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segunda-feira, 26 de abril de 2010

ABRIL PRO ROCK



#agência pirata
Festival Abril Pro Rock reafirma vigor e prova que tem sobrevida com geração de novos e veteranos

txt: Luciano Matos

O Festival Abril Pro Rock cumpriu bem sua proposta nesse último fim de semana no Pavilhão do Centro de Convenções, em Olinda, Pernambuco. Os 18 anos completados pelo evento comprovaram que o formato ainda tem lenha para queimar e que há muito para ser mostrado do cenário musical. Reunindo bom público (5 mil no total) e bons shows, o festival só pecou na maratona exagerada e cansativa de artistas, com dez shows na sexta-feira e quatorze no sábado.

Quem conseguiu agüentar a longa sequência, porém, teve a oportunidade de assistir um apanhado do que anda sendo feito pelo Brasil, com bandas de várias partes do país e do exterior de diversos gêneros e ritmos. A fórmula de uma noite voltada para os sons pesados e outra mais eclética ainda funciona, com os “camisa preta” marcando forte presença na sexta e um misto de tribos e estilos no dia seguinte.

Quem teve pernas e conseguiu esperar até o último show do último dia de festival pôde conferir a melhor apresentação do evento. Também completando 18 anos, o Pato Fu mostrou porque é uma das poucas bandas surgidas na geração dos anos 90 que ainda tem muito o que falar e mostrar. Um desfile impressionante de hits e de simpatia, com Fernanda Takai perfeita no comando, com o tom certo entre a diversão e a leveza. Banda precisa, produção caprichada e um show bem pensado para agradar quem gosta ou não da banda. Showzaço



Outros veteranos também fizeram bonito. O Ratos de Porão, com seu punk sempre muito bom, produziu as melhores rodas de pogo do Abril Pro Rock, que já são marca no Recife com seu formato de girar freneticamente em frente ao palco no ritmo da música. O Afrika Bambaataa jogou pra galera e fez um grande baile dançante, descendo o braço no ritmo, com rap, black music, funk carioca e até rock, com direito a inserção de trechos de músicas de Prince, AC/DC, James Brown.

O alagoano Wado foi um dos que mais souberam aproveitar o espaço, com um show dançante, bem pra cima, desfilando ritmos e um apanhado de músicas de seus cinco discos lançados. Terminou agradando bastante e ganhando mais público do que parecia já ter no começo da apresentação. Assim também foi com a 3 na Massa, que fez um show bonito e sedutor – que funcionaria melhor num lugar menor – com as cantoras Marina de La Riva, Nina Becker, Lurdez da Luz e Karine Carvalho.

A nova geração

Entre os nomes mais desconhecidos, os baianos da Vendo 147 chamou atenção. Mesmo fazendo um rock instrumental, foi entre as bandas novas quem mais balançou o público. Afiadíssimos, eles não sentiram a pressão de tocar num dos principais festivais do país e desceram a madeira com seu clone drum (duas baterias juntas) e um rock vigoroso e pesado da melhor qualidade.



Os paranaenses da Nevilton era uma das maiores apostas do festival. Não fizeram por menos e, apesar do público não reagir tão animadamente quanto o som pedia, fizeram um grande show com seu rock visceral e ao mesmo tempo pop, impressionantemente bem executado e muito divertido. A sensação é que se tivessem 50 mil pessoas no público, eles fariam o mesmo show quente, animado e dançante.

Destaque ainda para o peso da Claustrofobia, que, na primeira noite, estremeceu o Centro de Convenções com sua porrada metal. Ainda fizeram boas apresentações os sergipanos do Plástico Lunar, os mexicanos do Instituto Mexicano Del Sonido e os pernambucanos do The River Raid. A Plastique Noir aproveitou até bem a oportunidade, mas acaba não brilhando tanto num festival tão diverso e cheio de opções. A Mini Box Lunar aparentemente sentiu ser logo a segunda banda da noite do sábado, com pouca gente na platéia e um aparente nervosismo, além da equalização do som, aquém do que o som da banda pede, fez um show bem inferior à expectativa, sem conseguir passar o brilho que costumam. A Mullet Monster Mafia pareceu mais interessante do que teve oortunidade de mostrar, já que seu interessante surf rock instrumental ficou perdido na noite tão pesada de sexta-feira.

