#CADÊ MEU CHINELO?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

3 na MASSA



# HPP 09 #
O canto contemporâneo de Calíope

txt: João Xavi
pht: Tati Almeida
(acima)
phts: HumaitáPraPeixe (abaixo)
U2B: HumaitáPraPeixe

Li na biografia da Clara Nunes (Vagner Fernandes, 2007), um livro bem interessante por sinal, que até a ascensão da carreira da “guerreira da utopia” as mulheres não representavam uma fatia consistente do mercado musical brasileiro. O biografo conta que Clara foi a primeira a vender quantia considerável de discos e que isso aconteceu, dentre outros vários motivos, graças a uma elaborada construção da imagem de musa, de diva da canção popular brasileira. É fato que Clara caiu no gosto do povo quando se enveredou de vez pelo mundo do samba. Mas o uso (até hoje bastante criticado) de signos da cultura popular (que no final das contas construíam uma imagem de diva pop, no sentido Madonna da idéia) foi fundamental pra esse processo.

Elizete Cardoso, Elza Soares, Gal Costa são algumas das cantoras que alimentaram diferentes possibilidades de ser musa. Estas mulheres usavam de aspectos específicos de suas feminilidades para embalar canções de estilos e apelos variados. A maior parte destas cantoras atua na música como interprete, quer dizer, deixam a tarefa da composição na mão de simples mortais. A própria idéia de musa (no sentido grego da palavra) remete a figuras femininas que tinham como missão básica inspirar um mundo mais belo. Calíope, a musa da bela voz, cumpria sua tarefa através da eloqüência, o uso da palavra. Hoje, as musas são responsáveis por inspirar a lírica de marmanjos que, vítimas do pathos/paixão, escrevem canções para suas belas vozes.

Chico Buarque e Carlos Zéfiro são dois dos poucos heróis contemporâneos que se aventuraram com destreza pelos labirintos do universo feminino. O time de corajosos está engrossando com o desenvolvimento do projeto batizado de 3namassa. Rica Amabis (produtor do coletivo paulistano Instituto), Pupilo e Dengue (respectivamente baterista e baixista da Nação Zumbi) buscaram referências nas letras de Chico e nos traços de Zéfiro para bancar uma verdadeira epopéia por um universo feminino temperado com luxúria. Para isso, um time de letristas (gente do quilate de: Jorge du Peixe, Junio Barreto, Rodrigo Brandão, Rodrigo Amarante, China) se associou ao trio na composição de um álbum que traria em cada música a voz de uma legítima representante contemporânea de Calíope. Músicas compostas, letras escritas, musas convocadas e “Na confraria das sedutoras”, disco de estréia do projeto, chegou as ruas. A missão agora é promover o ataque das sedutoras ao vivo e a cores, pelos palcos de todo Brasil. Já no comecinho de 2009 o clássico festival Humaitá Pra Peixe (que acaba de completar 15 anos de atividades, parabéns!) trouxe o 3namassa pela segunda vez aos palcos cariocas. O trio, aditivado da presença do guitarrista Boca, esquentou ainda mais uma típica noite de verão carioca. O cenário não poderia ser mais adequado: o bairro de Copacabana.

O maior desafio desta empreitada é reproduzir no palco o clima caliente do disco. A tecnologia audiovisual entra em cena, literalmente, a favor da brincadeira, projetando o vídeo de Leandra Leal no fundo do palco. A atriz surge loira, vestindo (pouca) roupa, lingerie, cinta-liga e portando acessórios como chicotes e algemas. Primeiro em francês, e depois em língua pátria a menina sussurra com voz rouca: “Eu sei que vai ser muito bom, pois tenho a imaginação fértil e gosto de agradar”. O jogo começa! Com os músicos já devidamente posicionados, Thalma de Freitas abriu os trabalhos em presença física (e que presença) usando e abusando de todo seu talento de atriz para magnetizar o público com a seqüência: “Enladeirada”, “Doce Guia” e “O objeto”. Bola dentro! Em menos de quinze minutos de show o arrumadinho teatro da Sala Baden Powell ganha um leve ar de cabaret.

Musicalmente a estética do projeto pode começar a ser sentida na percussão. Na maior parte da performance Pupilo comanda a batera numa mistura entre o estilo sincopado (aquela levada bossa nova que, segundo Tom Zé, é uma batida “pra dentro”, em sintonia com a fisiologia do sexo feminino) com as típicas levadas de caixa - ao exemplo de como toca com a Nação Zumbi. A grande diferença é que neste projeto tudo soa mais limpo, então é possível escutar a bateria com riqueza de detalhes.


