#CADÊ MEU CHINELO?

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domingo, 21 de agosto de 2011

[agência pirata] O INVENTOR DA GUITARRA POPULAR BRASILEIRA



::txt::Fabio Gomes::

Nascido em Barcarena, interior do Pará, em 1934, Joaquim de Lima Vieira foi técnico em eletrônica, carpinteiro e lavrador (sua família é pioneira na produção de abacaxi no município) antes de resolver, aos 25 anos, se dedicar inteiramente à música. A decisão foi acertadíssima: o antropólogo Hermano Vianna o considera consolidador do estilo que denominou como "guitarra popular brasileira".

Por causa de sua criação, a guitarrada (que alia elementos do choro, da jovem guarda e do merengue), Vieira é tido como o fundador de uma escola para a guitarra no Brasil, tão importante quanto a guitarra baiana introduzida pelo trio elétrico criado por Dodô e Osmar.

Entre os artistas que influenciou, estão Herbert Vianna, d’Os Paralamas do Sucesso, Chimbinha, da banda Calypso, Pio Lobato, o grupo La Pupuña e outro mestre, Aldo Sena, que criou o grupo Populares de Igarapé-Miri após ouvir o primeiro LP de Vieira e seu Conjunto, Lambada das Quebradas (1978).

Aos cinco anos, começou a tocar banjo; aos dez anos, fundou um conjunto regional com irmãos e primos. Com 14 anos, passou ao bandolim, sendo eleito o melhor solista do Estado ao interpretar seu choro “Te Agasalho” num concurso da Rádio Clube do Pará.

Enquanto seguia tocando em grupos regionais, passou a fazer alegorias para a escola de samba Boêmios da Campina. Foi um amigo da Boêmios, Peixoto, que o ensinou a montar e consertar rádios. Este conhecimento lhe foi decisivo quando, ao criar novo grupo - Vieira e seu Conjunto –, enfrentou um impasse: para conseguir tocar guitarra numa cidade onde ainda não havia energia elétrica, Vieira utilizou baterias de automóvel para construir um amplificador que funcionava com pilhas.

O primeiro disco, Lambada das Quebradas, vendeu mais de 200 mil cópias e repercutiu na França, Suíça e Inglaterra – este país negociou com a gravadora brasileira Continental que lançasse na Europa o segundo LP de Vieira, Lambada das Quebradas Vol 2. Em 1980 foi coroado no exterior “Rei da Guitarra e da Lambada”. Já em 2002 recebeu na Inglaterra e na Escócia o título de “Melhor Guitarrista do Mundo”.

Em 2000, foi destaque nacional num documentário da série Música do Brasil, dirigido por Belisário França e produzido por Hermano Vianna; por ocasião da filmagem, um ano antes, conhecera o guitarrista Pio Lobato, que em 2003 o convidou a formar com Curica e Aldo Sena o grupo Mestres da Guitarrada. O grupo tocou nas principais cidades do Brasil, atuou no exterior (apresentou-se na Alemanha em 2006 e na França em 2007) e lançou dois CDs, Mestres da Guitarrada (2003) e Música Magneta (2008), este um disco duplo gravado em Recife com participação de músicos pernambucanos.

Em 2008, Curica e Sena optaram por criar outro grupo, Guitarradas do Pará, e desde então Vieira tem tocado no Mestres da Guitarrada ao lado de Pio Lobato e convidados. Seu disco mais recente é o CD Guitarrada Magnética, de 2009. Um documentário sobre sua vida e obra está sendo produzido pela jornalista Luciana Medeiros.

quinta-feira, 3 de março de 2011

[cc] REGRAS CLARAS

::txt::Hermano Vianna::

O plano era passar um tempo sem falar em direito autoral por aqui. Há outras coisas interessantes no mundo. Também seria deselegante parecer estar pressionando a ministra da Cultura a ter rápida posição sobre o assunto. Posse em ministérios exige calma e tempo. Como a história de Ana de Hollanda comprova disposição para o diálogo, pensava que era isso que pedia em suas primeiras manifestações como ministra, declarando que só voltaria a falar sobre a reforma da Lei de Direito Autoral quando tivesse tempo para estudar com calma o projeto apresentado pela gestão Juca/Gil.

