalidade e de balanço. Seu primeiro disco saiu em 2000 numa época em que ser independente não era nada comum. Ela foi uma das primeiras artistas a misturar sem medo o Tropicalismo (no caso de Arícia especialmente Gilberto Gil) com Michael Jackson e Stevie Wonder. Hoje a diversidade é o mote na expressão cultural no Brasil e ser independente é a principal saída.

Vinicius de Moraes já dizia que o samba é uma forma de oração. Aqui tudo celebra a vida com a sabedoria de quem sabe esperar a hora boa e seguir a correnteza. É só prestar atenção pra fazer a coisa certa, que nesse caso é ouvir “Onde Mora o Segredo” bem alto e se deixar contaminar pela força e pela felicidade que nos traz a música de Arícia Mess.

sábado, 6 de junho de 2009

NOVO ROUND PARA SIMONAL




# agência pirata #
Lá vem o homem da gravata florida

txt: Pedro Alexandre Sanches

Apesar de histórica resistência, Wilson Simonal (com Pelé na foto) está enfim de volta às paradas, com a estreia do documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, em cartaz desde sexta 15. Irônico é que Simonal atribuía à Rede Globo grande parte da responsabilidade pelo ostracismo que amargou entre 1971 e a morte, e hoje tem sua história resgatada por um funcionário da casa (Manoel, comediante do Casseta & Planeta), sob co-produção da Globo Filmes.

Simonal (1939-2000) foi o artista brasileiro mais popular da virada dos anos 1960 para os 1970, e caiu em absoluta desgraça com a disseminação da suspeita (nunca provada) de que seria informante da ditadura. Atrás do rastilho de pólvora que o implodiu no momento em que encantava Sarah Vaughan e era regravado por Stevie Wonder, estava o jornal de esquerda O Pasquim, onde surgiu a ilustração do "dedo-duro" de Simonal. Eram ligados ao tabloide os ex-parceiros comerciais do cantor Carlos Prosperi, Carlito Maia e João Carlos Magaldi, esse último futuro alto-executivo da Globo.

O tema é espinhoso e o documentário [NÃO *] chega a tocar nos nomes de Magaldi, Prosperi e Maia, todos já falecidos. Ainda assim, é trabalho que avança até onde nunca se chegou em respeito à fabulosa e trágica história do garoto de favela que virou ídolo nacional, depois inocente útil e por fim bode expiatório da esquerda e da direita. O trio diretor preocupa-se em desenhar o personagem sem lhe atribuir inocências nem culpas, e o faz com pleno sucesso.

Chocante e comovente, o filme abre caminho para próximos passos. Deixa em aberto o ambíguo papel da mídia (a Globo, mas não só ela) como coautora da ascensão e mais tarde um dos carrascos na derrocada de um artista crucial.


(*) o termo entre colchetes deveria constar do texto, mas por cochilo meu sumiu e inverteu o sentido da frase.

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