#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 29 de julho de 2013

[bolo'bolo] SUBSTRUÇÃO

   Caso quiséssemos tentar bolo’bolo, a próxima questão seria: como fazer isso acontecer? Não será apenas mais uma proposta Realpolitika? Na verdade, bolo’bolo não pode ser realizado com a política; há outro canal, uma série de outros canais para chegar lá.

    Se a gente negocia com a Máquina, o primeiro problema é obviamente negativo: de que forma paralisar e eliminar o controle da Máquina (isto é, a própria Máquina) de modo que bolo’bolo possa se desenvolver sem ser destruído logo de saída? Vamos chamar esse aspecto da nossa estratégia de desconstrução, ou subversão. A Máquina Planetária do Trabalho tem que ser desmantelada – cuidadosamente, porque não queremos parecer com ela. Não vamos nos esquecer de que somos partes da Máquina, de que ela é a gente. Queremos destruir a Máquina, não a nós mesmos. Só queremos destruir nossas funções na Máquina. Subversão quer dizer mudar as relações entre nós (os três tipos de trabalhadores) e as que temos com a Máquina (que vê todos os trabalhadores como um sistema integrado). É subversão mas não ataque (agressão), já que ainda estamos todos dentro da Máquina e temos que bloqueá-la de lá. A Máquina nunca vai se confrontar conosco como com um inimigo externo. Nunca vai haver frente de batalha, quartéis, fileiras, uniformes.

    Subversão somente, entretanto, sempre dará em fracasso, embora com sua ajuda pudéssemos paralisar algum setor da Máquina, destruir alguma de suas capacidades; afinal, a Máquina será sempre capaz de reconquistar e dominar de novo. Por isso, todo espaço obtido inicialmente pela subversão tem que ser preenchido por nós com algo novo construtivo. Não podemos ter esperanças de primeiro eliminar a Máquina e depois – numa zona vazia – instalar bolo’bolo; estaríamos sempre chegando tarde demais. Elementos provisórios de bolo’bolo, sementes de sua estrutura, devem ocupar todas as brechinhas livres, áreas abandonadas, bases conquistadas, e prefigurar os novos relacionamentos. Construção deve combinar com subversão num só processo: substrução (ou "consversão", se você preferir). A construção nunca seria um pretexto para renunciar à subversão. Subversão sozinha dá somente em fogo de palha, dados históricos e heróis, mas não deixa resultados concretos. Construção e subversão, isoladamente, são meras formas de acordo tácito ou colaboração escancarada com a Máquina.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

[copyleft] COPYRIGHT E MAREMOTO


 :: txt :: Coletivo Wu Ming ::

 Atualmente existe um amplo movimento de protesto e transformação social em grande parte do planeta. Ele possui um potencial enorme, mas ainda não está completamente consciente disso. Embora sua origem seja
antiga, só se manifestou recentemente, aparecendo em várias ocasiões sob os refletores da mídia, porém trabalhando dia a dia longe deles. É formado por multidões e singularidades, por retículas capilares no território. Cavalga as mais recentes inovações tecnológicas. As definições cunhadas por seus adversários ficam-lhe pequenas. Logo será impossível pará-lo e a repressão nada poderá contra ele.

 É aquilo que o poder econômico chama “pirataria”. É o movimento real que suprime o estado de coisas existente. Desde que – a não mais de três séculos – se impôs a crença na propriedade intelectual, os movimentos underground e “alternativos” e as vanguardas mais radicais a tem criticado em nome do “plágio”
criativo, da estética do cut-up e do “sampling”, da filosofia “do-it-yourself”. Do mais moderno ao mais antigo se vai do hip-hop ao punk ao proto-surrealista Lautréamont (“O plágio é necessário. O progresso o
implica. Toma a frase de um autor, se serve de suas expressões, elimina uma idéia falsa, a substitui pela idéia justa“). Atualmente essa vanguarda é de massas.

 Durante dezenas de milênios a civilização humana prescindiu do copyright, do mesmo modo que prescindiu de outros falsos axiomas parecidos, como a ”centralidade do mercado” ou o “crescimento ilimitado”. Se
houvesse existido a propriedade intelectual, a humanidade não haveria conhecido a epopéia de Gilgamesh, o Mahabharata e o Ramayana, a Ilíada e a Odisséia, o Popol Vuh, a Bíblia e o Corão, as lendas do Graal e do ciclo arturiano, o Orlando Apaixonado e o Orlando Furioso, Gargantua e Pantagruel, todos eles felizes
produtos de um amplo processo de mistura e combinação, reescritura e transformação, isto é, de “plágio”, unido a uma livre difusão e a exibições diretas (sem a interferência dos inspetores da Società Italiana degli Autori ed Editori).