Estava então imerso em outros temas quando fui surpreendido pela barulheira no Twitter. A causa? O site do MinC, na calada da noite, havia trocado o licenciamento Creative Commons por declaração vaga: “O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte.”. Diante do protesto, foi publicada nota de esclarecimento, falando erroneamente em referência e não em licenciamento: “A retirada da referência ao Creative Commons da página principal do Ministério da Cultura se deu porque a legislação brasileira permite a liberação do conteúdo. Não há necessidade de o ministério dar destaque a uma iniciativa específica. Isso não impede que o Creative Commons ou outras formas de licenciamento sejam utilizados pelos interessados.”. Esclarecimento nada esclarecedor que coloca ponto final em conversa que não teve início.

Volto ao assunto Gov 2.0, que dominou esta coluna recentemente. O site culturadigital.br, hóspede dos debates sobre o Marco Civil da Internet e a Classificação Indicativa, iniciativas do Ministério da Justiça, tem seu conteúdo publicado sob uma licença Creative Commons (CC). O blog do Palácio do Planalto tem licença CC (diferente da usada no culturadigital.br). O site da Casa Branca dos EUA “é” CC. O blog do Departamento de Finanças da Austrália é CC (bit.ly/bo90EU). Já o OpenData do governo britânico é diferente: não tem licença CC. Porém, seus responsáveis criaram uma outra licença, a Open Government Licence (bit.ly/cS6EGp), parecida com uma licença CC, mas com outros detalhes e finalidades.

O MinC deveria ter seguido o exemplo do governo britânico. Ninguém é obrigado a usar licenças CC. Mas alguma licença é necessária (assim como, mesmo com uma legislação trabalhista geral, precisamos assinar diferentes contratos ao iniciar novos trabalhos). A declaração do MinC (“O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte”) não é uma licença, não tem validade jurídica. Sim: a legislação brasileira já permite a “liberação” de conteúdo. As licenças CC-BR são totalmente baseadas na legislação brasileira – não propõem nada que essa legislação não permita. Sua novidade é dar uma redação juridicamente clara para a autorização prévia de alguns, não todos, tipos bem específicos de utilização desse conteúdo. Por exemplo: sua reprodução, sua tradução, sua “remixagem” etc. – dependendo da licença escolhida.

Se o novo MinC não queria sigla CC em seu site, que pelo menos se desse tempo para criar uma nova licença válida em tribunais, como fez o governo britânico. Isso não se faz apressadamente. Bons advogados são necessários para esse trabalho, que pode custar caro aos cofres públicos (vantagens das licenças CC: já estão prontas, são validas juridicamente, são compreensíveis em qualquer lugar do mundo e ninguém precisa pagar para utilizá-las). Com a pressa, o conteúdo do site do MinC e as pessoas que reproduzem esse conteúdo estão agora desprotegidos. (E com muitas dúvidas. Um exemplo: conteúdo do site pode ser usado para finalidades comerciais? Acredito que sim, mas o texto não deixa isso claro). Essa atitude não incentiva a defesa dos direitos autorais e sim cria um clima de “ninguém precisa licenciar nada” ou vale tudo.

Já há muita complexidade no debate sobre direito autoral. O MinC não pode atuar para criar confusão. Precisamos de licenças e regras claras. O CC prega exatamente o contrário do liberou geral. Com suas licenças todo mundo fica sabendo exatamente o que pode ou não fazer com cada conteúdo, seguindo as determinações de seus próprios autores. Ninguém “abre mão de seus direitos” e sim exerce mais plenamente seus direitos ao estabelecer o que pode ser feito com suas obras. Para “liberar” (prefiro dizer “autorizar”) alguns usos do conteúdo produzido seja em sites governamentais ou privados, precisamos deixar clara que liberação é essa. Sem algum tipo de licença, a lei entende que ninguém pode fazer nada com esse conteúdo, sem autorização a cada vez que for usado para qualquer fim. Uma experiência como a Wikipédia, onde podemos a todo o momento editar o texto dos outros, seria ilegal se não acontecesse com licença clara que autoriza a reedição contínua.

