#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

[do além] FILOSOFIVIS DO MÉ



::txt::Mussum::

Há uma série de livros de divulgação filosófica que se valem de filmes, séries de televisão e ícones do entretenimento para trafegar certos conhecimentos que, de outro modo, ficariam confinadosao mundo acadêmico. Juan Antonio Riveira, por exemplo, aproveita clássicos do cinema,como Casabalanca e Cidadão Kane, para introduzir conceitos filosóficos em seu livro O Que Sócrates Diria a Woody Allen. Outro autor, chamado William Irwin, vem investindo nesse filão e já emplacou vários sucessos como A Filosofia Segundo Seinfeld, O Essencial e Definitivo – Harry Potter e a Filosofia e A Família Soprano e a Filosofia. Eu, honestamente, fiquei esperando que algum escritor ou professor de filosofia mais atento se debruçasse sobre minha vasta coleção de frases lapidares. Talvez minha maneira peculiar de usar o idioma tenha obscurecido a riqueza do material.

Mas algumas das grandes questões estão lá: o que é a realidade em si mesma? O que é essencial? O que é certo e o que é errado? Cansado de aguardar por algum intelectual que não tenha mais o que fazer, decidi eu mesmo realizar a tarefa. Como Wittgenstein, acredito que os problemas filosóficos tradicionais são resultantes de confusões linguísticas. Adianto aqui um pouco do livro que em breve pretendo publicar Mussum e a Filosofivis do Mé.


Se suco de cevadiss atrapalha seu casamentiss, abandone sua mulher, cacildiss!!

Procurei com esse aforismo uma aproximação com o poeta inglês William Blake, que certa feita disse: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Mais que uma apologia ao álcool, a frase conclama o homem a perseguir os seus desejos mais persistentes. E extrair da vida, através da disciplina, não só seu fruto, mas seu suco. No caso, “de cevadiss”. Colocar o consumo de álcool à frente de uma relação marital é um exagero cômico que questiona a importância de um dos valores fundadores de qualquer sociedade: a família.


Vai caçá sua turmis!

Esse modo vulgar e insolente de expressar contrariedade eclipsa uma sofisticada abordagem psicológica. Ao corromper a forma original "vai procurar tua turma", demonstrei que o processo de busca da identidade, a partir do olhar do outro, é uma verdadeira caça. Cujo êxito só é alcançado por meio de múltiplas experiências. Daí a necessidade de verter o substantivo turma, que em si já encerra a ideia de coletivo, para sua forma inexistente no plural “turmis”. Algo conseguido com o acréscimo de uma esdrúxula apóstrofe “s”. Esta última, incluída para satirizar o processo de submissão da identidade brasileira à americana.


Casa, comida, três milhão por mês, fora o bafo!

O dito popular “casa, comida e roupa lavada” expressa o denominador mínimo para que um indivíduo mantenha sua dignidade e uma vida confortável. Na versão paródica, a expectativa é quebrada pela inclusão de “três milhão milhão por mês, fora o bafo” e supressão de “comida e roupa lavada”. Essa inversão levanta uma questão fundamental da filosofia: o que é essencial e o que é supérfluo?


Tá tudo muito parádis? Toma um mé que o mundo vai girarzis!

Com essa frase, creio que consegui explicar de uma maneira bem simples a teoria da relatividade. Há também aqui um paralelo com o mito da caverna de Platão. Onde o mundo parado é a sombra projetada na parede e o mé representa a realidade ou a libertação.


Ai que pênis.

Essa era só pra fazer graça mesmo.

[agência pirata] SUDÁRIO DE JESUS, MORTALHA DE VEJA



::jota pégzz::Imagem "milagrosa" do sudário de Turim e réplica criada pelo cientista italiano Luigi Garlaschelli
::txt::Carlos Orsi::


Deve ser efeito da Semana Santa: Veja apareceu com uma capa dizendo que há novas provas científicas apontando para a autenticidade do Sudário de Turim. A matéria em si é uma espécie de informercial de um novo livro que está saindo por aí, pela Cia das Letras, chamado O Sinal. Em meu Livro dos Milagres, dediquei um capítulo inteiro à questão do sudário, então o tema obviamente me interessou. Existem, em resumo, quatro linhas de evidência, independentes entre si, que apontam para o fato de que o sudário é uma falsificação criada na França medieval:

1. Datação por carbono 14: três fragmentos do sudário foram submetidos a datação por radiocarbono em três diferentes laboratórios, e os resultados, publicados na revista científica Nature, convergem para uma data entre os séculos 13 e 14.