 Até pouco tempo, as paliçadas dos “enclosures” culturais impunham uma visão limitada, e logo chegou a Internet. Agora a dinamite dos bits por segundo leva aos ares esses recintos, e podemos empreender
aventuradas excursões em selvas de signos e clareiras iluminadas pela lua. A cada noite e a cada dia milhões de pessoas, sozinhas ou coletivamente, cercam/violam/rechaçam o copyright. Fazem-no apropriando-se das tecnologias digitais de compressão (MP3, Mpge etc.), distribuição (redes telemáticas) e reprodução de
dados (masterizadores, scanners). Tecnologias que suprimem a distinção entre “original” e “cópia”.

 Usam redes telemáticas peer-to-peer (descentralizadas, “de igual para igual”) para compartilhar os dados de seus próprios discos rígidos. Desviam-se com astúcia de qualquer obstáculo técnico ou legislativo. Surpreendem no contrapé as multinacionais do entretenimento erodindo seus (até agora) excessivos ganhos.
Como é natural, causam grandes dificuldades àqueles que administram os chamados “direitos autorais”.

 Não estamos falando da “pirataria” gerida pelo crime organizado, divisão extralegal do capitalismo não menos deslocada e ofegante do que a legal pela extensão da “pirataria” autogestionada e de massas. Falo
da democratização geral do acesso às artes e aos produtos do engenho, processo que salta as barreiras geográficas e sociais. Digamos claramente: barreira de classe (devo fornecer algum dado sobre o preço dos CDs?).

 Esse processo está mudando o aspecto da indústria cultural mundial, mas não se limita a isso. Os “piratas” debilitam o inimigo e ampliam as margens de manobra das correntes mais políticas do movimento: nos referimos aos que produzem e difundem o “software livre” (programas de “fonte aberta” livremente modificáveis pelos usuários), aos que querem estender a cada vez mais setores da cultura as licenças “copyleft” (que permitem a reprodução e distribuição das obras sob condição de que sejam abertas”), aos que querem tornar de “domínio público” fármacos indispensáveis à saúde, a quem rechaça a apropriação, o registro e a frankeinsteinização de espécies vegetais e seqüências genéticas etc. etc.

  O conflito entre anti-copyright e copyright expressa na sua forma mais imediata a contradição fundamental do sistema capitalista: a que se dá entre forças produtivas e relações de produção/propriedade. Ao chegar a um certo nível, o desenvolvimento das primeiras põem inevitavelmente em crise as segundas. As mesmas
corporações que vendem samplers, fotocopiadoras, scanners e masterizadores controlam a indústria global do entretenimento, e se descobrem prejudicadas pelo uso de tais instrumentos. A serpente morde sua cauda e logo instiga os deputados para que legislem contra a autofagia.

 A conseqüente reação em cadeia de paradoxos e episódios grotescos nos permite compreender que terminou para sempre uma fase da cultura, e que leis mais duras não serão suficientes para deter uma dinâmica social já iniciada e envolvente. O que está se modificando é a relação entre produção e consumo da cultura, o que alude a questões ainda mais amplas: o regime de propriedade de produtos do intelecto geral, o estatuto jurídico e a representação política do “trabalho cognitivo” etc.

 De qualquer modo, o movimento real se orienta a superar toda a legislação sobre a propriedade intelectual e a reescrevê-la desde o início. Já foram colocadas as pedras angulares sobre as quais reedificar um verdadeiro ”direito dos autores”, que realmente leve em conta como funciona a criação, quer dizer, por osmose, mistura, contágio, “plágio”. Muitas vezes, legisladores e forças da ordem tropeçam nessas pedras e
machucam os joelhos.


 A open source e o copyleft se estendem atualmente muito além da programação de software: as “licenças abertas” estão em toda parte, e tendencialmente podem se converter no paradigma do novo modo de produção que liberte finalmente a cooperação social (já existente e visivelmente posta em prática) do controle parasitário, da expropriação e da ”renda” em benefício de grandes potentados industriais e
corporativos.

 A força do copyleft deriva do fato de ser uma inovação jurídica vinda debaixo que supera a mera “pirataria”, enfatizando a pars construens* do movimento real. Na prática, as leis vigentes sobre o copyright (padronizadas pela Convenção de Berna de 1971, praticamente o Pleistoceno) estão sendo pervertidas em relação a sua função original e, em vez de obstacularizá-la, se convertem em garantia da livre
circulação.