Não estou aqui para pedir a volta da licença CC. Quanto mais licenças, melhor: aumentam nossas opções, segurança e legalidade. Seria ótimo que o MinC fizesse a crítica das licenças CC, para aperfeiçoá-las em outras licenças. Que comece logo o diálogo, com calma e tempo. Agradeço a Caetano Veloso por ter, em sua coluna do domingo passado, expressado seu desejo que é uma (boa) ordem: precisamos de uma “conversa produtiva” entre todos os grupos interessados em “levar o Brasil para a frente sem perder a dignidade”.

terça-feira, 25 de março de 2008

HERMANO VIANNA

# águas passadas #
UM OVERMUNDO DE ALEGRIA



txt: Carlos Hentges e Guilherme Carlin
pht: Zaoris Coletivo Pirata de Giornalismo



Um dos idealizadores do projeto Overmundo, Hermano Vianna é antropólogo, autor dos livros "O Mistério do Samba" e "O Mundo Funk Carioca". De acordo com ele, "o que a história da internet demonstrou, desde o início, é que as pessoas não querem só consumir coisas produzidas por uma minoria, as pessoas querem também produzir suas próprias notícias, seus proprios conteudos em texto, video".

Pra começar, você podia falar um pouco a respeito do OVERMUNDO, no contexto do que existe de web 2.0 no Brasil...

Bom, de web 2.0 no Brasil, o que eu vejo acontecer são sessões de determinados sites que estão abrindo para a produção coloborativa de conhecimento, para que os usuários possam colaborar etc. Tem experiencias bem interessantes, como a experiência do Estadão (de você enviar fotografias), o Jornal do Brasil também começa a publicar textos que as pessoas enviam pelo site. O que tem acontecido, que a gente pode chamar de web 2.0 no Brasil, são mais aspectos de determinados sites que estão se abrindo pra esse tipo de produção colaborativa de conhecimento. Eu acho que a web comercial no Brasil começou com a mentalidade de que, na internet, iria se reproduzir o que a gente já conhece nas midias de massa tradicionais, que era uma produção de conteudo feita de forma centralizada e com uma grande audiência. O que a história da internet demonstrou, desde o início, é que as pessoas não querem só consumir coisas produzidas por uma minoria, as pessoas querem também produzir suas próprias notícias, seus proprios conteudos em texto, video, etc..

Isso tem feito com que se aumente muito o conteúdo disponível na rede. Esse aumento pode ser um catalisador para o refinamento dos mecanismos de busca como, por exemplo, o mecanismo de busca do Google que segue uma espécie de orientação da massa, como tu mesmo disseste... esse refinamento é uma expectativa em relação à internet? Isso já está acontecendo?

Eu acho que esse é um grande desafio - de como você pode encontrar a informação dentro da internet. Eu acho que esse é o desafio básico porque hoje em dia tem muito mais gente produzindo coisas interessantes por ai, de musica, cinema, textos, blogs... é muita gente mesmo escrevendo e como é que você vai ter acesso àquilo que te interessa? Muitas coisas vão acabar passando sem você ver, sem você ao menos chegar perto daquilo ali, então, para a maior parte das ferramentas de busca o que tem interessado mais é o modo como você pode criar buscas personalizadas (...) É claro que eu posso estar buscando uma coisa que é parecida com a pessoa que tem um outro interesse completamente diferente do meu, então o resultado da minha busca e o resultado dessa outra pessoa têm que ser diferentes porque nós não vamos nos interessar pelas mesmas coisas. Então, essa personalização da busca é um grande desafio que não está ainda sendo desenvolvido, mas eu vejo, por exemplo, quando você usa o Gmail, o Google fica pesquisando o tipo de assunto que você troca nas suas mensagens e a idéia é que depois ele veja o que você se interessa a partir dos seus emails e que o resultado de suas buscas tenham a ver com o que você já se interessa. Isso depende muito também do que você quer manter privado nas suas trocas de informação. Esse é outro desafio porque para personalizar você tem que entregar informações de quem você é e do que você gosta. Como é que você vai entregar isso e confiar que as pessoas vão fazer bom uso disso?