As gringas Agent Orange e The Varukers fizeram shows corretos, sem muito brilho, mostrando mais competência do que vitalidade e nergia, algo que o punk rock que fazem pede e o tempo parece ter tirado um pouco. Assim como o ex-Iron Maiden, Blaze Bailey, que não agradou nem aos fãs da ex-banda.

O Abril Pro Rock segue agora com sua programação esparsada até maio com diversas atrações no projeto batizado como APR Club, com nomes como Siba, Dead Fish e Mundo Livre S/A.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

3 na MASSA



# HPP 09 #
O canto contemporâneo de Calíope

txt: João Xavi
pht: Tati Almeida
(acima)
phts: HumaitáPraPeixe (abaixo)
U2B: HumaitáPraPeixe

Li na biografia da Clara Nunes (Vagner Fernandes, 2007), um livro bem interessante por sinal, que até a ascensão da carreira da “guerreira da utopia” as mulheres não representavam uma fatia consistente do mercado musical brasileiro. O biografo conta que Clara foi a primeira a vender quantia considerável de discos e que isso aconteceu, dentre outros vários motivos, graças a uma elaborada construção da imagem de musa, de diva da canção popular brasileira. É fato que Clara caiu no gosto do povo quando se enveredou de vez pelo mundo do samba. Mas o uso (até hoje bastante criticado) de signos da cultura popular (que no final das contas construíam uma imagem de diva pop, no sentido Madonna da idéia) foi fundamental pra esse processo.

Elizete Cardoso, Elza Soares, Gal Costa são algumas das cantoras que alimentaram diferentes possibilidades de ser musa. Estas mulheres usavam de aspectos específicos de suas feminilidades para embalar canções de estilos e apelos variados. A maior parte destas cantoras atua na música como interprete, quer dizer, deixam a tarefa da composição na mão de simples mortais. A própria idéia de musa (no sentido grego da palavra) remete a figuras femininas que tinham como missão básica inspirar um mundo mais belo. Calíope, a musa da bela voz, cumpria sua tarefa através da eloqüência, o uso da palavra. Hoje, as musas são responsáveis por inspirar a lírica de marmanjos que, vítimas do pathos/paixão, escrevem canções para suas belas vozes.

Chico Buarque e Carlos Zéfiro são dois dos poucos heróis contemporâneos que se aventuraram com destreza pelos labirintos do universo feminino. O time de corajosos está engrossando com o desenvolvimento do projeto batizado de 3namassa. Rica Amabis (produtor do coletivo paulistano Instituto), Pupilo e Dengue (respectivamente baterista e baixista da Nação Zumbi) buscaram referências nas letras de Chico e nos traços de Zéfiro para bancar uma verdadeira epopéia por um universo feminino temperado com luxúria. Para isso, um time de letristas (gente do quilate de: Jorge du Peixe, Junio Barreto, Rodrigo Brandão, Rodrigo Amarante, China) se associou ao trio na composição de um álbum que traria em cada música a voz de uma legítima representante contemporânea de Calíope. Músicas compostas, letras escritas, musas convocadas e “Na confraria das sedutoras”, disco de estréia do projeto, chegou as ruas. A missão agora é promover o ataque das sedutoras ao vivo e a cores, pelos palcos de todo Brasil. Já no comecinho de 2009 o clássico festival Humaitá Pra Peixe (que acaba de completar 15 anos de atividades, parabéns!) trouxe o 3namassa pela segunda vez aos palcos cariocas. O trio, aditivado da presença do guitarrista Boca, esquentou ainda mais uma típica noite de verão carioca. O cenário não poderia ser mais adequado: o bairro de Copacabana.

