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::txt::Luciano Viegas::
Nesta fotografia 3x4 feita especiamente para documento de identificação, comprovante de cidadania brasileira, está representado José Pacheco Teixeira, na lente de uma Kodak 835af-dx, no clique de Paulo Vieira Veloso, que não aparece na foto, pois estava encarregado de apertar o botão - bem na hora da foto!
A data de nascimento demasiada antiga que se pode verificar no documento denuncia uma verdade inconveniente para todos que amam José (no caso, apenas o seu filho único, órfão de berço): ele não mais se encontra de corpo presente em nossa desenvolvida sociedade contemporânea.
José perdeu-se da experiência de ser humano nos tempos idos de 1972, quando perdeu-se em sua self-made caravela no meio do Oceano Índico e só foi avistar terra firme onde o céu flambado derretia as nuvens em mel, tal qual uma profecia - vulgo Vietnã.
Logo que ancorou, ingênuo, teve a caravela roubada por alguns nativos que tentavam fugir do mel e ainda fora convencido a lutar pela democracia - que o matou com um tiro na testa.
Depois de fazer esta foto, Paulo ainda apertou o botão de sua Kodak outras 234 vezes e não se lembra o nome de nenhum dos modelos, nem mesmo de José, que involuntariamente o carregou para sempre no bolso - gesto que tampouco continha afeto. O ofício garantiu a Paulo barriga cheia até o dia em que, por questões de barriga vazia, fora filmado por uma Kodak sobrinha da sua, roubando carne seca num supermercado das redes Wal-Mart.
Paulo perdeu-se da experiência de fotógrafo quando o juiz, em nome da democracia, bateu o martelo sobre a carne seca e, a despeito de sua fome, condenou-o a um regime: fechado, 2 anos de reclusão.
O afeto aparece nesta história pelo coração sofrido do órfão de José, vulgo Kiko, que não chegou a conhecer o pai, mas ouviu durante toda a infância, pela mãe, as aventuras de um marinheiro destemido. O afeto toma proporções devastadoras à medida em que as engrenagens da Kodak 835af-dx, querida câmera de Paulo, aceleram seu processo de oxidação pela ausência do toque do dono, outrora tão frequente e rejuvenescedor para uma máquina solitária.
Kiko nunca compreendeu a morte do pai, mas, por via das dúvidas, esta foto endossa a lista dos 379 desaparecidos da Ditadura Militar brasileira. Kiko é jovem, tem convicções bem resolvidas e frequenta passeatas em nome da democracia. Na divisão do trabalho entre os operários do protesto, foi designado para registrar a revolução nas lentes sua Kodak digital, bem mais prática e eficiente que a de Paulo.
Este, por sua vez, de tanto ser enrabado na cadeia pelo martelo do juiz, engravidou e não vê a hora do sol nascer redondo novamente, para enfim matar o seu desejo de comer carne seca.
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