Boa parte do que é disponibilizado hoje na rede é fruto de uma digitalização feita por terceiros e não pelos proprietários dos direitos autorais ou pelos próprios autores. Isso tem a ver com o fato de que a centralização não é possível por parte da indústria, segundo a observação que você fez durante a palestra. A indústria da música foi a mais resistente com relação às possibilidades que a internet oferece. Existe alguma perspectiva de mudança com relação à oferta de conteúdo feita através da internet por parte dos empresários e dessa indústria cultural?

Eu acho que já existe um consenso, mesmo que não seja explícito, mesmo que as pessoas não falem isso abertamente nas entrevistas da indústria fonográfica tradicional, de que o modelo de negócio deles, o modelo de distribuição e de produção está com os dias contados. Então, isso vai terminar daqui a pouco, não dá mais certo essa maneira tradicional de produzir musica, eles vão ter que criar outros mecanismos para sobreviver... então, eu acho que tá todo mundo tentando inventar uma nova maneira de sobreviver, mesmo comercialmente. Eles já estão de olho. Essa reação inicial de sair prendendo velhinhas e garotinhos que baixam músicas da internet foi uma reação estúpida. Eles estão vendo que isso provoca muito mais um afastamento do público que eles gostariam de ter e que vão ter que encontrar uma maneira de limpar a imagem deles. Então, eu acho que para a maioria dos grandes executivos de gravadoras, esse modo que a gente está acostumado de produção musical que existiu até agora já até deixou de fazer sentido.

A falta de um autor reconhecido ou "reconhecível" para a produção de conteúdo na internet, isso está deixando de ser um problema? As pessoas estão tendo mais facilidade em aceitar esse conteúdo como algo de credibilidade, por conta de mecanismos como os que o Wikipedia está desenvolvendo?

Tudo isso é muito novo. Mas, eu acho que estão acontecendo muitas experiências diferentes na maneira de dar credibilidade. Todos esses sites que usam carma, esses conceitos de quanto mais você participa, quanto mais as pessoas votam nas suas colaborações, mais poderoso você vai ficando dentro daquela comunidade, dentro daquele site, isso é um sistema de criação de reputação. Se aquela pessoa tem aqueles votos todos, se aquela pessoa participou tanto e fez comentários que as outras pessoas gostaram, que elas votaram naquilo, isso significa que o conteúdo que aquela pessoa vai criar é mais confiável do que o conteúdo de um novato que está chegando agora no site. A gente está buscando mecanismos de reputação, de criar credibilidade, de fiscalizar as mudanças que são feitas no site, as novidades que são introduzidas... porque quando você está criando um site aberto, pode vir qualquer coisa, há sempre um risco de que as pessoas mudem por brincadeira ou por maldade mesmo... então, eu acho que estão sendo desenvolvidas hoje experiências para lidar com esse novo tipo de realidade, mas ninguém ainda sabe o que vai acontecer.

Pra finalizar então, você poderia falar um pouco a respeito do código do Overmundo, da entrega do código, dessa parte mais técnica que vocês estão liberando?

A gente considera que, agora, início de setembro, a gente está completando o que a gente chama de Overmundo 1.0 , que é o Overmundo que a gente imaginou com todas as ferramentas que seriam necessárias para o site ser completo. Então, agora a gente se sente à vontade para disponilizar o código para que outras pessoas possam criar seus próprios "overmundos". Se você quiser fazer um overmundo de política, um overmundo de esportes, da sua universidade ou da sua empresa ou de qualquer outro lugar, você vai poder ter aquele código, pois é tudo desenvolvido sob a licença de software livre. Então, é para que as pessoas possam fazer o que quiserem com aquele código que a gente está disponibilizando. O código é o programa mesmo que faz o Overmundo funcionar, então está tudo preparado para que as pessoas criem comunidades, blogs, guias, sistemas de votação... tudo isso vai ter lá para que as pessoas possam usar a partir de setembro agora.

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