O maior desafio desta empreitada é reproduzir no palco o clima caliente do disco. A tecnologia audiovisual entra em cena, literalmente, a favor da brincadeira, projetando o vídeo de Leandra Leal no fundo do palco. A atriz surge loira, vestindo (pouca) roupa, lingerie, cinta-liga e portando acessórios como chicotes e algemas. Primeiro em francês, e depois em língua pátria a menina sussurra com voz rouca: “Eu sei que vai ser muito bom, pois tenho a imaginação fértil e gosto de agradar”. O jogo começa! Com os músicos já devidamente posicionados, Thalma de Freitas abriu os trabalhos em presença física (e que presença) usando e abusando de todo seu talento de atriz para magnetizar o público com a seqüência: “Enladeirada”, “Doce Guia” e “O objeto”. Bola dentro! Em menos de quinze minutos de show o arrumadinho teatro da Sala Baden Powell ganha um leve ar de cabaret.

Musicalmente a estética do projeto pode começar a ser sentida na percussão. Na maior parte da performance Pupilo comanda a batera numa mistura entre o estilo sincopado (aquela levada bossa nova que, segundo Tom Zé, é uma batida “pra dentro”, em sintonia com a fisiologia do sexo feminino) com as típicas levadas de caixa - ao exemplo de como toca com a Nação Zumbi. A grande diferença é que neste projeto tudo soa mais limpo, então é possível escutar a bateria com riqueza de detalhes.


A segunda sedutora a subir no palco foi Geanine Marques. Com sua voz “Ice hot”, como anunciada pelo invisível Mestre de Cerimônias da noite, a cantora atacou de “Estrondo” e “Lágrimas pretas”. Ousada a proposta de lançar assim, numa só tacada, a mais sutil e a mais agressiva das canções. Os dois pontos extremos do repertório estavam deflagrados, mas a noite ainda guardava surpresas. Desta vez é Simone Spoladore que surge projetada; sentada nas pedras de alguma praia qualquer a atriz declama “Pecadora”: “Eu não consigo me controlar, tenho um demônio na carne, no corpo...”. O descontrole do pecado é a deixa perfeita para a entrada da próxima musa. Do lado de dentro de um longo vestido preto e verde, de pulseiras douradas e pele tatuada, Lurdez da Luz deixou o público sem fôlego. A cantora tem papel ímpar no contexto das sedutoras, é a única que compôs a letra que canta no disco. Essa experiência diferenciada é fruto da vivência musical da moça, que comanda o microfone do grupo de hip-hop afro-futurista Mamelo Sound System. Além de rimar sua própria rima, Lurdez ainda cantou o calor em “Certa noite”.

“Preciosa e peralta”, adjetivos novamente creditados ao MC da noite, Karine Carvalho tem o poder mágico de crescer no palco. A pequena se agiganta com o microfone nas mãos e com “Quente como asfalto” na boca. “Morada boa” também marcou presença numa apresentação que chegou ao fim com a já badalada “Tatuí”, parceria afetiva e efetivamente bem sucedida. A essa altura do campeonato as cadeiras do teatro já haviam deixado de ser o suporte ideal para um espetáculo que de fato provoca os pobres mortais em seus aspectos mais nebulosos e bonitos. O baixo de Dengue oferece uma cama vistosa, disponível para o deslumbre dos sonhos cantados pelas musas, à medida que os samplers disparados por Rica (com timbres recheados daquele clima de sacanagem/pornô-chanchada) dão o tempero finale para essa opera dedicada ao prazer.

O golpe fatal foi o retorno das musas ao palco, devidamente apresentadas em duplas (primeiro Thalma + Karine, depois Lurdez + Geanine). Encarnando canções de Roberto Carlos (o Rei branco) e Barry White (o Rei preto). Majestosos compositores na arte da sedução que tiveram seus poderes amplificados pela operação vocal destas musas. Nenhum dos mais de 500 mortais presentes no teatro pra lá de lotado saiu impune desta experiência extra-sensorial. Seria prudente que a produção providenciasse, além do potente ar-condicionado da sala, algumas centenas de leques para minimizar o estrago causado por este time de Calíopes contemporâneas. Numa noite quente como aquela, resistir é um capricho. Deixar-se seduzir é o único e verdadeiro caminho.

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