#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

[nem te conto] RELATOS DE UM SUICIDA IV

:: txt :: Jacson Faller ::

Nove horas e quinze minutos da manhã – décimo primeiro dia.

  Recebi um convite para, à tarde, visitar um haras. Quem me convidou não é exatamente um amigo, é um colega... Ex-colega de trabalho. Fomos funcionários da mesma empresa por uns sete anos. Fiquei de telefonar avisando se aceito o convite ou não. Tenho medo de rever o que certa vez presenciei em uma fazenda: Um animal estava parindo e nós acompanhávamos o acontecimento a olhos curiosos e sádicos, queríamos ver o sangue, a vagina da égua se abrindo... Éramos adolescentes, nada fazia muito sentido mesmo. Bem, minha experiência não foi das melhores. Não que tivesse visto algo extremamente desagradável, não foi isso. A sensação foi outra, bem diferente. Lembro-me de ter tido a nítida impressão de que o potrinho, no momento do nascimento, estivesse lutando para voltar ao útero... Inevitavelmente recordei de um poema que havia lido, um péssimo poema, lembro que na época eu julgava. O poema comentava algo semelhante. O pior não era isso, lembrei também do olhar de uma tia que cada vez que me via contava a mesma história. Contava como tivera sido o meu nascimento, como foi horrível para a minha mãe... Não considero correto comentar certos assuntos, ao menos não a uma criança. No parto, um parto dificílimo, de fato, os médicos não conseguiam me remover, usaram aparelhos de algum açougue eu acho... Tive dificuldades para respirar, era como se não quisesse respirar, pelo menos hoje é o que penso... Não tenho como descrever minhas sensações... Algo horrendo e de mau gosto: comparei-me ao potro, minha mãe à égua... O animal fora sacrificado; minha mãe sacrifica-se até hoje por conta do catolicismo fervoroso e incoerente, como é de costume entre as mulheres de sua família e geração. Isso é o que sinto agora. Não irei ao haras... Darei uma caminhada; com certeza me fará bem. O sol está brilhante, porém suave; há uma sensação de vida na rua. Espero que ainda esteja lá, quando eu chegar ao lado de fora.

sábado, 24 de agosto de 2013

[nem te conto] RELATOS DE UM SUICIDA III

:: txt :: Jacson Faller ::

Tarde – sexto dia.

   Ontem passei o dia todo sem sair de casa. Li e reli várias vezes o poema; fiquei muito curioso em relação a seu significado. Eu o encontrei, é claro! Foi fácil a sua compreensão, mas – em quem pensava enquanto escrevia? No que eu pensava? Esta está sendo a parte mais difícil; tive pesadelos à noite, monstros vinham a mim, professavam, insultavam-me – e a loucura foi intensa. Acordei em plena madrugada com os lençóis encharcados de suor, pude jurar que até com febre eu estava. Inevitavelmente lembrei-me da criatura triste, triste e incompreendida. Passei a prestar mais atenção ao tempo; digo, em cada minuto da minha vida; em primeiro lugar revi que foi escrito por mim nestes últimos dias e – senti-me quase um poeta, quase triste, quase vivo, quase morto, quase flor... Um vazio incompreensível se apossou de mim.
   Tudo passou a variar. O vazio não era novidade, eu sabia do que se tratava: era aquela coisa cotidiana, as angústias e temores da vida moderna, ser bem sucedido profissional e financeiramente; ser respeitado pelos amigos; bem quisto pela família; amado pelas mulheres; ter status; todos estes pequenos demônios que atormentaram o homem no final do milênio e continuam a atormentar no início de um novo. Mas algo mudou... Ainda não sei o que pensar: Ver estes míseros relatos dos últimos dias fez-me ver quão insignificante é a minha vida, até mesmo a ironia que vi presente em algumas linhas me chocou com tamanho cinismo. A partir deste ponto também noto que escrevo como se estivesse narrando os fatos a alguém. Fiz um poema!  Em que pensava? Creio em alguém que eu pudesse ter conhecido – alguém que eu anseie em conhecer, alguém que eu necessite para viver... Acho que não pensava... Eu Sentia. Pensar e sentir são coisas distintas? Talvez o significado que eu tenha encontrado para o poema nem exista. Já está ficando complicado demais, pararei por aqui. Espero que não perca minha ironia... Pretendo deixar apenas o cinismo de lado.


O que quero é

Alimentar teu girassol
Com poesia e suor
Transpor tuas mãos
(teu corpo para o meu)

Sombrear tua arte
Roubar o teu sol

Velar tua insônia
Em teus dias de mulher


Mascar tuas sementes
Cuspi-las ao renascer

Zombar do sentimento
Que não seja o melhor

Lamber teus temores
Fazê-los são

Ter quase tudo
Que tua vontade tiver

Reduzir teus sonhos
A milagres pequenos

Flutuar em tuas cores
Até me encontrar

Também
Amar-te, apenas

para não querer

O que não É!

terça-feira, 9 de julho de 2013

[nem te conto] RELATOS DE UM SUICIDA II

:: txt :: Jacson Faller ::

Dez horas da manhã – quinto dia após o início dos relatos.