2. Exame microscópico: Walter McCrone, um dos maiores especialistas em microscopia do mundo e perito em autenticação de obras de arte, descobriu no sudário pigmentos do século 14 aplicados com uma técnica usada no século 14.

3. Evidência documental: a despeito de teses fantasiosas em contrário, os primeiros documentos a citar o sudário são, adivinhe só, do século 14. Entre eles, há o depoimento de um bispo francês que afirma ter conhecido o artista responsável pela criação do sudário.

4. Evidência estética: a imagem do sudário não representa um corpo humano real, e sim um corpo humano distorcido de acordo com as convenções da arte gótica, que floresceu (adivinhe só) no século 14. As linhas são alongadas demais, e há assimetria no comprimento dos membros. Além disso, o sudário traz a impressão da panturrilha e da sola do pé de uma das pernas de Jesus. Tente fazer isso na cama, tocar o lençol, ao mesmo tempo, com a panturrilha e a sola da pé, os dois da mesma perna. Cuidado com a cãibra. E, agora, imagine-se fazendo isso depois de morto.

Para ressuscitar (trocadilho intencional) a respeitabilidade científica -- em oposição à respeitabilidade tal como vista pelos olhos dos sindólogos, entusiastas que estão para o sudário como os ufólogos estão para óvnis -- da tese de que o sudário é verdadeiro, seria preciso, portanto, refutar, se não todos os pontos acima, ao menos a maioria deles.

Se Veja (ou suas fontes) tivesse encontrado provas capazes de eliminar pelo menos duas dessas dificuldades, o feito seria fenomenal. Assim, pela segunda vez nesta década, comprei a revista. As afirmações do texto são peremptórias: ele diz, por exemplo, que os argumentos do novo livro da Cia das Letras "põem para escanteio todos os desmentidos científicos" (já disse que a matéria toda parece um infomercial?) acerca do sudário. Audaciosa proclamação! Pena que não há nada, ali, para sustentá-la.

É irônico, entre outras coisas, que a matéria comece citando o trecho do Evangelho de João onde se descreve que Jesus foi sepultado com lençóis (note o plural) de linho, incluindo uma faixa em separado para a cabeça. Claro que, se essa descrição é correta, o sudário, uma imagem ininterrupta do corpo inteiro (cabeça inclusa) num pano só, não pode ser verdadeiro.

Para ser justo, há um infográfico na matéria que tenta conciliar o sudário de peça-única à menção dos "panos" e da faixa da cabeça, mas com sucesso um tanto quanto discutível.

Das quatro linhas de evidência que apontam para o sudário como uma falsa relíquia, Veja se dirige a apenas uma: a datação de carbono 14. Um dos argumentos levantados é o do pólen -- de que teriam sido encontradas, no tecido do sudário, amostras de pólen de plantas típicas da Palestina. Veja cita pólen identificado em 2001, aparentemente se referindo a uma nova análise das amostras obtidas por Max Frei, vários anos antes.

O que é engraçado, porque Frei morreu em 1983 com a reputação em frangalhos, depois de ter autenticado os infames (e decididamente falsos) "Diários de Hitler". Análises posteriores mostraram que Frei provavelmente contaminara suas amostras com pólen palestino deliberadamente, a fim de criar uma "prova" a favor do sudário. Então, o fato de estudos posteriores de seu material confirmarem o pólen não prova nada, já que foi Frei quem, provavelmente, colocou-o lá, para começo de conversa.

