#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

[do além] A HORA DAS ASNEIRA



::txt::Clarice Lispector::

Outro dia alguém postou uma montagem no Facebook onde apareço em preto e branco, com cara de poucos amigos e olhar desafiador. Logo acima de minha cabeça a seguinte frase: meu saco está explodindo de ver tanta porcaria que vocês postam em meu nome nessa merda.

Quem colocou esse desabafo em minha boca certamente andou lendo, em seu mural citações como "dormir de conchinha é muito bom... Mas acordar olhando nos olhos e sentindo sua respiração...É SENSACIONAL..." atribuídas a mim.

Eu não daria um like neste post. À parte os clichês românticos, não me agrada a ideia de dormir de conchinha. Viro muito de posição durante o sono. E acordar olhando nos olhos e sentindo a respiração do outro só é SENSACIONAL depois de ambos terem escovado os dentes.

Sei que não sou a única a enfrentar o problema com textos apócrifos. Isso é bem comum na internet. Nesta semana mesmo o Verissimo declarou à revista Playboy que de cada cinco textos atribuídos a ele na rede ao menos quatro não são de sua autoria. Minha teoria é que isso não é obra de uma ação coletiva. Há um único autor por detrás dessas imposturas. Esse sujeito, que se passa por Jabor, Steve Jobs, Caio Fernando Abreu e tantos outros, ao contrário do que parece, tem alto senso crítico e estético. Ele sabe que seus lugares-comuns não se disseminariam sem uma grande assinatura.

Há dezenas de páginas nas redes sociais relacionadas ao meu nome. Só uma delas tem quase 200 mil curtidores. Há também os aplicativos que se encarregam de espalhar “minhas frases” nos perfis dos usuários. Os títulos desses programas são curiosos: Sua Dose de Clarice Lispector, Colhendo Clarice, Conselhos de Clarice. Claro que muitas postagens são fiéis ao que escrevi. No entanto, a seleção de um trecho fora de contexto faz com que muitas vezes eu soe como a sacerdotisa do equilíbrio e da bondade. Quer ver?

Em meu livro A Descoberta do Mundo há a passagem de uma crônica que diz: “Por que deve ser o nosso inimigo completamente mau, ou a vítima completamente boa? Ambos são criaturas humanas, como o que é bom e o que é mau. E creio que se apelarmos para o lado bom das pessoas teremos êxito na maioria dos casos”.

Essa não era minha opinião. Apenas a reprodução da fala de uma entrevistada do programa da BBC da Inglaterra, na Hora das Mulheres, sobre suas experiências como prisioneira de guerra. Minha opinião, contrária, vinha a seguir: “Sei o que ela quis dizer, mas está errado. Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo”.

Um historiador do futuro que resolva estudar o mercado de literatura brasileira do início do século XXI, usando como objeto de análise apenas as redes sociais, há de concluir que eu e o Padre Marcelo somos a mesma pessoa.

A maneira correta de identificar a autenticidade de meus textos na rede é por meio das imagens. Se a citação atribuída a mim estiver acompanhada daquele tipo de foto, onde aparecem pessoas contemplando o pôr do sol com os braços esticado ao céu, desconfie.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

[do além] POSTANDO E ANDANDO



::txt::Montaigne::

Provavelmente você já ouviu falar de mim, mas não está familiarizado com minhas ideias. Sou como aquele ator da novela das 7 que você conhece e não sabe o nome. A culpa não é sua e nem mesmo da escola em que estudou. A rede mundial de computadores é a responsável por meu ostracismo. Sou mais uma das vítimas da internet, assim como a indústria fonográfica, os segredos diplomáticos, os veículos impressos e o tempo livre.

Pode procurar. Você não encontrará um aplicativo para Facebook que salpique minhas frases em murais. Minha filosofia não vai bem com redes sociais. Também pudera. Em um ensaio intitulado Da Solidão, dediquei-me a investigar os perigos intelectuais e morais de se viver entre os outros e cheguei a algumas conclusões que aqui simplificarei para não subtrair seu precioso tempo de convívio social virtual.

Basicamente eu concluí que a conquista da Glória só não é uma coisa tola para o Tarcísio Meira e o Orlando Morais. Para chegar a esse resultado, percorri o seguinte caminho. Acompanhe: 1. Nossa tranquilidade depende do desprendimento em relação à opinião dos outros. 2. Se buscarmos fama que é a glória aos olhos alheios devemos buscar sua opinião favorável. 3. Portanto, se buscamos a fama, não alcançaremos o desprendimento. 4. Logo, a fama e a tranquilidade nunca podem ser companheiras.