  Acordei e escrevi um poema. Agora o que me resta é tentar entendê-lo. Procurar algum sentimento que seja verdadeiro nestes versos. Talvez mais tarde eu ligue para aquela criatura triste que conheci outro dia. Talvez ela me diga se isso é realmente um poema ou só mais um devaneio... Não sei muito bem o que é considerado poesia, poema, arte... Há regras? Bom, ontem pedi demissão; há muito tempo tinha esta vontade. A única coisa que lucrei em todo tempo que trabalhei com eles foi uma única festinha em que não sai de mãos abanando e atolado em melancolias. Não suportava mais aquelas pessoas, aquele lugar; não suportava mais minha rotina... “Posso mais do que isso” eu dizia. Mas na verdade não sei por que tinha essa vontade e nem por que fiz isso. Aleguei problemas particulares. E nada é tão particular quanto curar ressacas. Perdi todos os “direitos” adquiridos por lei, a empresa não fez questão alguma que eu mudasse de ideia. Confesso que fiquei chateado, mas só por alguns segundos. Agora não quero pensar nisso. O que me interessa é interpretar meu poema. Espero que consiga. Moro sozinho, não tenho filhos, estou desempregado... Nada me inibirá.





O que quero é
Alimentar teu girassol
Com poesia e suor
Transpor tuas mãos
(teu corpo para o meu)

Sombrear tua arte
Roubar o teu sol
Velar tua insônia
Em teus dias de mulher

Mascar tuas sementes
Cuspi-las ao renascer
Zombar do sentimento
Que não seja o melhor

Lamber teus temores
Fazê-los são
Ter quase tudo
Que tua vontade tiver

Reduzir teus sonhos
A milagres pequenos
Flutuar em tuas cores
Até me encontrar

E também
Amar-te, apenas
para não querer
O que não É!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

[nem te conto] RELATOS DE UM SUICIDA

:: txt :: Jacson Faller ::

 Primeiro relato



Não. Não é por acaso que inicio este escrito com uma negativa. Sou negativo. Minha natureza é negativa. E, apesar de tudo, tenho muita sorte. Talvez não. Hoje, logo que acordei, precisei dar uma caminhada, na chuva; digo que precisei, mas, não é necessariamente isso. Era, como sempre, pela ansiedade matutina que me agride. Sempre. Sem falta. E como já foi dito, é ao acordar, ou ao amanhecer, a mais fatal hora do dia. Que é neste momento que a angústia e a ansiedade se alimentam... Pode ser também que ninguém tenha dito. Na verdade o mais importante, no dia de hoje, era dar vazão à loucura. À minha loucura cotidiana. Relatar sem discriminações meus devaneios e razões a qualquer custo. Sinto a necessidade de ao menos tentar entender um pouco de quê, necessariamente, se alimentam estes males que conosco despertam e conosco – vão dormir. Meu insucesso está garantido nesta empreitada; e isto me entristece profundamente. Sei que por mais que ainda viva não terei tempo suficiente para chegar a uma conclusão acerca deste assunto.

Agora deixarei o texto de lado. Hoje à noite irei confraternizar com meus colegas de trabalho, não creio terei alguma satisfação. Estas festinhas onde só se fala sobre o próprio emprego e todos concordam com todos e que aquele que detém a palavra é sempre melhor do que aquele que está a ouvir (claro que depois os papéis se invertem e a tortura continua), nestas festas me desperta um tédio medonho. Mas como, desta vez, fomos autorizados a convidar também amigos e familiares, talvez conheça alguém interessante; já que irei sozinho e não levarei nenhuma vítima, terei oportunidade de encontrar alguma presa. Tenho várias coisas desinteressantes para fazer antes que a noite chegue; vou me aprontar para a festa e – que eu tenha sorte!




 (Três e meia da madrugada)



Bebida de graça. Sexo fácil e sem compromisso. Um porre magnânimo. É! Faço um balanço positivo desta confraternização. Ontem à noite conheci um poeta. Tive muita pena daquela criatura, seu olhar era tão triste, tão vulnerável... (E pensar que um dia desejei poetar!). Relatou-me que em uma manhã de Setembro ele saíra para fazer seus exercícios quando (nunca pensei que intelectuais se exercitassem, que ignorância a minha!) entrou numa rua próxima à sua casa, e que nesta rua havia várias árvores com umas flores quase mortas e quase vivas e quase flores que (isso me deixou confuso) o perfume era, definitivamente, inenarrável... Era impossível para qualquer homem transmitir, em palavras, a beleza, o cheiro e o som daquele momento. Realmente eu tive muita pena dele. Pois eu, quando no dia anterior havia ido, na chuva, andar um pouco, por coincidência entrei nesta mesma rua; senti esse perfume e admirei essa beleza e, acreditem, ouvi aquele som... Porém, não sou escravo de arte alguma, não preciso, nunca, não tenho a necessidade de expressar meus sentimentos. Sou livre. E eu, apenas eu, naquela rua tive o prazer de sentir de maneira única a essência e o sentido da vida. Conhecem Murphy?  Pois é... “Se você estiver se sentindo bem, não se preocupe. Logo passa”. Passou. Acho que durou um minuto. Durou o tempo suficiente para eu me distrair e seguir caminhando enquanto o sinal ainda estava aberto aos carros. Que buzina filha da puta! Quase que causa mais danos que se o automóvel tivesse me atropelado. Mas voltando ao assunto: que tristeza – ser poeta!

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