#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

[agência pirata] INVENTANDO DEUS



::txt::Henrique Goldman::

Numa madrugada em 1977, esperando por um ônibus na avenida Paulista, conheci um hippie holandês que perambulava pela América Latina e ficamos muito amigos. Apresentei ele para a galera e o levei pras baladas. Era um cara inteligente e engraçado, que contava aventuras incríveis. Tinha fumado ópio no Nepal e tomado peiote num deserto mexicano. A simples menção desses lugares e dessas drogas já nos dava barato.

O holandês ficou umas semanas em São Paulo e logo foi para a Bolívia. Passados alguns meses, ele nos mandou de Amsterdã pelo correio um disco de vinil do King
Crimson, de capa dupla. Na dobra da capa dupla tinha um canudo fechado dos dois lados. O canudo continha uma carga muito valiosa: três pedrinhas de LSD! Naquela época, no Brasil – e ainda mais para um bando de moleques – tomar LSD era um sonho inatingível, inspirado pelos livros do Aldous Huxley e do Timothy Leary. Que grande tesão!

Eu, o Pimenta e o Serginho nos mandamos para a Barra do Sahy. Naquela época, muitas praias do litoral norte de São Paulo só eram acessíveis através de trilhas na mata, ainda eram desertas e paradisíacas, o lugar ideal para a nossa primeira trip. Chegamos com nossa barraca, nossos violões e as pedras preciosas de LSD.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e de café da manhã tomamos os ácidos e de cara fumamos um beque (que na época chamávamos de “bêisi”). A primeira e inesquecível sensação foi um cair de ficha fenomenal, a tomada de consciência de que nada existe de verdade, de que o mundo é uma ilusão animal, uma piada divina, protagonizada por homens, bichos e coisas. Passamos muitas horas fechados na minúscula barraca, rindo convulsivamente de tudo e de nada.

Entre os nossos mantimentos, trouxemos uma caixa de doce de caju cristalizado. A marca era Palmeirón. Nunca tínhamos ouvido esse nome antes e o próprio som da palavra Palmeirón era uma viagem absurda. Ficamos um tempo repetindo a palavra Palmeirón como se fosse um mantra. Logo percebemos que a caixa de doce de caju cristalizado tinha um cheiro peculiar e entramos numas de que cheirar a caixa de doce de caju nos fazia viajar ainda mais alto.

Foi aí então que tivemos a epifania. Sentimos a presença de Deus, claramente entre nós. Era um Deus anárquico e ridículo mas imensamente sagrado. Ficamos horas fechados naquela barraca, cheirando a caixa de doce de caju, fumando um beque atrás do outro, nos deleitando na imanência daquele Deus psicodélico.

Quando finalmente resolvemos sair da barraca, o sol mais lindo do mundo nos esperava, se pondo, redondo e dourado, atrás do mar. Nos ajoelhamos na areia e nos prostramos, comovidos com a beleza e sacralidade da ilusão que chamamos de mundo e de Deus. Com lágrimas nos olhos, batizamos nosso deus de Deus Caju-Menino.

Contra a caretice

Para a minha geração tomar drogas era – muito além do barato em si – um gesto anticonformista, um ato de adesão à contracultura e à revolução sexual, um grito rebelde contra a caretice da burguesia e a burrice da ditadura militar.
Não fui só eu – que hoje em vez de tomar drogas prefiro malhar na academia – que mudei. O mundo também mudou e foi ficando cada vez mais cínico e careta. Sei que o meu papo é bem de tiozão mas sinto muitas saudades de quando sonhava-se mais com coisas que não têm nada a ver com poder e dinheiro.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ALAN SKILLY COLE parte II




# águas passadas #
Emboscada na noite

txt: Tiago Jucá Oliveira

Páreo de cavalo às vezes dá zebra. Metaforicamente foi isso o que aconteceu na Jamaica em 1976. Alan Skilly Cole, astro do futebol jamaicano que um ano antes havia ajudado a derrotar o poderoso time do New York Cosmos do Rei Pelé, em Kingston, novamente é personagem de mais um episódio na vida de Bob Marley.

Quando Alan Cole propôs a Bob musicar um discurso do imperador etíope Hailé Selassié, o qual batizaram de "War", nenhum dos dois imaginava que essa guerra se travaria contra eles logo em seguida. Numa noturna sexta-feira de dezembro, a Island House, casa onde o Rei do Reggae vivia com seus irmãos dread, entre eles Skilly, se transformou em verdadeira trincheira de batalha, embora somente os inimigos invasores estivessem armados.

Mais ou menos seis pistoleiros cercaram a mansão e fizeram a cobra fumar. Marley era a mosca. Contra ele foram disparados oito tiros. Uma bala atingiu o peito de Bobe outras cinco furaram Dan Taylor, empresário pessoal do Rei - a música "Bad Card" é um desabafo de Bob após a descoberta que Taylor lhe usurpara 20 mil dólares. Rita Marley foi atingida de raspão na cabeça, mas felizmente o sábado amanheceu sem nenhuma parte.

Mas, enfim, o que motivou o atentado à vida de Bob Marley? Uma tensa e violenta disputa eleitoral polarizou a ilha caribenha em 1976. O Partido Nacional Popular (PNP) e o Partido Trabalhista Jamaicano (JLP) eram os dois grandes partidos políticos jamaicanos que, para vencer a eleição, eram capazes de cometer qualquer coisa. Porém, a emboscada na noite fora causada por outro motivo.

Uma corrida de cavalos estava para acontecer. Alan Cole e uns pistoleiros se reuniram na Island House e planejaram sequestrar um jóquei, convencendo-os a perder os dois primeiros páreos. O turfista obedeceu, e os pistoleiros foram premiados com uma bela quantia de dinheiro. O problema de deu porque alguns destes pistoleiros fugiram pra Miami com toda a grana. Não satisfeitos com a traição, os pistoleiros enganados na trama foram procurar Bob para cobrar a dívida. Duas vezes por dia, eles iam até a Island House pegar as parcelas do dividendo.

A amizade entre Cole e Marley não sofreu fortes abalos após a confusão que quase vitimou o Rei, mas este encerrou a parceria musical com Skilly, que também perdeu sua função administrativa na vida e carreira de Bob.

Ambush in the Night

"Os Wailers deram um show beneficiente na Arena dos Heróis Nacionais para crianças rastas no dia 24 de setembro de 1979. Bob mostrou duas músicas de seu próximo LP, Survival, durante a apresentação. A primeira, disse ele, chamava-se Ambush in the Night, e o público foi ficando pasmo à medida que ele cantava a respeito daqueles, agora falecidos, que tentaram dar um fim prematuro à sua vida e seu trabalho".

Trecho de Queimando Tudo, de Timothy White.

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