 O coletivo Wu Ming – do qual faço parte – contribui a esse movimento inserindo em seus livros a seguinte locução (sem dúvida aperfeiçoável): “Permitida a reprodução parcial ou total da obra e sua difusão por via
telemática para uso pessoal dos leitores, sob condição de que não seja com fins comerciais“. O que significa que a difusão deve permanecer gratuita… sob pena de se pagar os direitos correspondentes.

 Eliminar uma falsa idéia, substituí-la por uma justa. Essa vanguarda é um saudável “retorno ao antigo”: estamos abandonando a “cultura de massas” da era industrial (centralizada, normatizada, unívoca, obsessiva pela atribuição do autor, regulada por mil sofismas) para adentrarmos em uma dimensão produtiva que, em
um nível de desenvolvimento mais alto, apresenta mais do que algumas afinidades com a cultura popular (excêntrica, disforme, horizontal, baseada no “plágio”, regulada pelo menor número de leis possível).

 As leis vigentes sobre o copyright (entre as quais a preparadísima lei italiana de dezembro de 2000) não levam em conta o “copyleft”: na hora de legislar, o Parlamento ignorava por completo sua existência, como puderam confirmar os produtores de software livre (comparados aos ”piratas”) em diversos encontros com
deputados. Como é óbvio, dada a atual composição das Câmaras italianas, não se pode esperar nada mais que uma diabólica continuidade do erro, a estupidez e a repressão. Suas senhorias não se dão conta de que, abaixo da superfície desse mar em que eles só vêem piratas e barcos de guerra, o fundo está se abrindo.
Também na esquerda, os que não querem aguçar a vista e os ouvidos, e propõem soluções fora de época, de “reformismo” tímido (diminuir o IVA* do preço dos CDs etc.), podem se dar conta demasiado tarde do
maremoto e serem envolvidos pela onda.



*: Pars construens é uma expressão que desgina um “argumento construtivo” em algum debate, em contraponto ao “pars destruens“. A distinção foi feita por Francis Bacon, ainda em 1620.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

[pontodevista] A VIOLÊNCIA NAS MANIFESTAÇÕES

:: txt ::Wladymir Ungaretti ::

Indagado sobre a ação organizada ou não dos vândalos, nas recentes
manifestações de rua, alinhei algumas ideias. A primeira delas, talvez
óbvia, é que manifestações na Turquia, Síria, Paris, Los Angeles; e, em
quaisquer partes do mundo, contará sempre com agentes
provocadores, policiais infiltrados se passando por manifestantes e, na
atualidade, uma rede de coletivos das mais variadas tendências.
Em alguns casos com tênues afinidades. Tudo muito parecido,
fragmentado. Estarão em ação até mesmos criminosos. Como ocorre
nas grandes cidades do mundo, nas periferias de Londres e Paris. Uma
das dificuldades dos serviços de inteligência dos aparelhos repressivos,
em nosso país, no sentido de identificar e agir preventivamente, é que o
“vandalismo”, em grande parte é promovido por pequenos coletivos
anarquistas. Coletivos que por serem pequenos e não hierarquizados
dificultam a coleta de informações, a partir da infiltração de agentes ou
do cooptação de alguém pertencente ao meio. Estavam acostumados a
monitorarem estruturas partidárias, sindicais, movimentos sociais, ONGs,
grupos com estruturas tradicionais. É evidente, pelo menos na minha
visão, que os pequenos coletivos anarquistas estão na linha de frente.
Assim como é evidente, até por tradição, que existe a ação de
provocadores e agentes infiltrados. O que a “esquerda” não pode,
embora historicamente tenha sido sua prática, é fazer dos anarquistas
(em algumas circunstâncias dos trotskistas) supostos agentes
provocadores e policiais, como forma de evitar a rebelião e manter o
controle para efeito de participação no jogo político do sistema. Dizem
os zapatistas que o poder teme o poder das máscaras. Mascarados
anarquistas, em futuras manifestações, vão ser cassados/caçados. A
violência vai aumentar.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • AtribuiçãoVocê deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licençaSe você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

  • Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
  • Domínio Público — Onde a obra ou qualquer de seus elementos estiver em domínio público sob o direito aplicável, esta condição não é, de maneira alguma, afetada pela licença.
  • Outros Direitos — Os seguintes direitos não são, de maneira alguma, afetados pela licença:
    • Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
    • Os direitos morais do autor;
    • Direitos que outras pessoas podem ter sobre a obra ou sobre a utilização da obra, tais como direitos de imagem ou privacidade.
  • Aviso — Para qualquer reutilização ou distribuição, você deve deixar claro a terceiros os termos da licença a que se encontra submetida esta obra. A melhor maneira de fazer isso é com um link para esta página.

.

@

@