A segunda sedutora a subir no palco foi Geanine Marques. Com sua voz “Ice hot”, como anunciada pelo invisível Mestre de Cerimônias da noite, a cantora atacou de “Estrondo” e “Lágrimas pretas”. Ousada a proposta de lançar assim, numa só tacada, a mais sutil e a mais agressiva das canções. Os dois pontos extremos do repertório estavam deflagrados, mas a noite ainda guardava surpresas. Desta vez é Simone Spoladore que surge projetada; sentada nas pedras de alguma praia qualquer a atriz declama “Pecadora”: “Eu não consigo me controlar, tenho um demônio na carne, no corpo...”. O descontrole do pecado é a deixa perfeita para a entrada da próxima musa. Do lado de dentro de um longo vestido preto e verde, de pulseiras douradas e pele tatuada, Lurdez da Luz deixou o público sem fôlego. A cantora tem papel ímpar no contexto das sedutoras, é a única que compôs a letra que canta no disco. Essa experiência diferenciada é fruto da vivência musical da moça, que comanda o microfone do grupo de hip-hop afro-futurista Mamelo Sound System. Além de rimar sua própria rima, Lurdez ainda cantou o calor em “Certa noite”.

“Preciosa e peralta”, adjetivos novamente creditados ao MC da noite, Karine Carvalho tem o poder mágico de crescer no palco. A pequena se agiganta com o microfone nas mãos e com “Quente como asfalto” na boca. “Morada boa” também marcou presença numa apresentação que chegou ao fim com a já badalada “Tatuí”, parceria afetiva e efetivamente bem sucedida. A essa altura do campeonato as cadeiras do teatro já haviam deixado de ser o suporte ideal para um espetáculo que de fato provoca os pobres mortais em seus aspectos mais nebulosos e bonitos. O baixo de Dengue oferece uma cama vistosa, disponível para o deslumbre dos sonhos cantados pelas musas, à medida que os samplers disparados por Rica (com timbres recheados daquele clima de sacanagem/pornô-chanchada) dão o tempero finale para essa opera dedicada ao prazer.

O golpe fatal foi o retorno das musas ao palco, devidamente apresentadas em duplas (primeiro Thalma + Karine, depois Lurdez + Geanine). Encarnando canções de Roberto Carlos (o Rei branco) e Barry White (o Rei preto). Majestosos compositores na arte da sedução que tiveram seus poderes amplificados pela operação vocal destas musas. Nenhum dos mais de 500 mortais presentes no teatro pra lá de lotado saiu impune desta experiência extra-sensorial. Seria prudente que a produção providenciasse, além do potente ar-condicionado da sala, algumas centenas de leques para minimizar o estrago causado por este time de Calíopes contemporâneas. Numa noite quente como aquela, resistir é um capricho. Deixar-se seduzir é o único e verdadeiro caminho.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

TOP TEN BRASIL 2008

Dois dos três prêmios mais respaldados do país já escolheram os melhores álbuns de 2008. A Trama Virtual e a Rolling Stone Brasil montaram suas respectivas listas, cada qual com seu corpo de jurados e critérios. Os melhores da música brasileira do ano passado agora aguardam o último prêmio do ano, que está em fase de votação: o Uirapuru 2008.

Rolling Stone Brasil


1- Macaco Bong - Artista Igual Pedreiro

2- Mallu Magalhães - Mallu Magalhães

3 - 3 na Massa - Na Confraria das Sedutoras

4 - CSS - Donkey

5 - Lenine - Labiata

6 - Guizado - Punx

7 - Curumin - Japan Pop Show

8 - Cérebro Eletrônico - Pareço Moderno

9 - Ney Matogrosso - Inclassificáveis

10 - Marcos Valle - Conecta ao Vivo no Cinemathéque


Trama Virtual


1 - Guizado - Punx

2 - Momo - Buscador

3 - Curumin - Japan Pop Show

4 - Cérebro Eletrônico - Pareço Moderno

5 - Macaco Bong - Artista Igual Pedreiro

6 - Wado - Terceiro Mundo Festivo

7 - ruído/ mm - A Praia

8 - Marcelo Camelo - Sou/ Nós

9 - Mallu Magalhães - Mallu Maglhães

10 - Holger - The Green Valley EP

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

TEATRO MÁGICO



A Trupe Desencantada

txt e pht: Rodrigo Colla

A trupe Teatro Mágico sobe ao palco do Opinião por volta das 00h. O encarregado de apresentar a banda começa mal: “Saudações tricolores. Do tricolor paulista, é claro. E cadê a torcida do Internacional? E a do Grêmio?”. Apelações típicas das piores bandas de bailão.