Além da perda da tranquilidade, preocupar-se em demasia com a opinião dos outros acaba por nos corromper. Passamos a imitar aqueles que não são bons ou nos enchemos de raiva contra eles. Quando você vê, em nome de agradar, está repetindo opiniões impensadas e que nem são suas, como: “esse bando de vagabundo gosta mesmo é de ser sustentado pelo Bolsa Família”. “O cinema argentino é melhor que o brasileiro porque os portenhos leem mais.”

Andy Warhol trouxe mais intranquilidade ao planeta quando prometeu 15 minutos de fama para todo mundo. Agora todos cobram sua parte postando fotos, textos e imagens nas redes sociais em uma busca desesperada por likes, comments, shares e RTs. Mesmo o mais despretensioso dos posts, aquele que só dá bom dia para os amigos, não quer passar desapercebido. Mesmo o mais neutro comentário sobre uma partida de futebol, aquele que diz “que jogo”, almeja ouvir vozes concordantes. Uma fotinho de criança, então, não fica contente com menos do que uma dúzia de comentários exultantes e gritinhos onomatopeicos.

Sustento e repito que a busca e a manutenção de uma reputação flamejante é algo que causa grande perturbação e nos afasta da tranquilidade. E pode se tornar um vício sem fim. O cigarro pede ao fumante uma nova dose de nicotina a cada 20 minutos. O like pede ao postador que ele não saia da frente da tela. É uma escravidão permanente.

Não pretendo incentivar você a largar as redes sociais. Isso nem o doutor Drauzio Varella em campanha conseguiria. Mas sugiro que, vez ou outra, procure praticar o desapego. Com pequenos comentários ocasionais, você pode experimentar o ódio e o desprezo de seus amigos e assim se libertar da asfixiante vontade de agradar. Escreva, por exemplo, que você é a favor da construção da Usina de Belo Monte ou que vê valor na saga Crepúsculo.

Espero que você tenha gostado deste post. Quer dizer, não espero nada, para mim tanto faz. Estou pouco me lixando para sua opinião. Nossa, que vacilo, preciso praticar mais minha filosofia.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

COLONO NA REDE



::txt::Janis Loureiro::

O acesso às novas tecnologias está modificando a realidade do trabalhador rural das pequenas propriedades. O uso de equipamentos mais modernos e avançados no trabalho diário, a expansão do uso de sementes com tecnologia transgênica e o crescimento do número de usuários de internet no meio rural são sinais de que o “colono” não é mais aquele personagem com uma enxada na mão isolado do mundo. Com esse novo perfil, renasce a esperança dos trabalhadores do campo de que as novas gerações voltem a se interessar em permanecer ligadas à terra

Quem conversa com Alexandre Schalko Holzlechner sobre internet, design gráfico, novas tecnologias não imagina, mas ele mora no interior de Ijuí. Aos 18 anos, já terminou o Ensino Médio e está cursando o Técnico em Gerenciamento de Sistemas de Informação, no 25 de Julho. Mesmo vivendo na colônia, como todos os jovens da sua idade, passa horas por dia ligado na rede mundial de computadores. Grande parte do tempo conectado a redes sociais e canais de bate-papo. Graças a sua internet via modem. Um custo relativamente caro, mas que compensa na opinião da sua mãe Senilda. “A gente paga para ele ter o mesmo que os outros jovens”, conta.

Nos áureos tempos da colonização da região, uma extensa jornada, de muita dificuldade definia o trabalho na agricultura. O maquinário era escasso e precário com o uso da tração animal. Era necessário um verdadeiro exército de homens para fazer brotar da terra o alimento. Octaviana da Cunha Holzlechner, 81 anos, presenciou essa fase, assim que foi morar com o seu saudoso marido Reinoldo na Linha 6 Oeste, em uma colônia de 25 hectares. Na época, o colono precisava ser forte, pois a cada dia, um novo desafio se projetava. “Naquele tempo, a gente plantava milho, mandioca, de tudo um pouco, puxando o arado, tínhamos poucas vacas e a gente esfriava o leite colocando os tachos dentro do açude, tudo era trabalhoso”, relembra.

