O incrível animal que ensinava matemática
txt: Jucazito
ilstrç: Henrique Bittencort
“Eu adoro a democracia, sou um professor democrático: eu mando, vocês obedecem”. Assim João Gato miou na primeira aula do sétimo livro, lá no Ginásio. O professor era quase tudo que um professor não poderia ser. Bom de copo, Gato trazia pra aula o bafo da noite. Um fedor de ceva. Muita ceva. Muito fedor. Diz a lenda que numa mañana de carnaval ele sentou no bar do Batata Palha e só vazou após beber 48 cervejas, no dia seguinte.Além do cheiro de bira, somava-se e multiplicava-se o fedor de crivo. Filtro vermelho. “Dois maços de oliú por dia”. João fumava feito cão, melhor, feito gato. Inclusive na sala da aula. Ninguém reclamava. Nem as freiras. As gatinhas sofriam mais. João era todo carinhoso com elas. Parava do lado de uma, alisava o cabelo com as mesmas mãos que aparava seus espirros, encostava a cabeça dela naquele imenso barril de chopp que ele chamava de barriga e ficava ali, no gozar democrático.
Se as gatinhas sofriam com o assédio e fedor, as ratinhas feiosas e os urubus malandros sofriam com o mau humor do Gato. A vítima mais constante era o Vareta, vulgo Alex. Aquele tipo de aluno que não sabia nada, a não ser falcatruar a prova pra não repetir de ano. Mas quando o professor o chamava para o quadro negro, ficava difícil enganá-lo. Certo dia, Vareta foi ao quadro resolver uma equação. Notando que a conta não ia adiante, João Gato foi mostrando a ele o caminho da roça. “Soma aqui, multiplica ali, isso, vinte e cinco”. Vareta finalizou feliz da vida. João dava risada: “Tudo errado”. “Mas o senhor disse que era assim”. O professor deu sua lição de moral: “Quando eu era pequeno e tinha um gatinho, ensinei ele a não comer. Dois dias depois ele morreu”.
Apesar da cerveja, do cigarro, da brabeza, dos espirros, da pança de fora e da moléstia nas gatas, João era um excelente professor. A aula era dividida em dois períodos: antes e depois do recreio. No primeiro ele ensinava e passava as tarefas, no segundo ele roncava enquanto a gente ria bem baixinho no calcular das contas. Mas aquela pérola de professor democrático, “eu mando, vocês obedecem”, é impossível esquecer. Assim são nossos governantes.