O som começa e não foge do bailão. É um grande agregado de gêneros musicais estandardizados que deram certo com arranjos pobres. É puro molde, puro padrão. É uma banda pop fantasiada com algumas letrinhas que dizem alguma coisa mesmo que às vezes de forma muito pueril e superficial. A idéia de fazer da arte e paralelamente de todo grande círculo interativo que são as relações “uma coisa só” é prudente, mas abordada de forma artificial e leviana. A idéia de “uma coisa só” no sentido de associar gêneros artísticos é igualmente interessante, mas quando feita com muito mais qualidade, do contrário é melhor se deter a “uma coisa só”. Mesmo o que a banda de Osasco – SP tenta fazer de mais autêntico ainda é tênue demais e a qualquer momento parece poder se decompor como uma maquiagem que borra com o choro do palhaço. Isso no que se trata de musicalidade, pois algumas interpretações, os malabares – ainda que esporadissíssimos - e acrobacias salvam um pouco a apresentação. Dão a ela a vida que lhe falta.



O Teatro Mágico não é nem mágico nem encantado, me pareceu, sim, deveras dissimulado e frágil. Apela ainda para algumas influências suas obviamente muito mais autênticas e inspiradas, como por exempo: Los Hermanos e Cordel do Fogo Encantado. Atira para todos os lados na tentativa de atingir algum alvo. E consegue. Axé, pop, reggae, rock e algumas menções que lembram literatura de cordel ainda que muito menos originais, são a hibridação pobre que, de certa forma, continua cativando o público e dando certo.

Se considerarmos a apresentação um desfilezinho de carnaval aí vão as notas para os seguintes quesitos:

Carisma: 6,5
Figurino: 5,5
Maquiagem: 4,5
Musicalidade: 3,0
Interpretações: 5,0
Poesia: 4,0
Números Circences: 7,5
Originalidade Musical: 2,0

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

TRISTES RETRATOS DO JORNALISMO

Por Ronaldo Martins Botelho, do Observatório da Imprensa

Imaginemos a que ambiente político estaríamos submetidos se, no lugar de se exercer o debate salutar, entrasse na moda entre os colegas jornalistas processar-se entre si por críticas manifestadas sobre práticas suspeitas, ou eticamente condenáveis, no trabalho alheio. Provavelmente, em um estado de censura explícita. Além de uma meio defesa, a justiça tem sido um instrumento para se impor uma "censura legal", até entre membros de uma mesma categoria.

Mas há outras formas mais sutis de controle do que pode ser dito e mostrado, conforme conveniência: a própria imprensa, por exemplo. Daí a preciosidade democrática dos observatórios e blogueiros que militam diariamente nesse monitoramento de práticas de mascaramento da realidade pela mídia. Ironicamente, o professor gaúcho Wladymir Ungaretti, do qual tenho o orgulho de ter sido aluno nos anos 1990, está sendo processado nesse momento pelo exercício voluntário nesse tipo de atividade e, o mais irônico, por um colega (?) da área de jornalismo (?).

O fotógrafo Ronaldo Bernardi, do jornal Zero Hora, está movendo processo contra Ungaretti por este ter sugerido a possibilidade de uma foto produzida por Bernardi em um fato policial ser uma montagem ("cascata") e por o autor da mesma ser identificado como Fotonaldo em uma de suas análises de imagens, veiculada sobre a edição de 04/11/2008 no Zero Hora, conforme o texto "Não se trata de uma provocação", publicado no blog de Ungaretti.

Leitor e observador voraz

O curioso é que em sua ação o fotógrafo não responde, nem problematiza, o centro da crítica de Ungaretti, que questiona eticamente os procedimentos profissionais em uma suposta montagem na cobertura de um fato policial.

No lugar disso, conforme Ungaretti, o referido fotógrafo apenas se restringe a reclamar, via justiça, codinomes a ele associados. Porém, pelo menos com relação à expressão Fotonaldo, nem isso parece se justificar, já que na ocasião – como pode ser notado no texto contido no link acima – Ungaretti deixa claro se tratar de um apelido difundido por outros colegas a respeito desse profissional e, portanto, não foi invenção sua. Não conheço Ronaldo Bernardi, porém em uma rápida rastreada noto que não é a primeira vez que sua conduta profissional é questionada por blogueiros, como se percebe no texto "Ao lado dos agressores", também veiculado em um blog.