O filho mais novo do casal, Valmir, 51 anos, presenciou avanços. Quando assumiu a propriedade iniciava-se a fase do plantio direto, a família comprou um trator e com o uso da máquina mudou muito a rotina de trabalho. Veio a soja e uma nova forma de organizar a produção. Com a ajuda da esposa Senilda, Valmir manteve o cultivo da horta e do pomar e até hoje fatura um bom dinheiro com a venda de frutas, verduras, cerveja preta, bolacha, cuca e pão na feira, complementando a renda principal proveniente do cultivo na lavoura.

Nos últimos dois anos, a família passou a plantar sementes transgênicas e a mudança foi mais radical. “Com os transgênicos a gente não precisa mais carpir, eu não preciso mais, nem os meus filhos”, comemora. “Fomos os últimos a adotar a novidade. A gente ainda teimava e carpia, agora a gente paga para passar a semeadeira e a nossa vida melhorou 100%”, relata. Seu Valmir estudou até a 5a série e é o pai do Alexandre, que iniciou esta história.

A tendência de expansão do uso das novas tecnologias é confirmada pelo presidente do Sindicato Rural de Ijuí, Valdir Zardin, Hoje, a mecanização evoluiu e exige do produtor conhecimento tecnológico avançado. Ele cita como exemplo o maquinário que possui controles digitais, que permitem definir áreas com precisão e o uso do GPS. "Mexer em comandos automatizados exige conhecimento de informática e aperfeiçoamento para evitar que o potencial da máquina seja desperdiçado", relata. Tal necessidade fez com que o sindicato investisse e inaugurasse um laboratório de informática. Por ano, são realizados cerca de 60 cursos de aperfeiçoamento. Zardin ressalta também como uma modificação importante o uso das sementes transgênicas que vêm se expandindo, principalmente após a aprovação da Lei da Biotecnologia, que regulamentou o seu uso. "As novas sementes reduziram o uso de agrotóxicos e facilitaram o trabalho do produtor de forma impressionante", destaca Zardin.

Alexandre também, como outros colegas, têm dúvidas sobre a escolha profissional, mas já manifesta certa rejeição pelo trabalho na agricultura. Essa realidade preocupa. Afinal, quem será o colono do futuro. “Estou pensando em fazer faculdade, talvez na área gráfica”, afirma Alexandre, que integrou a equipe que recentemente ganhou prêmio na Mostra Ensino Técnico (MEP) com o trabalho Tecnologia Assistiva: desenvolvimento de browser´s adaptados a pessoas com necessidades especiais.

No caso da família Holzlechner, a esperança está em Luis Carlos, irmão de Alexandre, que gosta de ajudar na lavoura e fala em ficar e continuar o trabalho do pai. “Eu fico feliz que o meu filho mais velho queira trabalhar na terra”, avalia Valmir. “Ninguém mais quer exercer essa profissão, mesmo sendo mais fácil agora, os filhos não querem mais trabalhar no campo. Não querem mais ser colono”, lamenta. Ele conta que toda a vizinhança passa pela mesma situação. “É bom a gente ter internet aqui, assim meu filho fica mais tempo perto da família e não precisa ir para ocentro para tudo”, comemora.

"Hoje em dia, o jovem não tem mais desculpa para deixar o campo, argumentando que não tem conforto", garante Zardin. Para ele, com a evolução tecnológica, o jovem pode fazer a opção de vida que quiser e com certeza o campo está mais atraente do que no passado. "O colono tem acesso a máquinas gabinadas, com ar condicionado e facilidades que muita gente que trabalha na cidade não tem", argumenta. "Aquele trabalhador do campo, que trabalha de sol a sol está ficando mais raro", acrescenta, lembrando que esses avanços que antes estavam disponíveis apenas para os médios e grandes produtores, estão se popularizando e atingindo os pequenos. São novos tempos e a tendência se repete também na suinocultura, atividade leiteira, aviários, atividades em que a tecnologia está cada vez mais presente.

Família Holzlechner tem laptos e conexão à internet via modem e é um exemplo do novo perfil do campo
Mesmo com acesso à rede de computadores, o campo continua com os atrativos de sempre, uma pescaria no açude estão entre as atividades preferidas dos irmãos Alexandre e Luis Carlos Holzlechner

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