O outro argumento contra a datação de radiocarbono é o de que a faixa de tecido extraída para ser analisada teria vindo de um trecho restaurado do sudário. O artigo da Nature descreve a remoção da faixa para análise nos seguintes termos: "O sudário foi separado de seu pano de fundo ao longo de sua margem esquerda e uma faixa (aproximadamente 10 mm por 70 mm) foi cortada imediatamente acima do local de onde uma amostra havia sido removida anteriormente em 1973, para exame. A faixa veio de um único local do corpo principal do sudário, afastado de quaisquer remendos ou queimaduras". A extração foi feita sob a supervisão de especialistas em tecidos e tecelagem.

Eles podem ter se enganado? Claro. Todo mundo erra. Podem ter tido azar, também, pegando um trecho exatamente do único ponto do sudário onde o tecido teria sido reconstituído por meio de uma "costura invisível".

Mas a principal evidência a favor da existência de um "remendo indetectável" a olho nu -- a presença de algodão e de um corante vegetal, garança -- não é conclusiva: algodão e garança aparecem em outras partes do sudário, além do trecho extraído.

No entanto, mesmo que o pessoal do carbono 14 tenha sido especialmente incompetente, ou azarado, ou ambos, as outras três linhas de evidência em favor da tese da falsificação se mantêm. E Veja não gasta uma única mísera linha com elas. Embora mencione que o bispo de Poitiers proibira, em 1355, a veneração do sudário, não diz o motivo: porque ele sabia que a peça era uma fraude.

Então resumindo: para o sudário ser autêntico, a datação de radiocarbono tem de ter sido conduzida por incompetentes azarados, o bispo de Poitiers tem de ter sido um canalha mentiroso (assim como Walter McCrone), todas as provas documentais da existência do sudário pré-1350 têm de ter sido destruídas ou escondidas, e o caráter gótico da imagem tem de ser uma curiosa coincidência.

Tudo isso é possível? Claro. Assim como aquela luz intensa junto à Lua pode ser uma nave de Andrômeda, por que não? Mas, se tiver de apostar, eu aposto que é o planeta Vênus.

[jota péguis] LISERGIA FENOMEMAL

domingo, 1 de abril de 2012

[agência pirata] A PROPINA E O GOVERNO FANTÁSTICO



::txt::Guilherme Fiuza::

A corrupção continua surpreendendo o governo Dilma. A reportagem do “Fantástico” mostrando uma rede de propinas entre fornecedores de hospitais públicos chocou a presidente e seus ministros.

A imprensa vive dando notícia ruim para o governo popular.

Dilma e seus companheiros nem desconfiavam dos superfaturamentos no Dnit. Não faziam idéia da máfia das ONGs nos Esportes e no Trabalho. Não supunham que o Turismo tinha virado fábrica de convênios piratas. Não podiam imaginar o tráfico de influência na Agricultura e nas Cidades.

Graças a Deus, sempre aparece um repórter para contar tudo a eles.

Aí a turma da faxina entra em ação. A denúncia do esquema de fraudes na Saúde ressuscitou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Não se ouvia falar nele desde que anunciou a criação de UPPs pelos quatro cantos do país (projeto que continua firme na literatura governamental).

Agora Cardozo ressurge, indignado. Diante dos holofotes, em tom grave, anunciou que as denúncias são intoleráveis e precisam ser apuradas.

Eis aí uma boa notícia: o ministro da Justiça assiste ao “Fantástico”.

Aloísio Mercadante, ministro da Educação, também gritou. Disse que “o MEC está à disposição” da UFRJ para a investigação das denúncias no hospital universitário. Não precisava ser tão corajoso assim.

Para moralizar as compras na saúde, Mercadante também anunciou a criação da empresa brasileira de serviços hospitalares. Perfeito. Todos sabem que, diante da corrupção no Estado, o melhor a fazer é criar mais uma estatal.

O novo ninho de companheiros há de aprender rápido a “ética do mercado”, revelada pela microcâmera do “Fantástico”.

Chega a ser comovente a capacidade do governo popular de se indignar com o fisiologismo que patrocina.

A imagem-síntese é Dilma Rousseff, de braço dado com José Sarney, anunciando um basta ao toma lá, dá cá no Congresso.

O Brasil acredita nisso. E o coelhinho da Páscoa vem aí (se o “Fantástico” não desmascarar).

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