Mas Ungaretti, eu conheço. Há alguns anos o professor Wladymir Ungaretti – ou apenas jornalista, como gosta de se assumir – realiza uma análise diária da grande imprensa gaúcha, estudo reconhecido até internacionalmente por estudantes, professores e jornalistas sérios. Seu trabalho não se resume ao comentário crítico: faz comparações; destaca títulos; avalia enquadramentos, desconstrói argumentos; aponta modelos; produz ensaios – tudo com a autoridade de quem tem a experiência, antes do magistério, de vários anos de ofício, em um momento político em que para exercer a profissão se era vítima de censores menos estranhos. Além disso, cultiva a qualidade típica dos veteranos, de leitor e observador voraz de tudo o que importa para a análise da vida em sociedade, seja na filosofia, nas ciências sociais ou nas artes.

"Práticas profissionais duvidosas"

Ainda nesse mapeamento cotidiano, referência dentro e fora de da sala de aula, Ungaretti disponibiliza em seu site Pontodevista especiais periódicos sobre temas ignorados, ou superficialmente tratados na imprensa tradicional, mas de alta relevância para entender nosso tempo. Trata-se, assim, de um raro exercício de jornalismo em profundidade que relaciona a observação crítica diária da imprensa hegemônica com o comportamento de outros poderes, agregando a isso uma boa dose de ciência e literatura e um claro posicionamento político (que faria bem que todo jornalista manifestasse visivelmente).

Diante dessa situação, resolvi obter um depoimento direto de Ungaretti sobre o assunto, que reproduzo abaixo:

"Desde março de 2004, com a foto `Falcões do Sul´, estou apontando que este cara trabalha em sintonia com a polícia. Sempre com o sentido de criminalizar os movimentos sociais e a periferia. Este cara começou como boy, contínuo da redação (nada contra) quando eu já era subchefe de reportagem da redação de ZH, ou então pauteiro. Sempre me relacionei super bem com o pai dele, o seu Nilo, também contínuo da redação. Passou a boy, contínuo do laboratório fotográfico, passou a laboratorista da madrugada, a fotógrafo de plantão da madrugada e assim sucessivamente. Não sei se esta é a ordem exata. Têm 35 anos de RBS. Passou a fazer as matérias 500, matérias de interesse empresa. Na atualidade, segundo informações de pessoas da redação, após tantas críticas ao seu trabalho, foi colocado no plantão. Na geladeira. A discussão central não é o apelido ou as expressões showtógrafo, zerolândia, fotocampana, fotocascata, termos amplamente usados no meio, mas as fotos `produzidas´. Gostaria que tudo isso possibilitasse uma ampla discussão sobre práticas profissionais, no mínimo, duvidosas."

Solidariedade e apoio

A pergunta que fica, diante disso, é: a quem interessa censurar um trabalho pela transparência e independência na atividade jornalística? Ao jornalismo? Só se for o do discurso único. À justiça? Só se for a que diz que o interesse público está abaixo da discrição profissional. À honra particular? Só se for possível separar o indivíduo político do indivíduo jornalista, piada ainda contada em alguns cursos de comunicologia. Á democracia? Só se for àquela que se legitima através da vontade privada dos grandes grupos de comunicação e seus protetores.

Felizmente, para mim e todos os leitores de seu site/blog, apesar de estranhos acontecimentos recentes que sugerem formas indiretas de intimidação, Ungaretti não se intimidou. Pelo contrário, produziu outro de seus especiais sobre jornalismo, posicionando-se exatamente sobre a questão que enfrenta, através do micro-editorial "De consciência tranqüila"; incluiu ainda, nessa edição, ilustrações do processo de produção da "cascata" na imprensa (denominação tradicional para a criação fantasiosa de fatos ou distorção dos mesmos) que fornecem subsídios para entender as novas formas de manipulação fotográfica no jornalismo. Disponibiliza, com isso, mais subsídios ao debate: limonada farta de um só limão.

Enfim, diante disso e de outros episódios decepcionantes no mundo da grande imprensa, acredito profundamente que a credibilidade profissional reside hoje, muito acima e além de prêmios – sempre convenientes às organizações que os oferecem ou a interesses específicos por legitimação – está, sim, na abnegação e no trabalho diário pelo interesse público, reconhecido, ou perseguido, em momentos como esse. Jornalistas como Mino Carta, Lúcio Flávio Pinto, José Arbex Júnior, Alberto Dines, entre tantos outros de norte ao sul do país, ainda me fazem cultivar essa convicção. Portanto, professor Ungaretti, junto com minha solidariedade manifesto-lhe a certeza de que não está, e nunca estará, sozinho nessa empreitada. Continue firme, e se for preciso, como diria Lênin, "um passo atrás para dois passos à frente"!

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